O Suicídio da Universidade

Não costumo reproduzir neste blog o conteúdo das mensagens recebidas nas várias listas de discussão que subscrevo. De vez em quando abro uma exceção, como no presente texto do Professor Monclar Valverde, dedicado ao estado atual da universidade brasileira. Pode-se ou não concordar com a posição do professor, mas sem sombras de dúvida o assunto por ele levantado é importante e merece ser objeto de reflexão.

O Suicídio da Universidade

Monclar Valverde

Nos últimos anos, temos observado que os campos e métodos da pesquisa universitária têm sido cada vez mais pautados pelas agências de financiamento, comandadas pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) e dirigidas pelo governo federal. Tudo, na rotina universitária, passa por essas agências, que operam como uma espécie de FMI do mundo acadêmico: a definição das linhas de pesquisa e das próprias “areas de concentração”, os seminários internos de pesquisa, os colóquios e simpósios (nacionais e “internacionais”), as publicações, as disciplinas ministradas e até mesmo a ocupação do espaço físico.

Tal situação gera uma mentalidade de gincana, em que predomina, do ponto de vista institucional, o “eventismo” (a multiplicação virótica de “eventos científicos”, cada vez mais inchados e improdutivos) e, do ponto de vista da produção individual, a publicação requentada de artigos antigos ou a mera colcha de retalhos de citações e auto-citações, produzidos, muitas vezes, por pessoas que não têm rigorosamente nada a dizer, mas são obrigados a “tornar públicas suas reflexões”, para continuar a receber suas bolsas e dotações suplementares.

Muitos dos chamados “grupos de pesquisa” se organizam como pequenas seitas, em que recém-doutores embevecidos com seus títulos, sentem-se autorizados (e quiçá obrigados) a forjar continuamente novos conceitos e metodos, mesmo que ainda não tenham conseguido dar conta das idéias que pretendem superar. Basta analisar a bibliografia adotada pelos participantes de um desses grupos para se ter idéia de sua homogeneidade intelectual e do centralismo “metodológico” exercido por boa parte das supostas lideranças acadêmicas.

O teor das pesquisas, teses e dissertações é um problema à parte: anos após o famoso “caso Sokal”, vemos multiplicarem-se aqui, especialmente nas áreas de artes, letras e ciências humanas, verdadeiros casos de delírio intelectual, sempre justificados pelo progresso intrínseco da “produção do conhecimento”, mas incapazes de distinguir a ousadia do mero deslumbramento. Quando não é este o caso, trata-se de exercícios de empirismo bem intencionado e politicamente correto, a favor de qualquer tipo de “inclusão social” ditada pelas ONGs ou pelo Estado (que se parece cada vez mais com uma ONG). Os trabalhos de qualidade são raros. Os que possuem, além da qualidade, elegância e sobriedade são raríssimos.

Chega a ser constrangedor verificar o zelo com que todo um exército de pesquisadores (com seus batalhões de bolsistas, da Iniciação Científica ao Pós-Doutorado) preenche, incansável, todos os relatórios que lhe pedem, respeitando prazos arbitrários e se submetendo a formulários nem sempre muito inteligentes. Esses operários do saber passam a maior parte do seu tempo atualizando o famigerado Currículo Lattes (triste homenagem ao grande César…) ou produzindo material ad hoc para preenchê-lo, sem deixar passar nem mesmo o bate-papo informal, devidamente transformado em “palestra” ou “trabalho de orientação”.

Os Programas de Pós-Graduação, por sua vez, vivem em função de um senhor virtual, sua majestade “o Relatório (da CAPES)”, procurando obsessivamente cumprir não só as exigências da agência, mas até mesmo as expectativas apenas insinuadas por ela. É possível mesmo dizer que muitos deles se programam a partir de tais expectativas, chegando a farejar no ar os temas que agradarão aos comitês científicos ou atenderão às prioridades proclamadas pelo governo vigente, em nome dos “interesses nacionais” ou “sociais”, conforme o caso.

No governo anterior, o tripé ensino-pesquisa-extensão favoreceu claramente a “pesquisa”, possibilitando a constituição de uma verdadeira aristocracia de professores-bolsistas, que soube muito bem defender seus interesses e barrar o caminho ao baixo clero universitário, relegado ao trabalho pesado das aulas e da administração acadêmica. No governo atual, a balança pende fortemente para o lado da extensão, entendida de modo assistencialista e até mesmo demagógico. No primeiro período, até a própria extensão foi travestida de pesquisa; no segundo, é a vez da pesquisa disfarçar-se em projetos de extensão. Nos dois contextos, o ensino viveu praticamente abandonado, como um primo pobre, solenemente abandonado às cotas e à educação à distância, apresentada como grande panacéia.

Contudo, há quem pondere que não deveríamos tratar a CAPES como um agente externo, pois, afinal, são os próprios professores-pesquisadores que compõem os seus quadros. Mas não passa despercebido a ninguém o fato de que a maioria dos chamados “representantes das áreas (de conhecimento) na CAPES”, muito rapidamente se transformam em representantes da CAPES nas diversas áreas de conhecimento, atuando como verdadeiros feitores, que não deixam de ser recompensados por sua conveniente subserviência. De qualquer modo, não há como negar que tais agentes, muitas vezes mais realistas que o rei, fazem parte da chamada “comunidade universitária”. Por isso, quando a Universidade chegar ao esgotamento total de sua força criativa, quando perder de vez seu melhor material humano, quando transformar-se completamente numa fábrica de tabelas e relatórios e, de fato, “morrer”, teremos que admitir que isto não aconteceu por obra de forças hostis ou devido a causas naturais, mas por suicídio premeditado.

2 comentários sobre “O Suicídio da Universidade

  1. Não conheço essa questão da CAPES e não sei como conheceria, sendo um mero universitário, e não um doutor (que sim, muitos se sentem deuses), por isso não posso me manifestar sobre o assunto, mas acredito que, assim como, muitas vezes na história, o homem se apegou a um Deus (ou a muitos deuses), hoje, na ciência, buscamos algo que “valide” aquilo que pensamos.

    Na área de Ciências Humanas, muitos trabalhos têm sido “colchas de retalho” com a intenção de atender ao quesito de “validade”, esquecendo-se que aqueles que escreveram (e que referenciamos) também são/foram humanos, como todos, e podem estar certos ou errados.

    Com essa citação de citados em citações, não fazemos nada de novo, e eu me vejo fazendo isso muitas vezes em meus trabalhos acadêmicos. Sei que não tenho base suficiente para criar nada “novo”, mas acho que, com a união do Ensino com a Pesquisa, poderia ir mais longe do que com essa forma, absoleta, de ensino.

    Quando conclui meu Ensino Médio e passei no dragão do vestibular, pensei que entraria em um novo mundo. Hoje, apenas vejo uma foto velha e conhecida, só que com novos atores que não mudam suas falas e seguem à risca o script que lhes foi ditado.

  2. Pode-se concordar, sim, com Monclar. A situação é mesmo essa, da ditadura das agências de financiamento, o imperativo dos critérios, o “publish or perish” (que virou até verbete de Wikipédia)… A pesquisa foi a primeira a pesar na distribuição dos dividendos, com Lula-lá, mais a extensão…enquanto isso, o ensino, ó…!
    Faltou dizer que também o salário dos professores (as tais “progressões horizontais”) é o que mais anima a gincana por pontos.
    Mas exagera Monclar ao profetizar “o suicídio da universidade”.
    Teria primeiro que especificar: é da universidade pública que ele fala, certo, pq as privadas…nem pesquisa, nem extensão, só salonas de aula…
    Depois…as universidades públicas não morrem, têm boas razões para continuar vivendo…(as cotas, p.ex., as parcerias com a Petrobrás…),
    Aliás, estão até crescendo…(ou será inchando post-mortem?)

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