Resenha do texto Rethinking the Link Between Categorization and Prejudice Within the Social Cognition Perspective

Letícia Vasconcelos

O presente artigo traz uma crítica à correlação direta que foi se estabelecendo ao longo dos últimos 40 anos entre a categorização e o preconceito. Os autores analisam teorizações e pesquisas da perspectiva da cognição social para demonstrar a tese de que não se pode comprovar a existência de tal correlação, bem como questiona sua conseqüência direta: a elaboração de propostas de redução do preconceito que se baseiam na redução das fronteiras entre as categorias sociais. Os dois eixos principais de argumentação são: demonstrar a ausência de suporte empírico que comprove tal correlação e re-afirmar que uma eliminação da categorização não só é impossível, como altamente indesejável. Uma breve revisão histórica visa demonstrar que trabalhos como os de Allport, Tajfel e Campbell, tidos como precursores da tradição da cognição social, ainda que apontassem para o papel da categorização na formação do preconceito, davam uma ênfase menor ao caráter cognitivo do viés inter-grupal do que o assumido por seus sucessores. São analisadas as três conseqüências principais que derivam da dominância da perspectiva da cognição social para o estudo do preconceito: a preponderância de explicações de base cognitiva sobre os conflitos inter-grupais, a não inclusão do componente afetivo presente em tais conflitos e a compreensão do preconceito como produto do conteúdo de estereótipos negativos. Estudos tradicionalmente usados para comprovar a existência da correlação entre categorização e preconceito são questionados, apontando-se ora uma imprecisão conceitual, ora a variedade de explicações alternativas para dar conta da suposta correlação encontrada. Quanto à questão do preconceito, os autores buscam demonstrar que as estratégias de descategorização e de recategorização não surtem o efeito esperado de sua diminuição. Nem por isso os autores deixam de apontar alternativas para a diminuição do preconceito. Segundo eles, a estratégia ideal é aquela que encontra o equilíbrio entre manter as fronteiras das categorias, como elemento de constituição da identidade social, e minimizando ao máximo o viés inter-grupal. O multiculturalismo é descrito como uma estratégia que mais se aproxima deste ideal, uma vez que mantém a diversidade cultural e étnica. Mais do que simplesmente reconhecer esta diversidade, uma estratégia que busque reduzir o preconceito precisa reconhecê-la como riqueza. Com uma argumentação que recorre a uma revisão teórica e empírica bastante abrangente, o artigo, em última instância, vem defender uma abordagem que atue no sistema de valores individuais e grupais, em especial pela ênfase em valores como a diversidade e a tolerância

Conceitos básicos: falsas memórias

Um dos aspectos mais estudados pelos investigadores da memória é a questão das falsas lembranças. Lenton, Blair e Hastie investigaram experimentalmente, utilizando o paradigma de Deese-Roedinger-McDermott, a maneira pela qual associações estereotipadas indiretas produzem lembranças falsas. Fundamentalmente, este procedimento experimental consiste na apresentação de várias listas de palavras, cada uma composta por termos associados a uma palavra crítica não apresentada, avaliando-se posteriormente as diferenças na evocação através da rememoração ou do reconhecimento das palavras críticas quando comparadas com outras palavras não críticas. Resultados obtidos em vários estudos evidenciaram que os participantes “lembram” com muita freqüência as palavras críticas, embora elas não tivessem sido apresentadas de fato. Na tentativa de ampliar estas descobertas, os autores desenvolveram dois experimentos. No primeiro deles, era mostrado aos participantes uma lista de palavras constituída por uma série de papéis estereotipados, alguns tipicamente masculinos (soldados, advogados etc), outros claramente femininos (secretária, enfermeira etc). Posteriormente, foi realizado um teste de reconhecimento, na qual foram apresentadas palavras ausentes na lista anterior, especialmente termos que eram centrais aos papéis estereotipados. Os resultados do primeiro experimento demonstraram que independente de serem submetidos a uma condição experimental em que eram apresentados termos tipicamente relacionados a papéis masculinos ou femininos, os participantes apresentaram falsas lembranças mais freqüentes relativas aos papéis estereotipadamente consistentes, o que parece favorecer à hipótese de falsas lembranças podem ser produzidas por associações estereotipadas indiretas.

Fonte: Marcos E. Pereira. Psicologia Social dos Estereótipos. SP: EPU, 2002

Conceitos fundamentais: metacognição

Em que pese a natureza incerta do julgamento humano, o impacto das heurísticas e as inúmeros limites impostos pelo sistema cognitivo, um elemento essencial das pesquisas sobre a cognição é o conhecimento que a pessoa julga possuir a respeito de si mesmo e das outras pessoas. Esta questão encontra-se fortemente ligada ao problema da metacognição e, como tal, se refere a quão uma pessoa considera dotado de credibilidade o julgamento que ela mesma faz a respeito de seus pensamentos, crenças e sentimentos sobre elas mesmas e sobre as outras pessoas.
De forma compatível com outros domínios de investigação cognitiva, e apesar dos inúmeros estudos sobre o julgamento em condições de incerteza, os estudos sobre a metacognição encontram-se subordinados ao entendimento de que as pessoas possuem alguma clareza a respeito das avaliações de base metacognitiva que fazem, embora não tenham consciências de que estão julgando de acordo com estes princípios e, em alguns casos, nem mesmo sejam capazes de discernir que estão a realizar algum tipo de julgamento.

Fonte: Marcos E. Pereira. Introdução à Cognição Social. Manuscrito não publicado

Conceitos fundamentais: heurística do falso consenso

A heurística do falso consenso ocorre quando uma pessoa passa a acreditar que a posição que ela defende é majoritária ou compartilhada por um grande número de pessoas (Marks & Miller, 1987). Uma pessoa que decide se comportar de uma determinada maneira tende a acreditar que a sua forma de agir é mais usual que  aquela escolhida por uma pessoa que preferiu adotar um curso de ação distinto.