Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Contribuição: Bernardo Follador Lo Bianco de Oliveira

Este artigo trata de um estudo realizado por Maria Cristina Ferreira sobre a aplicação do Inventário de Sexismo Ambivalente, desenvolvido por Glick e Fiske (1996), em uma amostra brasileira. Este instrumento tem demonstrado boas características psicométricas, no que se refere à identificação e comparação de atitudes sexistas – inclusive as maneiras mais modernas e encobertas – não só nos Estados Unidos, como no Chile, na Alemanha e no México. O objetivo do trabalho foi replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo (hostil e benevolente) no Brasil, verificando as relações desses fatores com as diferenças de gênero.

Maria Cristina Ferreira é graduada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1972), e possui mestrado e doutorado em Psicologia pela Fundação Getúlio Vargas – RJ (1977 e 1985). Atualmente é professora titular na Universidade Salgado de Oliveira e atua principalmente com os seguintes temas: comportamento organizacional, psicologia transcultural, papéis de gênero e medidas psicológicas. Ela apresentou este artigo em 2004 na XXXI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, no Simpósio Relações sociais de gênero: Possibilidades e perspectivas de análises psicossoal.

O artigo foi dividido em três partes: uma introdução com a revisão de literatura, uma segunda parte, de título método, que explica os procedimentos de aplicação do instrumento e, por fim, a discussão dos resultados obtidos.

A autora inicia sua revisão de literatura remetendo à obra de Gordon Allport “A natureza do preconceito” (1954) a origem dos estudos científicos do preconceito sob a perspectiva psicossocial. Porém hoje a definição que se tornou consenso é a de Smith e Mackie (1995), que o define como uma atitude negativa dirigida a membros de determinados grupos sociais em função de uma pertença ao grupo. Enquanto um tipo de atitude o preconceito apresenta um componente cognitivo – crenças e representações negativas que caracterizam membros de determinados grupos sociais –, um afetivo – sentimentos e avaliações negativas –, e um comportamental – associado à discriminação e a atos hostis –. Em meio aos diferentes tipos de preconceito encontramos o sexismo, que compreende avaliações negativas e atos discriminatórios direcionados a mulheres devido a sua condição de gênero.

As teorias feministas explicam o sexismo como um resquício da cultura patriarcal. Elas apontam que a dicotomia público versus privado característica das sociedades patriarcais dotou o homem de um poder estrutural – controle das instituições econômicas, políticas e legais – e delegou às mulheres o cuidado da casa e dos filhos, concedendo, assim, ao primeiro a característica de grupo dominante. Esses valores, reforçados constantemente durante o processo de socialização, dariam origem às representações das mulheres como dóceis, submissas e responsáveis.

A literatura mais recente, porém, tem mostrado que as atitudes tradicionais a respeito da mulher têm sido substituídas por novas formas de sexismo. Os estudos de Swin, Aikin, Hall e Hunter (1995) apontam que atualmente a antipatia dirigida ao sexo feminino tem se expressado de forma mais simbólica ou indireta na atualidade. Esse sexismo moderno é caracterizado pela negação de que a discriminação contra a mulher ainda exista e por um antagonismo contra as lutas e políticas de apoio à população feminina.

Glick e Flicke (1996), ao estudarem estas novas formas de sexismo, propuseram que este tipo de preconceito se expressa através de duas facetas distintas: sexismo hostil e sexismo benevolente. O primeiro manifesta-se através de grande antipatia com as mulheres e o segundo por meios de sentimentos e condutas positivas em relação a estas – caracterizados pela visão idealizada da mulher como objeto romântico e pelas atitudes de reverência e proteção. Entretanto, estes mesmos autores, registram que apesar de se manifestar através de atitudes de proteção, idealização e afeto, o sexismo benevolente é permeado pela mesma ideologia do sexismo hostil – crenças sobre a inferioridade feminina – e também pode ser usado para justificar as desigualdades de gênero. Fundamentados nessas concepções teóricas, Glick e Flicke desenvolveram o Inventário de Sexismo Ambivalente, composto de 22 afirmativas com opções de resposta Likert de 6 pontos.

Na segunda parte do artigo a autora explica os procedimentos utilizados para aplicação deste inventário. A amostra foi composta de 540 universitários do Rio de Janeiro, de ambos os sexos e de idade média 21,83 anos. As 22 afirmativas da versão original do Inventário de Sexismo Ambivalente foram todas mantidas, traduzidas e corrigidas por 4 pessoas bilíngües. Porém houve uma dificuldade de tradução nos itens fraseados negativamente e decidiu-se trabalhar com todos os itens fraseados no sentido positivo. A aplicação do questionário se deu nas próprias salas de aula e os participantes foram solicitados a contribuir para uma pesquisa sobre a percepção das pessoas a respeito de diferentes grupos sociais. Os que deram suas opiniões a respeito de cada uma das frases do questionário de acordo com a escala Likert de 6 pontos, variando de “discordo fortemente” a “concordo fortemente”.

Os resultados obtidos foram bem semelhantes àqueles coletados em outros países. A estrutura fatorial obtida reproduziu fielmente a estrutura original, com os itens apresentando cargas fatoriais elevadas em um fator associado ao sexismo hostil ou em outro fator associado ao sexismo benevolente. Tais fatores foram responsáveis por 29% da variância do instrumento e sua consistência interna (Alfa de Cronbach) revelou resultados de 0,84 e 0,75 respectivamente. Os homens apresentaram escores significativamente mais altos para a escala de sexismo hostil, mas na escala de sexismo benevolente não houve distinção entre os sexos.

Ferreira conclui o seu artigo discutindo os resultados do estudo. Ficou evidente que a estrutura bi-dimensional obtida com a análise fatorial reproduziu integralmente as duas formas de sexismo (hostil e benevolente) dos estudos Glick e Flicke, confirmando que se trata de construtos independentes. Também ficou comprovado que o instrumento pode mensurar estes construtos em uma amostra brasileira de forma válida e fidedigna. A convergência dos resultados com amostras diversificadas obtidas anteriormente apontam a favor da posição de que o sexismo benevolente e hostil se caracterizam por ideologias válidas transculturalmente.

A autora considera as mulheres rejeitarem apenas o sexismo hostil, mas aceitarem o sexismo benevolente, como um sinal de que elas também impõem resistências às políticas que buscam reduzir as desigualdades entre os sexos. O sexismo benevolente ser aceito na mesma proporção por ambos os gêneros indica que ele pode estar sendo utilizado para levar a mulher a aceitar o maior poder estrutural dos homens e ainda ser recompensada por isso, já que este poder seria usado para lhe proteger. O fato de ele ser associado à proteção, admiração e afeto masculino, mascara toda a sua ideologia patriarcal que busca reforçar as desigualdades. Em outras palavras, ao endossarem o sexismo benevolente, as mulheres reforçam toda a ideologia hierárquica da relação entre os sexos afirmando que os homens não as dominam, mas as protegem. Ferreira conclui o texto afirmando que o sexo feminino ainda não tomou consciência do modo sutil através do qual o sexismo benevolente perpetua os valores patriarcais que limitam suas oportunidades.

O trabalho de Maria Cristina Ferreira alcançou a maioria dos seus objetivos, replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo e analisar as relações entre esses fatores e as diferenças de gêneros. Porém, podemos questionar se uma amostra de 540 alunos de nível superior é a melhor amostragem para testar a fidedignidade e a validade de um instrumento na realidade brasileira. O ponto forte do artigo é sua revisão de literatura que, de forma breve e abrangente, cobre as bases que fundamentam a ambivalência do sexismo; tornando-o uma leitura agradável para iniciar-se no assunto.

Referencia: Ferreira, M.C. (2004). Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de genero. Temas em Psicologia da SBP. Vol.2. No 22. Pg. 119-126.

Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Daiana Nogueira

Conceitualizando o preconceito como uma antipatia ou hostilidade dirigida a grupos ou a membros específicos de um grupo, devido a generalizações incorretas, Gordon Allport (1954), em sua obra “A natureza do preconceito”, impulsionou os primeiros estudos científicos sobre o preconceito dentro de uma perspectiva psicossocial. Ainda muito utilizado atualmente, esta definição sugere que o fenômeno do preconceito é constituído por bases de natureza cognitiva, afetiva e comportamental. O componente cognitivo é expresso através dos estereótipos presentes nas atitudes preconceituosas. Já o componente afetivo, por sua vez, pode ser verificado nos sentimentos e avaliações negativas dirigidas a certos grupos ou membros destes. Por fim, tem-se o componente comportamental do preconceito, relacionado diretamente com a discriminação e atos hostis direcionados a determinados grupos sociais.

Dentre as diversas, e inúmeras, possibilidades de expressão do preconceito, o Sexismo, ou avaliações negativas e atos discriminatórios dirigidos às mulheres, é amplamente verificado atualmente em diferentes contextos sociais. A literatura propõe a existência de dois tipos de manifestação do referido preconceito: o Sexismo institucional e o Sexismo interpessoal. Enquanto o primeiro está associado às práticas de discriminação e exclusão promovidas por entidades, organizações e comunidades, o segundo tipo de Sexismo refere-se à atitudes e condutas negativas que os homens direcionam às mulheres durantes as relações interpessoais cotidianas. As teorias feministas, por sua vez, defendem que o Sexismo, qualquer que seja a sua classificação, é um claro resquício de uma cultura patriarcal, apoiada em atitudes de desvalorização do sexo feminino como forma de legitimar e perpetuar o poder, dominação e controle do sexo masculino.

A literatura mais recente, no entanto, tem demonstrado, segundo Ferreira (2004), que as chamadas atitudes tradicionais a respeito das mulheres vêm sendo substituídas por novas formas de Sexismo, nas quais a antipatia ou hostilidade em relação à elas tem se expressado de forma simbólica ou indireta. Sob esta perspectiva, o Sexismo antigo (old-fashioned) é compreendido pelo endosso aos papéis de gênero tradicionais e aos estereótipos sobre a menor competência feminina, enquanto o chamado Sexismo moderno baseia-se na negação da existência de discriminação contra as mulheres e em avaliações negativas mais implícitas e encobertas em relação a estas.

Glick e Fiske (1996), a partir da análise das contemporâneas manifestações do Sexismo, defendem uma diferenciação entre Sexismo Hostil e Sexismo Benevolente, sendo o hostil caracterizado por intensa antipatia contra mulher, e o benevolente caracterizado por sentimentos e condutas positivas em relação ao sexo feminino. Além da definição, as origens e impactos destes tipos de Sexismo moderno também são distintos. O Sexismo hostil é oriundo de uma sociedade patriarcal, com inúmeros e intensos estereótipos acerca dos papéis destinados a cada gênero. Já o Sexismo benevolente, é estruturado através do poder biológico de procriação que detém a mulher, além da sua função social de cuidar dos filhos e satisfazer sexualmente o parceiro, assim o sexo feminino é concebido ideologicamente como um objeto romântico e reverenciado afetivamente por seu papel de mãe e esposa.

Ferreira (2004) propôs, através do inventário de Sexismo Ambivalente construído e validado por Glick e Fiske (1996), verificar a estrutura fatorial do referido inventário em amostras populacionais brasileiras. Para tanto, se valeu de 540 estudantes universitários, de 17 a 28 anos, pertencentes aos cursos das áreas de humanas e tecnológicas de universidades públicas e privadas da cidade do Rio de Janeiro. A referida amostra foi composta por 270 homens e 270 mulheres. O instrumento traduzido foi composto por 22 itens, que deveriam ser respondidos com base numa escala Likert de 6 pontos.

A aplicação do inventário de Sexismo Ambivalente em amostras populacionais brasileiras reproduziu integralmente as duas formas de Seximo – hostil e benevolente- reveladas pelo estudo original, atestando que estas duas formas de Sexismo constituem construtos independentes. Apesar de independentes, os construtos Sexismo hostil e o Sexismo Benevolente, se mostraram nos resultados obtidos como positivamente correlacionados, o que sugere que estas duas formas de Sexismo constituem facetas ideológicas de um mesmo sistema que diferencia os papéis e posições masculinas e femininas.

No que diz respeito ao Sexismo hostil e aos estereótipos negativos, os homens se mostraram mais sexistas do que as mulheres. As mulheres, por sua vez, rejeitaram o Sexismo Hostil, mas aceitam o Sexismo Benevolente e os estereótipos positivos na mesma proporção que os homens. Tal resultado pode ser interpretado pelo conteúdo presente em cada tipo de Sexismo, já que no primeiro tipo de Sexismo a mulher é ofendida, discriminada e punida, enquanto no segundo tipo, ela é protegida e reverenciada pelo sexo masculino. Ao endossarem em grau semelhante ao dos homens o Sexismo Benevolente, as mulheres estariam adotando também uma ideologia patriarcal, hierárquica e desigual, estimulando as práticas do Sexismo Hostil e contribuindo para a legitimação deste.

Frente a estes resultados, Ferreira (2004) defende que as desigualdades de gênero continuam sendo legitimadas por homens e mulheres pertencentes a diferentes grupos nacionais, sendo o Sexismo Benevolente uma forma implícita de perpetuar as mais variadas atitudes discriminatórias contra as mulheres. Este tipo de Sexismo aceito pelas mulheres, propicia também a aceitação do poder estrutural dos homens e reforça o papel feminino de dependência e busca constante por proteção e apoio oferecidos pelo sexo masculino.

Referência: Ferreira, M. C. Sexismo Hostil e Benevolente: inter-relações e diferenças de gênero. Temas em Psicologia, 12, 2,119-126, 2004.