Estereótipos e expressões populares: o brau

chamada

Contribuição: Greice Santos

Eu estava trabalhando quando uma amiga chegou, esbaforida, querendo me arrastar até um canto, pra me mostrar alguma coisa. ‘É um brau amigo, igual como você falou!! É um brau!!!’

Quando chego lá, lá estava, sentadinho no sofá, um brau. Com bermuda de surfista, cofrinho aparecendo, um bonezinho encardido com um piercing na aba, pulseirinhas de plástico no braço e camiseta machão (aquelas sem manga), de linha. Um brau, tipicamente. O alvoroço da minha amiga é que ela viu se materializar na sua frente o conceito da palavrinha que eu uso, volta e meia: BRAU.

Ser Brau não tem a ver com cor, sexo, raça ou classe social. É estilo.

Estilo Brau. Está no jeito de vestir, falar, andar e dançar. O típico brau se veste exatamente como descrevi acima. A mulher brau geralmente usa blusas de lycra com sutiã com alça de silicone, saia ou short sempre muito apertado. Antigamente ensopavam o cabelo com Kolene, mas pela evolução da espécie a maioria já aderiu à chapinha. Gostam de tudo que é moda, principalmente as ditadas pelas novelas. Andam pelas lojas pedindo o colar da Safira, a argola da Leona, a minissaia com legging do Lacraia. E usam isso mesmo décadas depois, vide sandálias com saltinho de cristal com as quais nos deparamos na rua a todo momento. E quando insistem em usar faixa no cabelo, a usam na testa.

Público fiel de shows tipo pagodão baixaria e arrocha. Adoram festa de camisa (É festa de camisa e colorida!!). Sabem todas as coreografias. Os homens, quando não sabem as coreografias, dançam fingindo que estão brigando, empurrando os outros, dando socos no ar. Na praia, gostam de dar saltos mortais por minuto, carregam o oléo de urucum na cintura da bermuda ou na pochete (Desconjuro!). Alguns passam água oxigenada. Gostam de óculos espelhados, imitação da HB, Mormmai ou Arnnete. E quando não estão usando os óculos, eles colocam a parte das lentes viradas pro pescoço, apoiando as hastes nas orelhas, e fica aquela coisa de que, de costas, ele parece que está de frente. No ônibus, adoram um batuque, ou um tumulto.

Mas para mim, o mais interessante de um Brau é o dialeto. Eu sou da teoria que todos nós temos um lado brau, e é no dialeto que reside o meu. Até já entrei na comunidade do orkut ‘Eu falo Braulês.’ Com um jeito de falar meio ameaçador, meio marrento, meio gozador, eles utilizam um vocabulário próprio. Cito então algumas das expressões mais utilizadas pelo Brau baiano:

Na tora- À força, contra sua vontade. Exemplo:

– ‘Ó mermão, você me dê essa porra logo, senão eu vou tomar na tora, vu!!’.

Pelo uso, já surgiu o advérbio de modo Natoralmente, utilizado da mesma forma: ‘Você me dê essa porra desse dinheiro logo, senão eu vou tomar natoralmente, vu?’

Eu quero é prova! – O brau não está botando muita fé no que você disse, ele não acredita que algo que foi dito irá se concretizar.
Exemplo:

– ‘Fulano disse que vai lhe picar a porra se você der em cima da mulé dele!’
– ‘Eu quero é prova que ele vai picá-la a disgraça na minha cara!!’

O Brau também poderia responder com a variante ‘Eu quero é prova e um real de Big Big!!’. Ou ainda: ‘Eu quero é prova, um real de Big Big e o troco de Paçoquita!’. Ou ainda, simplesmente responder o já famoso e conhecido ‘Aooooooonde!’, que já foi citado até na propaganda do HSBC, onde o carinha pedia a mulher em casamento e ela respondia Aoooooonde, querendo dizer, simplesmente: Não, tá louco, bebeu xampu???

Partir a milhão – Ir embora rapidamente, se mandar. Exemplo:

– ‘Rapá, quando eu vi que ia sobrar pra mim, eu parti a milhão!’

Também pode ser substituído por Partir a mil, Se sair ou Abrir o Gás.

Se botando – Tirando onda. Geralmente, está procurando confusão. Exemplo:

– ‘Oxe, você tá se botanu pra cima mim, é? Num se bote não, vu, não se bote não que eu pico-lhe a porra, sinha mizera, eu lhe arregaço!! Tá me comediando, eu sou palhaço por acaso??’

Mizera – Meu olhar atento às tendências do futuro me diz que Mizera será o novo Porra da Bahia. Surgiu da palavra Miséria, e é utilizado de diversas formas. Pode ser vocativo: ‘ô sinhá Misera, venha cá!!!’, artigo indefinido ‘Esqueci a mizera do cartão em casa’, Sujeito: ‘A mizera nem me ligou no dia dos namorados’, e por aí vai. Atualmente na Bahia, já surgiu o derivado da palavra, utilizado como adjetivo para alguém que não leva desaforo pra casa: Miseravão, Miseravona.

Queixar – Verbo que pode ser usado no sentido de pedir, usando a cara de pau; ou paquerar. Exemplo:

– ‘Na moral vu, man… vou queixar meu chefe pra me liberar amanhã…
vô chegá lá queixando: Me libere aí vá, na moral, que eu tenho que resolver uns pobrema pessoal…’

– ‘Fulano me queixou na festa de ontem, a gente acabou ficando.’

Também existe a variação, quando queremos incentivar alguém a queixar alguma coisa: ‘Jogue os queixos, velho!!.’ Sem falar na pessoa que está sempre pedindo tudo na maior cara de pau: ‘Ele é muito queixudo/queixão.’ Ou ainda a expressão ‘Que queixo!!’, como por exemplo:

– Porra, você ganhou dois brindes, me dê um, vá, na moral!!
– Oxe!! Que queixo!! Se saia, mermão, vô ficar com os dois.

Barão – Moeda corrente. Exemplo:

– ‘Moço, quanto é esse relógio??’
– ‘Aê, morena, pá você eu faço 10 barão.’

Também não podemos deixar de citar palavras e expressões corriqueiras, utilizadas sempre pelos Braus e simpatizantes (como eu…):

Buzu, buzão, Coletivo ou Carro – É o famoso G.O.L (grande ônibus lotado). Quem dirige é o Motô, e o responsável por receber o pagamento da passagem é o Cobra.

Colé véi, colé de mermo – Qual é, e aí?

Trazerar – Não pagar passagem no ônibus. Antigamente os ônibus em Salvador tinham a entrada pela frente e os coithado que não queriam pagar entravam pela porta traseira.

Água dura – Quando uma festa vai ser ‘Água dura’ significa que vai ter muita cachaça. Você vai ‘Comer água’ e chegar em casa ‘Em águas’.

É nenhuma! – Tudo bem, relaxe, não se esquente, é nenhuma.
– Porra, foi mal não ter te ligado ontem…
– É nenhuma!!

Paletar – Andar demais, andar à pé longas distâncias.

Tirado – Um cara metido, arrogante.

Sem falar nas licenças poéticas: Vidro é vrido, fósforo é froscu, fóscuru, frosfro. Calota vira carlota, ônibus vira ôndibu…

Enfim, ser Brau envolve mais conceitos do que pode abranger nossa vã filosofia. Pode ser tudo isso junto, ou apenas um item isolado. Você pode SER brau, ou ESTAR brau. Mas o mais importante: Estará sempre sendo muito divertido!!

Tá ligado, Bródi?

E você? Quantos braus você conhece??

Fonte: Estado de Espítito

18 comentários sobre “Estereótipos e expressões populares: o brau

  1. Muito divertido o texto.

    Braulês tem muitas similaridades com o baianês, assim como o português brasileiro e o de portugal entre eles.

    Mas discordo que “ser brau” não tem a ver com raça, cor e classe social.

    A própria expressão brau é uma adaptação de “brown” ( marron em inglês). A estereotipização no caso tem uma certa carga negativa, é uma linguagem marginal.

    As vestimentas caracterizam um segmento da sociedade que também quer, dentro de seu contexto e de suas possibilidades, fazer parte da sociedade de consumo – como é perceptível na descrição da escolha dos óculos escuros.

    E nem por isso deixei de dar muita risada. 😀

  2. Agora vou saber identificar qualquer brau, além de saber o que estão dizendo. Rs. Interessante como os estereótipos são agregados os respectivos sujeitos. Surgindo, desta maneira, uma identidade de grupo. Ou emergindo um novo grupo.

  3. Oxe, namoral, que onda desse maluco, vu. Altas reflexões, véi.

    Mas é ninhuma, se ligue rapá, tá decende. Tô aqui viajano… rindo em altas.

    De leve, vu mô pai, também non sô minino, tô plantado aqui pra mainha num vê que tô de migué.

    É isso aí bródi, falô, vô sartar, negão.

  4. Como se diz aqui na minha terra, sim porque o Imbuí é um lugar a parte, é o famoso bicho solto. O imbuí é o lugar que tem mais brau, bicho solto e derivados por metro quadrado em Salvador, é a terra do braus, aqui eles se multplicam, pra não dizer pululam entre as barraquinhas de cerveja. Basta um passeio de final de tarde pela praça do Marback pra se ter uma ideia do que se trata. Meu irmão fique na sua se não o bicho pela pro seu lado. Se falar por girias ou giriar é coisa de brau, bicho solto, então ta mais fácil levantar a mão quem não é brau mesmo. é nenhuma mesmo, cabeça de gelo, olho de peixe… o dicionário é tão grande que melhor criar um forum só para esse fim.

  5. hahahahahahahahhaha
    ADOREI o texto. Muito divertido mesmo.
    Eu não tinha nem percebido como eu mesma faço essa categorização. Por exemplo: eu tenho uma amiga que tem um péssimo vício de linguagem de falar “cumeno, andano, etc”. Quando ela faz isso do meu lado eu chamo a atenção dela, e adivinhem como eu chamo? “Ai que coisa brau… Fale português direito”.
    Também tenho uma prima que é pagodeira de carteirinha, quando ela me fala que vai pra essas festas de camisa colorida eu brinco com ela dizendo: “vai sua brauuu!”.
    Eu penso que, como no caso dessas duas pessoas que eu citei, hoje em dia nem é preciso ter todos os atributos para ser caracterizado como um legítimo “brau”. Basta corresponder a uma característica que é comum evocar a categoria toda.

  6. Muito interessante a forma buscou ancorar os vários adjetivos e as similaridades de um grupo para definir uma categoria. Eu adorei e achei muito criativo o texto.

  7. É um ótimo texto, pena que essa linguagem utilizada pelos “Brau” muitas vezes substituem o que realmente eles querem dizer, palavrões, ofensas e por ai vai…
    Obs.: Tirando os palavrões é muito divertido esses estilos “brau”…

  8. Gostei muito do estilo “brau” e tenho respeito por eles, afinal todo ser humano tem o direito de viver como bem quer. Esse é mais um dos rotúlos utilizados pela nossa sociedade.
    Discordo apenas, quando os próprios baianos apresentam essas pessoas como centro de piadas, desvalorizando a cultura que é de todos nós sendo brau ou não.

  9. Fui pra Salvador semana passada e conheci o estilo brau. Tem deles em outros estados e cidades mas acho que só na capital baiana eles têm nome. Mas o texto é bem explicativo sobre o assunto.

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