Conclusões: irracionalidades e hostilidades

O mundo hoje dificilmente pode ser considerado um lugar seguro. Os conflitos regionais e étnicos têm crescido de forma desmesurada – ou pelo menos, temos mais consciência de que eles existem. Estima-se que apenas no século passado foram mortos duzentos milhões de seres humanos em guerras e outras desavenças entre os grupos (Woolf & Hulsizer, 2004). No século XXI a presença diuturna dos meios de comunicação tem contribuído para documentar, tornar público e oferecer um destaque ainda maior aos conflitos. A transmissão ao vivo dos ataques às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e a subsequente guerra ao terror, proclamada pelo presidente George Bush, espetacularizada na transmissão ao vivo dos bombardeios a Bagdá, capital do Iraque, foram acontecimentos emblemáticos e anteciparam, em certa medida, a situação atual do mundo em que vivemos.

Nesse contexto, não temos porque considerar justificada a interpretação exageradamente otimista de que as formas flagrantes de preconceito e discriminação desapareceram sob o peso do politicamente correto e das pressões no sentido de reduzir a expressão aberta dos preconceitos. Hoje, as pressões sobre as diferenças e os diferentes se acirraram. Muitos grupos usam a internet e os meios de comunicação de massa para expor as suas doutrinas e atrair adeptos, o que faz com que a intolerância esteja presente em um número cada vez maior de espaços de convivência. Os separatismos, os grupos armados e os movimentos de contestação parecem pipocar em toda parte e em todos os cantos.

Tente adivinhar o número de países em guerra nos dias de hoje. De acordo com o site Wars in the World, um reconhecido meio de registro e documentação de conflitos e beligerâncias, no mês de abril de 2015 foram contabilizados em um total de 65 países algo como 636 conflitos armados, conforme se observa na tabela C1:

Tabela C1. Números e países em conflito, por continente

países em guerra

Assinale-se que o registro se refere apenas aos movimentos de maior visibilidade, pois contempla apenas conflitos que envolvem países ou regiões em busca de autonomia política. Em todos os continentes podem ser documentadas ações de grupos separatistas ou independentistas, sem falar nos conflitos locais, de pouca envergadura, mas que criam importantes dissensões em praticamente todos os cantos. É nesse contexto, no qual o problema das identidades nacionais ganha importância, que o estudo atual dos estereótipos e dos preconceitos deve buscar o seu caminho.

O que encontramos na tabela reflete apenas a face visível e institucionalizada do problema da intolerância, que se encontra presente em todos os sítios, mesmo em países nos quais os conflitos ainda não se transformaram em atos de beligerância explícita. Com o advento da internet, grupos de ódio podem ser facilmente fomentados e, ainda pior, parecem receber a atenção e a acolhida de uma parcela nada desprezível da população. Discutiremos, a seguir, como esses fatores têm repercutido na área de estudos dos preconceitos e dos estereótipos e, em seguida, encerraremos o primeiro volume dessa obra indicando algumas áreas nas quais a atenção para os problemas associados com o tema da intolerância deve ser redobrada.

Irracionalismos e hostilidades: perspectivas teóricas contemporâneas de estudos dos estereótipos e preconceitos

irracionalismos

Face à questão sobre o que esperar dos estudos dos preconceitos e estereótipos no século XXI, um acordo parece se estabelecer entre os pesquisadores: urge abandonar qualquer perspectiva de tratar o assunto de forma unidimensional. Estudar os estereótipos e os preconceitos, saber o que eles são, como funcionam e, em seguida, encontrar a melhor estratégia para enfrentá-los, continua sendo uma tarefa de envergadura e de difícil consecução, pois eles são fenômenos complexos e apreensíveis somente mediante o esforço conjunto das diversas abordagens e perspectivas. 

Ao redigir a introdução a um dos manuais recentemente publicados sobre os estereótipos, preconceitos e discriminação, Stangor (2009) pinta um retrato pouco lisonjeiro dos estudiosos, ao assinalar que eles preferem se debruçar sobre temas fáceis e que usualmente negligenciam os tópicos mais difíceis de serem abordados. Isso, em parte, deriva da preocupação em conduzir pesquisas a partir de paradigmas consagrados, o que pode representar uma garantia de acesso às fontes de financiamento. Preferir o lado mais fácil também pode significar conduzir estudos exclusivamente em laboratórios, assim como abordar o assunto a partir de pesquisas conduzidas com estudantes universitários, que supostamente são muito menos propensos a exprimir de forma sincera os próprios estereótipos e preconceitos.

Stangor também nos admoesta que não podemos nos esquecer que as teorias e hipóteses científicas permanecem vinculadas aos eventos e acontecimentos políticos e sociais e, em certa medida, refletem as mudanças que ocorrem na sociedade. Por se tratar de fenômenos dotados de um grau razoável de complexidade é necessário abordá-los de forma pluridimensional. As teorias e hipóteses devem ser elaboradas com o propósito específico de fazer frente a esta complexidade, ajudando a trilhar os caminhos mais difíceis ou, pelo menos, contribuindo para deixar de lado os roteiros mais fáceis e batidos.

As teorias atuais se fundamentam no entendimento de que é imprescindível levar em consideração algumas dimensões analíticas (Duckit, 2010), dentre as quais podem ser destacadas:

  • as pressões evolutivas que incidem sobre o indivíduo;
  • os substratos genéticos, neurais e hormonais;
  • os traços e as características individuais;
  • os afetos e as motivações;
  • a intrincada rede de relações intergrupais nas quais os indivíduos se inserem; e
  • os valores, as ideologias e as concepções de mundo.

Além dessas preocupações mais próximas ao nível analítico individual é importante reconhecer que o ser humano não vive numa condição de isolamento, pois as sociedades se tornam cada vez mais complexas e multifacetadas. As relações entre os grupos, sejam eles nacionais, étnicos, regionais ou de classe, têm sido cada vez mais corriqueiras e tensas. As diferenças de ponto de vista entre os grupos não raramente se transformam em dissensões francamente ostensivas ou, na melhor das hipóteses, em conflitos que embora não sejam abertamente declarados, permanecem vivos, à espera da tênue faísca capaz de atear fogo ao rastilho de pólvora que transforma em animosidade o que se considerava apenas uma morna tolerância.

Fiske, Harris, Lee e Russel (2009) assinalaram que os estudos contemporâneos sobre os estereótipos e preconceitos estão organizados em três grandes áreas temáticas: a discriminação, o papel da cultura e a influência do cérebro. O estudo da discriminação e, em certa medida, o das formas explícitas do preconceito, é uma tarefa imperativa, pois a intolerância em relação ao diferente tem se tornado cada vez mais marcante e, em alguns casos, perigosa e arriscada para os alvos. As principais preocupações passam a ser identificar as diversas formas pelas quais a discriminação se manifesta, como isso ocorre e por que estas coisas acontecem. Para tal, é imprescindível entender como as cognições, os afetos e as motivações se relacionam com as condutas discriminatórias. Este entendimento pode nos ajudar a explicar e compreender quais são as consequências da discriminação e, quem sabe, encontrar alguma forma de reduzir ou mesmo de eliminar os seus impactos.

Um segundo aspecto se refere ao papel desempenhado pela cultura. Neste particular, é importante reconhecer que as relações intergrupais e as condutas discriminatórias não ocorrem em um vazio social. As diferenças culturais são decisivas não apenas para entendermos porque alguns traços estereotípicos são valorizados, enquanto outros são desqualificados no interior de cada cultura. Também é importante apreender como os estereótipos e as atitudes preconceituosas se transformam com a passagem do tempo. Ademais,  a cultura ajuda a entender o efeito exercido por elementos como as normas, os valores e a visão de mundo aceita em uma determinada sociedade, pois interferem decisivamente na manifestação dos estereótipos, dos preconceitos e determinam a medida pela qual os atos de discriminação são acolhidos e rejeitados.

Finalmente, um terceiro plano a ser considerado se refere ao papel desempenhado pelas estruturas neurais. Neste caso, é importante que os psicólogos sociais e estudiosos dos preconceitos e estereótipos se mantenham informados sobre os desenvolvimentos atuais no estudo e na pesquisa do cérebro e dos sistemas neurais. Urge acompanhar o desenvolvimento dos  métodos de investigação introduzidos na área das neurociências, assim como avaliar como as evidências obtidas nestes estudos podem confirmar ou refutar interpretações até então bem acolhidas.

A figura C1 representa uma tentativa de organizar os argumentos sistematizados nas últimas revisões da literatura, em especial nos dois manuais a respeito do assunto publicados nos últimos anos (Dovidio, Glick, Hewstone & Esses, 2010; Nelson, 2009). Ela, no entanto, deve ser cuidadosamente considerada, pois é uma aproximação preliminar e representa apenas um primeiro passo na organização de uma série de sugestões usualmente dispersas na literatura.  

Figura C1: Perspectivas atuais de estudo e pesquisa dos estereótipos e preconceitos

modelos contemporâneos

Ordenamos as teorias e hipóteses em torno de dois eixos analíticos. O primeiro, conforme se observa nas setas verticais encontradas no lado esquerdo da figura, se refere às dimensões individual e contextual. Esse plano analítico nos permite diferenciar as teorias a partir do locus privilegiado de explicação dos fenômenos sociais, o indivíduo ou o contexto. A segunda dimensão, expressa nos quadrantes com cores frias para as teorias que não envolvem o conflito, e quentes para as teorias conflitualistas, privilegia o papel desempenhado pelo dissensões, pelas lutas ideológicas e, sobretudo, pelo entendimento de que as teorias psicossociais sobre os preconceitos não têm como se furtar à imperativa tarefa de se posicionar politicamente, ou seja, de denunciar as desigualdades, desafiar as hierarquizações e fazer frente às diversas formas de injustiça.

Em torno destes dois eixos (se mais individualistas ou contextualistas e se adotam uma perspectiva consensualista ou conflitualista), distribuímos as teorias em acordo com as áreas mais comuns de investigação sobre os preconceitos encontradas na atualidade. Assinale-se, no entanto, que a inclusão de uma teoria numa determinada rubrica não deve ser interpretada como o favorecimento exclusivo daquela perspectiva. Assinalamos anteriormente a multidimensionalidade dos estudos atuais sobre o tema, o que ajuda a entender que o nosso argumento se refere muito mais à ênfase ou ao empenho analítico da teoria, não devendo ser interpretado como a denúncia de uma visão limitadora e restritiva.

Evolução e genética

Não deixa de ser curioso que no mundo atual, no qual a tecnologia da informação tem se expandido e modificado por completo a forma pela qual os seres humanos se percebem e se relacionam, tenha tomado corpo na psicologia social uma perspectiva de estudo que, antes de qualquer coisa, está aí para nos lembrar que somos animais. Um animal humano, diferente, habilitadíssimo para os afazeres que nos aguardam, mas, de qualquer forma, animal e, como tal, sujeito às mesmas pressões evolutivas que se abatem sobre todos os nossos iguais, animais.

Nos termos da psicologia social evolutiva, os processos que determinam a nossa condição social podem ser considerados a partir de duas dimensões fundamentais, uma que se refere aos genes, e este é um termo que praticamente todo mundo medianamente escolarizado já escutou falar, enquanto uma outra alude aos memes, uma daquelas palavras que quando você escuta na boca de alguém, vai logo achando que o camarada é meio trololó. A diferença entre estas duas modalidades de influências evolutivas se refere à escala de tempo no qual os efeitos se manifestam, muito mais longo no caso da influência genética, e ao tipo de relação entre a fonte de influência e a expressão dos comportamentos, muito mais direta no caso dos memes que no dos genes.

Estimar algum efeito direto dos genes nos preconceitos é uma tarefa para lá de difícil, praticamente impossível.  Não nos imaginamos capazes de associar um determinado marcador genético a um dado padrão de conduta discriminatória. Também não julgamos que seja possível associar alguma modalidade específica de característica individual, seja ela autoritária, preconceituosa ou estigmatizadora, a um determinado gene ou punhado de genes. No caso específico do estudo dos efeitos da genética sobre as respostas preconceituosas, o interesse está longe de ser o de identificar o tipo de marcador genético que influencia diretamente a um dado indivíduo. O mais importante é determinar as vicissitudes que ao longo da extensa história evolutiva se inscreveram no pool genético da nossa espécie e como isso podem ter favorecido e facilitado a expressão de algumas condutas que à luz dos modelos interpretativos atuais possuem uma semelhança de forma com o que pode ser considerado um padrão etnocêntrico de conduta.

O modelo teórico subjacente à influência genética sobre o comportamento social humano se assenta em algumas proposições básicas (Schaller, Conway & Peavy, 2011):
a) algumas tendências psicológicas possuem uma base genética;
b) são essas tendências psicológicas, e não outras, que poderiam funcionar como pautas alternativas de conduta, que são adotadas, o que favorece a perpetuação dos genes a ela associados nas gerações posteriores;
c) essas tendências psicológicas e as suas bases genéticas se difundem de forma ampla na população; e
d) os afetos, as cognições e os comportamentos que apresentamos atualmente refletem estas tendências, pois foram elas que aumentaram a aptidão reprodutiva da população.

Quais seriam, pois, as tendências evolutivas que influenciam o tipo específico de comportamento social que estamos interessados, ou seja, os estereótipos, preconceitos e a discriminação?  Se tivéssemos que escolher uma palavra para enfatizar a condição pela qual o ser humano chega ao mundo, a nossa escolha recairia no termo despreparo. É como aportássemos aqui absolutamente dependentes dos outros e pouco habilitados para fazer frente às nossas necessidades mínimas de sobrevivência. Chegamos ao mundo incapazes de nos alimentar com as nossas próprias forças, de andar com os nossos próprios pés e cuidar dos nossos próprios corpos. Sem o amparo de um grupo humano nenhum de nós estaria aqui para contar história. Fazer parte de um grupo é um registro forte da nossa história evolutiva, não sendo difícil imaginar algumas vicissitudes que poderiam ter marcado a existência dos primeiros grupos humanos, especialmente no que concerne à defesa contra os predadores – humanos e não humanos.

Conforme assinala Maryansky (2013), a datação dos fósseis dos primeiros registros de hominídeos com o jeitão de humanos indica que eles habitaram o planeta em torno de 150 a 200 mil anos atrás, embora não saibamos nem onde e nem quando exatamente tais entes surgiram. A baixa variação do background genético humano, constatada mediante a comparação da variabilidade do genoma humano com a dos chipanzés, indica que um evento poderoso criou um gargalo pelo qual boa parte das espécies candidatas a hominídeos não conseguiu ultrapassar.  

O nosso planeta sempre esteve sujeito a intensas variações climáticas. Ciclos de calor, alternando-se com eras glaciais, moldaram a superfície do planeta. Os organismos que sobreviveram a estas intempéries por certo estavam preparados para  lidar com as constantes alterações climáticas, podendo-se supor que sobreviveram porque desenvolveram estruturas especializadas que permitiam uma ampla maleabilidade de respostas às mais diversas demandas. Essas estruturas aos poucos foram se ajustando às mais diversas condições ambientais e sociais. O nosso desenvolvimento se deu, portanto, a partir de antepassados que, embora tivessem uma baixa variabilidade no genoma, apresentavam uma enorme plasticidade nas condutas.

A partir de considerações sobre a baixa variabilidade do genoma humano é possível supor que um número muito reduzido de hominídeos sobreviveu a uma dessas eras catastróficas. Estima-se que a população de sobreviventes a um desses períodos não ultrapassou os dez mil indivíduos. Isto significa dizer que se todos somos originários desses poucos indivíduos, as nossas semelhanças são mais marcantes do que as nossas diferenças em relação aos demais humanos.

É possível supor, ademais, que se esses dez mil indivíduos não vivessem em grupos ou formassem coalizões, as chances de sobrevivência seriam muito reduzidas. Não é ilícito admitir que grupos de indivíduos dessas populações, em que pese a maleabilidade das pautas de conduta, devam ter encontrado soluções semelhantes para os problemas que os afetavam. Isto significa dizer que apesar das diferenças culturais ou históricas, somos todos membros de uma mesma espécie humana e compartilhamos com os nossos coespecíficos as mesmas soluções para fazer frente aos recorrentes problemas demandados pela sobrevivência.

Formar coalizões pode significar, muitas vezes, trabalhar de forma cooperativa com desconhecidos, até mesmo com estrangeiros. A cooperação está na base de tudo aquilo que representa a maravilha do engenho humano. Nos dias atuais, fazer parte de um grupo e manter relações de interdependência com outras pessoas pode até não ser indispensável, mas facilita, e muito, a sobrevivência. É imperativo que os indivíduos sejam capazes de perceber e identificar as fronteiras e os limites da coalização a qual pertencem, o que implica, consequentemente, a adoção de padrões diferentes de conduta em relação aos membros do próprio grupo, favorecendo-os, em detrimento daqueles que não pertencem à coalizão, o que não significa necessariamente desqualificar os membros dos outros grupos  (Brewer, 1996, 2007; Gaertner, Iuzzini, Witt & Orina, 2006).

Nessa perspectiva, seria lícito supor que a diferenciação entre o endogrupo e o exogrupo, presente desde o alvorecer da humanidade, estaria na base dos preconceitos raciais, em relação à cor da pele ou à etnia. Essa perspectiva de estudo salienta que o mais funcional na expressão do etnocentrismo não seria exatamente as características fenotípicas associados às categorias raciais ou étnicas, mas sim a tendência a viver em coalizão e avaliar da forma mais favorável possível o próprio grupo, como sugerem os resultados do controverso estudo de Kurzban, Tooby e Cosmides (2001) no qual as cores dos uniformes são marcadores do endogrupo mais importantes do que a cor da pele.

Em outros termos, o favoritismo endogrupal não significa necessariamente o desenvolvimento da ojeriza ao estrangeiro. É necessário reforçar a hipótese da coalizão com a suposição de que os grupos são funcionais e sobrevivem porque impõem aos seus membros algum tipo de contribuição para a atividade coletiva, que é alcançada mediante a colaboração de todos. A formalização desta atividade grupal permite o surgimento de um sistema de regras e de normas. A origem evolutiva da xenofobia, do ódio ao estrangeiro, não ocorreria pela cor de pele diferente, por falar uma outra língua ou por parecer estranho, mas porque ele representaria uma ameaça ao sistema normativo vigente. Em paralelo, suspeita-se que aqui estaria a origem das atitudes negativas em relação a alguns membros do próprio grupo, desde que esses sejam vistos como relutantes e pouco inclinados a acatar o sistema normativo vigente.

Scheller e Neuberg (2012) assinalam que evolutivamente os preconceitos refletem dois tipos de ameaças ao grupo. Aquelas relacionadas com a violência, especialmente a física, estariam associadas aos preconceitos contra os membros do exogrupo. As ameaças vinculadas às doenças contagiosas, por sua vez, fundamentariam a formação dos preconceitos em relação a todos aqueles – do próprio grupo ou não – que apresentassem condutas incompatíveis com os padrões dominantes do grupo. Diferentes grupos estariam associados com determinadas síndromes preconceituosas, a exemplo dos gays, relacionados com as ameaças relacionadas ao contágio, enquanto que os latinos, na sociedade estadunidense, estariam associados com as ameaças vinculadas à violência interpessoal.

A segunda fonte de influência das pressões evolutivas não incide diretamente sobre os preconceitos, mas sim sobre os estereótipos, que são interpretados como memes, ou seja, como padrões culturais que se impuseram ao longo da evolução e cujos resultados ainda hoje se fazem presente. A suposição inerente a este modelo é a de que as características mais populares e funcionais são retidas e transmitidas às gerações posteriores, sobretudo pela comunicação interpessoal. Uma vez que nem todos os conteúdos são igualmente assimilados e comunicados, pode-se imaginar uma tendência evolutiva que favoreça a permanência de determinados conteúdos e o gradual desaparecimento de outros, podendo-se supor que os grupos selecionam a quem a comunicação deve ser dirigida e os que ficam excluídos do fluxo comunicacional.

É importante assinalar que as relações teóricas e conceituais entre os conceitos de genes e memes estão longe de estarem esclarecidas. Os autores associados a essa linha de investigação fazem questão de deixar claro que não se pode estabelecer uma relação direta entre as pressões evolutivas e as manifestações específicas de preconceito ou de discriminação contra determinados grupos sociais. Os efeitos destas pressões evolutivas dificilmente são registrados de forma direta e dependem das pistas presentes na situação, bem como das condições reais nas quais as relações entre os grupos se manifestam. É injustificado, de qualquer modo, postular qualquer interpretação que indique relações diretas ou unívocas entre evolução, genética, estereótipos e preconceitos.

Sistemas neurais e endócrinos

Phineas Gage, o boa gente, era um camarada bem maneiro. Bom trabalhador, educado, inteligente, bem adaptado, uma vida pela frente, se não estivesse no lugar errado, na hora errada. Atingido na região pré-frontal do cérebro por uma barra de ferro durante uma explosão acidental, ele se recupera do acidente, continua enxergando bem, apesar da perda de um dos olhos, preserva os movimentos, continua falando numa boa, mantém intacta a memória, assim como a capacidade de aprender. Só que vira outro cara. Irrequieto, irresponsável, irreverente, manda as convenções sociais às favas e continua vivendo a sua vida, até falecer no ano de 1861, treze anos depois do acidente que marcou o seu destino (Damasio, Grabowski, Galaburda, & Damasio, 1994). 

O caso de PG é particularmente interessante por mostrar que boa parte das funções psicológicas, em que pese a extensão dos danos sofridos em função do acidente, permaneceu intacta. Se algumas partes da conduta não são afetadas pela lesão, então é possível supor que as funções psicológicas que sofreram algum comprometimento se relacionem com a parte lesionada. Aceitando-se que as funções psicológicas estão associados a determinadas implementações neurais, pode-se supor, por extensão, que é possível encontrar alguns marcadores neurais conectados com expressão de manifestações particulares. 

Achados obtidos com pacientes que sofreram danos cerebrais devem ser generalizados de uma maneira bastante cuidadosa, sendo necessário completar esta perspectiva de estudo com uma outra que envolva o registro de dados de pessoas cujo sistema neural não tenha sofrido vicissitudes tão marcantes como as referidas no caso do nosso querido PG. Uma outra direção de pesquisa se fia em procedimentos que envolvem obtenção de imagens, nas quais são registrados alguns parâmetros dos sistemas neurais enquanto se desenrola uma determinada tarefa, usualmente de natureza cognitiva. Neste particular, duas técnicas se sobressaem (Phelps e Thomas, 2003; Nelson, 2013). Uma delas, denominada fMRI, tem sido particularmente utilizada para identificar, mediante a análise do nível de oxigênio no fluxo sanguíneo, o volume de sangue e o uso do oxigênio nas partes do cérebro ativadas durante a realização de uma determinada atividade. Este conjunto de medidas, genericamente denominada BOLD, do inglês bloody oxigenated level dependent, embora não se refira diretamente ao funcionamento de neurônios ou do sistema nervoso, oferece um bom indicador das estruturas neurais associadas à tarefa. A segunda técnica, denominada ERP, de event-related potentials, mostra a atividade elétrica quando um grupo de neurônios é ativado durante a realização de uma dada atividade. A medida permite identificar a amplitude da onda eletromagnética, que serve como indicador da intensidade da atividade, e a latência da resposta, o que corresponde ao registro do momento exato em que a atividade se inicia em determinados componentes neurais.

Reconhece-se a necessidade de aproximar cada vez mais os achados e as teorias da psicologia social aos últimos desenvolvimentos do campo das neurociências (Amodio, 2008; Cacciopo & Cacciopo, 2013), o que supostamente permitirá identificar quão as novas descobertas corroboram as hipóteses até então bem estabelecidas, assim como podem lançar dúvidas sobre hipóteses que até então sobreviveram aos testes empíricos.

As primeiras aproximações ao tópico dos estereótipos e preconceitos pela via das neurociências foram realizadas em torno das evidências encontradas em uma área clássica da psicologia social, a percepção da pessoa. Presume-se que é necessário que alguém, para ser alvo de um estereótipo ou de um preconceito, seja percebido inicialmente como uma pessoa.  A percepção está longe de ser uma mera reprodução dentro da cabeça do que acontece lá fora. Ela é fundamentalmente construída, o que significa dizer que o percebedor é um ente biologicamente preparado para extrair ativamente elementos oriundos dos órgãos sensoriais, acrescentar conteúdos retirados do banco de dados da memória e, em seguida, elaborar um relato relativamente preciso daquilo que está acontecendo. Esta é uma operação complexa, pois requer que o mundo tridimensional no qual estamos localizados seja internamente representado.

É necessário, pois, diferenciar as evidências relacionadas com o tópico da percepção da pessoa daquelas que se referem ao estudo dos estereótipos e preconceitos (Quadflieg, Mason, & Macrae, 2010). A percepção da face e do corpo humano ocorre em etapas bastante iniciais do processamento perceptual, algo em torno de 170 milésimos de segundo para as faces e de 190 milésimos para o corpo. Essas medidas são bem mais rápidas do que as encontradas no processamento dos objetos não sociais. Isso, por si apenas, já oferece um bom indicador de que o processamento dos objetos sociais não é exatamente igual ao do processamento dos objetos naturais. É importante salientar que nessa operação tentamos, e em certa medida conseguimos, manter algum controle sobre as nossas percepções, ainda que os indicadores atualmente disponíveis nos levem a crer que as nossas percepções são influenciadas e, por que não dizer, moldadas, pelas nossas motivações e pelos nossos estados afetivos.

No início do século XXI, após a chamada década de estudo do cérebro, os pesquisadores acumularam evidências de que o processamento da informação social no cérebro requer a presença e a intervenção de uma série de estruturas neurais. A figura C2 representa um diagrama no qual se encontra registrado alguns dos achados mais significativos, assim como enfatiza as funções desempenhadas por cada uma das estruturas neurais responsáveis pelas funções requeridas para a identificação de uma pessoa.

 C2: bases neurais da percepção da pessoa

C2: bases neurais da percepção da pessoa

Tudo começa quando a luz incide sobre células foto estimuladoras localizadas no fundo do olho humano e a informação é enviada por meio das fibras nervosas para o núcleo geniculado lateral, donde partem fibras nervosas para duas regiões corticais, o sistema visual dorsal, ativado durante a identificação da posição do estímulo no espaço, e o sistema visual ventral, associado à identificação do objeto ( a saber o que é aquele objeto).

Quando o estímulo a ser identificado é um ser humano alguns marcadores neurais associados ao sistema visual ventral são ativados. As evidências se encaminham no sentido de postular que o processamento do rosto e da face envolve tanto a participação de subsistemas destinados a avaliar o estímulo com um todo, no caso, as áreas fusiformes da face e do corpo, quanto os subsistemas habilitados a processar em separado cada elemento da face e do corpo, tal como ocorre durante a ativação da área occipital da face e da área estriada do corpo. Podemos supor que a análise cuidadosa das partes é um processo fundamental para a análise individualizada de uma determinada pessoa. Como isso demanda mais tempo, espera-se que o processamento pelas áreas fusiformes da face e do corpo seja muito intenso em tarefas que envolvem a individualização e menos marcante durante o processo de inclusão da pessoa em categorias.

Estes dois sistemas em conjunto contribuem para a representação interna das faces e dos corpos. Esta representação dos correlatos neurais da percepção da pessoa demanda uma estrutura adicional, pois os sistemas até aqui referidos retratam a representação da face e do corpo como elementos estáticos. O processamento dos movimentos faciais e corporais está associado com um outro substrato neural, o sulco temporal posterior.

Considerados em conjunto, as estruturas acima referidas ajudam a entender a percepção dos seres humanos, mas não nos informam muitas coisas sobre os correlatos neurais dos estereótipos e preconceitos, sobretudo porque o alvo desse tipo de julgamento não é simplesmente uma cara bonitinha ou um corpo estonteante. A pessoa que julga se encontra em um contexto, pertence a um grupo, categoriza e é categorizado, bem como mantém relações amistosas e tensas com outras pessoas com as quais convive ou não.

Uma das principais direções de estudo no campo da percepção da pessoa se refere ao processo de categorização. O que ocorre no sistema neural durante a percepção de pessoas associadas às diferentes categorias sociais? Será que os processos neurais diferem quando um homem percebe um outro cabra ou uma mulher? E muda alguma coisa quando ele percebe uma criança? E alguém com um tom de pele diferente? Respostas para estas questões aproximaram os neurocientistas dos estudiosos do campo dos preconceitos e dos estereótipos e, nos últimos anos, com a sofisticação metodológica que vem caracterizando o desenvolvimento dos estudos sobre as estruturas e funções cerebrais, novas evidências vieram se somar e, em muitos casos, fazer repensar várias coisas que até então vinham sendo aceitas sem discussão.

Uma linha de pesquisas privilegiou o estudo do processo de categorização social. A ênfase recaiu na estimativa das diferenças no processamento de faces de indivíduos do endogrupo e do exogrupo. As categorias sociais relativas ao sexo, à idade e à cor da pele são facilmente discerníveis a partir das pistas visuais da face e do corpo. Estes marcadores são processados muito rapidamente. De fato, não precisamos dispor de muito tempo para identificar se uma pessoa é homem ou mulher, adulta ou criança, branca ou negra. Talvez por estarmos acostumados a conviver com as pessoas dos nossos grupos, o nível de ativação da região fusiforme da face no córtex seja menos acentuado quando processamos a face de um membro do exogrupo quando comparado com o processamento da face de membros do endogrupo. Também ficou claro que a ativação da amígdala desempenha um papel central nas atividades relacionadas com as emoções suscitadas por indivíduos de distintas categorias sociais, enquanto que as regiões corticais pré-frontal dorsolateral e a área cingulada anterior foram associadas aos marcadores que permitem diferenciar as faces da própria raça quando comparadas com as de indivíduos de outros grupos raciais (Quadflieg, Mason & Macrae, 2010).

Os quadros C1 e C2 oferecem uma visão panorâmica dos principais achados associados aos temas da percepção do outro e das relações intergrupais. Eles foram elaborados a partir das informações contidas nas revisões da literatura conduzidas por Quadflieg, Mason e Macrae (2010), Cykara e van Bavel (2014), sobre as relações intergrupais, Amodio (2008), sobre a neurociências das relações intergrupais, Molenberghs (2013), sobre a neurociência dos vieses endogrupais, Derks, Inzlicht e Kang (2008), sobre a neurociência dos estigmas e a de Nelson (2013) sobre a neurobiologia dos estereótipos e preconceitos. Estas evidências são apresentadas levando em consideração três critérios: o marcador neural, o contexto no qual a medida foi obtida e as evidências empíricas. Trata-se, como se percebe, de tabelas de grande extensão, o que serve como indicador não apenas do quão rápido tem sido o desenvolvimento dos estudos nesta área, como sugere uma certa aproximação errática dos estudiosos aos problemas de pesquisa.

Quadro C1: Indicadores neurais, contexto de estudo e evidências associadas com a percepção da pessoa, com as relações interpessoais e com as relações intergrupais


  • Marcador Biológico: Giro fusiforme (2001). Contexto de estudo: Indivíduos brancos e negros observando faces da própria raça. Evidências: Experiência com indivíduos da própria raça facilita o viés perceptual.
  • Marcador Biológico: Área estriada ventral (2002). Contexto de estudo: Administração de punições a um desertor. Evidências:  engajamento numa atividade de cooperação mútua é recompensador.
  • Marcador Biológico: Área estriada dorsal (2004). Contexto de estudo: Ver faces da própria raça, em indivíduos brancos e negros. Evidências:A punição a uma violação da norma é recompensadora
  • Marcador Biológico: Córtex pré-frontal medial (2004). Contexto de estudo: Disputar um jogo em condição de competição ou cooperação. Evidências:Jogar envolve considerar a perspectiva própria e a do outro.
  • Marcador Biológico: Córtex orbitofrontal (2004). Contexto de estudo: Disputar um jogo em condição de competição ou cooperação. Evidências: Cooperar com os outros é socialmente recompensador.
  • Marcador Biológico: Oxitocina (2005). Contexto de estudo: Atividade de jogo (trust game). Evidências: Pode ajudar a reduzir conflitos; oferece apoio às ações do próprio grupo, o que pode levar ao viés endogrupal.
  • Marcador Biológico: Área estriada ventral (2006). Contexto de estudo: Assistir o sofrimento de alguém no jogo do dilema do prisioneiro. Evidências:Adotar padrões justos é recompensador.
  • Marcador Biológico: Amígdala (2008). Contexto de estudo: Ver faces dos membros do próprio grupo. Evidências: Responde aos estímulos mais motivadores.
  • Marcador Biológico: Amígdala (2008). Contexto de estudo: Jogar um game interativo num contexto hierarquizado. Evidências:Ativação das emoções em um contexto hierarquizador
  • Marcador Biológico: Córtex pré-frontal medial (2008). Contexto de estudo: Jogar um game interativo num contexto hierarquizado. Evidências: Preocupação com reputação e com a própria  performance no contexto hierarquizado.
  • Marcador Biológico: Córtex pré-frontal medial (2008). Contexto de estudo: Jogar dilema do prisioneiro com alguém do próprio grupo. Evidências: Pensar sobre o membro do próprio grupo é facilitado pelas similaridades percebidas consigo mesmo .
  • Marcador Biológico: Giro fusiforme (2008). Contexto de estudo: Ver faces dos membros do próprio grupo. Evidências: Sensibilidade às mudanças durante a auto-categorização.
  • Marcador Biológico: Junção têmporo-parietal (2008). Contexto de estudo: Ver membros da própria raça e de outras raças em sofrimento emocional. Evidências: Sistemas culturais  podem influenciar a representação dos estados mentais dos outros.
  • Marcador Biológico: Lóbulo parietal inferior (2008). Contexto de estudo: Comparação de pessoas próximas numa hierarquia social. Evidências: As inferências relativas ao status social estão associadas com o processamento numérico.
  • Marcador Biológico: Córtex anterior cingulada (2009). Contexto de estudo: Ver membros da própria raça e de outras raças sofrendo dor. Evidências: Aumento na intensidade da dor eleva a empatia com  os membros do próprio grupo.
  • Marcador Biológico: Córtex pré-frontal medial (2009). Contexto de estudo: Alocação de recursos financeiros a membros do endogrupo e exogrupo. Evidências: A atividade cortical está associada com a categorização social e com a identidade social.
  • Marcador Biológico: Ínsula anterior (2009). Contexto de estudo: Ver membros da própria raça e de outras raças sofrendo dor. Evidências: Aumento no compartilhamento da dor com os membros do próprio grupo intensifica a empatia.
  • Marcador Biológico: Área estriada ventral (2010). Contexto de estudo: Assistir o oponente não conseguir fazer pontos em um jogo. Evidências: O prazer em ver o outro falhar pode levar ao desenvolvimento de atitudes negativas.
  • Marcador Biológico: Área estriada ventral (2010). Contexto de estudo:Distribuir recursos financeiros para si e para os outros. Evidências: As recompensas são moderadas por fatores sociais, por exemplo, a desigualdade
  • Marcador Biológico: Córtex pré-frontal medial (2010). Contexto de estudo: Ver membros do endogrupo em situações dolorosas, entre participantes negros. Evidências: Empatia com membros do próprio grupo.
  • Marcador Biológico: Área fusiforme da face (2011). Contexto de estudo: Reconhecimento de faces dos membros do endo e exogrupo. Evidências: Membros do endogrupo são processados mais como indivíduos do que os membros dos exogrupos.
  • Marcador Biológico: Córtex orbitofrontal (2011). Contexto de estudo: Alocar recursos financeiros no contexto de um jogo. Evidências: Escolher agir em prol do social é altamente recompensador.
  • Marcador Biológico: Ínsula anterior  (2011). Contexto de estudo: Assistir o sucesso de membros de grupo de alto status. Evidências: O compartilhamento da dor é influenciado pelo status e pelas distinções grupais.
  • Marcador Biológico: Junção têmporo-parietal (2011). Contexto de estudo: Jogar dilema do prisioneiro com alguém do próprio grupo. Evidências: Pensar sobre o membro do próprio grupo é facilitado pelas similaridades percebidas consigo mesmo .

Para preservar as diferenças previamente aludida entre os campos de estudos da percepção do outro e dos estereótipos e preconceitos, apresentamos o quadro C2, elaborado nos mesmos moldes que o anterior, mas que difere por oferecer os indicadores relacionados com os fenômenos associados aos processos de estereotipização e às atitudes preconceituosas.

Quadro C2: Indicadores neurais, contexto de estudo e evidências associadas com os estereótipos, preconceitos e discriminação


  • Marcador Biológico: Ciclo menstrual (2002). Contexto de estudo: Avaliação de homens durante o período em que a possibilidade de engravidar é mais alta. Evidências: Maior facilidade para categorizar os homens e aplicar estereótipos.
  • Marcador Biológico: Amígdala (2004). Contexto de estudo: Ver faces de outras raça, indivíduos brancos e negros . Evidências: Asco e medo em relação aos grupos estigmatizados.
  • Marcador Biológico: Amígdala e ínsula (2005). Contexto de estudo: Avaliação de grupos sociais vistos como hostis e incompetentes. Evidências: Evocação de respostas de desprazer para os grupos estereotipados.
  • Marcador Biológico: Área central do córtex frontal (2009). Contexto de estudo: Evitar aplicar estereótipos. Evidências: A avaliação individual está associada com a redução da atividade na área central do córtex frontal.
  • Marcador Biológico: Córtex pré-frontal medial e amígdala (2009). Contexto de estudo: Mensuração da atividade neural enquanto o participante fazia julgamentos sobre pessoas e  locais. Evidências: A ativação de estereótipos facilita a representação do conhecimento avaliativo
  • Marcador Biológico: Cortisol (2009). Contexto de estudo: Interação com um membro do exogrupo. Evidências: O aumento do cortisol está associado com a redução do viés racial.
  • Marcador Biológico: Giro temporal (2009). Contexto de estudo: Mensuração da atividade neural enquanto o participante faz julgamentos sobre pessoas e locais. Evidências: A ativação de estereótipos dispara as representações do conhecimento semântico.
Fontes: Cykara e van Bavel, (2014);  Quadflieg, Mason e Macrae (2010); Macrae, Alnwick, Milne e Schloerscheidt, 2002; Quadflieg, Turk, Waiter, Mitchell, Jenkins e Macrae (2009); Derks, Inzlicht e Kang (2008)(Cacciopo & Cacciopo, 2013),  Prentice & Eberhardt (2008), Amodio (2008)

Estes achados, no entanto, devem ser considerados de forma comedida. Os estudiosos fazem questão de acentuar os cuidados necessários para que não sejam cometidos os mesmos erros do passado. Deve-se procurar evitar que as novas descobertas sejam interpretadas como uma versão pós-moderna, tecnologicamente avançada e em alta velocidade da frenologia (Forbes & Graffman, 2013). O termo que parece emergir desta nova orientação é interconexão, pois o mais importante nesses novos estudos não é meramente localizar o correlato neural responsável pelas funções psicológicas. O fundamental passa a ser identificar as mudanças que ocorrem durante a ativação e a inibição de algumas partes do sistema neural e de que forma elas estão associadas com algumas atividades específicas. Admite-se, ademais, a enorme influência exercida pelo controle, assim como se reconhece que as motivações e os estados afetivos são bem mais influentes do que se imaginara até então, uma vez que estes processos podem influenciar e, de forma concomitante, sofrer influências do sistema neural. 

Para não deixar dúvidas, os estudos contemporâneos não se fartam de acentuar a importância exercida pelo contexto, pela cultura e pelas normas socialmente aceitas e compartilhadas. Ao mesmo tempo, não abrem mão de acentuar o papel nada desprezível exercido pelos marcadores genéticos, tornando-se imperativo identificar, em um futuro não muito distante, a maneira pela qual os genes influenciam o sistema neural e como este, modelado pela genética, por sua vez, influencia a conduta. 

Enfim, não se pode esquecer o potencial destes estudos para a elaboração de novas hipóteses sobre os processos psicossociais, e muito menos que eles podem suscitar novas interpretações para evidências contraditórias ou inconsistentes. Não devemos esquecer, ademais, que estes novos achados podem colocar em cheque hipóteses há muito estabelecidas, tal como se registra na revisão de literatura publicada por Chekroud, Everett, Bridge e Hewstone (2014), na qual são reavaliadas as interpretações até então aceitas sobre as funções desempenhadas pela amígdala nos preconceitos raciais. Por exemplo, algumas interpretações que explicavam os preconceitos com base na diferenciação entre endogrupo e exogrupo foram colocadas em suspeição. Muitos resultados inconsistentes passam a ser melhor explicados se essa interpretação for substituída por uma outra na qual o lugar de destaque recebido pelo conceito de categorização social cede espaço para uma interpretação fundamentada no conceito de ameaças potenciais percebidas.

Processos psicológicos

É absolutamente injustificado acreditar na possibilidade de estudar os estereótipos, os preconceitos e a discriminação sem buscar auxílio nas teorias que se referem aos processos psicológicos. As críticas aos exageros do individualismo não devem levar a uma posição oposta, a de rejeitar inteiramente a importância dos fatores associados aos indivíduos. Não temos como desconsiderar, por exemplo, a importância das diferenças individuais na expressão dos preconceitos ou a influência do pensamento categórico no processo de estereotipização. Consideramos, no capítulo anterior, teorias como as do autoritarismo right-wing ou a da personalidade autoritária e encontramos indicadores que sustentam o entendimento de que alguns indivíduos são mais propensos do que outros a expressar atitudes preconceituosas ou a realizar julgamentos estereotipados. Algumas destas teorias psicossociais adotam claramente uma perspectiva conflitualista, a exemplo do modelo da dominância social, pois acentuam que o conflito desempenha um papel central na dinâmica da relações pessoais e interpessoais. Outras, ao contrário, se perfilam a uma orientação mais consensualista, a exemplo do  modelo autoritarismo right-wingConsideraremos, de forma breve, algumas das principais teorias psicossociais contemporâneas dedicadas ao estudo dos estereótipos e preconceitos.

A hipótese do mundo justo e as estratégias de justificação e legitimação do sistema

Uma teoria psicossocial de base motivacional, a da justificação do sistema (Jost & Banaji, 1994; Jost, Banaji & Nosek, 2004), possui um caráter mais conflitualista do que outras teorias motivacionais, a exemplo da concepção evolucionista sobre os preconceitos. Ao assumir a perspectiva conflitualista, a teoria da justificação e legitimação do sistema postula uma diferenciação entre os interesses dos grupos dominantes ou privilegiados, ou seja, manter as vantagens e preservar as hierarquias sociais, e aqueles dos grupos não privilegiados, que se voltam para a defesa dos próprios interesses, ou seja, que deveriam ser mais propensos a se insurgirem contra o status quo e as hierarquias sociais.

Por que as pessoas de modo geral, sobretudo as que pertencem às camadas menos privilegiadas, não desenvolvem um senso de empatia com os desafortunados e terminam por conseguir viver tranquilamente em um mundo de infortúnios, desigualdades e misérias? Essa questão vem despertando interesse entre os psicólogos sociais desde a segunda metade do século passado, sendo especialmente conhecida a explicação oferecida por Martin Lerner, naquilo que se convencionou denominar teoria do mundo justo.

A hipótese do mundo justo se sustenta na premissa de que as pessoas creem que o mundo seja um lugar fundamentalmente justo e que cada um recebe aquilo que merece ou, pelo menos, aquilo que se esforça para conseguir (Lerner, 1980). Por essa via, muitos acreditam que uma mulher vítima de um ataque sexual pode ser responsabilizada pelo ataque, seja por vestir trajes provocantes, seja por adotar uma postura um tanto sedutora (Carli, 1999). Da mesma forma, não poucos pensam que os pobres assim o são porque não labutam o suficiente ou são preguiçosos. A hipótese de base desse modelo é a de que as pessoas creem que recebem exatamente aquilo que merecem. Não é difícil imaginar, portanto, que ao responsabilizar os desafortunados pelas suas próprias misérias, sejam colocados em ação mecanismos motivacionais destinados a fazer com que as pessoas não se sintam diretamente responsáveis pelos males que se abatem sobre os  mais desafortunados. 

Uma preocupação correlata é tentar entender por que nem sempre os grupos que ocupam posições não privilegiadas se insurgem contra o próprio destino e lutam contra a hierarquização da sociedade. A teoria da justificação do sistema procura explicar porque os grupos não privilegiados, que deveriam se insurgir contra as desigualdades e as injustiças a que estão sujeitos, acabam por oferecer respaldo aos arranjos dominantes na sociedade, muitas vezes defendendo as concepções dominantes de uma maneira muito mais vigorosa do que os grupos privilegiados. A manutenção da autoestima ocupa uma posição central nesse caso, especialmente quando essa tentativa se associa a uma tendência a justificar o sistema, ou seja, a considerar que o mundo não apenas é estável, como também é um lugar justo onde as pessoas recebem aquilo que merecem. Esse sistema de crenças, que articula a crença em um mundo justo e a responsabilidade dos outros pelos seus próprios infortúnios, vai muito além do que simplesmente reduzir os conflitos entre grupos antagônicos. Trata-se da maneira pela qual grupos desiguais conseguem conviver de forma relativamente pacífica em um mundo injusto, o que impede que as hierarquias sejam desafiadas. Isso, claro, pode levar a uma condição na qual os grupos não privilegiados são levados a um estado de quase imobilismo, o que, por sua vez, reforça e perpetua a manutenção das hierarquias sociais.

Conforme salientam Jost, Pelham, Sheldon e Sullivan (2003), esse processo possui um forte componente motivacional, podendo-se supor que a redução da dissonância cognitiva desempenhe um papel preponderante nesse contexto, especialmente se considerarmos que os membros dos grupos não privilegiados acabam por encontrar boas explicações para as condições em que se encontram, continuam a usar estratégias de racionalização mais flagrantes e a justificar de forma mais intensa o baixo status e o sistema desigual no qual se encontram instalados.

As crenças estereotipadas são particularmente úteis para a criação e manutenção dessas estratégias de racionalização, justificação e legitimação das desigualdades. Uma das modalidades mais comuns de estereótipos que contribuem para justificação dos sistema se refere à criação de mitos fundamentados em estereótipos compensatórios, a exemplo de um grupo que desenvolve a crença de que se eles, os poderosos, possuem poder, dinheiro e estão muito bem de vida, nós, lenhados, somos muito mais felizes, autênticos e a nossa vida é bem melhor do que a deles.

 Teoria do gerenciamento do terror

Se a teoria do mundo justo se fundamenta na crença de que as pessoas desenvolvem estratégias motivacionais para lidar com as ameaças suscitadas pela existência de situações ou pessoas que coloquem em cheque a visão que possuem do mundo como um lugar estável e justo, a teoria do gerenciamento do terror se preocupa em identificar os mecanismos pelos quais as pessoas se defrontam com os terrores suscitados pelo reconhecimento de que são mortais e que podem se deparar a qualquer momento com a morte e os temores a ela associados (Greenberg, Solomon & Arndt, 2008). Esta teoria se fundamenta em algumas premissas básicas: 

i) internalizamos a visão de mundo imposta pela nossa cultura, o que nos oferece a possibilidade de reconhecer que o mundo é um lugar estável e organizado;
ii) essa visão de mundo contribui para o desenvolvimento da crença de que os valores e as normas do grupo ajudam a transcender os temores suscitados pelo reconhecimento de que somos mortais; e
iii) a nossa autoestima desempenha um papel decisivo na aceitação dessa visão de mundo e na possibilidade de gerenciar os temores suscitados pela possibilidade de vir a morrer.

Mediante a ativação da saliência à própria mortalidade, usando técnicas como a apresentação de imagens de acidentes, a apresentação subliminar de palavras como morte e morrer ou a coleta de dados em locais como cemitérios e necrotérios, os pesquisadores identificaram que o reconhecimento da própria mortalidade está associada a fenômenos como o desejo de maior intimidade com parceiros românticos e a busca de uma maior proximidade com pessoas e eventos que contribuam para reforçar a crença que a vida é bela e faz sentido.

No que concerne ao tema dos estereótipos e preconceitos, podem ser destacadas evidências de que, se submetidos a um priming relacionado ao tema da morte, os participantes mostraram uma tendência a reagir de forma extremamente negativa em relação aos que apresentam visões de mundo ou sistemas normativos diferentes, ao tempo em que tendem a se inclinar favoravelmente a todos aqueles com os quais compartilham uma mesma visão de mundo (Greenberg, Pyszczynski, Solomon, Rosenblatt, Veeder, Kirkland & colaboradores (1990). Muitos políticos sabem disso e usam o temor à morte, em particular as ameaças vitais suscitadas pelos inimigos externos, para angariar ou recuperar apoio popular (Landau, Johns, Greenberg, Pyszczynski, Solomon & Martens, 2004), não sendo incomum a difusão, por parte de governantes, de mensagens nas quais as ameaças à sobrevivência são enfatizadas, ao tempo que são encorajadas ações violentas contra os inimigos externos. O desenvolvimento de ideologias destrutivas (Staub & Bar-Tal, 2003) pode ser um meio de atender a algumas motivações pessoais, em particular a de lidar com as angústias, ansiedades e temores existenciais.

 Teorias fundamentadas nos afetos

Reconhecer que as pessoas são tratadas de forma injusta ou temer a própria morte não é algo que ocorre sem despertar emoções. Dificilmente nos posicionaríamos diante de tópicos dessa natureza de uma forma totalmente intelectualizada. Uma hipótese psicossocial contemporânea, a teoria da emoção intergrupal, enfatiza o papel desempenhado pelos sentimentos e emoções e acentua o fato das relações entre os grupos serem determinadas por uma dimensão analítica na qual o papel das variáveis afetivas são preponderantes.

Assinale-se, entretanto, que a ênfase que colocamos nos temas dos conflitos e das irracionalidades não deve nos levar a acreditar que apenas as emoções negativas se manifestam nas relações entre os grupos. Por certo, nos grupos se manifestam sentimentos e afetos bastante positivos, a exemplo da alegria e do orgulho. E, claro, as emoções positivas são mais desfrutáveis quando compartilhadas com os outros membros do grupo ao qual se pertence. Ganhar um elogio por uma tarefa realizada, obter reconhecimento e fazer sucesso no ambiente de trabalho não é nada mal, mas se esta tarefa for realizada em grupo e o sucesso recair sobre os membros do grupo que contribuíram para o bom êxito da empreitada, a emoção positiva compartilhada por todos será muito mais satisfatória do que se ela for obtida e desfrutada de forma exclusivamente individual.

A teoria das emoções intergrupais reflete uma forte tendência encontrada na psicologia social contemporânea em não se contentar com as explicações inteiramente individualistas. Um dos argumentos centrais é o de que as emoções se relacionam de uma forma muito mais intensa com a identidade social do que com a dimensão biológica. As emoções e os sentimentos que se manifestam nas relações entre os grupos são determinadas pela categoria social a qual se pertence, pelo grau de identificação com essa identidade e pela maneira pela qual os demais membros da categoria avaliam o alvo. É decisivo, portanto, estabelecer uma diferenciação entre as emoções individuais e as intergrupais. Por exemplo, se pertenço à categoria dos docentes e decidimos pela deflagração de uma greve, então a avaliação que faço dos fura-greve será determinada pelo grau de identificação que mantenho com a categoria docente. Quanto mais forte for o vínculo, quanto mais intenso for a minha identificação com os companheiros docentes, mais intensas serão as emoções que compartilho com os meus colegas de profissão. Essas emoções, por sua vez, não são simplesmente descargas emocionais que depois passam e vão embora; ao contrário, as emoções intergrupais influenciam a maneira pela qual nos posicionamos e, a depender das circunstâncias, a maneira como reagiremos em relação aqueles que se insurgiram contra o que foi coletivamente decidido.

Conforme salientam Mackie, Maitner e Smithie (2010), este modelo, ao enfatizar o papel da identidade social, se distancia da concepção biológica das emoções e procura identificar de maneira mais precisa a natureza das emoções que se manifestam no âmbito das relações entre os grupos. A suposição central, nesse caso, é de que não se trata simplesmente de imaginar que as avaliações dos membros do exogrupo sejam simplesmente na base do gostar ou não gostar, avaliar positivamente ou negativamente e de que uma mesma avaliação é conduzida por todos os membros da categoria. Voltando ao exemplo do fura-greve, o julgamento não será simplesmente todos assinalarem que o relutante é um traidor da classe trabalhadora e, consequentemente, deve ser avaliado negativamente. Também não é simplesmente achar que os que não furaram a greve estão do nosso lado e devemos julgá-los de maneira positiva. A avaliação da emoções intergrupais é muito mais complexa e é feita caso a caso, pois envolve o julgamento de fatores como os eventos nos quais os atos de rebeldia se manifestaram, as pessoas que se comportaram de maneira um tanto controversa e as situações particulares concretas nas quais as atividades se desenrolaram. Isso significa dizer que o alvo da avaliação emotiva intergrupal não se subordina a um único episódio de julgamento. As avaliações podem ser variadas e sofrer mudanças com a passagem do tempo, a depender das pessoas, eventos ou situações envolvidas.

Salientar que as avaliações das emoções suscitadas por um determinado alvo seja um evento complexo não significa dizer, entretanto, que as emoções despertadas pelos membros do grupo são imprevisíveis. Por certo, indicar as emoções suscitados por cada um dos fura-greve em todos os membros de um grupo é uma tarefa impossível de ser realizada com êxito, mas é possível estimar de forma relativamente acurada qual será a tendência das emoções a serem adotadas em relação aos membros da categoria que pertencem ao endogrupo, os que honraram os compromissos assumidos com a categoria, e aos membros do exogrupo, os fura-greve.

A complexidade nas tarefas de avaliação também é acentuada por uma outra teoria fundamentada nos afetos. O modelo dos conteúdos dos estereótipos permitiu a retomada de uma preocupação de longa data dos estudiosos que tinha sido arrefecida numa época em que o fundamental era estudar os processos psicológicos e não os conteúdos dos estereótipos. Esse modelo se assenta na suposição de que dificilmente os julgamentos sobre os membros de uma categoria social são unidimensionais. Dificilmente um grupo é visto de uma forma simplesmente positiva ou negativa. A percepção e o julgamento dos grupos e categorias sociais, ao contrário, se fundamenta em duas dimensões complementares e interdependentes: ser competente (que inclui fatores como a independência, habilidade e capacidade) e ser legal (na qual se incluem elementos como ser amigável e confiável).

A partir dessa diferenciação podem ser identificados quatro possíveis critérios de julgamento dos alvos, que se fundamentam em quatro visões estereotípicas sobre os grupos e categorias sociais: 1) os competentes e legais; 2) os competentes, mas não legais; 3) os legais, mas não competentes; e 4) os nem competentes, nem legais.

As reações emocionais para com os grupos ou categorias sociais dependeriam, como se pode imaginar, da articulação dessas duas classes de estereótipos. Ainda que se possa imaginar que os estereótipos de competente e legal sejam aplicados usualmente aos membros do próprio grupo, algumas categorias e grupos são vistos como competentes e legais, a exemplo dos atletas olímpicos, celebridades ou artistas consagrados. A essas categorias estariam associados emoções e sentimentos como o orgulho e a deferência. Aos grupos caracterizados como legais, mas não competentes, a exemplo dos idosos, estariam associados sentimentos como a pena. Às categorias vistas como competentes, mas não legais, como, por exemplo, a dos ricaços, estariam associados sentimentos com a inveja. Por fim, sentimentos como o desdém, o desprezo e mesmo o asco estariam associados com categorias como a dos pobres ou a dos sem teto, uma vez que eles não são percebidos como competentes nem como legais.

Muitas outras teorias podem ser adicionadas a essa breve revisão dos estudos psicossociais sobre os estereótipos, os preconceitos e a discriminação. Iniciamos a revisão histórica no capítulo anterior deixando claro que até algumas décadas atrás o preconceito era normativo, ou seja, não podíamos afirmar que alguém tinha preconceito ou estereótipos, pois estas palavras não existiam. Os preconceitos estavam naturalizados nas relações sociais e apenas a partir do início do século XX se inicia a desnaturalização das diferenças, emergindo o entendimento de que as diferenças reais entre os grupos, sejam eles raciais, étnicos ou de gênero, eram injustificadas, sendo mais plausível admitir que elas eram construídas nas relações sociais. Essas diferenças logo foram tratadas como injustas e se desenvolveu a crença algo ingênua de que um maior aprofundamento no conhecimento desses fenômeno acabaria por fazer desaparecer esse tratamento injustificado. Logo os estudiosos notaram que as coisas eram bem mais complexas, pois o acréscimo no nível de conhecimento dos estereótipos e dos preconceitos não propiciou uma redução significativa nas suas expressões. Foram buscadas, ao longo do tempo, explicações situadas em diversos níveis, seja no indivíduo, nas normas sociais e culturais ou na sociedade. Atualmente, parece claro que nenhuma perspectiva isoladamente conseguirá explicar os mecanismos ativados durante o processo de estereotipização.  É importante assinalar, no entanto, que a diferenciação estabelecida por Duckitt,  que adotamos na condução da presente análise, deve ser interpretada como uma maneira mais ou menos aceitável de delimitar períodos históricos e isolar, para fins de estudos, características comuns a algumas décadas e que não aparecem em outros contextos históricos. O leitor há de ficar precavido de que se trata apenas de uma simplificação e, portanto, não faz jus à complexidade das manifestações dos estereótipos e preconceitos na atualidade.

Moda antiga coisa nenhuma!

Iniciamos o presente volume insistindo em vários momentos que não temos justificativas para continuar aceitando a suposição de que a evolução histórica dos estereótipos e preconceitos se resuma a um modelo no qual os preconceitos à moda antiga foram substituídos por formas mais sutis e implícitas de expressão. O que nos parece mais correto é assinalar que a difusão pública das teorias sobre os estereótipos e preconceitos na atualmente nos leva a crer que muitas vezes procuramos esconder os nossos preconceitos e estereótipos. Fazemos isso para preservar o nosso autoconceito e a boa imagem que fazemos de nós mesmos. A essa ideia subjaz o entendimento de que estereótipos e preconceitos são inevitáveis – procurar debelá-los pode ser simplesmente entendido como o resultado de um mecanismo mental que depende da vontade e está sujeito ao controle do percebedor.

Essa tentativa de controle resulta, em parte, do esforço e da luta de muitos grupos de pressão que têm denunciado na mídia e nas redes sociais os impactos negativos dos estereótipos e dos preconceitos. Isso não significa dizer, no entanto, que exista uma visão monolítica a respeito do assunto. A noção de que atualmente, sob pressão dos sistemas normativos, somos compelidos a exprimir formas de julgamento social menos preconceituosas, enquanto que no passado a expressão era aberta e natural, fazia sentido na segunda metade do século XX. 

Atualmente a expressão contemporânea dos estereótipos e preconceitos ocorre tanto de maneira aberta e manifesta, quanto de forma implícita e indireta. Não ocorreu a pura e simples substituição de um modelo pelo outro. Alguns domínios, a exemplo das áreas do humor, da internet e das competições esportivas parecem se manter imunes às normas do politicamente correto. Finalizaremos o presente volume ilustrando como nessas áreas a expressão dos estereótipos e preconceitos ocorre de forma aberta, sem que os agentes tenham qualquer preocupação em tratar de forma equilibrada  e justa os alvos do seus julgamentos tendenciosos.

Humor, internet e futebol

Uma anedota, entre outras coisas, pode ser considerada uma espécie de sátira ou retrato clandestino dos costumes (Câmara Cascudo, 1984). Não poucos ditadores foram ridicularizados pelos comentários corrosivos de gênios do humor, sendo suficiente lembrar Charlie Chaplin e o Grande Ditador ou as comédias dos Irmãos Marx. Nesse sentido, muitas vezes o humor representa a única forma de pensamento crítico, quando as demais alternativas estão ausentes.

Na psicologia social, em particular no estudo dos preconceitos, as piadas e anedotas podem desempenhar um papel normativo, pois assinalam as condutas que não podem ser manifestas e indicam os tipos de sanções aos quais os seus perpetradores podem estar sujeitos. Na nossa tese de doutorado (Pereira, 1996) acompanhamos em um fórum de humor as mensagens trocadas por brasileiros e portugueses e não tivemos dificuldades em identificar que parece ser muito mais comum se divertir com os infortúnios do inimigo do que com o próprio sucesso. Os mecanismos de elaboração das anedotas não são muito diversificados e, mais do que isso, elas são frequentemente requentadas e reproduzidas em outros contextos, modificando-se apenas as personagens. As nossas piadas sobre os portugueses são as mesmas contadas no Chile sobre os galegos, na Holanda sobre os belgas e na Nova Zelândia sobre os maoris.

Davies (1982) assinala o esquema mental que preside a elaboração das anedotas étnicas e indica, por exemplo, que uma parcela significativa delas retrata os grupos alvos a partir de dois estereótipos, os estúpidos e os avarentos. O quadro C3 reproduz de forma modificada o que apresentamos no nosso livro sobre os estereótipos. Nele são indicados os locais onde as anedotas estão difundidas,  os grupos que são representados como estúpidos e os que são retratados como avarentos. 

Quadro C3: local e grupos representados como estúpidos e avarentos


  • Local: Austrália
  • Grupo retratado como estúpido: Irlandeses
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses
  • Local: Canadá
  • Grupo retratado como estúpido: Ucranianos; Islandeses
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses
  • Local: Estados Unidos da América
  • Grupo retratado como estúpido: Poloneses
  • Grupo retratado como avarento: Judeus; Escoceses
  • Local: Dinamarca
  • Grupo retratado como estúpido: Noruegueses
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses; Judeus
  • Local: França
  • Grupo retratado como estúpido: Belgas
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses; Judeus
  • Local: Inglaterra
  • Grupo retratado como estúpido: Irlandeses
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses; Judeus; Gauleses
  • Local: Nova Zelândia
  • Grupo retratado como estúpido: Irlandeses; Maoris
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses
  • Local: Suécia 
  • Grupo retratado como estúpido: Noruegueses; Finlandeses
  • Grupo retratado como avarento: Escoceses; Judeus.

Sob o lema de que o humor politicamente correto é sem graça, as piadas e anedotas estereotipadas e preconceituosas continuam se difundindo de forma particularmente intensas.  Obviamente nem todo humor depende de elementos estereotipados, nem é elaborado com base em preconceitos. Se considerarmos os elementos presentes na construção do humor, por exemplo, nos roteiros de comédias televisivas, identificamos que alguns recursos facilitam a utilização de elementos estereotipados, enquanto que outros são mais refratários a esta utilização e permitiriam, teoricamente, a elaboração de peças de humor menos preconceituosas.

O quadro C4 diferencia os elementos que facilitam a utilização dos estereótipos nas comédias televisivas e, por outro lado, permite fazer um contraponto com os tipos de argumentos que poderiam ser mais utilizados pelos roteiristas para a elaboração de peças de humor menos preconceituosas (López, 2008). 

Quadro C4: Conteúdos propícios e neutros para a utilização dos estereótipos no humor

Elementos propícios e não para o uso estereotipado do humor

Conforme podemos observar, roteiristas e escritores dispõem de elementos que permitem facilmente a elaboração de peças de humor cujos conteúdos podem ser neutros em relação aos estereótipos. O que assistimos, no entanto, é a profusão mais do que exagerada de conteúdos estereotipados e preconceituosos nos nossos programas televisivos humorísticos. Será que o humor não preconceituoso é menos engraçado do que o preconceituoso? Será que os humoristas estão corretos quando dizem que oferecem apenas o que o público pede? A elaboração de argumentos humorísticos com base em técnicas como a repetição, a surpresa, o uso de situações facilmente reconhecíveis, assim como outras incluídas no quadro C4, poderia proporcionar a produção de peças de maior qualidade, mas não é o que acontece, pois os nossos humoristas preferem adotar técnicas muito menos neutras em relação ao uso de conteúdos estereotipados ou preconceituosos.  

Deixando de lado o tema do humor, consideraremos a seguir um outro contexto no qual a expressão pouco sutil dos preconceitos e estereótipos tem sido documentado. Se a internet, a rede mundial de computadores, diminuiu as distâncias, propiciou o surgimento de novas formas de comunicação e colocou por terra a distinção entre emissores e receptores da informação, ela também, favorecida pelo relativo anonimato dos usuários, facilitou decisivamente a expressão de juízos preconceituosos e a manifestação dos estereótipos sociais.

Os fóruns de discussão, as salas de chat, as redes sociais e os blogs tem sido utilizados não apenas como meios para expressar preconceitos, mas também para fomentar o surgimento dos grupos de ódio ou de redes de usuários criadas com a finalidade precípua de desqualificar e agredir determinadas categorias sociais. Em algumas áreas essa situação é particularmente grave.

O esporte mais popular do planeta, o futebol, é uma área na qual a expressão de estereótipos, do preconceito e da discriminação aberta é flagrante, tanto por torcedores, quanto por atletas, assim como por jornalistas e comentadores. Em que pese a FIFA, a Federação Internacional de Futebol, ter adotado medidas duras contra a discriminação, os resultados ainda parecem tímidos. Pouco adianta os atletas entrarem em campo portando faixas dizendo não ao racismo e, logo depois, no fragor da batalha futebolística, expressarem em todas as letras o preconceito que carregam no próprio peito. Cânticos racistas, gestos imitando animais, lançamento de bananas no campo têm sido uma constante em muitos estádios e as medidas inibidoras não parecem ser suficientemente duras para por fim ou mesmo limitar as ações disruptivas.

A organização Kick it out, destinada a combater a discriminação e a favorecer uma atitude inclusiva no futebol, publicou, no ano de 2015, um relatório sobre os episódios de discriminação ocorridos no universo futebolístico e suas repercussões nas redes sociais. Em suas linhas mais gerais, os resultados apontam um crescimento significativo no número de eventos de discriminação ocorridos no contexto da liga inglesa, a Premier League. Se na temporada 2012/2013 foram registrados 19 incidentes, dos quais 12 referidos como crimes de ódio, na temporada 2013/2014 o número de incidentes registrados saltou para 142, dos quais 113 foram denunciados à polícia como crimes de ódio. Os números relativos à temporada 2014/2015, embora ainda incompletos, evidenciam a mesma tendência que no período anterior. O levantamento apenas dos registros obtidos entre agosto de 2014 e março de 2015 aponta cerca de 134 mil episódios de discriminação, dos quais 95 mil direcionados a clubes e 39 mil dirigidos a jogadores. Neste último caso, os principais alvos foram os atletas Balotelli e Welbeck, vítimas constantes de injúrias raciais, e Sturridge, alvo constante de críticas em função da orientação sexual. O que significam esses números? Os registros refletem claramente a extensão da discriminação, pois partindo-se do total de 134 mil casos, pode-se chegar a conclusão de que se registra, a cada mês, quase 17 mil episódios de discriminação, o que corresponde a 551 mensagens por dia, ou uma a cada 2,6 minutos.

Os dados, quando segmentados por categoria objeto de tratamento discriminatório, permitem apontar um quadro diferencial da discriminação no futebol nas redes sociais inglesas, a saber, 28% de discriminação quanto a raça, 25% quanto ao sexo, 19% quanto a orientação sexual, 11% relacionadas com alguma necessidade especial, 9% relacionados ao antissemitismo, 5% ao anti-islamismo e 2% relativos à idade (Kick It Out unveils findings of research into football-related hate crime on social media, 2015, April 16).

Como pode ser observado, ao racismo, a face preconceituosa mais evidente no futebol, se soma o sexismo e a homofobia, tanto nas competições masculinas quanto nas femininas. Balotteli, por exemplo, chegou a propor um boicote dos atletas negros nos próximos campeonatos mundiais caso não sejam adotadas providências efetivas no sentido de debelar o racismo. Neste particular, os atletas negros têm sido bem mais efetivos do que os atletas homossexuais na luta contra o preconceito e a discriminação. Poucos atletas têm saído do armário, e os que o fazem, sabem que irão sofrer consequências muito graves, com risco inclusive de interromper uma promissora carreira. Uma outra área complicada, embora de menor visibilidade, não tanto pelos preconceitos, mas sobretudo pelos estereótipos, se refere ao idadismo, ou seja, ao preconceito de idade. No contexto do futebol, o passar dos anos não é associado com um ganho em experiência, mas como um entrave ao bom desempenho em campo. As contusões, o desgaste muscular, o cansaço físico e mental, tudo contribui para acirrar os estereótipos e intensificar os preconceitos contra os atletas mais maduros.

Palavras finais

Com a presente discussão, finalizamos o volume I.  O próximo volume será dedicado ao estudo dos estereótipos. Apresentaremos, com algum grau de detalhamento, o nosso modelo teórico geral dos estereótipos. Eles serão definidos como sistemas de crenças socialmente compartilhadas a respeito de determinados entes, geralmente grupos ou categorias sociais, que se fundamentam em suposições sobre padrões comuns de conduta ou na percepção de homogeneidade desses entes, bem como em teorias implícitas de natureza causal ou intencional.