Resenha: Flutuações e diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual – Perspectivas teóricas.

Apohena Noroya

O artigo faz uma revisão de pesquisas que abordam as diferenças de gênero e suas flutuações no desenvolvimento da orientação sexual. As autoras são psicólogas clínicas portuguesas e uma delas realiza pós doutorado. Elas fazem um apanhado sobre as conceituações e diferenças entre a identidade de gênero, papéis sexuais e orientação sexual, assim como, de que forma (geralmente numa ótica estereotipada) a sociedade vê as flutuações de orientação sexual – uma hora heterossexual, na outra bissexual, transexual, pansexual, polisexual.
Na introdução as autoras falam da importância da compreensão do que leva as pessoas a relacionarem-se entre si, investigando as relações dos sexos e dos gêneros com a diversidade de comportamentos humanos. Elas afirmam que para uma melhor entendimento psicológico da identidade sexual é preciso definir separadamente os conceitos de sexo- estrutura anatômica e gênero- aspectos psicossociais do sexo. No desenvolvimento da identidade sexual é preciso destacar três componentes que vão se desenvolvendo gradativamente: a identidade de gênero, os papeis sexuais e a orientação sexual.
Durante a fase da identidade de gênero, a criança se reconhece num processo de auto-identificação como menino ou menina, os papeis sociais e sexuais dizem respeito aos estereótipos das características masculinas e femininas, sobre os ditames sociais do que se espera socialmente da aparência,comportamento e aspectos da personalidade destas pessoas. Em relação a orientação sexual, as autoras falam da preferência por parceiros do sexo oposto, do mesmo sexo ou por ambos os sexos, destacando dois aspectos essenciais distintos: a preferência física sexual e a preferência afetiva. Sendo assim, as categorias homossexual, heterossexual e bissexual se caracterizam não como nomes mas sim como adjetivos que se referem ao sexo do parceiro que uma pessoa escolhe para se relacionar afetivamente e sexualmente.
Ao abordar a questão da fluidez no desenvolvimento da orientação sexual, as autoras se detém a exemplificar e explicar este tema através do universo feminino. Através de pesquisas as autoras constataram que a sexualidade da mulher é relativamente fluida, a identidade sexual das mulheres passa por diversas mudanças nas atrações sexuais ao longo do tempo, passam de heterossexuais, a homossexuais ou bissexuais. Embora alguns estudos sobre desenvolvimento afirmem que uma vez se assumindo homossexual para si e para os outros não haja mais alteração da identidade sexual, outros estudos dizem que algumas mulheres se assumem como lésbicas por não se encaixarem ou não se aceitarem como bissexuais.
Apesar das atrações sexuais entre as mulheres parecerem bastante estáveis, as identidades e os comportamentos são bem mais fluidos e diversificados, exemplo disto é o fato das lésbicas geralmente se reportarem a um colega de escola homem entre as suas primeiras atrações sexuais. Elas podem inclusive ficar com homens mais tarde novamente espontaneamente, não por pressão social, embora não se vejam ou não se assumam como bissexuais. Segundo alguns autores, os bissexuais tem uma maior capacidade de experimentar atrações por ambos os sexos o que dará aos seus sentimentos subjetivos uma maior suscetibilidade de serem influenciados pelo ambiente, se afastando assim, da identidade sexual minoritária. As autoras acreditam que há consistência de mudanças na orientação sexual ao longo do tempo, exemplo disto são os bissexuais se tornarem homossexuais em sua orientação sexual, embora se mantenham em sua identidade sexual como bissexuais.
Em relação às diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual, as autoras verificaram através de pesquisas que sujeitos do sexo feminino tem maior probabilidade de experienciar relações heterossexuais antes de ter experiências com o mesmo sexo e os rapazes a ter experiências primarias com o mesmo sexo. As diferenças de gênero na orientação sexual podem ser compreendidas através: a)preferências por relações sexuais descomprometidas, assim como no interesse em estímulos visuais, b)importância subjetiva da fidelidade emocional e sexual e c)no valor da percepção de características do parceiro. Sendo que, as diferenças de gênero prevalecem independente da orientação sexual. Em termos de atrações sexuais verificou-se que os sujeitos do sexo masculino apresentam um contexto sexual, de sexo descomprometido e estímulos visuais, enquanto as mulheres seguem um contexto emocional, atribuindo maior importância a fidelidade emocional.
Diferenças de gênero X idade foram encontradas em relação a convicção da identidade sexual mas não em relação aos primeiros comportamento sexuais. Resultados de estudos comprovaram que as mulheres mais jovens afirmavam mais identidades bissexuais que os homens jovens. Verificou-se que as diferenças de gênero tem sido muito importantes em relação as questões de comportamento sexuais, numero de parceiros sexuais e idade de iniciação, mas em relação a orientação sexual não foram encontradas diferenças significativas entre as categorizações gay, heterossexual ou bissexual.
Em sua conclusão as autoras falam do privilégio feminino visto na fluidez, na permissão de uma maior possibilidade de escolhas e de mudanças no ciclo de vida, enquanto o homens ainda são muito cobrados em manter uma maior exclusividade de orientação sexual refletindo numa maior rigidez social. As relações, a sexualidade e os amores são influenciados pelo meio e predispostas biologicamente, na sua subjetividade individual sem ser separados de um contexto social de inserção.

Referência:
Almeida, J. e Carvalheira, A. A. Flutuações e diferenças de género no desenvolvimento da orientação sexual: Perspectivas teóricas. Análise Psicológica, 25, 3, 343-350, 2007

Resenha: Flutuações e diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual: Perspectivas teóricas

André Oliveira de Assis Núñez

No desenvolvimento das identidades individuais e relacionais, as relações dos sexos e dos gêneros com a diversidade de comportamentos humanos – e com a linguagem disponível socialmente – levou a que encontrássemos e nos definíssemos segundo conceitos e expressões como: mulher/homem, feminino/masculino, heterossexuais, homossexuais ou bissexuais (lésbicas, gays, bissexuais – LGB), transexuais. É válido ressaltar também à importância da proporção do espaço de reflexão social e de investigação que estuda os mundos relacionais e as relações entre as pessoas, com os muitos significados que os discursos sociais criam sobre tal, que abrange desde à sociologia até algumas áreas da medicina, contribuindo assim para a compreensão do que leva às pessoas a escolherem relacionar-se entre si. Tornando assim, o tema sobre orientação sexual atual e complexo.
O termo sexo se relaciona com a estrutura anatômica e o termo gênero aos aspectos psicossociais do sexo, impostos ou adaptados socialmente – devendo os construtos ser mantidos separados e claramente definidos na sua especificidade, para a melhor compreensão psicológica da identidade. Sendo de extrema importância para a análise das características distintas que ocorrem nas relações entre as pessoas, existindo assim diferenças importantes entre o ser – anatomicamente – , e o pensar, não necessariamente se relacionando.
O desenvolvimento da identidade sexual pode ser encarado em três dimensões: a identidade de gênero, os papéis sexuais e a orientação sexual.
A identidade de gênero – o primeiro componente da identidade sexual – desenvolve-se entre o nascimento e os três anos de idade, sendo definida como “a convicção básica do indivíduo acerca do seu sexo biológico”.
O segundo componente a desenvolver-se são os papéis sexuais, ou seja, as características culturalmente associadas com ser homem ou mulher – que através dos estereótipos são percebidas como as características masculinas ou femininas. Os papéis sexuais associam-se por sua vez, ao que se espera de uma “menina-menino”, evoluindo ao longo da vida, consoante as circunstâncias sociais. É importante notar, que esse processo ocorre nas pessoas entre três a sete anos, sendo que não são processos estáveis e definitivos, dependendo muito do contexto social onde a criança está inserida. E por fim, O terceiro componente da identidade sexual é a orientação sexual – a preferência por parceiros do sexo oposto, do mesmo sexo ou por ambos os sexos.
Através da relação entre a identidade de gênero, os papéis sexuais e a orientação sexual, faz com que possamos entender a identidade sexual das pessoas, porém é válido notar que ter comportamentos ou atrações pelo mesmo gênero, por exemplo, não significará necessariamente ter uma identidade homossexual, não ocorrendo necessariamente uma correlação positiva entre esses fatores da identidade sexual.
Tem-se vivenciado na realidade e na pesquisa, a idéia de que a sexualidade da mulher é relativamente fluida, termo ainda não consensual, mas que se utiliza para referir mudanças longitudinais na identidade sexual, nas atrações e nos comportamentos das mesmas, como afirma Lisa Diamond. Por conseguinte, podemos afirmar que as mulheres tem uma tendência para mudar suas atrações sexuais ao longo do tempo. È importante ressaltar que Lisa Diamond explora este conceito da fluidez na identidade sexual citando quatro estudos longitudinais sobre a orientação sexual, enquanto enfatiza a necessidade paralela de estudos prospectivos, pois os que estão disponíveis, por não serem feitas avaliações que permitam uma comparação de dados de evolução nas dimensões da orientação sexual, tem pouca evidência empírica.
A criação dos modelos de desenvolvimento do coming-out levou à idéia de uma sequência linear de estágios que presumem que uma vez desenvolvidos determinadas atitudes, assumindo-se para si e para os outros como homossexuais, não há mais alterações – o que não está em concordância com alguns estudos do desenvolvimento da orientação sexual da mulher, em que a primeira identidade sexual não é a última e definitiva. Podemos inserir então, os estudos de Diamond sobre a fluidez da sexualidade da mulher, sendo um campo ainda muito vasto para a investigação e questionamentos.
Dentro dos estudos com amostras de mulheres, a autora a afirma que embora as atrações sexuais pareçam bastante estáveis, as identidades e os comportamentos são bem mais fluidos e diversificados.
Outro aspecto importante que devemos abordar é que num processo de desenvolvimento multidimensional como é a orientação sexual, temos evidências de existirem diferenças de gênero em alguns estudos, mas não é consenso. Para exemplificar tais estudos, podemos citar Herdt e Boxer (2000), com uma amostra de 202 jovens (27% do sexo feminino). Os rapazes demonstraram um início mais precoce dos comportamentos homossexuais, cerca de dois anos mais cedo que as moças, apresentando portanto diferenças estatisticamente significativas. As mulheres têm uma maior probabilidade de ter experiências sexuais heterossexuais antes de ter experiências com o mesmo sexo. Estes autores concluíram sobre a existência de diferenças de gênero na sequência desenvolvimental, mas limitaram tal afirmação aos comportamentos sexuais heterossexual ou homossexual a ocorrer em primeiro lugar. Esse estudo é importante, pois aborda um assunto relacionado à sexualidade que gera discórdia entre alguns pesquisadores, favorecendo assim, mas um estudo para incrementar tais discussões. Além do mais, instigar à saber o porquê – se for comprovado essa teoria -do amadurecimento de comportamentos homossexual dos rapazes em comparação ao moças.
As relações das pessoas consigo e os seus amores são certamente determinadas por muitas dimensões, influenciadas pelo meio, mas predispostas biologicamente, assim, na sua subjetividade individual, não serão separadas de um contexto social de inserção. Portanto, a tolerância em relação à opção sexual dos outros deve ser uma característica marcante na sociedade como um todo, pois formas estereotipadas e preconceituosas só proporcionam o afastamento e a desunião das pessoas.

Referência: Almeida, J. e Cavalheira, A (2007). Flutuações e diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual: Perspectivas teóricas. Análise Psicológica

Resenha: Flutuações e diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual: Perspectivas teóricas

Clara Vasconcelos

O trabalho busca fazer uma revisão teórica das principais investigações sobre as flutuações e transições na orientação sexual. De maneira geral, destaca a obra de Lisa Diamond, que apresenta investigações sobre transições na identidade, no comportamento e na atração.

O texto de Almeida e Carvalheira(2007) começa afirmando que muitas áreas têm feito investigações acerca do que representa e de como ocorre a escolha da orientação sexual. Dentre estes campos destacam-se a religião, as leis, as ciências sociais e biológicas e até mesmo algumas áreas da medicina. De acordo com as autoras, nossas identidades individuais e relacionais, bem como toda a diversidade de comportamento humano faz com que os indivíduos, se encontrem e se relacionem com conceitos e categorias, como homem/mulher; homossexual/bissexual/heterossexual, dentre diversas outras.

O texto traz também a diferenciação de Sexo e Gênero, de acordo com Diamond(2002). De acordo com ele, o sexo refere-se a estrutura anatômica, enquanto o gênero refere-se aos aspectos psicossociais do sexo. O texto traz também, que a identidade sexual tem três dimensões: A identidade de gênero, os papéis sexuais e a orientação sexual.

A identidade de gênero: É o primeiro comportamento, desenvolve-se entre o nascimento e o terceiro aniversário. De acordo com Green é “ a convicção básica acerca do seu sexo biológico”. Está identidade nem sempre é equivalente ao órgão reprodutor visível. Depois, desenvolvem-se os papéis sociais, que são características associadas ao ser homem e ser mulher através da cultura e da história. Estes papéis têm muita ligação com a aparência, com os comportamentos esperados daquela pessoa e da sua personalidade. Estes papéis não necessariamente são fixos, devido a fluidez propiciada pela cultura vigente. Só após esta segunda fase, que dura em média dos três aos sete anos, é que começaríamos a discutir a orientação sexual: A escolha pelo sexo oposto, pelo mesmo sexo ou pelos dois. A orientação sexual pode ser dividida em dois aspectos: A preferência física sexual e a afetiva.

Para Diamond, a orientação sexual engloba várias dimensões da identidade sexual, da de gênero e dos papéis sociais. Para ele as categorias bissexual, heterossexual, dentre outras, são mais adjetivos do que nomes propriamente ditos. Lisa Diamond tem tentado mudar a forma de estudar a orientação sexual, em especial a feminina.

O texto a partir deste ponto traz estudos que corroboram hipóteses opostas entre si. Algumas correntes que trazem que a orientação sexual é mais fluida e inconstante do que costuma-se estabelecer e outras que dizem justamente o oposto. Os estudos feitos, foram em sua maioria longitudinais. As investigações mais recentes demonstram a desvalorização das mudanças provenientes do passar do tempo. Diamond, traz que é como se ocorresse a descoberta de um self verdadeiro, ponto a partir do qual, as mudanças na orientação sexual não ocorreriam mais. Diamond porém não concorda com esta afirmação, dizendo que há evidências destas mudanças ao longo do tempo, em especial nas mulheres.É importante salientar que existe também opiniões controversas a esta no que tange a diferenciação dos gêneros e as diferenças na orientação sexual. Ao longo do texto, fica bastante claro que há uma grande necessidade de novos estudos, mais completos na área.

O texto além de trazer estudos que corroboram esta idéia de que as mulheres têm modificado sua orientação sexual ao longo do tempo, afirma também que os movimentos de defesa dos direitos gays podem influenciar na escolha dos indivíduos para serem lésbicas e gays, uma vez que há um preconceito, por parte de destes movimentos acerca da possibilidade do bissexualismo.

Os estudos de Diamond e Rust demonstram ainda que há uma diferença clara nos resultados das mulheres que se consideravam lésbicas ou bissexuais. As que se consideravam lésbicas responderam em sua maioria sentir mais atrações sexuais por mulheres, enquanto as bissexuais afirmaram justamente o contrário.

É importante salientar também, que estes estudos realizados e que têm corroborado tanto a hipótese de fluidez como a hipótese de permanência forma realizados em ambientes muito restritos, tendo como participantes apenas membros da LGBT americana, e estudantes universitários. Desta forma, não existem dados que se relacionem a pessoas desvinculadas destes espaços, em especial pessoas que residem em ambientes mais rurais, de etnias minoritárias e com condição sócio-econômica mais baixa.

Weinberg ET AL(1994) traz a hipótese de que talvez os bissexuais, sejam eles homens ou mulheres, tenham uma maior capacidade de experimentar atrações por ambos os sexos, o que permite que seus sentimentos estejam mais suscetíveis a mudanças externas, no ambiente.

Herdt e Boxer ( 1993) fizeram estudos que demonstraram que os homens têm experiências com pessoas do mesmo sexo antes do que as mulheres. Bem como as mulheres demonstraram ter uma maior probabilidade de se relacionar primeiro com o sexo oposto e só depois com pessoas do mesmo sexo. As mulheres também apareceram como tento uma certeza mais tardia das suas orientações sexuais do que os homens. Mais mulheres também se consideraram como bissexuais do que os homens. No que tange os contextos das orientações sexuais dividiu-se os sujeitos em dois grupos: Os que eram atraídos por pessoas do mesmo sexo a partir de questões emocionais e os que tinham pensamentos explícitos com o mesmo sexo, envolvendo atividades sexuais. Os resultados encontrados demonstram que mais mulheres se encontram no primeiro grupo e mais homens no segundo.
Para concluir, as autoras trazem que a diversidade sexual tem encontrado um ambiente muito mais favorável e que a flexibilização das atrações tem permitido uma maior liberdade de escolha para mulheres. No caso dos homens, há uma maior rigidez na escolha sexual, o que pode estar refletindo uma maior rigidez social com tal, ou de tal categoria. As autoras finalizam afirmando que a orientação sexual surge a parir de uma interação do ambiente com a biologia.

Referência: Almeida, J. e Carvalheira, A. A. Flutuações e diferenças de género no desenvolvimento da orientação sexual: Perspectivas teóricas. Análise Psicológica, 25, 3, 343-350, 2007