Estereótipos, preconceitos e esportes

Contribuição: Clara Vasconcelos, Daiana Nogueira e Gilcimar Dantas

Costuma-se acreditar que os esportes, principalmente os coletivos, são capazes de desenvolver nos indivíduos um senso maior de coletividade, cooperação e convívio com as diferenças de forma pacífica. Infelizmente, este ideal nem sempre é observado na prática, uma vez que muitos dos preconceitos que permeiam as relações sociais se reproduzem no contexto esportivo. Temos inúmeros exemplos de jogadores imigrantes, negros e de classes consideradas não-dominantes que sofrem constantemente com atitudes discriminatórias vindas da torcida e de companheiros de profissão. Clique aqui para ler uma reportagem sobre o assunto.

Estereótipos e esportes: golfe

Contribuição: Clara Vasconcelos, Daiana Nogueira e Gilcimar Dantas

O golfe costuma ser um esporte associado a determinado sociais. A profissão dos jogadores de golfe é geralmente desempenhada por indivíduos brancos, ricos e bem sucedidos – parte desses estereótipos são provenientes das próprias exigências econômicas deste esporte. Felizmente o maior jogador de golfe da atualidade está contribuindo para quebrar, pelo menos, um desses estereótipos: Tiger Wood.

Resenha: Estereótipos sexuais aplicados às nadadoras

Marinês Oliveira

O presente artigo dispôs a verificar se as características do desporto (natação) e o biotipo do atleta proporcionam a aplicação de estereótipos sexuais. Para tal, utilizaram-se de dois grupos que diferiam quanto ao envolvimento com a natação, contudo os mesmos avaliaram nadadoras federadas de Brasília. As variáveis utilizadas foram “sexo” e “envolvimento com a natação”.
Tal proposta torna-se interessante quando se parte do desígnio que as crenças podem também se originar de experiências ou de vivências. Daí, através da percepção destes dois grupos distintos, pode-se verificar também as diferentes formações de crenças, seja de acordo com as experiências ou das vivências acerca do objeto selecionado.
Os conceitos de masculinidade e feminilidade, que serão utilizados na pesquisa, são construtos sociais utilizados em psicologia desde o início do século. Segundo o texto, a masculinidade encontra-se positivamente correlacionada à auto-estima, saúde mental, criatividade, dominância, busca de sensações, competitividade, assertividade, auxílio e salvamento, independência e instrumentalidade. A feminilidade, por sua vez, encontra-se diretamente correlacionada à maternidade, constituição familiar, expressão emocional, ansiedade e depressão, satisfação conjugal, atitude liberal frente aos papéis sexuais, submissão, apenas para o sexo feminino, a feminilidade encontra-se positivamente correlacionada à auto-estima. Deste modo, os estereótipos estariam próximos às estruturas cognitivas, ou mais especificamente, a um tipo de estrutura que conteria o conhecimento, as crenças e as expectativas do percebedor em relação a algum grupo humano.
Diante de tal conceito de estereótipo, este estudo exploratório vem analisar se o biotipo das nadadoras influencia a percepção de indivíduos que diferem quanto ao envolvimento com a natação. Dois grupos de indivíduos foram selecionados. O grupo 1 – formado por homens e mulheres que apresentavam envolvimento com o desporto, no caso, os pais das nadadoras; e o grupo 2 – formado por homens e mulheres que não possuíam qualquer relacionamento com a natação. A partir de um instrumento psicométrico, estes dois grupos expressaram o conceito que possuíam das nadadoras. Este instrumento é composto por um total de 60 itens, divididos em três escalas: escala masculina (20 itens. Ex: argumentadora, arrojada, assertiva, atlética, autoconfiante, auto-suficiente, líder etc.), escala feminina (20 itens. Ex:: cuidadosa, delicada, dependente, emotiva, dócil, sensível, tolerante, vaidosa etc.) e escala neutra ou escala de desejabilidade social (20 itens. Ex: espontânea, otimista, responsável, invejosa, inconstante, apática etc.).
Segundo Miller (1982), Hamilton, Strosssner & Driscoll (1994) algumas definições acerca dos estereótipos são bastante abrangentes igualando-os aos mitos, as lendas ou ao folclore, enquanto outras são bastante restritivas, definindo-os como grupos de adjetivos comumente associados aos grupos sociais. De tal modo, através deste grupo de características designadas às nadadoras é que serão concebidos os estereótipos acerca das mesmas.
Diante dos resultados encontrados, não se teve diferenças significativas quanto à variável sexo na aplicação dos estereótipos sexuais às nadadoras, embora haja uma tendência por parte das mulheres de considerarem as nadadoras como possuidoras de um número maior de características neutras, quando comparadas aos homens da amostra total. Pode-se considerar que outros fatores interfiram na percepção dessas mulheres, distorcendo a imagem das nadadoras e propiciando a aplicação de estereótipos sexuais. A confirmação desta distorção perceptiva é assegurada ao se constatar que o grupo sem envolvimento com o desporto considerou as atletas como sendo menos femininas do que o grupo envolvido com o desporto. O desconhecimento e a falta de envolvimento com o desporto e com as atletas contribuiriam para objetivar uma imagem distorcida das nadadoras.
Uma das possíveis explicações para este fato poderia ser atribuída às características instrumentais do desporto. Esta percepção do desporto acabaria por influenciar de forma dominante o critério de avaliação dessas mulheres, levando-as, assim, a uma avaliação inicialmente instrumental das nadadoras.
Outro ponto relevante a ser considerado refere-se ao biotipo das mesmas. O distanciamento dos padrões estético-sociais designados à feminilidade contribuiria para a distorção perceptiva dessas mulheres. Já as mulheres envolvidas com o desporto, no caso as mães das nadadoras, perceberam-nas como femininas, mas, também, possuidoras de características neutras. Possivelmente, a proximidade decorrente da relação parental impeça a objetivação em uma imagem distorcida da natação e das nadadoras. Essas mulheres, portanto, percebem-nas como femininas, embora, atribuam às mesmas características instrumentais decorrentes e necessárias à própria prática desportiva.
Como estudo preliminar e exploratório, este trabalho confirmou que a característica do desporto somada ao biotipo dos atletas pode propiciar a aplicação de estereótipos sexuais, principalmente quando as características do desporto versus sexo dos atletas não se coadunam com os padrões sociais estabelecidos para a masculinidade e a feminilidade.Esta preocupação com a aparência física e com a atratividade sexual, por parte das mulheres, contribuiria para a distorção perceptiva e posterior aplicação de estereótipos sexuais sobre toda e qualquer mulher que se distancie dos padrões estabelecidos culturalmente como femininos. Outro ponto relevante a ser considerado reside nos conflitos que possam surgir nas nadadoras e nas adolescentes que iniciam a prática da natação como um desporto competitivo. O conflito entre biotipo versus padrões culturais impediriam mulheres atletas e futuras atletas de prosseguirem na carreira desportiva.
Os resultados demonstram que as mulheres sem envolvimento com o desporto perceberam as nadadoras como menos femininas do que as mulheres envolvidas com o desporto. Provavelmente, as características do desporto, somadas ao biotipo das atletas, contribuem para a aplicação de estereótipos sexuais. O processo de estereotipazação é um produto inevitável da condição humana como um processo de adaptação utilizado pelo individuo para simplificar e organizar as inumeráveis informações encontradas no ambiente.

Referência: Giavoni, A. Estereótipos sexuais aplicados às nadadoras. Revista Brasileira Ciência e Movimento,10, 2, 27-32.

Resenha: Análise psicossocial do preconceito contra homossexuais

Lucas Carneiro

Estudos a respeito do preconceito e da discriminação realizados em vários países demonstram que esse fenômeno vem assumindo formas cada vez mais sutis. O trabalho das respectivas autoras Alessandra Ramos Demito Fleury e Ana Raquel Rosas Torres insere-se nesse campo de estudo e investiga os efeitos da orientação sexual no processo de infra-humanização. Dele participaram 135 estudantes de pós-graduação na área de recursos humanos. A eles era solicitado que respondessem um questionário no qual avaliavam indivíduos homossexuais ou heterossexuais, atribuindo-lhes traços naturais e culturais, objetivando verificar a presença do processo de infra-humanização no preconceito contra os homossexuais. Diferentemente de outros estudos na área, os resultados indicaram que o preconceito contra os homossexuais se expressa de forma mais sutil que flagrante, apresentando uma maior atribuição de características positivas para o grupo majoritário e não se diferenciando em termos de atribuição de características negativas para o grupo minoritário. Esses resultados são discutidos, ressaltando-se a importância de mais estudos sobre o tema, tão pouco estudados por psicólogos sociais.

Segundo Gordon Allport o preconceito seria o preconceito seria “uma atitude evitativa ou hostil contra uma pessoa que pertence a um grupo simplesmente porque ela pertence àquele grupo, e está, portanto, presumido que objetivamente ela tem as qualidades atribuídas ao grupo”. Estudos atuais têm demonstrando que a existência de transformações na sua forma de expressão; apresentando-se de maneiras mais discretas mais não menos violentas os preconceitos nas sociedades modernas. Apesar de alterações do ponto de vista sócio legal sobre a situação dos grupos minoritários; declaração dos direitos humanos que a mais de 50 anos proíbe qualquer forma de discriminação, além de diversas emendas constitucionais proibindo o preconceito e a discriminação, contribuiu para que as pessoas percebessem que a norma do igualitarismo estava fortemente presente na sociedade e que comportamentos discriminatórios não mais seriam tolerados; o preconceito contra os homossexuais continua forte; mas, agora, porém de maneiras mais “sutis”, contra-controlados pela “opinião publica”.

Diversos estudos na Europa e nos Estados Unidos demonstram que o preconceito tem mudado suas formas de expressão, buscando atender à norma do igualitarismo, mas não há evidências de que ele tenha de fato desaparecido. O preconceito racial na Europa apresenta-se sob duas formas: o flagrante e o sutil. O racismo flagrante é a forma mais tradicional de expressão do preconceito, sendo ela mais direta, quente e aberta. Já o racismo sutil é a forma mais contemporânea de discriminação, é discreta, fria, indireta e, dessa forma, além de preservar a expressão do preconceito atende à norma da não discriminação, em que as pessoas consideram inaceitável ser preconceituoso e temem ser mal vistas por apresentarem tal comportamento. Encontraram evidências de que expressões mais sutis desse fenômeno estão desenvolvendo subprodutos que atendem à necessidade de perpetuação dos comportamentos discriminatórios ao mesmo tempo em que preservam a imagem igualitária dos atores sociais. De acordo com Leyens et al. (2000), um desses subprodutos é o processo chamado de infra-humanização. Leyens et al. (2003, p.705) afirmam que “do ponto de vista etimológico, infra-humanização expressa o sentido de que alguns humanos são considerados menos humanos do que outros”.

Essa perspectiva da infra-humanização está pautada na essencialismo psicológico, na qual afirma que as pessoas têm essências e são naturalmente “boas” ou “más” e “normais” ou “divergentes”. A partir dessa concepção as pessoas dos grupos minoritários serão dotadas de características que, de alguma forma, as transformem em “menos humanas”.

Na área da Psicologia Social, o preconceito racial e étnico tem sido um dos temas mais ativamente pesquisados. No entanto o preconceito contra homossexuais não tem recebido a mesma atenção Essa falta de atenção da Psicologia Social sobre o tema opõe-se ao grande interesse que a sociedade moderna tem revelado a respeito das questões relacionadas à homossexualidade de forma geral. Esse interesse é perceptível tanto nos movimentos que lutam pelos direitos dos homossexuais, tal como a parada gay, que cresce em número de participantes todos os anos, no Brasil e no mundo, como em programas sociais que têm como objetivo diminuir o preconceito. O programa “Brasil sem Homofobia”, lançado em 2004, é uma resposta aos altos índices de discriminação contra o grupo. Ele atende a casos que vão desde a exclusão social até a atos violentos contra essa minoria.

Pesquisas no Brasil apontam que 18% de goianienses e 11,9% de porto-alegrenses acreditam que a homossexualidade é uma doença, configurando esses percentuais como os maiores índices do país. Essa pesquisa também constatou que 33% dos pais de alunos goianos não gostariam que os filhos tivessem colegas de sala homossexuais e 25% dos estudantes pesquisados não gostariam de ter um colega de classe homossexual (resposta majoritariamente emitida por estudantes do sexo masculino). As capitais que obtiveram maior índice de rejeição foram Fortaleza,Recife e Goiânia.
Os poucos trabalhos sobre o preconceito e a discriminação contra homossexuais realizados no Brasil (Falcão, 2004; Lacerda et al., 2002; Pereira, 2004) apresentam resultados que apontam a expressão flagrante do preconceito contra os homossexuais, ou seja, mais aberta e mais direta, menos preocupada em atender às normas do igualitarismo.

Spencer (1999) defende que a análise da história da sexualidade evidencia o preconceito contra os homossexuais como uma construção sócio-histórica. A instituição Igreja Católica modelou essa construção e ainda controla e direciona, de alguma forma, como os homossexuais são encarados pela sociedade. Assim, o estudo de Pereira (2004) buscou avaliar como as diferentes explicações para a homossexualidade e as características sociográficas, principalmente a religião dos participantes envolvidos em seu estudo, ancoram o preconceito contra os homossexuais. As explicações utilizadas no estudo são os cinco tipos constatados por Lacerda et al. (2002): explicações biológicas, psicológicas, religiosas, ético-morais e explicações psicossociais. Partiu-se do suposto de que as explicações da homossexualidade funcionam como um sistema de justificação normativo, que oferece aos participantes do estudo a possibilidade de discriminar e expressar atitudes hostis ao grupo de homossexuais, sem “ameaçar a percepção de que eles estariam executando ações para o bem- -estar social, pois estaria a serviço de Deus quem é ‘Bom’ por natureza” (Pereira, 2004, p.107). A análise dos dados do estudo de Pereira (2004) confirma a hipótese geral de Lacerda et al. (2002) de que as explicações sobre a homossexualidade se dividem em cinco tipos, conforme exposto anteriormente. A explicação biológica estaria baseada na idéia de que a homossexualidade seria uma doença provocada por distúrbios de natureza fisiológica, hormonal ou gestacional. A explicação ético-moral representaria a crença de que a homossexualidade está relacionada com a ausência de respeito, de caráter e de valores morais do indivíduo. Já a explicação religiosa aponta o homossexual como uma pessoa que não segue a palavra de Deus, que não tem força espiritual e religiosidade para resistir às tentações. A explicação de ordem psicossocial organiza as crenças de que a homossexualidade não é doença e deve ser compreendida na sua totalidade, pois trata da forma distinta pela qual cada um vive sua sexualidade, que é parte da identidade do sujeito. Por último, temos a explicação psicológica, constituída pela crença de que a homossexualidade é resultado de traumas experienciados na primeira infância.

A depender da posição de uma pessoa sobre as causas da homossexualidade seus preconceitos serão exprimidos de formas diferentes As pessoas que dão explicações psicossociais para a homossexualidade, e acreditam que se deva tentar compreendê-la em sua totalidade, são favoráveis à adoção de crianças por homossexuais. Já as pessoas que consideram a falta de caráter, de respeito e de valores morais como causas da homossexualidade são contrárias à adoção de crianças por homossexuais, além de terem sido classificadas como preconceituosas flagrantes, ou seja, acreditam que a explicação da condição do homossexual por si só justifica as atitudes discriminatórias dirigidas ao grupo.

A analise psicossocial da homossexualidade enxerga as pessoas que dão explicações psicossociais para a homossexualidade, e acreditam que se deva tentar compreendê-la em sua totalidade, são mais favoráveis à adoção de crianças por homossexuais. Já as pessoas que consideram a falta de caráter, de respeito e de valores morais como causas da homossexualidade são contrárias à adoção de crianças por homossexuais, além de terem sido classificadas como preconceituosas flagrantes, ou seja, acreditam que a explicação da condição do homossexual por si só justifica as atitudes discriminatórias dirigidas ao grupo estudo, no caso a infra-humanização ( incapacidade de expressar comportamentos e características humanas e valores considerados humanos, tais como compaixão, solidariedade, educação.), visto que se apresenta como uma alternativa à perpetuação do preconceito numa sociedade em que as normas anti–racistas estão presentes.

O estudo das autoras sobre diferenciação no nível de traços culturais dos heterossexuais e dos homossexuais é baseado nos estudos de Moscovici e Pérez (1999) sobre a infra-humanização como essencialização das diferenças em termos de desculturalização sejam compreendidos. Essa teoria envolve a compreensão do que são considerados “traços naturais” e “traços culturais”. Os primeiros, traços naturais, são definidos por Moscovici e Pérez (1997) como características que podem ser atribuídas tanto aos seres humanos como aos animais, tais como: intuitivo, livre, espontâneo, selvagem, impulsivo, entre outras. Já os “traços culturais” são aqueles típicos do ser humano, tais como criativo, leal, fiel, cooperativo, amigável, etc., também resultantes do processo de socialização.

Com a hipótese de que possivelmente serão atribuídos mais traços culturais para o grupo dos heterossexuais do que para o de homossexuais; – possivelmente não haverá diferença significativa na atribuição de traços naturais entre o grupo de homossexuais e o grupo de heterossexuais. Apesar de os resultados não indicarem a presença dos componentes de infra-humanização no preconceito contra os homossexuais na amostra pesquisada (muito pequena por sinal; e feita com pessoas com nível superior, ou seja, apresentam muitos recursos para controlar suas opiniões para evitar punições púbicas), eles apontaram para uma diferenciação significativa na atribuição de características positivas entre os grupos. Os resultados deste estudo apontam o preconceito dirigido ao grupo de homossexuais como sutil, diferentemente de outras pesquisas na área, que indicavam a existência de um maior percentual de preconceituosos flagrantes (Lacerda et al., 2002; Falcão, 2004; Pereira, 2004).

Depois da analise desse artigo fica clara a necessidade de investigarmos a configuração do preconceito e da discriminação contra o homossexual em nossa sociedade para que possamos compreender os mecanismos que promovem essa situação e, assim, estarmos aptos a propor intervenções que venham diminuir, ou, preferencialmente, eliminar os conflitos intergrupais, favorecendo o bem-estar social.

Referência: Fleury, A. e Torres, A. Análise psicossocial do preconceito contra homossexuais. Estudo de Psicologia (Campinas) 24,4,475-486;2007

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

chamada

Daiana Nogueira

A sociedade contemporânea tem avançado cada vez mais em termos de direitos humanos e estratégias de resolução de conflitos intergrupais, porém o preconceito e o racismo ainda são fenômenos intensamente presentes nos dias atuais. Apesar de sua relevância e gravidade como problema social, estes sempre foram percebidos como sendo um problema do outro e, portanto distante, de cada um de nós. Tal fato é verificado em inúmeras pesquisas em diferentes países do mundo. No Brasil, por exemplo, uma pesquisa realizada junto uma amostra representativa da população nacional revelou que 90% dos entrevistados se considera não racista, enquanto uma igual porcentagem de brasileiros acredita que existe racismo no Brasil.

Para Allport (1954), o preconceito pode ser definido como uma atitude hostil contra um indivíduo, simplesmente porque ele pertence a um grupo desvalorizado socialmente. Considerando que existem inúmeros grupos socialmente desvalorizados, existem tantos tipos de preconceitos quantos tipos de grupos minoritários existentes. Dentre estas variadas formas possíveis de preconceito, destaca-se uma em particular, que se dirige a grupos em função das características físicas ou fenotípicas apresentadas por estes – trata-se do preconceito racial.

O racismo, por sua vez, diferentemente do preconceito, se manifesta através de muito mais que uma atitude. Segundo Lima & Vala (2004), o racismo constitui-se num processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base em alguma marca física externa (real ou imaginada). Existe neste fenômeno uma crença na distinção natural dos grupos, ou prevalece a idéia de que os grupos são diferentes porque possuem elementos essenciais que os constituem como diferentes.

As definições, bem como a natureza e as formas de expressão, do preconceito e do racismo são influenciadas pelas normas sociais presente no contexto social que está sendo analisado. Nos séculos de escravidão e exploração do trabalho, por exemplo, o racismo era expresso de maneira aberta, uma vez que caracterizava as normas sociais de discriminação e exploração vigentes naquele período. Atualmente, depois de uma série de movimentos sociais, históricos e políticos, como a Declaração dos Direitos Humanos em 1948, e a condenação da UNESCO às classificações raciais em 1950, as formas de expressão do preconceito e racismo modificaram-se significadamente. Em consonância com Os Estados Unidos e alguns países da Europa, o Brasil também demonstrou padrões de mudanças nos estereótipos negativos atribuídos aos negros aliado a uma maior força dos estereótipos positivos atribuídos aos mesmos.

Estes dados revelam, ao contrário do que se possa pensar, não o declínio do preconceito contra grupos minoritários, mas sim o surgimento e consolidação de novas formas de preconceito e racismo. Frente às mudanças sociais, pressões da legislação anti-racista, princípios de liberdade e igualdade divulgados pelas democracias liberais, os indivíduos continuam a expressar seus preconceitos, só que de forma mais sutil e velada.

No contexto americano, observar-se a prevalência dos chamados racismos simbólico e moderno. O racismo simbólico representa uma forma de resistência a mudanças no status quo das relações racializadas nos EUA pós Declaração dos Direitos Civis. Sob esta perspectiva, verifica-se a crença de que os negros “estão indo longe demais” na luta por direitos iguais aliada à percepção destes como ameaça econômica ou simbólica à ordem vigente. Já o racismo moderno é representado pela percepção de que os negros estão recebendo mais do que merecem e, conseqüentemente, violando os valores de dominação e controle dos brancos. Ainda no nos Estados Unidos, é facilmente identificável também o racismo aversivo, no qual os indivíduos se auto-definem como igualitários e sem preconceito racial. Os racistas aversivos não discriminam os negros, e até têm atitudes favoráveis em relação a estes, quando se encontram em contextos públicos, onde impera o que é socialmente aceito. No entanto, quando as normas igualitárias não estão explícitas na situação ou existe um contexto que justifica a discriminação, os racistas aversivos discriminam, sim, os negros. O racismo ambivalente, por sua vez, também estudado na cultura americana, considera que os indivíduos brancos podem aderir, por um lado, valores de igualdade e humanitarismo, simpatizando com os negros, que se encontram em pior situação econômica. Por outro lado, a adesão aos valores do individualismo, típicos da ética protestante, desencadearia sentimentos de aversão e atitudes negativas frente aos negros – caracterizando uma relação extremamente ambivalente no que se diz respeito à sentimentos e atitudes em relação aos negros.

O preconceito sutil é estudado, ao contrário dos anteriores, na Europa e tem como alvo minorias culturais advindas de antigas ex-colônias de países europeus. Definido com uma forma mais velada, indireta e disfarçada de preconceito, o preconceito sutil engloba a dimensão da defesa dos valores tradicionais, o exagero das diferenças culturais, numa percepção que o exogrupo é culturalmente muito diferente do endogrupo, e, por fim, a dimensão de rejeição à expressão de simpatia e admiração em relação aos membros do exogrupo.

O preconceito predominante no Brasil apresenta particularidades marcantes, justificadas pela própria composição multi-racial deste país. O racismo cordial, considerado pelos pesquisadores como um tipo de racismo “tipicamente brasileiro”, é definido por Lima & Vala (2004) como uma forma de discriminação contra os cidadãos negros e mulatos, que se caracteriza por uma polidez superficial que reveste atitudes e comportamentos discriminatórios, que se expressam através de relações interpessoais cotidianas, piadas, ditos populares e brincadeiras de cunho “racial”. Assim, o racismo cordial é verificado através de “brincadeiras”, “ sem a intenção de ofender ninguém”, mas com grandes conseqüências, como a intensa discriminação e exclusão das pessoas negras da sociedade.

As novas expressões de preconceito e racismo, listadas acima, apesar de sutis e indiretas, são tão ou mais prejudiciais que as expressões mais abertas e flagrantes, uma vez que, por serem mais difíceis de serem identificadas, são também mais difíceis de serem modificadas ou combatidas. Soma-se a isto, a capacidade de mutação destas formas veladas de preconceito em expressões violentas de fanatismo nacionalista ou xenófobo, quando não se encontram presentes normas de igualdade em um dado contexto.

Referência: Lima, M. E. e Vala, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos em Psicologia (Natal), 9, 3, 2004.

Estereótipos e aparência física: Joselito na Balada

Contribuição: Gilcimar Dantas

Estereótipos étnicos: white killing

white killing, originally uploaded by dugandm.

Resenha: O saber e a prevenção no trabalho e na vida: Representações de profissionais de saúde que trabalham com HIV/Aids

Clara Vasconcelos

O presente artigo busca investigar e compreender as representações dos profissionais de saúde que trabalham com HIV/Aids sobre as suas práticas profissionais, sobre os riscos no trabalho e na vida pessoal.

Smith(1998) afirma que o conhecimento sobre a Aids leva atitudes favoráveis à adoção do sexo seguro, porém tais atitudes não são necessariamente expressas em comportamentos compatíveis. Tal afirmação corresponde a realidade não só do Brasil, como das mais diversas localidades do mundo.

O artigo então traz que os profissionais que trabalham com esta doença são muito mais capacitados e detêm muito mais conhecimentos acerca da mesma do que a população em geral. Retomando então a afirmação de Smith supracitada, os autores trazem a constatação de que os esforços no sentido de manter a população informada não tem gerado mudanças comportamentais significativas, incluindo-se inclusive os próprios profissionais que trabalham na área.

O artigo então traz o objetivo da pesquisa que foi o de conhecer as representações dos profissionais de saúde, que trabalham com o HIV/Aids ,sobre a sua prática profissional, investigando como e em que medida o saber sobre a Aids influenciam nas suas práticas sexuais.

Método: A pesquisa foi realizada nos Serviços Ambulatórios Especializados HIV/Aids (SAE), em três cidades do Mato Grosso do Sul. Este local atente apenas pacientes portadores da doença e pode ser considerado como uma referência no tratamento do HIV/Aids. A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas individuais semi estruturadas que continham dois blocos: A história profissional em relação a Aids e as relações entra o saber e a prática na vida pessoal. Foram 12 sujeitos: 3 psicólogos e 3 assistentes sociais ( que não mantinham contato com os fluidos dos pacientes) e 3 médicos e 3 enfermeiros ( que mantinham contato com os fluidos dos pacientes) .

Foi feita uma leitura fluente de todas as entrevistas, o que permitiu o registro de anotações livres e depois foram construídos dois “corpus” comunicacionais ( um para os que mantinham contato com os fluidos e outros para os que tinham apenas contato verbal). Houve depois um agrupamento por sexo. Por fim reconstruiu-se o discurso dos sujeitos numa síntese do que significava para eles as questões levantadas nos objetivos da pesquisa.

A questão da inserção profissional demonstrou que o ingresso ao SAE ocorreu por meio de convite ou por oferta do cargo para profissionais que já desenvolviam trabalhos com DSTs. Vale destacar que não houve diferenças nas respostas dos dois blocos comunicacionais.

Para estes profissionais, trabalhar no SAE constitui-se como um desafio, devido a questão da incurabilidade da doença. Outro aspecto que surgiu foi a questão do trabalho em equipe, realizado neste ambiente, que despontou como uma das causas de satisfação dos profissionais entrevistados. A proposta diferenciada de atendimento também foi trazida, bem como a qualidade do serviço prestado.

Para estes profissionais trabalhar no SAE é aprender a lidar com a morte o tempo todo, bem como estabelecer limites no próprio vínculo, lidar com a perda da onipotência e ver aspectos negativos de uma forma diferente. Segundo eles, este tipo de serviço coloca a questão da imparcialidade em cheque. Há inúmeras citações referentes a paixão de trabalhar lá. “gratificante” e “lição de vida” são algumas das palavras chave. De acordo com os profissionais as coisas negativas tornam-se insignificantes diante de tudo que foi citado acima.

No outro pólo estudado, buscou-se compreender onde estes profissionais corriam mais riscos. Se era no contato com o vírus no desempenhar de sua profissão ou se era na vida pessoal. Os profissionais foram unânimes afirmando que na vida pessoal eles corriam mais riscos. De acordo com os entrevistados, os riscos no trabalho eram conhecidos e existiam diversas medidas preventivas, enquanto na vida pessoal tais comportamentos não faziam-se presentes.

Todos os profissionais, portanto, relataram não utilizar o preservativo com seus parceiros. Foram relatadas mudanças na representação dos infectados com o vírus, porém não foi relatada uma mudança no comportamento de risco dos profissionais. O que ocorreu após eles iniciarem o trabalho nesta área foi na verdade uma maior identificação com a história do paciente, tendo em vista inclusive a ausência de preservativos nas práticas sexuais.

Parker(1994) diz que não há surpresa nos pequenos impactos promovidos pelos esforços iniciais de educação sobre a Aids. Pois apesar de haver uma preocupação com a informação, pouco se apresenta no sentido de ter formas mais concretas de mudança comportamental. Tem-se acreditado que ao receberem informações objetivas os indivíduos vão responder através de escolhas racionais, reduzindo o comportamento de risco. Tal crença porém não corresponde a realidade até então averiguada.Madeira(1998) trouxe a importância de analisar este fenômeno de maneira menos linear, dando conta de mais dimensões e níveis que certamente estão envolvidos nesta equação.

No que tange aos profissionais da área, pareceu aos autores do texto que a regra era: o conhecimento é para o trabalho e não para a vida. O discurso em torno de explicações para este tipo de comportamento foi redundante e com explicações muito superficiais. Observou-se também um certo incomodo por parte dos entrevistados em responder estas perguntas. Muitos profissionais trazem o discurso de que antes de terem uma profissão são seres humanos, suscetíveis a erros, pressões e inseguranças. Alguns chegam, inclusive a dizer que na vida pessoal são exatamente como seus pacientes. Afirmam também que preferem não pensar sobre o assunto.

As questões culturais e históricas, referentes a confiança no parceiro são bastante presentes, bem como o medo de trazer para o relacionamento a discussão sobre desconfiança e infidelidade. Esta última questão ficou presente de forma acentuada nos discursos das mulheres. Mesmo as que consideram a possibilidade do parceiro ser infiel, preferem delegar a responsabilidade de utilizar preservativo com as amantes para este parceiro, ao invés de tomarem para si mesmas a responsabilidade de cuidar da própria saúde.

As mulheres trouxeram também que a ameaça da destruição do relacionamento parece muito mais eminente e real do que a ameaça da Aids. As verbalizações demonstram simbolicamente a existência de um poder dos homens de fazer escolhas pela sua parceira. Todos os profissionais perceberam a fragilidade do argumento, porém insistiram em afirmar que o componente cultural da fidelidade tem mais poder sobre suas ações do que o conhecimento dos riscos.

De acordo com Madeira(1998) esta lógica pode ser considerada como racional, por ser uma construção que articula no nível do sujeito o psíquico, o social e o histórico, no concreto das relações que articulam as diversas partes do todo. É porém uma lógica diferente das lógicas lineares construídas pelas campanhas.

Para concluir os autores apontam que de fato a prática profissional não interfere de forma positiva na utilização de preservativos na vida pessoal dos profissionais de saúde.

Referência: Andrade, S. e Tanaka, O. O saber e a prevenção no trabalho e na vida: representações de profissionais de saúde que trabalham com HIV/ Aids. Psicologia Ciência e Profissão, 2002, 22, 2, 60-69

Estereótipos e aparência física: pode bater?

Fonte: CQSabe

Resenha: Dialética das relações raciais

André Oliveira de Assis Núñez

A questão racial parece um desafio do presente, mas trata-se de algo que existe desde há muito tempo. Modifica-se ao acaso das situações, das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais, mas reitera-se continuamente, modificada, mas persistente. Esse é o enigma com o qual se defrontam uns e outros, intolerantes e tolerantes, discriminados e preconceituosos, em todo o mundo. Mais do que tudo isso, a questão racial revela, de forma particularmente evidente, nuançada e estridente, como funciona a fábrica da sociedade, compreendendo identidade e alteridade, diversidade e desigualdade. Na prática, essas atitudes proporcionam e exclusão e marginalização dos que são alvo do preconceito. Comprometem também as relações sociais e de trabalho, fazendo com que, ocorra uma perpetuação dos que dominam.
A história do mundo moderno é também a história da questão racial, um dos dilemas da modernidade. Ao lado de outros dilemas, também fundamentais, como as guerras religiosas, as desigualdades masculino-feminino, o contraponto natureza e sociedade e as contradições de classes sociais, a questão racial revela-se um desafio permanente, tanto para indivíduos e coletividades como para cientistas sociais e filósofos. É assim que o mundo ingressa no século XXI, debatendo-se com a questão racial, com problemas e debates relacionados ao vários tipos de estereótipos e preconceitos derivados dessas questões – implícitas ou explicitamente.
Em certa medida, o debate relativo ao “choque de civilizações” implica xenofobia,
etnicismo e racismo. Ao hierarquizar as “civilizações”, hierarquizando também povos, nações e etnias, é evidente que se promove a classificação, entre positiva, negativa, neutra ou indefinida, de uns e de outros.Como por exemplo, quando Samuel P. Huntington classifica as “civilizações contemporâneas” em chinesa, japonesa, hindu, islâmica, ocidental e latino-americana, está, simultaneamente, estabelecendo alguma relação entre etnia, ou raça, e cultura, ou civilização; uma relação cientificamente insustentável. Com essa classificação, e ao priorizar a civilização ocidental, por motivos econômicos, culturais e por sua dita “modernização”, ocorre assim uma exclusão dos que não fazem parte dessa parte do globo, fazendo com que a civilização ocidental seja o modelo a ser seguida, priorizando sempre as nações mais desenvolvidas, como os EUA e os países da Europa.
No século XXI continuam a desenvolver-se operações de “limpeza étnica”, praticadas em diferentes países e colônias, compreendendo inclusive países do “primeiro-mundo”; uma prática “oficializada” pelo nazismo nos anos da Segunda Guerra Mundial, atingindo judeus, ciganos, comunistas e outros; em nome da “civilização ocidental”, colonizando, combatendo ou mutilando outras “civilizações”, outros povos ou etnias. Outro aspecto importante nessa trajetória de uma suposta superioridade, algumas civilizações se achavam “melhores” somente apenas por diferenças fenotípicas, por conseguinte, tentavam propagar a sua etnia e exterminar ou marginalizar as outras.
A raça, a racialização e o racismo são produzidos na dinâmica das relações sociais, compreendendo as suas implicações políticas, econômicas, culturais. É a dialética das relações sociais que promove a metamorfose da etnia em raça. A “raça” não é uma condição biológica como a etnia, mas uma condição social, psicossocial e cultural, criada, reiterada e desenvolvida na trama das relações sociais, envolvendo jogos de forças sociais e progressos de dominação e apropriação. Racionalizar uns e outros, pela classificação e hierarquização, revela-se inclusive uma técnica política, garantindo a articulação sistêmica em que se fundam as estruturas de poder. Podemos exemplificar essas práticas no cotidiano – na escola, no trabalho, ou em qualquer outro lugar da sociedade -, que através da estigmatização do “outro”, ocorre um bloqueio nas relações sociais, proporcionando assim a aparição de estereótipos e preconceitos, por conseguinte, a exclusão e a hierarquização são práticas vigentes.
Aos poucos, o traço, a característica ou a marca fenotípica transfigura-se em estigma. Estigma esse que se insere e se impregna nos comportamentos e nas atitudes, formas
de sociabilidade e jogos de forças sociais, como se fosse “natural”, inquestionável, reiterando-se recorrentemente em diferentes níveis das relações sociais. Sendo que muitas vezes, fica difícil de perceber como e em quais momentos, os preconceituosos atuam frente ao discriminado, proporcionando assim a marginalização dos mesmos.
Trata-se de elaboração psicossocial e cultural com a qual a “marca” transfigura-se em “estigma”, expresso em algum signo, emblema, estereótipo, com o qual se assinala, demarca, descreve, qualifica, desqualifica ou subordina o “outro” e a “outra”, indivíduo ou coletivo. Este é um aspecto fundamental da ideologia racial: o estigmatizado, aberta ou veladamente, é levado a ver-se e a movimentar-se como estigmatizado, estranho, exótico, estrangeiro, alheio ao “nós”, ameaça. Sendo que tais pensamento em relação ao “outro” muitas vezes são mecanismo que proporcionam pensamentos de que o grupo ao qual o percebedor pertence é superior, ou até mesmo, fazer com que o estereotipado seja visto como “quase humano” ou um “animal”. O racista fundamenta em argumentos que parecem consistentes e convincentes à sua ótica, distinguindo, segregando ou estranhando o “outro”: negro, árabe, judeu, índio, oriental dentre outros. São estereótipos, signos, símbolos mobilizados ao acaso das situações elaboradas no curso de anos, décadas, séculos, com os quais o “branco”, “ariano”, “ocidental” explica, legitima ou naturaliza a sua posição e perspectiva privilegiadas, de controle de instrumentos de poder.
Sob vários aspectos, essa ideologia racial é transmitida por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistema de ensino, instituições religiosas e partidos políticos, e tem sido, continuando a ser, um componente nuclear da cultura da modernidade burguesa. Esse o contexto em que formula, cria ou engendra “o mito da democracia racial”, significando que a sociedade brasileira seria uma democracia racial, sem ser uma democracia política e, muito menos, uma democracia social.
Mais do que isso, pode ser uma cruel mistificação da desigualdade, da intolerância, do preconceito, do etnicismo ou do racismo, como “argamassas” da ordem social vigente, da lei e da ordem. “Cruel” porque implica neutralizar eventuais reações ou protestos, reivindicações ou lutas dos estigmatizados, definidos de antemão como participantes tolerados da comunidade nacional. E quando uma pessoa ou um grupo tem uma maior sensibilidade para com esse preconceito e marginalização que ocorre em um país “disfarçado” com a máscara da democracia racial, essa(s) pessoas(s) são vistas como “chatas”. Mas esse é o percurso em que se desenvolve a consciência crítica, a autoconsciência ou a consciência para si, reconhecendo que é desde essa autoconsciência crítica que nasce a transformação, a ruptura ou a transfiguração.

Referência
Ianni O. (2004). Dialética das relações raciais. ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). Departamento de Sociologia do instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.