Estereótipos: concepções gerais

Demarcar as origens dos termos e conceitos científicos é uma tarefa delicada. Alguns se originam no senso comum e se perdem na poeira do tempo; outros se relacionam diretamente com alguma tradição filosófica, enquanto uns tantos são cunhados a partir de analogias com processos e produtos gerados pelo desenvolvimento científico e tecnológico. Este é o caso do termo estereótipos, o qual faz alusão aos tipos fixos, moldes metálicos que se destacavam pela possibilidade de imprimir milhares de cópias, a partir de uma mesma matriz, sem apresentar desgaste e sem a necessidade de substituição a cada nova impressão.

Reconhece-se no jornalista Walter Lippman o primeiro a utilizar sistematicamente este termo nas ciências sociais, ao importá-lo do jargão da indústria tipográfica e adotá-lo para fazer referência a algo que pode ser repetido mecanicamente, embora se saiba que o termo estereotipia tenha sido adotado anteriormente pelos psiquiatras do século XIX para aludir a uma sequência repetida de gestos, posturas e atos de fala de pacientes acometidos pelo que se denominava, à época, demência precoce (Pereira, 2002).

Algumas décadas depois de introduzido na literatura científica, o termo pertence ao linguajar habitual das pessoas com algum nível de educação formal. Uma busca no Google, o sistema de indexação de páginas mais conhecido da Internet, retorna quase vinte e dois milhões de documentos associados ao termo stereotype, mais de cinco milhões associados ao indexador stereotyping e aproximadamente seiscentos mil documentos associados ao termo de busca estereótipos. Artigos e matérias publicadas em jornais e revistas constantemente se referem ao termo, considerando-o, sobretudo, a partir de uma dimensão axiologicamente negativa, associando quase sempre a conceitos como os de discriminação, estigma, preconceitos e exclusão social.

Na psicologia social, o tópico vem despertando a atenção dos estudiosos desde a primeira metade do século XX. Este interesse, no entanto, não parece ter sido suficiente para produzir clareza no que concerne à definição ou mesmo à caracterização das suas dimensões fundamentais, levando alguns estudiosos a sugerirem, não sem uma certa ironia, que são encontradas mais definições do que autores que se dedicam ao tema, o que suscita a interpretação de que muitos pesquisadores adotam duas ou mais definições para o termo (Hamilton, Strossner & Driscoll, 1994) ou admoestações no sentido de alertar que a definição dos estereótipos é vaga e problemática (Stangor, 2009). Em geral, essa é ora muito abrangente, igualando-os aos mitos, às lendas ou ao folclore, ora muito restrita, reduzindo os estereótipos aos adjetivos usualmente ativados e aplicados face à mera presença de indivíduos associados a determinadas categorias sociais (Pereira, 2002).

A definição e caracterização de estereótipos como fotografias dentro da cabeça, introduzida por Walter Lipmann, produziu um forte impacto nas formulações posteriores. Essa influência pode ser identificada, por exemplo, algumas décadas depois, no manual de psicologia social de Otto Klineberg publicado em 1940, no qual se sugere que se a percepção dos outros é construída mediante a articulação entre as impressões sensoriais imediatas objetivas e os conteúdos acumulados na cabeça durante anos, os estereótipos seriam estes elementos pré-existentes (Klineberg, 1963). A definição dos estereótipos como imagens, representações ou fotografias mentais disparadas face à presença de um indivíduo associado a uma determinada categoria social (Lippman, 1922/2008) evidencia claramente a acepção predominante acerca dos estereótipos nas primeiras décadas de estudo do tema. Entendidos simplesmente como entidades mentais, cujos referentes seriam determinadas categorias ou grupos sociais, foram inicialmente caracterizados como produtos mentais, tendo sido associados às crenças sobre os membros de algumas categoriais sociais, notadamente estrangeiros e membros de grupos minoritários.

O exemplo mais marcante desta tendência pode ser encontrado no artigo de Katz e Braly, que deu origem à denominada trilogia de Princeton. O método de estudo adotado, a técnica do checklist, evidencia o interesse predominante dos estudiosos à época: identificar os adjetivos associados a algumas categorias sociais. Uma vez identificado os traços, tornava-se possível, mediante cálculos conduzidos com base nas respostas associadas aos traços relativos às diferentes categorias sociais, identificar quão positiva ou negativa era a avaliação do grupo, bem como estimar o grau de consenso e o compartilhamento social destes estereótipos (Devine & Elliot, 1995; Karlins, Coffman & Walters, 1969; Gilbert, 1951; Katz & Braly, 1933).

O método do checklist, assim como as suas derivações, a exemplo dos métodos da porcentagem ou da razão diagnóstica (Gardner, Wonnacott & Taylor, 1968; McCauley & Stitt, 1978), se foram heuristicamente ricos, pois geraram trabalhos empíricos de reconhecida importância, se ressentiam de dificuldades identificadas apenas no início dos anos 70 do século XX, quando foi assinalado que passadas várias décadas da introdução do termo, os teóricos ainda se sentiam incapazes de identificar claramente o papel desempenhado pelos estereótipos na percepção, no julgamento e na expressão do comportamento social (Brigham, 1971). As suspeitas, de natureza metodológica, em relação à técnica do checklist, como de resto em relação aos demais métodos diretos de investigação sustentados em estratégias de auto-relato, sugeriam que os resultados obtidos em muitos estudos sofriam um forte efeito da demanda e, mais importante, pareciam ser incapazes de isolar e identificar claramente as características atribuídas às diversas categorias sociais. A crítica mais importante à época se referia à validade, dado que se a técnica do checklist era considerada um recurso apropriado para mensurar as opiniões socialmente compartilhadas pelos participantes, não oferecia meios para identificar os processos psicológicos responsáveis pela expressão dos estereótipos, nem para esclarecer as funções desempenhadas pelos estereótipos na vida social.

O impacto destas críticas imprimiu um novo rumo aos estudos e gerou mudanças significativas na definição e caracterização dos estereótipos. Em decorrência da sugestão de Brigham, novas formulações definiram os estereótipos como processos psicológicos ativados em um agente dotado de capacidades cognitivas limitadas, o que, evidentemente, favoreceu a formulação de interpretações que tendiam a tratá-los como mecanismos simplificadores da realidade social. Em que pese tais mudanças, muitas formulações procuraram se manter fiéis à perspectiva clássica, ainda que tenham introduzido elementos inovadores, como, por exemplo, a discussão sobre o fundo de verdade das crenças estereotipadas (Lee, Jussin & McCauley, 1995). Um exemplo claro desta dupla tendência de aliar ao tradicional ao moderno pode ser identificado na definição formulada no capítulo dedicado aos preconceitos do manual de psicologia social de David Myers, no qual os estereótipos foram definidos como crenças generalizadas, inacuradas ou resistentes às novas informações, sobre os atributos pessoais de um grupo de pessoas, que teria a finalidade de simplificar a maneira pela qual o mundo é interpretado (Myers, 1999).

Apenas em meados da década de oitenta do século passado foi possível identificar uma mudança fundamental na definição dos estereótipos. O impacto da perspectiva teórica da cognição social desempenhou um papel fundamental nessa reviravolta. A preocupação central se deslocou da análise dos conteúdos dos estereótipos para a investigação dos processos pelos quais estes interferem nos julgamentos sociais. A consequência mais imediata desta tendência se expressou na popularização de definições como as de Hamilton e Trolier, na qual os estereótipos passaram a ser considerados estruturas cognitivas que contém o conhecimento, as crenças e as expectativas do percebedor em relação a algum agrupamento humano (Hamilton & Trolier, 1986). É importante assinalar, no entanto, que essa reviravolta não significou o abandono do interesse pela identificação dos conteúdos dos estereótipos, como se depreende pelo forte impacto exercido pelo artigo publicado por Fiske e colaboradores, no qual é apresentado um novo modelo para o estudo dos conteúdos dos estereótipos (Fiske, Cuddy, Glick & Xu, 2002). O interesse pela identificação dos conteúdos dos estereótipos, no entanto, perde a posição privilegiada que ocupava e se introduz uma nova formulação até então ausente nos trabalhos desenvolvidos antes do advento da perspectiva da cognição social: os estereótipos estariam associados ao funcionamento de uma estrutura mental, cuja operação subordinar-se-ia à ativação dos processos cognitivos requeridos para que a realidade social pudesse ser simplificada e ordenada por um agente cognitivamente avaro (Fiske & Taylor, 1984; Fiske & Taylor, 1991).

Ao identificar os estereótipos como estruturas de conhecimento e ao analisar como estas estruturas interferem na alocação da atenção, na percepção, no registro das informações, na evocação dos conteúdos da memória e na tomada de decisões, esta nova concepção circunscreve o conceito de estereótipos a um domínio de investigação ontologicamente subordinado a uma perspectiva individualista de estudo dos fenômenos sociais. Um exemplo marcante desta tendência pode ser identificado na definição apresentada por Nesdale e Durkin (1998), na qual se sugere que os estereótipos devem ser considerados generalizações resultantes de um processo adaptativo inevitável, ativadas pelos indivíduos com a finalidade de organizar as inúmeras informações encontradas no ambiente social, nas circunstâncias em que se deparam com os comportamentos manifestos por indivíduos filiados aos diversos grupos sociais.

Uma vez que a vida social transcorre cotidianamente em ambientes muito diversificados, é interessante notar que o conceito de estereótipo gramaticalmente é regido no plural. Pelo menos na língua portuguesa é mais usual a adoção do termo estereótipos, no plural, do que estereótipo, no singular. Um das principais contribuições do estudo de Katz e Braly foi a de circunscrever, de forma detalhada, os critérios requeridos para a delimitação e enumeração dos traços associados aos diversos grupos sociais. Mediante a aplicação estas estratégias foi possível caracterizar, à época, os americanos como trabalhadores, inteligentes, materialistas e ambiciosos, os alemães como cientificamente orientados, trabalhadores e estoicos, os irlandeses como brigões, explosivos e espirituosos, os italianos como artísticos, impulsivos e apaixonados, os judeus como astutos, mercenários e sovinas, os chineses como supersticiosos, sonsos e conservadores e os turcos como cruéis, religiosos e traiçoeiros. Esta enumeração deixa claro que os estereótipos se referem a uma constelação de atributos, usualmente traços de personalidade ou características psicológicas estáveis, diferencialmente aplicados aos membros de uma ou várias categorias sociais.

Tais diferenças em relação aos traços atribuídos ou à intensidade na aplicação destes traços suscitam uma série de problemas adicionais para qualquer definição conceitualmente rigorosa dos estereótipos. Uma destas questões é a da homogeneidade dos membros da categoria alvo. A importância da homogeneidade percebida na caracterização dos estereótipos fica clara nas formulações que definem os estereótipos como crenças sobre os atributos típicos de um grupo, que contém informações não apenas sobre tais atributos, como também sobre o grau com que eles são compartilhados pelos membros do grupo alvo (Thompson, Judd & Park, 2000). Não é incomum confundir, injustificadamente, a homogeneidade percebida com o consenso social. É possível supor, por exemplo, a existência de determinado repertório de crenças socialmente compartilhadas sobre os membros de uma categoria social, sem que seja necessário considerar os seus membros semelhantes entre si. Pode-se imaginar que numa sala de espera de um grande aeroporto internacional os passageiros acolham a crença que os circunstantes também podem ser classificados como passageiros, embora seja muito evidente, a se considerar os trajes, as idades, os backgrounds étnicos e culturais, assim como as línguas, os gestos, as posturas e os costumes, que estes sejam percebidas como diferentes entre si.

Em que pese tais problemas, essas formulações sobre os estereótipos exerceram um enorme apelo entre os estudiosos nos anos 80 e 90, embora uma análise mais cuidadosa nos permita acreditar que elas convivem com os limites impostos pelo compromisso assumido com uma perspectiva ontológica individualista (Bunge, 1987; Bunge & Ardilla, 2002). Os trabalhos que se perfilam nesta perspectiva evidentemente estão corretos ao assinalarem que os estereótipos cumprem uma importante função ao possibilitar que os indivíduos simplifiquem a realidade, assim como organizem e construam os seus modelos de mundo. O reconhecimento desta dupla função simplificadora e organizadora da realidade é fundamental para uma melhor compreensão das funções exercidas pelos estereótipos e foi claramente destacado pelos estudiosos vinculados à perspectiva da cognição social (Blair & Banaji, 1996; Devine, 1989; Fiske, 1998; Gilbert & Hixon, 1991; Greenwald & Banaji, 1995; Hamilton & Gifford, 1976; Hamilton, Sherman & Ruvolo, 1990; Macrae & Bodenhausen, 2000; Macrae & Bodenhausen, 1994; Macrae, Stangor & Milner, 1994; Sherman, 1996; Schneider, 2004; Wegner & Bargh, 1998). Este é, no entanto, um dos lados da questão, podendo-se destacar outras formas de analisar as funções sociais desempenhadas pelos estereótipos.

Um importante programa de investigação desenvolvido na Europa, conduzido sob a égide das teorias da identidade social e da autocategorização, permitiu identificar outras funções desempenhadas pelos estereótipos sociais, além daquelas acentuadas pelos teóricos da cognição social. Em um plano mais individual, fica claro o papel exercido pelos estereótipos na formação da identidade social (Tajfel, 1981), enquanto no nível grupal não é difícil reconhecer que eles podem ser interpretados como respostas adotadas pelo grupo nas circunstâncias em que estão presentes pressões situacionais (Forgas & Fiedler, 1996), especialmente quando se evidenciam os conflitos manifestos e implícitos entre os grupos (Brown & Turner, 1989; Tajfel & Turner, 1979). Afora estas duas dimensões, em um domínio mais contextual e ideológico torna-se imperativo reconhecer o papel desempenhado pelos estereótipos na racionalização das diferenças de poder social e na justificação da posição privilegiada ocupada por determinados grupos ou categoriais sociais (Jost & Banaji, 1994; Jost & Major, 2001).

Em razão das dificuldades e limites encontrados nas definições previamente arroladas (Hilton & Von Hippel, 1996), sugerimos que os estereótipos possuem a dupla função de simplificar e organizar a realidade, bem como de justificar e racionalizar a adoção de comportamentos e ações em relação aos membros de um grupo ou categoria social e passamos a defini-los como sistemas de crenças socialmente compartilhadas a respeito de determinados entes, em geral membros de uma categoria social. Adicionalmente, é importante assinalar  que eles se referem à suposições sobre a homogeneidade grupal e sobre os padrões de comportamento comuns adotados pelos membros do grupo e encontram os seus fundamentos em teorias implícitas a respeito dos fatores que determinam os padrões de conduta dos indivíduos avaliados mediante a aplicação de um julgamento categórico, usualmente, porém não exclusivamente, fundamentado em suposições sobre essências ou traços psicológicos, concebidos como intercambiáveis entre os membros do grupo ou categoria.

Os conceitos fundamentais dessa definição estão representados no diagrama encontrado na figura 1, onde se pode identificar claramente que as crenças estereotipadas ocupam uma posição intermediária entre a dimensão mais perceptual da homogeneidade percebida e o domínio mais cognitivo das teorias implícitas. Acreditamos que o modelo incorpora as contribuições das várias tradições de pesquisa surgida ao longo dos anos, ao mesmo tempo em que supera os diversos limites encontrados em muitas definições dos estereótipos.

Figura 1: diagrama dos fatores incluídos na definição de estereótipos

modelo geral dos estereótipos

A definição acima apresentada não se encontra imune a críticas e, nos parágrafos seguintes, consideraremos algumas dificuldades que identificamos nos estudos sobre os estereótipos e indicamos a maneira pela qual procuramos superá-las.

Os estereótipos enquanto crenças compartilhadas

Uma primeira questão se relaciona com a aceitação explícita de que os estereótipos são crenças. Se os estereótipos são crenças, então devem ser tratados como produtos mentais ou, para ser mais exato, como produtos resultantes de um processo psicológico, a estereotipização. A estereotipização, por sua vez, pode ser definida com um processo mediante o qual é conduzido um julgamento que possibilita ao alvo ser tratado com um ente que possui características intercambiáveis com os demais membros da categoria a qual se concebe que ele seja filiado (Leyens, Yzerbyt & Schadron, 1994).

Uma vez aceita a tese de que as crenças podem ser definidas como proposições a respeito das relações entre um objeto e um atributo ou entre dois objetos e considerando que os estereótipos são crenças, é imperativo que se adira ao pressuposto de que estes são inseparáveis da dimensão da linguagem (Fiedler & Schmidt, 2003; Rothbart & Taylor, 1992; Semin & Fiedler, 1988; Thompson, Judd & Park, 2000; Maass, Salvi, Arcuri & Semin, 1989). Dada esta relação indissolúvel com o domínio linguístico, os estereótipos possuem um estatuto ontológico próprio, cujo fundamento se encontra na dimensão material da linguagem. Ademais, uma vez que a definição aqui adotada inclui o predicativo compartilhado, os conteúdos dos estereótipos aludem a um repertório de conhecimentos de ampla circulação, incapaz de ser reduzido a uma dimensão puramente individual e tampouco aplicado a situações especificas (Gaskell & Fraser, 1990).

A estereotipização não se confunde com a categorização

Uma segunda questão a ser considerada na definição se relaciona com os entes aos quais as crenças se referem. Quase toda a tradição de trabalho na psicologia social sobre os estereótipos se limita a um tipo específico de referente, as categorias sociais, desconsiderando quase que completamente os outros tipos de entes sociais identificados na literatura (Lickel, Hamilton, Wieczorcowska, Lewis, Sherman & Uhles, 2000). A importância das categorias sociais no estudo dos estereótipos provavelmente é uma consequência da enorme influência exercida pela obra de Gordon Allport, na qual se analisa de forma minuciosa o processo de categorização e se discute as diferentes formas pelas quais a categorização pode influenciar a expressão dos estereótipos e dos preconceitos (Allport, 1956). É importante assinalar, no entanto, que a relação entre os estereótipos e as categorias sociais não é de simples simetria. Ainda que os estereótipos quase sempre se refiram às categorias sociais, é perfeitamente concebível que um indivíduo possa ser categorizado, sem que um estereótipo venha a ser ativado ou aplicado. Afinal, nem toda categoria social é alvo de estereótipos. Rotular um indivíduo como torcedor do Botafogo ou como brasileiro é uma operação cognitiva que envolve fundamentalmente o processo de categorização e, embora seja possível postular a existência de crenças compartilhadas sobre os membros destas duas categorias, tais crenças não são necessariamente estereótipos. Ademais, ainda que os conteúdos estereotipados sejam usualmente considerados predicativos imputados aos membros das categorias sociais, é provável que os estereótipos se refiram mais amiúde às subcategorias, ou seja, a entidades sociais com um menor grau de abstração do que aquele imputado às entidades referidas pela noção de categoria social. Ainda que seja possível fazer alusões aos estereótipos a respeito, por exemplo, dos religiosos, o mais comum é que os estereótipos relativos aos entes subsumidos por esta categoria mais ampla, como os dos padres, das freiras, dos pastores, dos mulás, ou dos pais e mães de santo, sejam mais vívidos e representativos do que os que se aplicam à categoria religioso ou pessoa de fé. Isto significa que embora usualmente a literatura aponte que os estereótipos se refiram aos tipos, eles nos parecem mais facilmente aplicáveis quando aplicados aos subtipos subordinados a uma categoria mais ampla.

O que torna mais fácil a representação dos estereótipos mediante os protótipos e exemplares organizados neste nível menos abstrato de codificação? Uma provável resposta para esta questão reside no entendimento de que quanto menos abstrata for a representação mental, mais facilmente os elementos relacionados com as dimensões perceptuais e, sobretudo, entitativa, podem ser incluídos na elaboração do relato.

Os estereótipos entre a entitatividade e as teorias implícitas

Para superar as dificuldades que identificamos na definição e na caracterização dos estereótipos, parece-nos necessário introduzir dois níveis complementares de análise. Uma vez que a estereotipização envolve a des-individualização, o nosso primeiro objetivo passa a ser o de identificar os entes sociais aos quais o conceito se aplica.

Neste particular, é importante identificar se, além das categorias sociais, os estereótipos também podem ser aplicados a outros tipos de entes, como por exemplo, os agregados e os grupos sociais. Qualquer teoria mais abrangente acerca dos estereótipos deve considerar não apenas como estes são ativados e aplicados no caso das categorias sociais, como também avaliar se eles exercem algum impacto no julgamento e avaliação social dos agregados, dos grupos orientados para a tarefa e nos grupos de intimidade. Estas questões serão abordadas no capítulo 2 do presente volume.

A des-individualização, no entanto, não é suficiente para caracterizar um fenômeno como um estereótipo. É necessário que o percebedor, além de des-individualizar o alvo, tenha uma história a contar sobre ele.

No capítulo 3 procuraremos enfatizar o papel exercido por este segundo componente dos estereótipos, ou seja, discutiremos como as teorias implícitas são utilizadas para elaborar um relato relativamente plausível e amplamente aceito a respeito daquele ente que deixou de ser visto como um indivíduo e passou a ser visto como membro de uma categoria social, um grupo ou um agregado social.

Capítulo 2. Os estereótipos e a entitatividade