Resenha: Influencia de los estereotipos en la percepción de la obesidad

Natália Canário Gomes

A Organização Mundial de Saúde define o sobrepeso e a obesidade como um acúmulo excessivo de gordura no corpo com níveis capazes de afetar a saúde, sendo considerados os maiores fatores de risco para diversas doenças crônicas. Atualmente, não só os países desenvolvidos apresentam um alto número de pessoas acima do peso ideal. O que vem acontecendo é um aumento, principalmente nas áreas urbanas, de casos de sobrepeso e obesidade mesmo em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Estes dados fizeram crescer o interesse nos programas de tratamentos para redução destas taxas. No entanto, o que se vê é uma grande preocupação com os hábitos alimentares e de atividades físicas, deixando de lado as diferentes percepções que existem não só acerca do tema, mas, também, dos indivíduos considarados gordos ou gordas. Tendo em vista este descaso, os autores Fernández, González, Lobera e Millán (2008), produziram o artigo “Influencia de los estereotipos en la percepción de la obesidad”, a fim de agregar aos projetos psicoeducativos que tratam da obesidade, os estereótipos e crenças sobre a mesma.

Segundo os autores, os estereótipos fazem com que percebamos os indivíduos com características específicas, de acordo com o grupo ao qual pertencem. Assim, uma só característica nos leva a inferir traços de personalidade, capacidade física e intelectual, etc, ainda que não se disponha de outros dados referentes à pessoa ou grupo em questão. Associado a isto, a aparência constitui-se num dos aspectos mais relevantes na formação das teorias implícitas da personalidade. Como o sobrepeso e a obesidade se expressam também em imagem, as pessoas que sofrem destas patologias são alvos recorrentes dos estereótipos.

Os estereótipos, que agregam crenças acerca de um grupo, são o componente cognitivo do preconceito. No entanto, considera-se que é o componente afetivo que constitui o preconceito em si. Quanto ao sobrepeso e à obesidade, existem discordâncias quanto a se esta atitude negativa leva à discriminação. Enquanto alguns argumentam que não, é frequente que se atribua às obesas a responsabilidade pelo seu estado, discriminando-as e penalizando-as socialmente por sua falta de auto-controle.

Para os autores, no caso da obesidade, o preconceito enviesa os processos de categorização, fazendo com que a partir de um dado físico categorizemos uma pessoa obesa de acordo com nossas crenças, numa fusão entre estereótipo e categorização. Isto leva a uma discrepância nas atribuições feitas às pessoas pertencentes a este grupo: aspectos negativos (mais abstratos) são atribuídos a causas internas, enquanto que os positivos (mais concretos) tendem a ser atribuídos a causas externas e instáveis. Este fato é de fundamental importância, tendo em vista que as formas mais abstratas são muito mais resistentes à mudança, e tendem a ser percebidas como estáveis.

Numa sociedade onde é cada vez mais desencorajada a manifestação do preconceito, a redução real do mesmo não existe. Assim como é visto em relação a outros grupos, os obesos são alvos do preconceito sutil, automático, não expressado. A presença de atitudes negativas frente à obesidade é constatada em todas as idades, níveis de escolaridade, gêneros, e com algumas nuances interculturais.

Diante destas considerações, os autores conduziram um estudo para observar se a percepção da obesidade é diferente entre um grupo de universitários (sem sobrepeso), um grupo de pessoas com transtornos alimentares (com peso normal), e outro composto por obesos. A amostra total contou com 234 participantes, sendo 138 universitários, 47 com transtornos alimentares e 49 com obesidade.

O material utilizado foi uma lista de 146 adjetivos do inventário para avaliação dos transtornos de personalidade de Tous, Pont e Muiños, destinado a adolescentes e adultos de ambos os sexos. Através do inventário é possível destacar nove tipos de personalidade normal, bem como as alterações de personalidade que parecem se correlacionar com cada uma delas. Assim, os tipos de personalidade normal/alterada são: Introvertida/Esquizóide, Inibida/Evitativa, Cooperativa/Dependente, Sociável/Historiônica, Confiante/Narcisista, Convincente/Anti-social, Respeituosa/Obsessivo-compulsiva, Sensível/Passivo-agressivo, Impulsiva/controlada.

O questionário foi aplicado por uma psicóloga ao grupo de universitários e ao de pacientes com transtornos alimentares. A estes grupos foi pedido que assinalassem os adjetivos que, para eles, melhor classificariam os obesos. Já ao grupo de pessoas obesas, foi pedido que escolhessem os adjetivos que melhor descreviam sua forma de ser. Quem ficou encarregada da aplicação do inventário neste último foi uma enfermeira.

Durante a interpretação dos dados foi visto que, na amostra geral, há uma coexistência da adjetivos positivos e negativos. Contudo, é destacável que os adjetivos mais citados não estão entre os que definem as personalidades confiante e convincente, o que não ocorre quando consideradas as diferenças intergrupais. Vistos separadamente, os referidos tipos de personalidade estão presentes quando se considera a percepção que os obesos têm de si (acrescidos da personalidade respetuosa). Já as pessoas sem sobrepeso da amostra vêm as pessoas obesas como introvertidas, inibidas e sensíveis.

Assim, o que se pode constatar é que a forma de perceber, qualificar e definir os obesos por parte do grupo de sujeitos com obesidade é muito diferente da forma como o fazem os dois outros grupos. A percepção que as pessoas obesas têm de si é muito mais positiva que a percepção que o grupo de estudantes e o de pacientes com transtornos alimentares têm acerca dos obesos. Os resultados também indicam que os estereótipos induzem a um enviesamento perceptivo quanto às características da personalidade.

O pavor que as pessoas com transtornos alimentares têm de ganhar peso pode explicar o porque deste grupo ter atribuido às pessoas obesas características de personalidade mais negativas que os indivíduos do grupo controle (universitários). Mas, ao mesmo tempo, o uso – aparentemente de forma compensatória – de alguns adjetivos por estes grupos mostram a perpetuação do mito do “gordo feliz”, bondoso, complacente, etc. Além desses aspectos, estando de acordo com a teoria, os dois grupos sem sobrepeso não assinalaram alguns adjetivos que não viessem a confirmar os estereótipos relativos aos obesos.

Por fim, o artigo é concluído destacando a importância de um tratamento, tanto da obesidade, quanto dos transtornos alimentares, que abarque um trabalho psicoeducativo preocupado com as teorias implícitas da personalidade acerca das pessoas obesas. Deve-se, assim, estar atento aos estereótipos, à estigmatização e à culpabilização destes indivíduos.

Este destaque feito pelos autores pode ser corroborado por outros estudos, que mostram que os próprios profissionais de saúde devem ser submetidos ao trabalho psicoeducativo proposto. Cardeal, Cordás e Segal (s.d.), num artigo sobre os “Aspectos psicossociais e psiquiátricos da obesidade”, relatam que atitudes e estereótipos negativos em relação à obesidade por parte de médicos e demais profissionais da área são frequentemente descritos na literatura sobre o tema. Uma das consequências disto é que os médicos podem se sentir menos interessados em tratar pacientes com sobrepeso, por considerar que eles têm pouca força de vontade, e que pouco se beneficiarão do aconselhamento. Mais do que isto, vê-se que a percepção destas atitudes e estereótipos por parte do paciente dificulta o tratamento, tendo em vista que ele fica mais relutante em procurar ajuda adequada.

No entanto, a relevância dos resultados obtidos ultrapassa a problemática terapêutica. O fato de pessoas obesas frequentarem menos anos a escola, terem menos chance de serem aceitas em escolas e, quando mais velhas, de conseguirem os empregos mais concorridos, além de terem os salários mais baixos e menor probabilidade de se envolverem num relacionamento estável (Cardeal, Cordás e Segal, s.d.), são indicativos do quão necessário é perseverar nos estudos sobre a obesidade, seus estereótipos, e o impacto destes na vida das pessoas com sobrepeso ou obesas.

Referências:
Jauregui Lobera, I.; Rivas Fernandez, M.; Montana Gonzales, M.ª T. e Morales Millan, M.ª T.. Influencia de los estereotipos en la percepción de la obesidad. Nutr. Hosp. [online]. 2008, vol.23, n.4, pp. 319-325. ISSN 0212-1611. Disponível em: http://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0212-16112008000500003&lng=pt&nrm=iso

Cardeal, A., Cordás, M. V., Segal, T. A. (s.d.). Aspectos psicossociais e psiquiátricos da obesidade. Revista de Psiquiatria Clínica. Disponível em: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol29/n2/81.html

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