Estereótipos e poesia: mulata exportação

Contribuição: Ana Amélia Amorim

Mulata Exportação

Elisa Lucinda

“Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado…”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual…
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!”
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:

Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!

Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!

(Da série “Brasil, meu espartilho”)

Fonte: Escola Lucinda

Os estereótipos na literatura: as aventuras do Sr. Pickwick

Toda e qualquer categoria social é objeto de uma série de representações, amplamente compartilhadas pela população. O trecho abaixo, reproduzido dos Pickwick Papers, a primeira e divertidíssima obra de Charles Dickens, reflete um traço particularmente saliente do estereótipo da categoria dos profissionais da política.

– “Está tudo pronto?”, perguntou o honorável Samuel Slumkey ao Sr. Perker?

-” Tudo, meu caro senhor”, respondeu o homenzinho

– ” E nada foi omitido, espero?”, disse o honorável Samuel Slumkey.

– “Coisa alguma deixou de ser feita, meu senhor, absolutamente nada. Há vinte homens bem lavados à porta da rua, para que o senhor possa apertar-lhe as mãos; e seis crianças de colo que o senhor terá de acariciar as cabecinhas e perguntar pela idade; não deixe de prestar atenção nas crianças, meu senhor, é o tipo de coisa que sempre produz grande efeito.”

– ” Eu o farei”, disse o honorável Samuel Slumkey

– ” E, talvez, caro senhor”, insinuou com prudência o homenzinho, ” o senhor pudesse, – eu não estou afirmando que é indispensável -, mas se o senhor beijasse uma delas, isto certamente produziria um grande efeito na multidão.”

– “O efeito não seria o mesmo se os meus assessores o fizessem?”, perguntou o honorável Samuel Slumkey?

– “Receio que não”, replicou o agente; ” se o senhor o fizer, pessoalmente, creio que isto o tornará bastante popular.”

– “Muito bem”, disse o honorável Samuel Slumkey, com o ar resignado, ” então o farei, que jeito?”

– “Preparem a comitiva”, gritaram os vinte homens da comissão eleitoral.

No meio das saudações do populacho, a banda, os recrutas, os homens do comitê eleitoral, os eleitores, os cavaleiros e as carruagens tomaram os seus lugares, cada veículo com uma parelha de cavalos levando quandos cavalheiros poderia comportar em pé e, no designado ao Sr. Perker, iam o Sr. Pickwick, o Sr. Tupman, o Sr. Snodgrass e mais meia dúzia de membros da comissão eleitoral.

Ocorreu um momento de suspense, enquanto a comitiva esperava que o Sr. Slumkey subisse na sua carruagem. Repentinamente a multidão irrompeu em uma grande aclamação.

“Ele acaba de sair,” disse o pequeno Sr. Perker, excitadíssimo; quando nada porque a posição em que se encontrava não permitia ver o que estava ocorrendo alhures.

Outros aplausos, ainda mais altos.

“Ele apertou a mão dos homens”, gritou o pequeno agente.

Mais aplausos, ainda mais veementes.

 

“Ele acariciou a cabeça dos bebês,” relatou o Sr. Perker, trêmulo de ansiedade.

Um rugido de aplausos que fez estremecer a atmosfera.

– “Ele beijou uma delas”, bradou o entusiasmado homenzinho.

Um segundo trovão

– “Ele beijou outra”, urrou, sem fôlego, o gerente.

Um terceiro trovão.

“Ele está beijando todas as crianças!” gritou o entusiasmado homenzinho. E sob a gritaria ensurdecedora da multidão enstusiasmada, a comitiva começou a se movimentar.

Fonte: Pickwick Papers (tradução livre, cotejada com a tradução de Otávio Mendes Cajado, publicada como As aventuras do Sr. Pickwick, São Paulo, Abril Cultural, 1982 e com a tradução de José Maria Valverde, publicada como Los papeles póstumos del Club Pickwick, Madrid, Editorial Mondadori)