Resenha: As diferenças entre os sexos: Mito ou realidade?

Thamires Wanke

O presente artigo de Gabrielle Poeschl, Cláudia Múrias e Raquel Ribeiro, publicado em 2003, que visa questionar-se acerca dos papéis sociais de homens e mulheres baseados numa suposta matriz biológica, é todo tecido em cima dos resultados de pesquisas científicas em que se exerce o diálogo entre possíveis contradições; contra argumentos e demais percepções sobre diferenciação sexual.
Como dito no texto, as teorias sexistas propagadas durante e após a Revolução Industrial que tentavam justificar as posições sociais dos sexos, e consequentemente, o Status Quo da mulher, em uma condição inferior e degradante, foram e são abertamente apoiadas assim como, continuam a disseminar-se.
A nova roupagem das hipóteses que tentam provar uma diferenciação sexual, atualmente valorizadas por muitos neurocientistas, afirmam que em função das diferenças cerebrais entre homens e mulheres, estes comportam-se de forma diferenciada, ou seja, deixa-se aquém o processo de aprendizagem social que cada indivíduo inserido numa dada cultura sofre.
Na segunda metade do século XIX inúmeras teorias destacaram-se pela busca da natureza de homens e mulheres, falando aqui especificamente da craniometria. A constatação das diferenças entre tamanho do cérebro e o desenvolvimento de determinadas áreas cerebrais a pertença sexual tornou-se uma constatação importante da fisiologia para a crença das mulheres instintivas e dos homens de racionalidade.
Atrelado a isso estudo Americano publicado pela revista Nature assume que um bom desempenho em testes de QI está ligado a quantidade de massa cinzenta que a pessoa tem no cérebro. Visto que mulheres possuem mais massa branca e homens maior quantidade de massa cinzenta a constatação corrobora com a hipótese de que as mulheres apresentam-se como dominadas pelos instintos e as emoções, manifestações inibidas nos homens pela sua inteligência superior (Shields, 1986).
Alain Giami (2007) atenta ainda para o crescente patrocínio farmacológico neste tipo de pesquisa que por fim gera produtos novos que dizem “solucionar” problemas relacionados por exemplo a funções sexuais.
“Essas pesquisas parecem reforçar as representações tradicionais e mais que centenárias da sexualidade masculina e feminina, também embasadas nas dicotomias opostas da natureza biológica da sexualidade masculina e da natureza espiritual da sexualidade feminina.” (GIAMI 2007)
As discussões propostas no artigo também são retratadas no livro de Elisabeth Badinter Um é o Outro. A autora tenta desmistificar os tabus sexuais e propor uma nova forma de se pensar os gêneros. Afirma que apesar da divisão sexual do trabalho sempre persistir, muitos antropólogos e historiados argumentam que no início do processo evolutivo tanto homens quanto mulheres estavam aptos a realizar as mesmas tarefas, porém o advento do bipedismo fez com que a prole dificultasse a locomoção feminina, visto que os bebês tiveram que nascer mais prematuros em função do estreitamento da bacia, o que levou ao maior cuidado com as crianças além da impossibilidade de serem carregados nas costas.
Essa condição evolutiva acabou por “impossibilitar” as mulheres a caça, porém estas cultivavam, e ao contrário do que o senso comum atesta, os legumes e vegetais eram extremamente importantes à alimentação bem como a carne; e as aquisições comportamentais derivadas das diferentes tarefas foram sendo adquiridos por ambos os sexos, apenas com algumas diferenciações. Em que através da caça na savana os homens desenvolviam a atenção, a tenacidade e a astúcia Edgar Morin (1973) e as mulheres que por não possuir as características físicas dos machos tinham de coletar eficaz e rapidamente estimulando suas percepções de perigo por exemplo, Adrienne Zilhman (1970).
Além disso, com advento da agricultura, as mulheres ganharam notoriedade por serem a principal fornecedora de alimento em épocas de seca ou enchentes.
Essa constatação por sua vez, enfraquece a idéia de que a evolução segregou os homens das mulheres. Na arte pré histórica por exemplo, percebe-se uma valorização de ambos, tanto na figura da deusa mãe (que tinha o poder de dar e tirar a vida), quanto na imagem do homem caçador (aquele que se arriscava perante as feras, trazendo carne ao grupo).
Voltando ao artigo, as autoras irão destacar uma série de pesquisadores que em confronto debatem sobre se as diferenças morfológicas entre os sexos explicam, as diferenças de aptidões, temperamento, inteligência, etc. Em linhas gerais o que se percebe é: Primeiramente que os resultados encontrados numa busca pela diferenciação sexual descrevem respostas muito pouco discrepantes ou mesmo iguais, que os cientistas são majoritariamente homens e que os métodos são pouco precisos e/ou contestáveis.
Mostra no texto que com base na hierarquização dos grupos sexuais Termam e Miles (1936) elaboraram o Teste de atitudes e de interesses que permite oferecer uma descrição da mulher típica através de uma série de oposições com o homem típico; pondo em contraste às emoções em detrimento das racionalidades e impossibilitando o tráfego de aptidões entre os gêneros.
Traz Parsons (1956) que analisa às esferas pública e privada, pela associação que o autor estabelece entre os temperamentos masculinos e femininos e os papéis que eles desempenham. “Por outras palavras, as famílias mais eficazes e mais coesivas seriam aquelas em que os homens e as mulheres desempenham, respectivamente, os papéis instrumental e expressivo (cf. Brown, 1988)” (referência do texto pág.3).
“Desligadas da sua origem social, as maneiras de ser dos homens e das mulheres tornam-se um dado psicológico proveniente meramente do seu sexo biológico e permitem justificar as desigualdades de acesso a posições que requerem competências instrumentais ou expressivas” (Lorenzi-Cioldi, 1994).
Desta vez o artigo fala do Questionário de estereótipos de papéis de sexo de 1970 por Rosen- krantz, Vogel, Bee, Broverman e Broverman (1968) que confirma a existência da valorização dos atributos ditos masculinos daqueles femininos, além da crença estereotipada de que os homens são racionais e assertivos e as mulheres calorosas e expressivas.
O texto atenta para como o conteúdo dos estereótipos sexuais interferem na construção simbólica da sociedade e desta forma passa a ser instrumento de discriminação nos gêneros. Traz ainda a androgenia, como sendo aquela que esta além da construção do feminino e masculino flexível as características demarcadas de homem e mulher.
“As estatísticas, os testemunhos e a experiência pessoal de cada um mostram, sem contestação, que homens e mulheres estão modificando profundamente a imagem que fazem de si mesmos e do Outro. Suas respectivas atribuições – por muito temmpo definidas pela “natureza” de cada um dos sexos – são diferenciadas cada vez com mais dificuldade”
(BADINTER, Elisabeth. Um é o outro. 3ªed. RJ: Nova Fronteira, 1986)
Porém o ponto chave do artigo é a discussão acerca do sexo como uma característica biológica. Neste quesito os teóricos se dividem e trazem diversos dados sobre as “diferenças” sexuais, quanto a infidelidade, a agressividade, a conformidade, a linguagem, capacidades cognitivas, ao reconhecimento de emoções (que por sinal vai de encontro a hipótese também evolutiva de Paul Ekman, que diz que independente do sexo, classe social e/ou cultura as pessoas reconhecem as emoções nas expressões faciais igualmente.) etc.
Por fim, as autoras concluem o artigo mostrando que o estereótipo de homens e mulheres não passa de uma possível visão dos papéis sociais e da sociedade; de que as pesquisas científicas não tiverem a capacidade e/ou qualidade de provar que a morfologia cerebral/biologia sozinha explica o comportamento de homens e mulheres.
De que independente de um traço evolutivo, as mulheres necessitam refletir sobre seu papel na sociedade, e valorizarem a sua condição feminina, tendo em vista a sobreposição a uma ordem preconceituosa e estigmatizante.
Muitas mudanças têm acontecido, principalmente nos últimos séculos, e é notável que ainda exista uma definição de papéis. Conceitos engessados sobre as questões de gênero estiveram presentes por muito tempo na história da humanidade, fizeram e ainda fazem parte da ideologia dominante, e discursos religiosos ou biológicos contribuíram para isso. As aracterísticas relacionadas aos gêneros foram se legitimando, e o papel que cada sexo tinha na sociedade começou a ser enxergado como algo dado a priori, e não como uma construção também cultural e modificável.
Logo, é preciso perceber a implicação de se afirmar que existem características instrinsecamente masculinas e femininas, pois é perigosa essa ideia, e pode nos levar à conclusão de que essas diferenças entre os gêneros justificam os lugares diferenciado na sociedade para homens e mulheres.
A visão de homem como sendo bio-psico-social, não pode se firmar enquanto enxergarmos os indíviduos como sendo apenas fruto de uma evolução biológica da espécie, consolidando uma dicotomia que se assegura na sobreposição de Um pelo Outro.

Referências:
BADINTER, Elisabeth. Um é o outro. Editora Nova Fronteira, 3ª Ed.; 1986.
GIAMI, A. Permanência das representações do gênero em sexologia: as inovações científicas e médicas comprometidas pelos estereótipos de gênero. Physis, 2007, 17, 2, 301-320. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/physis/v17n2/v17n2a06.pdf > . Acessado em: 03/03/2013
POESCHL, G.; MÚRIAS, C.; RIBEIRO, R. As diferenças entre os sexos: Mito ou realidade? Análise Psicológica. 2003, 21, 2, 213-228. Disponível em: <http://www.scielo.oces.mctes.pt/p

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