Estereótipos e anedotas: duas amigas cariocas

Contribuição: Aline Campos

Duas amigas se encontraram num ponto de ônibus:
– E aí, Creuza, porque tu num foi ao pagodi onti?
– Pagodi? Qui pagodi qui nada, Craudete! Eu ônti saí cum branco defechá o cumercio!
– Tu saiu cum branco? Branco mermo?
– Tô falando, mulé! O nome dele é Célio.O cara tá amarradão na minha figura!
– Me conta isso direito, Creuza! Cumo foi qui tu arranjô essa préula?
– Tudo muito simpres, Craudete. Eu ia passando pela rua, ele se agradou da
minha pessoa, puxô cunversa e marcamo pra saí dinoite.
– E onde foi que tu se incontrô com ele?
– Sincontrei? Tu tá doida? O Célio foi me buscá em casa, que ele é um homi muito do fino! Hora marcada! E veio me buscá de carro, minha nega! Eu não deixei por menos e me enfeitei toda, naquele justinho pretinho e dorado. Subi naquele tamanco vermeio e tasquei aqueles brinco pratiado que tu me deu!
– Creuza, tu divia tá um arrazo! Aí cês foram fazê um lanche?
– E tu acha qui o Célio é homi di fazê lanche? Fumo num belo dum restaurante na Zona Sul. Cumi inté camarão, Craudete!
– Tô toda arripiada! E depois, Creuza?
– Depois nós fumo dançá numa buati de crasse. Tiramo aquele sarro! Tomei até uísqui 12 ano! Se esbardei!
– Qui inveja qui eu tô, mulé! Minha Nossa Sora Parecida! Depois oceisforam pro motel, é craro!
– Craro qui não! Não fala bestera, Craudete! É craro qui nós fumo pruapartamento dele! Qui apê, mulé! Um luxo só! Sabe daqueles sofá que afunda quando agente senta? Pois é!
– Deus seja louvado! E aí, Creuza? Já tô ficando toda impipocada!
– Bom, aí nós cumeçamo a namorá. Beijo pra lá, beijo pra cá. Fumotirando a rôpa… E aí ele pediu preu pegá o pênis dele!
– Péra aí, Creuza! Pênis? Qui diabo é isso?
– Pôrra, Craudete, como tu é inguinorante! É o mesmo qui caraio, só que é mais branquinho, mais molinho e mais menor. Viu como tem diferença?

Autor: Marcos E. Pereira

Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (Mestrado e Doutorado) da Universidade Federal da Bahia. O currículo Lattes pode ser acessado no site http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4799492A6

7 comentários em “Estereótipos e anedotas: duas amigas cariocas”

  1. Mais uma vez o estereótipo do negro sexualizado. Do pobre, favelado que não sebe falar direito, que gosta de pagode, que não sabe se vestir e que acha que o branco, só por ser branco é superior. Tsc tsc… Não tem nada de engraçado!!

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  2. Interessante é que a linguagem que foi utilizada não é a linguagem “habitual”que se faz para o carioca. Parece-me mais a caricatura de nordestinas; será que é por isso que têm-se da idéia de mulheres nas favelas do RJ?

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  3. Também percebi o que André falou. Quando li, me pareceu muito mais a forma que falam que nós nordestinos falamos.

    Ou seja, rolaria um preconceito triplo: contra Negros, Nordestinos e Pobres; somando as três categorias e aplicando a elas o rótulo de “Favelados” no RJ.

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  4. Continuando o raciocínio dos comentários anteriores conclue-se que essa anedota pode ser algo que insinue que o pobre favelado do RJ seja o estereótipo do nordestino, ou seja, é como se uma imagem que não os favorecesse (pobre, favelado, que não sabe falar direito) fosse transferida para a imagem que se tem do nordestino, sendo este colocado como diferenciado do carioca.

    Também não se pode deixar de falar da imagem que o pobre negro favelado tem sobre o branco, onde a mulher que saiu com ela via coisas desfavoráveis até como boas só porque parecia para ela um mundo diferente do seu que ela praticamente idolatrava.

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  5. A anedota revela o pensamento de que todo pobre favelado e negro não tem cultura, e também uma visão um pouco deturbada do que seria a vida de uma pessoa rica ou de um branco. Porém se pararmos para analisar, este tipo de pensamento é para ambos, tanto para o pobre como para o rico, ou como do branco para o negro, pois tem-se que levar em consideração a mentalidade imposta pela sociedade.

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  6. É uma pena que as pessoas que vivem em favela e que são negras, sofram muito com os estereótipos e anedotas impostos pela sociedade.
    Acredito que o nosso papel como alunos e futuros profissionais seja qual for a aréa de atuação, é olhar para essas pessoas como seres humanos merecedores de respeito, e que tem o direito de ser feliz. Quem sabe assim, possamos futuramente viver em um mundo mais humano.

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