Resenha: estilo de vida como indicador de saúde na velhice

 

Cláudia Marinho

A autora começa o artigo falando do paradoxo entre marginalização do velho e aumento da longevidade na contemporaneidade, consoante com a falta de reengajamento funcional dos idosos, proporcionado pela sociedade – apesar de longevidade ser sinalizada como sinal de saúde pela OMS e sinalizada como um fenômeno mundial. Neste sentido, o sujeito idoso perde aos poucos seu sentimento de pertencimento ao mundo, por intermédio da estereotipização do idoso – não como sujeito, mas como objeto obsoleto.

Este isolamento social, segundo a autora, pode dar-se de forma consciente ou inconsciente por parte do sujeito; Pode ser imposto por uma sociedade não adaptada ao envelhecimento ou auto-imposto pelo sujeito que se sente inadequado aos ditames sociais de juventude e produção. Muitas vezes, para verem-se e sentirem-se inseridos no contexto, sujeitam-se a uma rotina predita como saudável, com atividades tantas que o impedem de viver esta etapa da vida sob seu próprio ritmo; doutro modo, podem apresentar desajustamentos psicológicos diversos por não sentirem-se fazendo parte do papel social que lhe é imposto por esta sociedade.

Em comum para esses estilos vivenciais humanos descritos, pode-se então destacar: uso deficitário das funções cognitivas, retração da expressividade emocional, e redução das trocas relacionais e com o meio.”

FIGUEIREDO, V.L.M.

Apesar de não encontrar respaldo científico para tal empobrecimento emocional, especialmente no primeiro terço da velhice.

A Geriatria, como uma disciplina médica, surge em meados da década de 30, dedicando-se ao estudo das patologias compreendidas como senis e dos seus aspectos curativos (Debert,1999).A partir da década de 50, surge a Gerontologia – numa interface com outras tantas disciplinas- com um enfoque maior para uma visão do envelhecimento como fato normal do ciclo vital, a prevenção de doenças e a qualidade de vida nesta fase, como fala Néri (1995: 27), sobre as características consoantes com esta etapa e como a não prevenção das patologias podem ser onerosas a sociedade. Deve-se levar em consideração o crescimento de quase oito milhões de idosos por ano, no mundo. Segundo Paschoal (apud Papaleo Netto, 1996). Envelhecer com saúde é uma preocupação que abrange não só a Organização Mundial de Saúde (OMS), mas também a sociedade como um todo.

A autora suscita o questionamento da pesquisa científica quanto ao que é ser idoso, o que é a velhice e o que produz o envelhecimento humano, no sentido da sistematização de abordagem da dinâmica social, quando os fatores idiossincráticos permeiam estes estudos. O próprio conceito ampliado de Saúde, revisto pela OMS, e o conceito de “Envelhecimento ativo”, confere à esta dinâmica o papel de englobar fatores biopsicossociais ao estado saudável deste sujeito contemporâneo e sua posição no mundo, conferindo ao sujeito idoso muito mais seus direitos que suas necessidades, como legítimo sujeito de participação ativa nas políticas públicas sociais e comunitárias.

O ‘Plano de Ação Governamental’ (MPAS, 1996), no Brasil, destaca a profilaxia como forma de maior custo-benefício.

Os estudos de Freitas e colaboradores (2001) apontam para a necessidade de uma inserção social do idoso como forma de prevenção de debilidades, que não só se dariam como degenerações próprias da idade, mas também, como resultado de uma marginalização do sujeito nesta etapa da vida.

A autora apresenta os conceitos e diferenças entre Senescência e Senilidade, onde a primeira é uma condição humana de quem está envelhecendo e a segunda é a presença de patologias e limitações decorrentes de degenerações decorrentes da longevidade, que afetam a autonomia do sujeito. Segundo a OMS (2002), a velhice patológica pode ser retardada ou revertida a partir de medidas de inclusão social do idoso, com estímulos individuais e políticas píblicas associadas a este propósito.

FIGUEIREDO, V.L.M. fala do perfil cognitivo do envelhecimento e as dificuldades de homogeneização deste perfil, perante a ciência, principalmente no que concerne à memória. Os dados de pesquisas efetivadas com idosos normais de idades até avançadas mostram-se inconclusos (Rubin et al., 1998).

A depressão parece apresentar contexto para alguns sinais de degenerescência, quando o que promove a depressão é exatamente o comportamento social aversivo diante do estado de envelhecimento inerente a todo e qualquer ser da raça humana. Apontam-se os sintomas e esquecem-se as causas. O velho assim, é culpado por uma contingência de que é paciente, e não agente. A mesma coisa parece se dar quanto ao aparecimento da doença de Alzheimer. A conexão direta entre memórias e emocionalidade é levantada por Izquièrdo (2004: 46), que também ressalta o papel das emoções e estados de ânimo, como “(…) os maiores reguladores da aquisição, na formação e da evocação das memórias”(2002: 12). Estudos mostram que a experiência muda preferências neuronais, a partir de novas aprendizagens; um desses estudos é o de Sheinberg e Logothetis (2001).

A condição de envelhecer é esperada, mas pode ser experenciada de forma mais positiva, se políticas públicas e esvanecimento de estereótipos forem favorecidos, como forma inteligente de vida num mundo onde a condição do homem como ser de relação é fato, não circunstância irrelevante.

Promover a autonomia e a liberdade de existir, com respeito ao ritmo de cada um, é condição de preexistência de uma sociedade saudável.

Consoante a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2002:13), autonomia: “(…) é a capacidade percebida para controlar, lidar com e tomar decisões pessoais sobre como se vive em uma base do dia-a-dia, de acordo com as próprias regras e preferências”. Independência, por sua vez, “(…) é comumente entendido como a capacidade de executar funções relacionadas com a vida diária – ou seja, a capacidade de viver independentemente na Comunidade com nenhuma ou pouca ajuda dos outros.”

A autora ressalta que as falhas mnêmicas apresentadas e relatadas pelos idosos ou seus familiares – resguardada as possibilidades patológicas deste estado – podem corresponder a um comportamento esperado pelo seu entorno. A falta de estímulo, acolhimento e a crescente exclusão do ciclo social, ocasionando um retraimento social por parte do idoso, podem concorrer para a apresentação deste estado funcional, segundo Figueiredo (2003).

Talvez, a morte em vida (Canongia e colaboradores, 2004)seja uma possibilidade de auto-asilar-se inconscientemente promovida por este idoso que é “posto à parte” da vida social por seus pares e demais cidadãos, em um desengajamento social apontado por Bassuk e colaboradores (1999).

Estudos apontam para a importância da qualidade de vida no processo de senescência, contribuindo não só para uma nova visão social e funcional do sujeito idoso, mas para sua autoimagem inserida neste contexto e seu Bem-estar subjetivo, onde ele é agente de mudanças objetivas e subjetivas, cônscio de suas atitudes: “Os seres humanos, ao mudarem as atitudes internas de suas mentes, podem mudar os aspectos externos de suas vidas”(Wood, 1994: 271).

A vida é um constante desafio, e estabelecer com estes desafios uma relação de flexibilidade e adaptação, transforma homens em possibilidades constantes, independente da faixa etária em que se encontre.

A ‘vida plena’ é um processo, não um estado de ser. É uma direção, não um destino. A direção representada pela ‘vida plena’ é aquela que é escolhida pelo organismo total, quando existe liberdade psicológica para se mover em qualquer direção.”

E. Rogers (1991: 166).

 

Referência: Figueiredo, V. L. M., Estilo de vida como indicador de saúde na velhice. Life style as health indicator on ageing. Programa Interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia, Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), Universidade Federal Fluminense (UFF), 2007, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

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