As primeiras reflexões sistemáticas a respeito dos estereótipos foram apresentadas por Walter Lippman, um jornalista norte-americano. Ele sugeriu que na vida moderna as pessoas são convidadas a tomar, diariamente, uma série de decisões sobre um conjunto de temas a respeito do qual o qual não possuem qualquer conhecimento. Como esta decisão tem de ser tomada, e de forma rápida, na falta de um repertório informacional adequado que guie racionalmente a decisão, elas terminam por se sustentar em um conjunto de crenças, compartilhadas amplamente pela sociedade, e sobre as quais não se dispensou qualquer juízo avaliativo. O argumento central das reflexões de Lippman sobre os estereótipos parece ser este: cada ser humano, mesmo conhecendo apenas uma pequena parte da superfície terrestre, e ainda assim em caráter restrito e limitado, é solicitado a tomar decisões sobre um número substancial de questões, algumas extremamente complexas, sobre as quais não possui um entendimento satisfatório, o que o impõe a interpretar a realidade de acordo com o seu próprio ponto de vista, ao elaborar um retrato parcial e um tanto ingênuo a respeito do mundo em que vive.
Mês: dezembro 2007
Jô x Militantes: o polêmico vídeo
A entrevista é de muito mau gosto. E o entrevistador não está nada a vontade. Tirar água de pedra não é fácil. O entrevistador é um humorista; aliás, um excelente humorista. E como um bom humorista, não perde uma boa oportunidade de fazer piada. Quando as oportunidades se oferecem… o que não foi o caso! Penso que a reação de alguns movimentos sociais foi desproporcional ao fato. Em nenhum momento se observa comentários preconceituosos do entrevistador, embora a entrevista em si seja grotesca e perfeitamente dispensável. Penso que nesta história todos, exceto o entrevistado, cumpriram o seu papel. O entrevistador tentou dar alguma vida a uma entrevista que não funcionou; os movimentos sociais e embaixada de Angola acertadamente se obrigaram a não deixar passar em branco a reiterada expressão de concepções estereotipadas e preconceituosas em um importante programa de televisão. Polêmica à parte, creio que esta questão envolve uma discussão mais ampla: é possível fazer humor, sem ser politicamente incorreto?
O essencialismo e os estereótipos
Apesar do otimismo epistemológico inerente a boa parte dos estudos e intervenções psicossociais, as evidências empíricas encontradas na literatura acentuam a enorme dificuldade em suprimir, ou mesmo reduzir, o efeito dos estereótipos e, conseqüentemente, de combater o preconceito e a discriminação.
A influência exercida pela categorização social no processo de estereotipização é objeto de destaque na literatura psicossocial desde o trabalho germinal de Gordon Allport. Durante muito tempo as perspectivas dos protótipos e exemplares foram as principais alternativas teóricas para o estudo da categorização, situação que perdurou até meados dos anos 80, quando a introdução da teoria essencialista da categorização produziu mudanças significativas neste campo de estudos. O impacto da teoria essencialista tem sido reiteradamente identificado em estudos publicados nos últimos anos e os últimos desenvolvimentos teóricos sugerem que o essencialismo deve ser tratado como um conceito bidimensional. As crenças essencialistas podem ser agrupadas em duas categorias básicas, as naturalistas e as entitativas. Tanto na sua forma naturalista quanto na entitativa, o essencialismo se fundamenta na crença de que as pessoas são percebidas como dotadas de essências. E uma essência, ao contrário das aparências, é imutável. Esta crença na imutabilidade imposta pelo pensamento essencialista é a grande responsável pela enorme dificuldade encontrada para suprimir ou mesmo modificar os estereótipos.