Resenha: representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento

Nina Maia de Vasconcelos

No artigo Representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento, os autores apresentam e analisam os resultados do estudo que teve como objetivo investigar a representação social de um grupo de crianças acerca do velho e do processo de envelhecimento. Ressalta-se que as crianças tinham entre cinco e dez anos de idade e viviam em ambiente rural, o que trouxe relevantes implicações nos resultados, demonstrando que o contexto no qual vivemos é de suma importância para as nossas experiências e conseqüentemente para a percepção que temos do mundo e para a construção das nossas crenças.
Na revisão da literatura são trazidas contribuições de diversos autores sobre o envelhecimento que propiciam uma melhor compreensão do tema. Para Beauvoir (1990, apud Lopes e Park, 2007), por exemplo, as representações do velho e da velhice são resultados tanto das circunstâncias materiais de cada sociedade quanto do seu sistema de valores e crenças. Tal autor ressalta ainda que tais sistemas podem se apresentar de maneiras diferentes em diferentes sociedades e são passíveis de mudanças ao longo do tempo dentro de uma mesma sociedade. Para contextualizar o seu estudo, os autores também citam diversas pesquisas nacionais e internacionais que assim como eles se propuseram a investigar as crenças, atitudes, percepções e representações sociais do velho e da velhice. Eles destacam que nos resultados de tais pesquisas, as relações entre os velhos e aspectos negativos tais como perdas de funções biológicas, perdas nas relações familiares e no ritmo de trabalho são predominantes, apesar de aparecer também a ideia do velho sábio e experiente.
A análise dos dados encontrados foi feita à luz do conceito de representação social. Sobre tal conceito, os autores consideram que a partir das ideias de Moscovici (1978, apud Lopes e Park, 2007), é possível dizer que as representações sociais são uma forma de conhecimento construída por um grupo acerca de um objeto social que vai influenciar nos comportamentos e na comunicação dos integrantes deste grupo. Os resultados da pesquisa mostraram que as características físicas aparecem como uma importante forma para as crianças reconhecerem os velhos, assim como a condição de ser avô ou avó. Em outras palavras, para as crianças todo avô é velho e vice-versa. Porém, uma ressalva interessante é feita em função da fala de duas crianças que são criadas por seus avós. Para elas, eles não são muito velhos, o que demonstra que além das condições físicas, o papel desempenhado pelo indivíduo também é importante na sua percepção como velho. Ou seja, faz parte do estereótipo do velho ser avô e do avô ser velho, porém, quando um avô, apesar de ter idade para ser considerado velho, exerce uma função que normalmente é exercida por pessoas mais jovens, ele pode ser percebido como menos velho.
Os autores destacam que a associação de pessoas velhas com a morte, doenças e com limitações físicas que foi encontrada nos resultados da pesquisa sofre a influência do modelo biológico que considera a velhice como o período da vida caracterizado principalmente por perdas. Dessa forma, os autores concluem que as informações científicas advindas do universo reificado também atingem a população em geral, incluindo as crianças, através da mídia, o que influencia na representação social da velhice. Um ponto curioso encontrado pelos autores foi que apesar das crianças terem relacionado o velho a condições de limitações físicas, para elas os velhos não são pessoas reclusas nem excluídas da sociedade. Tal observação levou os autores a estabelecerem a categoria de análise intitulada “num monte de lugar”. Interessante que algumas crianças que já tinham visitado cidades maiores mencionaram a ideia de que os velhos moram nas ruas, o que demonstra que a imagem que elas constroem dos diversos objetos se relaciona diretamente com as experiências vividas por elas. Além de considerarem que os velhos estão em um monte de lugares, também foi destacado que as crianças acham que os velhos fazem um monte de coisas, o que tem uma relação com a observação que elas fazem dos velhos com quem convivem, já que no ambiente rural onde elas moram, a aposentadoria não é tão freqüente (1999, Albuquerque, Lobo e Raimundo apud Lopes e Park, 2007).
Na análise dos achados os pesquisadores constataram ainda que as crianças também consideravam outras possibilidades para a imagem do velho, além daquela de debilidade física. Em algumas ocasiões os velhos foram representados como pessoas que trabalham, podem viajar, estudar e se divertir. De acordo com os autores, essa imagem mais positiva do velho tem relação com a imagem da terceira idade ativa que tem sido amplamente divulgada pela mídia. Sobre isso, os autores consideram que como as representações sociais são construídas pelos sujeitos a partir de informações provenientes da sociedade, no intuito de organizá-las tornando-as familiares (2005, Moscovici, apud Lopes e Park, 2007), a existência de imagens conflitantes acerca do velho encontrada nesse estudo representa justamente esse processo de construção e re-construção das representações sociais.
Por fim, os autores enfatizam a presença de representações sociais aparentemente contraditórias acerca do velho que ao mesmo tempo em que foi representado como apresentando limitações físicas e doenças também apareceu como sendo ativo e trabalhador. Para os autores, esse fato não é uma incoerência, pois considerando que as representações sociais são construídas com base nas informações que são divulgadas na sociedade, os achados demonstraram que as representações sociais que as crianças pesquisadas têm acerca do velho estão condizentes tanto com as suas respectivas experiências com esse objeto social assim como com as imagens que são divulgadas sobre o mesmo: ora os velhos nos são apresentados como pessoas ativas e que aproveitam a vida, ora como pessoas frágeis, mais sujeitas a doenças e que necessitam de cuidados especiais. Sobre esse aspecto encontrado na investigação, os autores também constataram que a coexistência de tantas informações diferentes sobre o velho pode indicar um momento de transição na representação social deste e que com o tempo apenas uma dessas imagens poderá se sobressair.

Referência: LOPES, Ewellyne Suely de Lima and PARK, Margareth Brandini. Representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento. Estud. psicol. (Natal) [online]. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-294X2007000200006&script=sci_arttext. Acesso em 20 de março de 2013.

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