Premissas e fundamentos

O que faz com que reproduzamos estereótipos, acolhamos atitudes preconceituosas e discriminemos nossos semelhantes? Uma vez que a resposta para estas questões pode ser algo inerente ao indivíduo ou o resultado de um conjunto de forças presentes na sociedade, abre-se a possibilidade de adoção de uma posição mais integrativa e a consequente admissão de que a expressão dos estereótipos, preconceitos e discriminações seja o resultado do efeito conjunto de fatores inerentes aos indivíduos e aos contextos social, histórico, geográfico ou cultural no qual aqueles vivem. As perspectivas integrativas têm sido vistas com bons olhos pela psicologia social e hegemonicamente adotadas como a estratégia metateórica padrão, não apenas nos estudos dos estereótipos, mas na psicologia social como um todo.

Esta solução, no entanto, não se encontra imune a críticas, sobretudo porque independente da maneira pela qual a integração é concebida, se mediante estratégias de redução ou de emergência de um nível a outro, ou mediante a adoção de um postulado de complementaridade teórica e metodológica, persiste uma dicotomia de fundo, até agora impossível de ser superada, entre indivíduo e sociedade.

A presente obra representa uma tentativa de explicar e compreender os estereótipos mediante a adoção de uma perspectiva na qual procuramos romper com esta visão dicotômica, mediante a inclusão de uma terceira categoria metateórica, a perspectiva conflitualista hierarquizadora. Ao longo da obra desenvolvemos o argumento de que a categoria analítica conflito deve receber um estatuto semelhante ao desfrutado pelas noções de indivíduo e contexto.

Desde tempos imemoriais as relações entre os grupos humanos têm sido marcadas por tensões e ameaças, que não raras vezes se transformam em dissenções e avançam até desembocarem em ações intergrupais hostis e violentas. As relações entre os grupos humanos ao longo do processo civilizatório raramente foram regidas pela noção de igualdade, sendo mais provável admitir que se ordenaram em consonância com uma concepção que pode ser qualificada como hierarquizadora ou, poderíamos acentuar, marcada pela ideia de dominação de uns grupos humanos sobre outros. Uma consequência óbvia desta perspectiva é o reconhecimento de que, infelizmente, alguns grupos se apropriaram da maior parte das riquezas materiais e simbólicas, enquanto outros foram apartados do acesso aos bens e aos recursos encontrados na natureza (Deininger, & Squire, 1996; Hoffman, 1998; Scalon, 2004).

Algumas expressões da dominação social, a exemplo do colonialismo (Kohn, & Reddy, 2017; McCarthy, 2009) e da escravidão ( Parish, 2018) foram características marcantes no desenvolvimento dos grupos humanos desde os primeiros milênios da nossa história e as consequências destas formas de organização social se manifestaram, não apenas na posterior organização política e social dos agrupamentos humanos, como também devem ter deixado marcas na nossa linguagem, nas nossas estruturas de pensamento e na mentalidade de todo e qualquer ser humano. Nesse contexto, como não reconhecer a categoria teórica conflito como um recurso analítico importante? A admissão desta premissa acarreta necessariamente o reconhecimento de que na expressão dos estereótipos devemos considerar a existência de uma relação conflituosa entre dois grupos, na qual um procura preservar os privilégios materiais e simbólicos, enquanto o outro se orienta pelo desiderato fundamental de impor mudanças na organização social de maneira a recuperar os recursos e direitos que lhes foram indevidamente subtraídos (Drescher, 2000).

Depreende-se, em função do exposto, o quanto qualquer perspectiva mais abrangente de estudo deve considerar os mecanismos psicológicos individuais, as influências mais amplas do contexto social e o papel desempenhado pelos estereótipos como mediadores das relações entre os grupos de poder diretamente envolvidos em disputas nas quais as representações estereotipadas encontram o seu lugar de expressão.

As consequências da admissão da perspectiva conflitualista impõe uma mudança acentuada na maneira pela qual se concebe as relações entre aquilo que se define como as variáveis individuais e as denominadas variáveis contextuais. O painel A da figura 8 representa o modelo dicotômico tradicional de estudos, no qual se identifica claramente as relações de interdependência entre os indivíduos (p e p’), cujas relações ocorrem em um determinado contexto. Nesta perspectiva, as pesquisas podem privilegiar ora as variáveis inerentes aos indivíduos, ora aquelas relativas ao contexto social no qual estes se inserem, ou numa abordagem mais integrativa, tentar incorporar as variáveis individuais e contextuais em um mesmo plano analítico.

Figura 8: modelos metateóricos de estudos dos estereótipos na psicologia social

A constante tensão entre os modelos que privilegiam o polo individualista e os que favorecem à dimensão contextualista sugerem o insucesso das perspectivas integradoras, tornando-as menos satisfatórias do que as apresentadas no painel B. Este, ao contrário do primeiro, inclui a perspectiva conflitualista como uma categoria de análise, situando-a no mesmo patamar ocupado pelas as variáveis individuais ou contextuais, o que elimina a dicotomia inerente ao modelo encontrado no painel A. Discutiremos as implicações da inclusão no estudo dos estereótipos da introdução a categoria teórica conflito no capítulo 4, sendo importante assinalar que a nossa concepção demanda a inclusão de três planos de considerações, as que correspondem ao plano individual, as que se referem ao contexto e as relativas às diferenças hierárquicas e posicionais entre os indivíduos e grupos sociais.

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