Conclusões

O que podemos concluir até o momento? Nesta seção do trabalho apresentaremos as conclusões preliminares do nosso estudo, evitando ao máximo as discussões técnicas e a apresentação de inferências estatísticas.

O leitor interessado nas discussões técnicas relativas a cada uma das hipóteses pode clicar aqui para ter acesso às análises estatísticas das nossas hipóteses de trabalho ou aqui para acessar os fundamentos teóricos e conceituais da pesquisa.

Caso o interesse seja visualizar de forma resumida e mais dinâmica os resultados, clique aqui.

Crenças

Em que as pessoas creem? Os resultados que até aqui obtivemos sugerem um quadro complexo em relação aos sistemas de crenças. O modelo de análise aqui adotado se sustenta na diferenciação de dois sistemas de crenças, as tradicionais, composto pelas crenças em deus, em milagres, no céu, no diabo e no inferno, e as cientificamente justificadas, um sistema constituído pelas crenças na genética, em átomos e moléculas, na teoria da evolução, em vacinas, no aquecimento global e no big bang.

Solicitamos aos participantes que ordenassem as doze crenças acima listadas em ordem de importância. Os resultados, registrados na figura 1, deixaram claro que a crença em deus foi considerada a mais importante para a maioria dos respondentes. Na sequência, os participantes posicionaram quase todas as crenças cientificamente justificadas para, finalmente, classificarem as demais crença tradicionais. Duas crenças tradicionais, a no diabo e a no inferno, ocuparam as posições finais, enquanto a crença cientificamente justificada no big bang ocupou um das últimas posições.

Figura 1: ordem de importância das crenças

A partir das respostas acima expostas, foram compostos dois indicadores, um relativo à importância dada às crenças tradicionais (CT) e um segundo, obtido a partir da média das posições ocupadas pelas crenças cientificamente justificadas (CJ). A evolução das respostas relativas a cada um destes indicadores está plotada no gráfico encontrado na figura 2.

Figura 2: evolução da importância das crenças tradicionais (CT) e cientificamente justificadas no mês de abril

É importante salientar que, embora a posição ocupada pela crença em deus seja a mais destacada, o conjunto das crenças cientificamente justificadas (CJ) foi considerado mais importante que o das crenças tradicionais (CT). Esta proeminência das CJ sobre as CT, embora tenha mostrado alguma oscilação com o correr dos dias, se apresenta como um importante resultado do nosso estudo e confirma os dados obtidos no estudo piloto.

Esta tendência é comum a homens e mulheres, ainda que tenhamos encontrado uma certa diferença de intensidade, com as mulheres um pouco mais favoráveis às CT e os homens às CJ. Esta tendência a dar mais importância as CJ independe da idade do participante, mas é influenciada pela escolaridade, uma vez que, no caso daqueles com nível de ensino superior, foi possível identificar uma maior atribuição de importância às CJ em relação às CT. Esta diferença, no entanto, não se manifestou entre os participantes de nível de ensino fundamental ou médio.

Uma vez que a diferença na atribuição de importância dos sistemas de crenças independe do sexo, da idade ou da escolaridade do participante, consideramos a possibilidade da condição econômica do participante exercer algum impacto nesta diferenciação.

Figura 3: importância dos sistemas de crenças, por renda familiar (em 1000 reais), religião e orientação política

O primeiro gráfico plotado na figura 3 oferece um panorama da relação entre a renda do participante e a importância atribuída aos dois sistemas de crenças. A atribuição de importância às crenças tradicionais (CT) reduz com o aumento da renda familiar, enquanto a linha das CJ indica claramente que a atribuição da importância aumenta com a renda. Chama atenção, no entanto, a ausência de diferença no perfil das respostas entre os participantes que informaram uma renda familiar entre 5 e 10 mil reais e os que se situam na faixa de renda mais alta.

Duas outras variáveis mantém relações com os sistemas de crenças, conforme observado na figura 3. Se considerarmos, por exemplo, as crenças tradicionais (CT), fica claro que quanto maior a importância atribuída a este sistema de crenças, mais religioso é o participante e mais ele se posiciona à direita no espectro político.

Os efeitos das variáveis sociodemográficas sobre os sistemas de crenças podem ser resumido nos termos abaixo enumerados:

  • os que privilegiam o sistemas de crenças tradicionais (CT) tendem a ser politicamente de direita e ter um nível socioeconômico mais baixo, enquanto os que acolhem as CJ tendem a ser mais de esquerda e terem um perfil e renda mais alto
  • não foi possível diferenciar o acolhimento dos sistemas de crenças a partir das diferenças de sexo, idade ou de escolaridade

Confiança nas instituições

Vivemos em um mundo regido por normas e regras, no qual as nossas ações são determinadas parcialmente pelas nossas intenções e, por outro lado, por aquilo que é socialmente instituído. A nossa relação com as instituições é marcada por concordâncias e discordâncias, aproximações e afastamentos, simpatias e antipatias. Confiamos em algumas delas e, em outras, muito pouco.

O segundo objetivo do nosso estudo foi avaliar a confiança em algumas instituições. Utilizamos uma escala gráfica na qual o participante foi solicitado a indicar o quanto confia em cada instituição, atribuindo, a cada uma delas, entre uma estrela, quando confiava muito pouco, a cinco estrelas, o indicador do grau de confiança máxima. A média de avaliação em cada uma das instituições pode ser visualizada na figura 4.

Figura 4: nível de confiança nas instituições

A instituição família foi considerada a mais confiável, um resultado que independeu do sexo, da idade, da religião ou da renda do participante. Embora a avaliação da família tenha evidenciado alguma oscilação ao longo do estudo, se apresenta como a mais confiável desde o início da coleta de dados, o que confirma o estudo piloto, que mostrou a importância desta instituição e o quão esta avaliação tem sido consistente com a passagem do tempo. A instituição amigos e conhecidos também foi bem avaliada, embora na média tenha sido considerada um pouco menos confiável do que a família. O gráfico apresentado na figura 5 retrata a evolução destas duas instituições e evidencia os três momentos em que a confiança nos amigos e vizinhança ultrapassou a atribuída aos familiares.

Figura 4: nível de confiança nas IRPS

Estas duas instituições, ao lado de uma terceira, a comunidade e vizinhança, corresponde ao que classificamos como instituições de referência pessoal e social (IRPS). O nível de confiança desta última, no entanto, não apenas é mais baixo do que o atribuído às duas primeiras instituições, como também sofre oscilações acentuadas em direção à desconfiança.

Alem das IRPS, consideramos uma segunda modalidade de instituição, as dedicadas ao suporte e ao aperfeiçoamento (IDSA), na qual incluímos as escolas e universidades e as de saúde e hospitalares. A avaliação destas duas modalidades de instituições é bem diferenciada, se considerarmos o gráfico plotado na figura 6.

Figura 4: nível de confiança nas IDSA

A avaliação diferencial das instituições de saúde e hospitalares tem permanecido relativamente constante. Isto pode sugerir que até o momento a evolução da pandemia não tem produzido reflexos na confiança nas IDSA. Análises adicionais apontam que homens confiam mais nelas do que as mulheres, pessoas com perfil de renda mais alto mais do que as que possuem menos renda, bem como indicam que os participantes mais velhos vão perdendo a confiança nas instituições de saúde com a idade.

O terceiro grupo de instituições que consideramos foi a daquelas responsáveis pela imposição do consenso e do controle social (IICC). O nível de confiança nestas instituições, mais baixo do que nas IRPS e ISDA, sofre uma certa variação, pois algumas são relativamente bem avaliadas e outras são alvo de muita desconfiança. A figura 7 evidencia a evolução da confiança nas cinco instituições incluídas nesta categoria ao longo da pandemia.

Figura 4: nível de confiança nas IICC

A religião, dentre as acima apresentadas, parece sofrer mais oscilações com a passagem do tempo, ao passo que a ausência de confiança nos partidos políticos mantém alguma estabilidade.

Relações entre crenças e instituições

Aquilo em que acreditamos determina os nossos julgamentos e as nossas avaliações. Se as crenças ocupam uma posição central na nossa vida psíquica, podemos esperar que pessoas com diferentes sistemas de crenças percebam o mundo em que vivem de uma maneira distinta, a depender, claro, da centralidade ocupada pelo sistema na vida da pessoa.

Uma vez que acentuamos a importância dos sistemas de crenças, postulamos que os dois sistemas que diferenciamos, o CT e o CJ, ocupam uma posição de centralidade na vida mental dos nossos participantes. Ao admitir que estes sistemas interferem decisivamente nos pensamentos e nas ações de quem os acolhe, uma outra questão central do nosso estudo passa a ser determinar o quanto eles interferem na avaliação das instituições. Para alcançar este objetivo diferenciamos os participantes, incluindo-os em uma das duas categorias: aqueles que consideram mais importantes as crenças tradicionais e, por outro lado, aqueles que privilegiam as crenças cientificamente justificadas.

O critério que adotamos para esta diferenciação foi estatístico, ou seja, obtivemos, para cada participante, a média das posições da importância das seis crenças tradicionais (deus, milagres, anjos, céu, diabo, inferno) e das seis crenças cientificamente justificadas (genética, átomos e moléculas, evolução das espécies, vacinas, aquecimento global e big bang). A partir do cômputo da média, o participante foi incluído na categoria CT quando a média do conjunto das crenças tradicionais foi superior ao as das CJ. Um raciocínio semelhante foi adotado para as crenças cientificamente justificadas. A aplicação deste procedimento permitiu a distribuição dos participantes entre os dois grupos, dos quais 663 foram categorizado como CT, enquanto 395 foram incluídos na categoria CJ. Este procedimento, no entanto, foi incapaz de incluir cerca de 3% dos participantes, quase sempre devido à igualdade das médias dos dois sistemas de crenças.

A adesão a um sistema de crenças, e não a outro, provavelmente favorece algumas escolhas e inibe outras. Além disso, as crenças se associam a adoção de determinados estilos de vida e a exclusão de outros. A figura 8 apresenta de forma sintética algumas diferenças no plano sociodemográfico e psicológico entre participantes que acolhem sistemas de crenças tradicionais e cientificamente justificados.

Figura 8: diagrama das diferenças sociodemográficas e psicossociais entre participantes categorizados como CT e CJ

O acolhimento de um sistema de crenças está associado com escolhas relacionadas com a visão de mundo compatível com o sistema escolhido. Estas diferenças se manifestam em vários domínios. Deste modo, os que acolhem o sistema de crenças tradicional tendem a ser ser politicamente mais a direita, mais religiosos, apresentar um menor grau de escolarização formal, um maior controle interno do preconceito e uma visão mais positiva sobre o clima social se compararmos os resultados com os obtidos dos participantes categorizados como orientados por um sistema de crenças cientificamente justificado. Por outro lado, não pudemos identificar diferenças de idade ou em constructos psicológicos como satisfação com a vida e a necessidade de closura.

Face aos resultados acima descritos, torna-se cabível questionar as relações entre os sistemas de crenças e a confiança nas instituições. Dado que foram analisados os resultados dos dois sistemas de crença e de três modalidades de instituições, a discussão deve levar em consideração estas relações. Discutiremos, a seguir, as relações entre os dois sistemas de crenças e as três modalidades de instiituições, as instituições de referência pessoal e social (IRPS), as instituições dedicadas ao suporte e aperfeiçoamento( IDSA) e as instituições de imposição do consenso e do controle social (IICC)..

Figura 9: gráfico do nível de confiança nas instituições, por sistemas de crenças

Conforme observado, acolher um sistema de crenças cientificamente justificado representa desvalorizar as IICC, ao tempo em que acolher um CT está associado com uma maior valorização das IDSA. Uma vez que as instituições foram agrupadas em categorias mais ampla, e este agrupamento pode trazer distorções nas análises, é importante considerar cada instituição incluída nas três modalidades acima diferenciadas.

O impacto dos sistemas de crenças em cada uma das IRPS pode ser visualizado na figura 10, no qual se evidencia, de imediato, que a inclinação da linha relativa à confiança na instituição amigos difere da observada nas outras duas, pois foi a única na qual a confiança é mais alta entre os que acolhem as CJ. A instituição família apresenta uma tendência oposta, sendo mais valorizada pelos que acolhem as CT. A instituição comunidade e vizinhança foi a única, dentre as três IRPS, que não apresentou diferenças associadas com os sistemas de crenças.

Figura 10: gráfico do nível de confiança nas IRPS, por sistemas de crenças

Análises em separado indicam que o sexo do participante não interferiu no julgamento da confiança das IRPS, exceto no caso da família, caso em que os homens confiaram mais do que as mulheres, mas apenas entre os que acolheram as CT. O efeito de professar ou não uma religião influenciou apenas a avaliação da confiança na família entre os que acolhem as CJ, no qual constatamos que esta instituição é menos confiável para os que não possuem religião. As demais variáveis, a renda familiar, a escolaridade e a orientação política, não interferiram na relação entre os sistemas de crenças e confiança nas IRPS, que se manteve constante mesmo com o controle estatístico destas variáveis.

As relações entre as crenças e a confiança nas IDSA mantém um padrão facilmente discernível, como se observa na figura 11, na qual se nota que as instituições educacionais são percebidas como mais confiáveis do que as de saúde e que este efeito é mais forte entre os que acolhem os sistemas de crenças cientificamente justificados do que entre os que aderem a um sistema de crenças tradicionais. Este efeito independe do sexo, da escolaridade, da renda ou do participante declarar ostensivamente professar ou não uma religião.

Figura 11: gráfico do nível de confiança nas IDSA, por sistemas de crenças

As relações entre os sistemas de crenças e a confiança nas IICC apresentam uma certa complexidade, sobretudo no que concerne ao efeito exercido pelas instituições religiosas. No gráfico plotado na figura 12 as relações entre as IICC e os sistemas de crenças podem ser visualizadas.

Figura 12: gráfico do nível de confiança nas IICC, por sistemas de crenças

O elemento mais evidente se refere à diferença na inclinação da linha relativa às instituições religiosas, pois mesmo que nas demais instituições possamos identificar uma queda na confiança nas instituições entre os participantes que acolhem os CJ quando comparados aos CT, este efeito é muito pronunciado no caso da religião e, um pouco menos, mais ainda assim saliente, no caso dos bancos e instituições financeiras.

A análise particularizada de algumas destas instituições mostra alguns efeitos que não podemos desconsiderar. No caso da religião, foi possível constatar que se a confiança entre os participantes que acolhem as CT é alta e independe do sexo, no caso das CJ a confiança é menor e bem mais acentuada entre as mulheres do que entre os homens. Também foi possível identificar que a confiança nas instituições justiça e polícia é maior entre os homens do que entre as mulheres, um efeito que independe do sistema de crenças acolhido pelo participante. O impacto da escolaridade do participante se manifestou exclusivamente na avaliação das instituições judiciárias, que se já eram consideradas menos confiáveis pelos que acolheram as CJ, o foram ainda mais entre os estudantes universitários. O efeito de expressar abertamente que professa uma religião está logicamente associado com a confiança nas instituições religiosas, um efeito que se manifestou igualmente entre os participantes CT e CJ.

Preditores da confiança nas instituições

A confiança nas instituições é difícil de ser explicada, pois depende de uma série de fatores. Esta seção representa uma tentativa de identificar os fatores que contribuem para explicar a confiança em cada uma delas. A técnica utilizada foi a regressão linear, tanto na sua formulação frequentista, método backward, quanto a bayesiana. Os parâmetros obtidos com os procedimentos de regressão (betas, betas padronizados, indicadores de ajuste, r2 ajustado, fator bayesiano etc) foram desconsiderados nesta seção, mas podem ser encontrados na seção de discussão das hipóteses.

Os preditores da confiança nas instituições foram organizados em dois blocos, um composto pelos sociodemográficos (idade, sexo, raça, renda, escolaridade, religiosidade e orientação política do participante) e um segundo, no qual foram incluídas as variáveis psicológicas (sistema de crenças, motivação para o controle do preconceito, necessidade de closura, satisfação frente à vida e clima psicossocial). Apresentaremos, em separado, os preditores para cada uma das instituições, segundo as modalidades pelas quais elas foram agrupadas.

IRPS

InstituiçãoPreditores
Famíliasatisf ( + ) , clima ( + ) , CT ( – ) , idade ( + )
Amigos e conhecidossatisf ( + ) , CT ( + ) , renda ( + ) , idade ( – )
Vizinhos e comunidadesatisf ( + ) , idade ( +)
Legendas: satisf: satisfação com a vida, clima: clima psicossocial; relig: grau de religiosidade; CT: crenças tradicionais; renda: ter uma renda acima de cinco mil reais; idade: idade do participante

A tabela indica que o principal preditor da confiança na instituição família é uma variável psicológica, a satisfação pessoal. O sinal ( + ) ao lado do preditor indica um correlação positiva, ou seja, sugere que quanto maior é a satisfação com a vida, maior acentuada se torna a confiança na instituição familiar. O segundo preditor incluído foi o clima psicossocial, que acompanhado do sinal (+) indica um valor positivo, ou seja, quanto mais positivo o participante considera o clima social, mais ele passa a confiar na família. O preditor CT aponta que a os participantes que acolhem um sistema de crenças tradicional valoriza mais a família que os que acolhem o CJ. O preditores sociodemográficos idade sugere que a confiança na família aumenta sistematicamente com a idade do participante.

O modelo obtido para a confiança na instituição amigos e conhecidos é composto por dois preditores psicossociais e dois sociodemográficos. O principal deles foi um maior grau de satisfação pessoal. O segundo preditor, positivo, indica que o acolhimento de um sistema de crenças tradicionais reduz a confiança nos amigos. Além disso, ter uma renda acima de 5 mil reais está associado com um maior nível de confiança nos amigos. O indicador negativo do preditor idade indica que quanto mais mais velho o participante, menor a confiança nos amigos e conhecidos.

O modelo elaborado para a predição da confiança na instituição vizinhos e comunidade foi composto por uma variável grau de satisfação, indicando que quanto mais satisfeito a pessoa estiver com a vida, mais ela confia nos seus vizinhos e na comunidade em que vive, e uma variável sociodemográfica, indicando uma associação negativa com a confiança nos amigos e conhecidos.

O principalpreditor da confiança nas IRPS parece ser o nível de satisfação com a vida, uma vez que ele foi o principal preditor da confiança nas três instituições subordinadas a esta modalidade.

IDSA

InstituiçãoPreditores
Escolas e universidadespolit ( – ) , satisf ( + ) , mulher ( – ) , CT ( + ) , branca ( – )
Hospitais e saúdesatisf ( + ) , CT ( + ), superior ( +) , polit ( – ) , idade ( – )
Legendas: polit: informar uma orientação política de direita; satisf: satisfação com a vida; mulher: ser mulher; supe: estar ou ter cursado educação superior; idade: idade do participante

O principal preditor da confiança nas escolas e universidades foi a orientação política de direita. O indicador negativo sugere que quanto mais o participante se posiciona à direita no espectro político, menor a confiança nas instituições de ensino. O segundo preditor associa uma maior satisfação com a vida com uma maior confiança nas escolas e universidades O terceiro preditor aponta que a confiança das mulheres nas instituições educacionais é significativamente inferior a dos homens. Os participantes que adotam as CT e as mulheres confiam menos nos amigos que os CJ os homens.

A confiança nos hospitais e nas instituições de saúde está positivamente associada com a satisfação com a vida. Os participantes que acolhem as CJ também se mostram mais satisfeitos do que os CT. Da mesma forma, estar frequentando ou ter frequentado um curso superior também aumenta a confiança nas instituições de saúde. Em contrapartida, quanto mais a direita no espectro político e mais jovem, menor a confiança nas instituições de saúde.

IICC

InstituiçãoPreditores
ReligiãoCT ( – ), relig ( + ), polit ( + ), satisf ( + ), mulher ( + )
Meios de comunicação de massaidade ( – ), satisf ( + ), CT ( + ), renda ( – ), mcp ( + )
Bancos e instituições financeiraspolit ( + ), satisf ( + ), idade ( – ), clima ( + )
Justiça e políciaclima ( + ), mulher ( – )
Partidos políticosclosura ( + ), clima ( + ), CT ( + )
Legendas: relig: grau de religiosidade;; satisf: satisfação com a vida; mulher; ; CT: crenças tradicionais;; polit: ter orientação política de direita; idade; clima: clima psicossocial;

O principal preditor da confiança nas instituições religiosas foi maior entre os participantes que acolhem os sistemas de crenças tradicionais e, obviamente, mais intensa entre os que informaram um maior senso de religiosidade. A confiança nestas instituições também se mostrou mais intensa entre as pessoas que registraram uma maior satisfação coma vida, como também entre as mulheres, assim como entre os que informaram adotar uma posição política mais à direita.

O modelo de regressão elaborado para a identificação dos preditores dos meios de comunicação de massa indicou que quanto mais jovem menor a confiança nestas instituições. A desconfiança nas instituições de mídia também é mais acentuada entre as pessoas com renda abaixo de 5 mil reais. Dentre as variáveis psicossociais, o grau de satisfação com a vida e uma maior tendência a controlar os preconceitos foram positivamente associadas com a confiança nos meios de comunicação de massa, assim como uma maior motivação para o controle do preconceito. Os participantes que acolhem os sistemas de crenças tradicionais confiam mais nos meios de comunicação de massa do que os cientificamente orientados.

No caso dos bancos e instituições financeiras, o modelo de regressão indicou que uma orientação política de direita representa o principal preditor da confiança nestas instituições. Além disso, a confiança nas instituições financeiras foi maior entre as pessoas mais satisfeitas com a vida e com as mais idosas. Viver em um clima social positivo também se encontra associado com a confiança nas instituições bancárias e financeiras

A confiança nas justiça e na polícia parece ser uma condição associada às pessoas que relatam uma maior satisfação com o clima ou ambiente psicossocial em que vivem. Ao lado disso, o modelo indica que as mulheres confiam menos nas instituições legais do que os homens.

O modelo preditivo para a confiança nos partido políticos, a instituição que apresentou o menor nível de confiança entre todas as analisadas no nosso estudo, indica a presença de três preditores, todos psicossociais. Quanto maior o escore na necessidade de closura e a avaliação positiva do clima social, mas os participantes confiam nos partidos políticos. Finalmente, foi possível constatar que os participantes orientados por um sistema de crenças cientificamente justificado confiam mais nos partidos do que os que aderem às crenças tradicionais

Conclusões provisórias

Uma vez que a pesquisa continua em andamento, apresentamos um esboço provisório das conclusões cabíveis até o presente:

  • no que concerne às crenças, deus parece estar acima de todas;
  • no entanto, as crenças cientificamente justificadas, na média, foram acolhidas com mais intensidade o que as crenças tradicionais
  • as instituições de referência pessoal e social, em particular, a família e os amigos, foram vistas como as mais confiáveis;
  • as instituições de suporte e aperfeiçoamento ocupam uma posição intermediária em termos de confiança;
  • as instituições de imposição do consenso e do controle social foram consideradas as menos confiáveis, sobretudo as associadas com os poderes legislativo e judiciário;
  • não foram identificadas, ao longo da pandemia, oscilações dignas de nota nos níveis de confiança das instituições;
  • os sistemas de crenças interferem na avaliação das instituições, embora esta interferência deva ser analisada em cada caso particular.
  • os modelos obtidos demandam a inclusão de variáveis psicossociais e sociodemográficas como elementos que contribuem para a explicar a confiança nas instituições.

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