4. Preconceito à moda antiga. Antiga?

Não gostar do outro, do diferente, do estrangeiro, do alienígena, é algo caracteristicamente humano. Isto é particularmente verdadeiro quando estas diferenças se instauram sobre atributos de natureza física, a exemplo da cor da pele. O termo bárbaro, cunhado para fazer alusão aos não civilizados, representa bem esta tradição de pensamento. Hoje, com a imposição do politicamente correto (Gruda, 2014), acredita-se que a expressão dos estereótipos e a formulação de atitudes e julgamentos negativos a respeito de determinados grupos, especialmente em relação aqueles com que se conhece uma longa história de discriminação, tem se mostrado cada vez menos frequente. Esta interpretação, no entanto, não deve nos levar a um entendimento errôneo de que os preconceitos estão sendo substancialmente abandonados e que as relações entre os grupos e as categorias sociais estão se tornando cada vez mais harmoniosas. Em que pesem os avanços significativos dos grupos de pressão, os preconceitos à moda antiga continuam presentes e, muitas vezes, eles são expressos pelos responsáveis em zelar por uma convivência mais harmoniosa no interior de uma sociedade. O presidente de um país africano, não faz tanto tempo assim, tornou pública uma desafortunada declaração que definitivamente não se esperaria de qualquer autoridade constituída.

Figura 4.1. Preconceito à moda antiga.

preconceito á moda antiga

Ao expressar uma crença desta natureza a autoridade se dirige certamente a uma audiência interna, pois sabe das consequências do ato, especialmente no que concerne à opinião pública internacional. Ainda assim, ele não hesitou em expressar claramente a sua visão preconceituosa de mundo. E nisso não está sozinho, pois muito pensam da mesma maneira, apenas não possuem os meios ou condições de expor abertamente aquilo em que creem. A opinião expressa por esta autoridade deve ser interpretada como um ato político e, como tal, gerou consequências políticas, o que nos ajuda a entender a natureza complexa da expressão dos preconceitos e dos estereótipos nos tempos atuais.

As políticas de segregação racial, nos Estados Unidos, ou o regime do apartheid, na África do Sul, foram apenas as facetas mais visíveis de um tipo de relação racial que predominou até o início do século XX. Leis e normas jurídicas ofereceram os fundamentos para a manutenção e sobrevivência de um sistema no qual a discriminação, mais do que tolerada, constituía-se na norma a ser seguida. Numa sociedade na qual se valoriza o preconceito e discriminar é o padrão normativo de conduta, não discriminar ou não expressar preconceitos pode levar a pessoa a ser alvo de recriminações ou mesmo vir a ser objeto de assédio moral ou físico. Importa salientar que se esta visão sobre o outro como o diferente, o incapaz ou o inferior está entranhada em todas as esferas da sociedade, os agentes econômicos e políticos, os grupos de pressão e até mesmo a comunidade científica também se encontram sujeitas às mesmas pressões normativas que se abatem sobre toda e qualquer pessoa. Duckitt (1992a; 1992b), em dois estudos frequentemente citados, analisa o quanto a evolução dos estudos e a abordagem do tema se subordinava à maneira pela qual o preconceito era entendido em maior ou menor grau como uma questão social, indicando uma forte dependência do conceito em relação à maneira pela qual o fenômeno era percebido na sociedade. Estas duas dimensões, a questão social e a imagem pública, determinam, na interpretação de Duckitt, não apenas a forma pela qual o preconceito racial é conceituado, define a teoria predominante em determinado contexto social e histórico, assim como interfere na escolha dos métodos utilizados pelos investigadores para se debruçarem sobre o fenômeno.

Em termos cronológicos, Duckitt (2010) estabelece um quadro composto por oito grandes períodos. Nas seções seguintes discutiremos brevemente os sete primeiros e, em seguida, concluiremos o volume 1 da presente obra passando em revista o oitavo período, ou seja, aquele que representa os desenvolvimentos atuais dos estudos sobre os estereótipos e preconceitos. É importante assinalar, no entanto, que o modelo de Duckitt se refere estritamente ao preconceito racial, devendo-se ter o cuidado em não generalizá-lo apressadamente para as outras formas de preconceito. Para facilitar a compreensão, apresentaremos cada uma destas etapas como peças de um complexo quebra-cabeças, o que não apenas permitirá ter uma ideia de cada período, como  também nos ajudará a entender a maneira pela qual os períodos se encadeiam e se relacionam para formar uma totalidade complexa e difícil de ser compreendida.

 A colonização e a dominação dos povos inferiores

preconceitos até os anos 40

O ponto de partida da análise de Duckitt, e de outros estudiosos da história dos preconceitos, reside na suposição de que até o final da segunda década do século XX o preconceito não era visto como um problema social, não estando presente, portanto, a preocupação em evitar expressá-lo, que parece ser a tendência mais comum nos tempos atuais. A palavra preconceito, no sentido como a compreendemos hoje, uma antipatia injustificada em relação a algum grupo social, não existia, e muito menos o entendimento de que existiam pessoas mais preconceituosas do que outras.

 A naturalização das relações desiguais não é algo estranho às sociedades humanas, se considerarmos  que desde a Antiguidade até os nossos dias a escravidão e o colonialismo sempre se fizeram presentes.  As relações assimétricas entre indivíduos diferentes eram vistas como absolutamente naturais até os anos vinte do século passado, quando se desenvolve uma certa sensibilidade em relação aos problemas das diferenças entre os indivíduos.

Conforme analisa Hofbauer (2006), a escravidão compreende uma relação muito mais complexa do que simplesmente um grupo atacar um outro numa guerra, vencer a batalha, tomar posses de bens materiais, escravizar os vencidos e forçá-los a trabalhar, em meio a incessante e intermináveis maus-tratos. A escravidão, desde o período helênico, passando pelos romanos e árabes, até chegar aos conquistadores europeus, envolvia uma relação particular entre senhor e escravo, configurando-se como algo absolutamente natural, sendo impensável, nessas sociedades, pensar em outra forma de organização social que não fosse a fundada na escravidão.

Da mesma forma, o domínio colonial de uns povos sobre outros também era visto como algo normal, como um processo imanente à natureza humana, sendo para muitos um dever sagrado levar cultura e civilização para bárbaros e selvagens, o que servia como pretexto ou justificava para os esforços despendidos no árduo dever de colonizar. Exercido o domínio pela força, a tarefa dos colonizadores se encaminhava em duas direções. Por uma lado, a tarefa destrutiva de dizimar pelas armas os resistentes, os revoltados,  aqueles que se insurgiam contra a metrópole e, por outro, a tarefa ‘construtiva’ de civilizar, trazer luz para o reino das trevas, salvar a alma dos primitivos, oferecer os meios para que estes se tornassem gente de verdade. O esforço civilizatório podia se dar mediante o extermínio dos remanescentes de uma população inteira, por ela não possuir as letras L, F e R no alfabeto, o que a impediria de conceber as ideias de lei, fé e rei, ou poderia se dar pela via da educação, a exemplo do sistema educacional imposto pelos portugueses em Moçambique, onde o ensino oferecido aos nativos tinha por objetivo conduzir gradualmente o indígena da vida selvagem para a vida civilizada (Maloa, 2013).

Até o inicio do século XX, época em que o colonialismo e a escravidão ainda dominavam as mentes, o preconceito estava longe de ser um problema e o tratamento desigual era visto como algo natural, sendo considerado uma resposta inevitável dos dominadores para com os dominados. É interessante notar que os últimos impérios coloniais – Portugal, Inglaterra, França e Bélgica – ainda resistiram até meados do século XX. A escravidão, não as decorrentes de dívidas contraídas ou devido ao tráfico internacional de seres humanos, que é caracterizada como criminosa e ilegal, ainda é um desafio a ser vencido, mas a escravidão, com caráter oficial e regulamentada por lei, persistiu até 1961, quando foi abolida na Arábia Saudita, desaparecendo em definitivo apenas nos anos oitenta do século passado, quando, finalmente, alcançou o estatuto de ilegal na Mauritânia, ainda que as suas consequências não tenham simplesmente desaparecido (Otazu, 2015).

O que, afinal, justificaria o direito de alguns povos dominar, colonizar e tornar civilizadas outras terras? Civilizar seria necessário, como assinalaram dois antropólogos brasileiros da segunda metade do século XIX, após terem analisado crânios subtraídos de cemitérios indígenas, porque “os indígenas brasileiros, ao lado dos esquimós e dos habitantes da Patagônia, ocupavam a posição mais baixa na escala de evolução humana das Américas, num estado biológico de selvageria que havia se mantido imutável por mais de 3000 anos” (Andermann, 2004, pp. 137).

A ausência de qualquer sensibilidade ou preocupação em relação aos diferentes pode ser exemplificado pelos espetáculos públicos nos quais os “anormais” eram expostos,  um autêntico circo de aberrações, no sentido literal da expressão. Anões, obesos, africanos, indígenas, bosquímanos, uma fila de gente com formas, altura, estrutura morfológica, cor de pele, modos de fala e estilos de vida diferentes se tornaram objeto de curiosidade e escárnio do público, que inundava as grandes feiras e desembolsava os centavos de praxe para assistir ao incessante desfile dos ‘infra-humanos’.

O exemplo de Ota Benga ilustra, da pior maneira possível, como eram obtidos os exemplares desta fauna exótica exibida ao público (Bradford & Blume, 1992). Originária da floresta tropical da hoje República Popular do Congo, Benga foi capturada, após ter a aldeia incendiada e a família morta, durante a incursão de uma tribo inimiga, e tomada como escrava por uma tribo fiel ao rei Leopoldo, da Bélgica, nação que dominava o então Congo Belga. Permaneceu em regime de escravidão até ter sido adquirida por um santo homem, o missionário Samuel P. Werner, que recebera a missão de “contratar” alguns pigmeus, que então despertavam um interesse popular extraordinário, para serem exibidos na Exposição de St. Louis, de 1904. Não apenas ela se juntou aos esforços do missionário, como também convenceu seus iguais que se encontravam nas mesmas condição a demonstrarem, na exposição, o autêntico modo de vida africano. Finalizada a mostra, volta à África com o missionário, onde permaneceram por um ano e meio, até retornarem a Nova Iorque. O missionário-explorador, ao não conseguir vender a coleção de objetos adquiridos durante o tempo de permanência na África, declara falência, passando o seu  “acervo” a ser propriedade de uma companhia seguradora. Antes de voltar para a sua Carolina do Sul natal, o missionário deixa Benga aos cuidados do Museu Americano de História Natural. Os responsáveis pelos cuidados de Benga, eivados pela melhor das intenções, decidem doá-la ao zoológico do Bronx, onde ela passa a ocupar uma jaula, tendo como companheiro de residência um sisudo orangotango. Retirada do zoológico e após trilhar por uma sem número de instituições de caridade, Benga finalmente veio alcançar a paz ao se infligir um tiro de revólver, desencantada por não poder mais voltar à sua terra natal. No website Human Zoos The Invention of the Savage’ encontramos algumas imagens destes zoológicos.

Estas exposições atendiam uma dupla finalidade, a de exibir o estranho, para obter lucros, e a de educar, para obter frutos. A prática de trazer exemplares de povos conquistados para exibição e deleite dos iguais sempre foi uma constante na história da humanidade. Os romanos o faziam com os escravos conquistados na Ásia e na África. Entre os os conquistadores europeus, era comum a prática de embarcar nativos nas caravelas para expô-los ao público civilizado. Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e Cabral, forneceram nativos para a Península Ibérica, Jacques Cartier, para a França, Martin Frobisher e James Cook, para a Inglaterra, em uma época em que que não se hesitava em retirar os nativos do solo natal para levá-los a terras distantes, para o deleite de imperadores e súditos.

Carl Hagenbeck, um alemão, fez fortuna com a aquisição de animais exóticos para serem vendidos a zoológicos e, com um tino de negociante acima do comum, percebendo uma queda no interesse do grande público pelos animais e a depreciação dessas commodities no mercado interno, iniciou o negócio de exposição de gente. Aconselhado por um amigo, incluiu uma família de lapões, suas armas, cabanas e trenós no que deveria ter sido uma exposição de renas. Percebendo o grande interesse do público em assistir pessoas de origem diferente fazendo coisas habituais, em especial, a mamãe amamentando cuidadosamente uma doce garotinha de quatro anos, o empreendedor não hesita em encomendar ao seu fornecedor habitual, residente no Sudão, além de animais e de objetos de labuta diária, um bom número de nativos. E o show de Hegenbeck não parou. Esquimós, uma tropa constituída por elefantes e habitantes originários do então Ceilão, foram visitados pelo grande público, bem como pela realeza e pela fina flor da aristocracia (Rothfels, 2002).

A segunda preocupação, com a educação do povo, também estava na origem destas exposições, extremamente populares no final do século XIX (Arteaga & El-Hani, 2010). Elas colocavam em manifesto que as raças humanas, segundo o ponto de vista da biologia e da antropologia, pertenciam a diferentes espécies, devendo os grupos não-brancos serem vistos muito mais como pertencentes à categoria dos símios do que a dos humanos.

O substrato teórico para estas aproximações “científicas” era a teoria eugenista, fortemente associada ao nome do aristocrata francês Conde de Gobineau. O eugenismo foi concebido inicialmente por Francis Galton como uma ciência destinada a limitar a força do acaso, substituindo-o por um controle social e científico destinado a aperfeiçoar a raça humana, ao afastá-la do desvirtuamento proporcionado pela miscigenação (Kevles, 1985). O movimento eugenista brasileiro esteve imerso numa série de debates, alguns de natureza científica, a exemplo do conflito entre o neo-lamarckismo e o mendelianismo, outros relacionados com a ideologia racial, onde se debatia se os negros deveriam ser segregados ou assimilados, assim como sobre as múltiplas propostas de ação política, relativas a temas como a higiene pública, a proteção materna, a legislação do trabalho e o controle de imigração (Stepan, 1990).

Como aperfeiçoar a raça, afinal? Na perspectiva da chamada eugenia “positiva”, acreditava-se que a raça poderia ser aperfeiçoada desde que a população, com o auxílio dos agentes públicos, se esmerasse em obter uma descendência saudável, o que dependeria da realização de matrimônios eugenicamente comprovados e da adoção de um ideal de paternidade consciente e responsável. Estas ações estavam subordinadas a um princípio eugenista, a tese do branqueamento, bastante  popular entre os estudiosos brasileiros nos anos 1920 e 1930. O ideário eugenista contemplava comungar os esforços de políticos e das elites nacionais no sentido de fazer desaparecer de forma gradual, mas ininterrupta, o sangue negro e indígena da população brasileira, tornando-a, em algumas décadas, eminentemente branca. Se a própria natureza se encarregava de dar um empurrãozinho nessa direção, afinal os negros e indígenas eram vistos como mais propensos a serem dizimados por epidemias e doenças endêmicas, manifestavam uma clara preferência pela branquinha, a taxa de mortalidade dos brancos era bem mais baixa do que a dos outros grupos e a população de negros estava dispersa e desorganizada após o fim da escravidão, seria necessário dar um impulso adicional ao trabalho da natureza e implementar políticas imigratórias destinadas a trazer genes brancos – europeus, não negros, muito menos asiáticos, a se considerar o ácido debate sobre a conveniência de proibir a entrada de colonos japoneses no país – para purificar o sangue nacional.

Este ideário de extirpação da parte gangrenada, se acarretava a preocupação em criar um futuro para a nação, um futuro que deveria ser branco e ocidentalizado (Schwartz, 1994), também não desconsiderava o papel exercido pelas condições sociais, em particular, pelas condições sanitárias e de saúde pública. Nesse contexto, nem o clima, nem a raça, nem mesmo a saúva, poderiam ser considerados os responsáveis pelo surgimento do jeca, o que demandava a des-tatutização do país e levou parte do movimento eugenista brasileiro a considerar a saúde pública um elemento analítico mais importante do que a seleção natural ou a genética (Stepan, 1990).

Voltando à diferenciação estabelecida por Duckitt, importa assinalar que se neste primeiro momento o contexto histórico era definido pela regra colonial de domínio das potências e pela naturalização da interpretação de que os brancos tinham direito a colonizar e escravizar os atrasados, esta tendência se refletiu na ausência de qualquer preocupação em evitar ser preconceituoso. A questão científica central era a de identificar e mensurar as diferenças dos atrasados, preocupação respaldada pelas teorias raciais que ofereciam o substrato teórico para a condução de pesquisas destinadas a comparar e, mais do que isso, a hierarquizar as capacidades mentais de indivíduos de perfis raciais distintos. Obviamente, dada a natureza da ciência defendida, as comparações levaram a uma conclusão inevitável, a da comprovação científica da superioridade dos brancos sobre as outras raças.

O quadro 4.1, elaborado a partir de Haller (1971), apresenta algumas teorias sobre as diferenças raciais que em certo momento foram consideradas cientificamente justificadas. Como se observa, as conclusões respaldadas pelo que se supunha ser o conhecimento científico da época acerca da evolução das espécies, se encaminhavam sempre no sentido de considerar a raça branca como a mais desenvolvida e as demais, em particular, a negra, o resultado da degenerescência da raça original ou, na melhor das hipóteses, uma raça inferior.

Quadro 4.1: critérios de comparações entre as raças


  • Quando, quem e onde: 1735, Carl von Linnaeus, Europa.
  • Área de estudos: Antropologia.
  • Argumento: Cor da pele como critério de classificação das raças: Homo Americanus (vermelho), Homo Europeaus (branco), Homo Asiaticus (amarelo) e Homo Afer (negro).
  • Conclusões: Americanos: avermelhado, colérico, obstinado e regulado pelos costumes; Europeus: branco, inconstante, sanguíneo, olhos azuis, gentil, governado pelas leis;  Asiáticos: amarelado, sério, digno, avaro e regulado pelas opiniões;  Africanos: negro, fleumático, astuto, preguiçoso, lúbrico e governado pelo capricho.

  • Quando, quem e onde: 1770, Petrus Camper, Europa.
  • Área de estudos: Anatomia comparada.
  • Argumento: Uso do ângulo da face como critério de diferenciação das raças branca, negra e asiática.
  • Conclusões:  Brancos (80 graus); Negros (70 graus); Asiáticos (70 graus). As estátuas de deuses gregos e romanos eram representados com ângulos da face entre 95 e 100 graus, enquanto os valores para os orangotangos se situavam entre 42 e 58 graus.

  • Quando, quem, onde:  1781, Johann Friedrich Blumenbach, Europa.
  • Área de estudos: Antropologia.
  • Argumento: Uso da combinação de cor, cabelo, esqueleto, forma do crânio e características faciais para diferenciar cinco raças: Caucasianos, Mongóis, Americanos,  Etíopes e Malaios.
  • Conclusões: Os mongóis e os etíopes eram uma degeneração da raça original, os caucasianos; os americanos, a transição dos caucasianos para os mongóis; os malaios, a fase intermediária entre os caucasianos e os etíopes.

  • Quando, quem e onde: Século XIX, frenologistas, Europa.
  • Área de estudos: Frenologia.
  • Argumento: Uso da frenologia e da craniometria para hierarquizar e classificar as raças
  • Conclusões: O volume da caixa craniana dos brancos é significativamente superior ao das raças inferiores.

  • Quando, quem e onde: 1852, Peter A. Browne, EUA
  • Área de estudos: Antropologia
  • Argumento: Uso do cabelo para diferenciar três raças humanas: branca, negra e indígena.
  • Conclusões: Brancos: cabelos ovais; Negros: cabelos excentricamente empilhados de forma elíptica; Indígena: cabelos cilíndricos.

  • Quando, quem e onde: 1867, J. H. Douglas, EUA.
  • Área de estudos:  Antropologia.
  • Argumento: Uso dos critérios ‘dimensão corporal’, ‘tamanho da cabeça’, ‘força’, ‘dentes’, ‘visão’, ‘respiração’ e ‘capacidade pulmonar’ para comparar  brancos, negros, mulatos e indígenas.
  • Conclusões: Os resultados relativos aos mulatos foram interpretados como indicadores de que a miscigenação levava a um produto de qualidade inferior.

  • Quando, quem e onde: 1869, Sanford B.Hunt, EUA.
  • Área de estudos: Anatomia comparada.
  • Argumento: Compara cérebros de soldados mortos na guerra civil americana e conclui que o cérebro dos mulatos era menor do que o dos brancos, embora maior do que o dos negros.
  • Conclusões: Fica provado que o fluxo de sangue branco, mesmo em pequena quantidade, aumenta o tamanho do cérebro dos negros.

  • Quando, quem e onde: 1878, Paul Topinard, Europa.
  • Área de estudos:  Antropologia.
  • Argumento:  Identifica um aumento considerável das taxas de mania e de idiotia entre a população emancipada negra
  • Conclusões: Com o fim da escravidão a população negra passa a ser mais acometida por doenças mentais, o que sugere que a escravidão é benéfica para a vida mental dos negros.

  • Quando, quem e onde: 1882, W. J. Burt, EUA.
  • Área de estudos: Medicina.
  • Argumento: Analisa relatórios médicos para concluir que quando comparados com os soldados  brancos, os militares negros têm menos chances de sobreviver a um procedimento cirúrgico.
  • Conclusões:  A raça negra está menos preparada para sobreviver que a raça branca, já que as condições de vida no exército eram as mesmas para brancos e negros.

  • Quando, quem e onde: 1894, R. M. Cunningham, EUA.
  • Área de estudos: Medicina.
  • Argumento: Os prisioneiros negros estão propensos a uma maior taxa de mortalidade que os prisioneiros brancos.
  • Conclusões: A raça negra está menos preparada para sobreviver que a raça branca, uma vez que as condições de vida na prisão eram as mesmas para brancos e negros.

  • Quando, quem e onde: 1896, Frederick L. Hoffman, EUA.
  • Área de estudos: Anatomia comparada.
  • Argumento: Os negros possuem uma caixa torácica menor, sofrem mais doenças respiratórias e têm a visão pior que os brancos.
  • Conclusões: As diferenças na estrutura corpórea fazem com que os negros tenham uma expectativa de vida menor e que sejam menos eficientes econômica e socialmente que os brancos.

  • Quando, quem e onde: 1903, William T. English, EUA.
  • Área de estudos: Medicina.
  • Argumento: Os negros são mais propensos que os brancos para a delinquência moral e sexual.
  • Conclusões:  Os negros estão mais próximos aos ancestrais sub-humanos que os brancos, o que se evidencia pelo ávido apetite sexual.

  • Quando, quem e onde: 1903, Edward C. Spitzka, EUA.
  • Área de estudos: Anatomia comparada.
  • Argumento: Mediante exame de autópsias, compara o cérebro de um notável com o de um Zulu e conclui que a diferença de proporção é a mesma que a deste último em relação a um gorila
  • Conclusões: A mensuração do volume cerebral indica  que os negros estão mais próximos aos ancestrais sub-humanos do que aos brancos.

As conclusões obtidas nestes estudos sobre as diferenças entre as raças, desenvolvidas por teorias cunhadas em vários domínios do saber, se fundamentaram em comparações entre os brancos e outros grupos raciais. Estas comparações, obviamente, ofereceram o respaldo necessário para comprovar “cientificamente” a suposta superioridade dos brancos. Face aos resultados encontrados nestes estudos, o preconceito, ou seja, não gostar, sentir asco, desconforto ou algum tipo de temor, frente aos não brancos, dificilmente poderia deixar de ser considerado uma resposta natural aos povos considerados inferiores.   

A partir dos anos 1920 pode ser notada uma mudança significativa na maneira pela qual o preconceito e a relação entre os grupos passa a ser concebida pelos estudiosos, pois se até então as diferenças raciais favoráveis aos brancos eram vistas como verdadeiras e inevitáveis, a partir dessa década esta certeza se esvai. O que teria provocado, nos anos 20,  uma mudança tão significativa na percepção e no julgamento das diferenças entre as pessoas?

O desafio à supremacia branca

preconceitos, anos 20

Ao tempo em que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da ideologia racista nos Estados Unidos, a Guerra Civil contra os estados sulistas também ofereceu indicadores de que os soldados negros superavam os brancos em algumas habilidades requeridas para a guerra. Conforme assinalou Haller (1971), em 1862, após uma derrota memorável frente aos rebeldes no campo de batalha, o congresso estadunidense autorizou o presidente Lincoln a adotar as medidas cabíveis no sentido de empregar todo e qualquer recurso disponível, inclusive os descendentes dos africanos, pois o fundamental naquele momento era combater e derrotar os rebelados. Esta mudança na política permitiu a inclusão rápida e sem contratempos de cento e oitenta mil soldados no exército estadunidense.

A partir de então os dados biométricos dos soldados passaram a ser sistematicamente registrados e estas medidas antropométricas permitiram estabelecer comparações entre um número significativo de combatentes de perfis raciais distintos. As análises, conduzidas por médicos da elite, usualmente favoreciam a interpretação de que os soldados brancos eram dotados de características que os favoreciam quando comparadas com as registradas entre os militares indígenas e negros. Ainda assim, em alguns domínios especializados, os resultados favoreciam os soldados negros. Por exemplo, em algumas circunstâncias o tipo de pé poderia ser interpretado como um indicador favorável ao negro, particularmente quando se tratava da marcha em terrenos irregulares. Estas conclusões, ainda tímidas, já ofereciam alguns indicadores de que a interpretação hegemônica favorável aos recrutas brancos poderia ser desconsiderada em alguns contextos.

Estes resultados, e muito outros publicados nas décadas anteriores aos anos 20, permitem colocar em dúvida algumas interpretações de que a mudança na avaliação das diferenças raciais foi uma reversão abrupta e que ocorreu em um prazo muito curto, tal como  insistem alguns historiadores da psicologia (Samelson, 1978). No intuito de se tornar uma disciplina aceita, e com contribuições à vida prática, os psicólogos se dedicaram a conduzir estudos que ultrapassaram os rígidos limites do laboratórios. A Primeira Guerra Mundial foi decisiva na popularização da psicologia. O exército norte-americano passou, em poucos anos, de 200 mil soldados, em março de 1917, antes de entrada do país na Primeira Guerra,  para cerca de três milhões e meio de militares, em novembro de 1918, dos quais 200 mil eram oficiais. Este crescimento demandou a formulação de novas políticas organizacionais, particularmente no que se refere às tomadas de decisões a respeito das capacidades e habilidades dos novos recrutas e no posterior treinamento e envio para os campos de batalha. Conforme analisa Carson (1993), estas novas demandas exigiram mudanças significativas na cultura organizacional, sendo particularmente importante a adoção de critérios objetivos e científicos como guia para a decisão de aceitar e qualificar novos oficiais, uma vez que a Academia Militar de West Point, o principal centro de formação de militares, não se encontrava em condições de atender a crescente demanda requerida pelo esforço de guerra. Um outro desafio enfrentado foi a inclusão de pessoas com perfis até então não comuns nas forças armadas, sobretudo imigrantes, que mal falavam o inglês, e negros libertos.

O trabalho do psicólogo Robert Yerkes foi decisivo neste esforço, ao proporcionar, em abril de 1917, um plano para examinar os recrutas de forma rápida, objetiva e confiável, reconhecer as capacidades daqueles com um nível de inteligência superior, oferecer os meios para identificar e excluir os mentalmente incapazes e estabelecer um balanço entre as atividades a serem realizadas e as disponibilidades intelectuais de cada um dos soldados (Carson, 1993).

De acordo com Samelson (1977), o nível de inteligência de dois milhões de soldados foi submetido a avaliação e o sucesso desta empreitada levou à criação de um novo programa, no qual foi avaliado, apenas nos anos 1920, o grau de inteligência de sete milhões de crianças. Após o fim da guerra, publicados os dados relativos aos testes realizados com os soldados, foi especialmente chocante para a sociedade estadunidense reconhecer que o nível de inteligência médio do soldado se situava na faixa dos treze anos de idade, algo visto como grave numa época em que se considerava a idade mental de doze anos como o limite superior dos casos de retardamento mental. Esta preocupação gerou um debate considerável a respeito de temas como a educação pública, os efeitos deletérios da democracia, a deterioração da raça e o eugenismo.

Esses resultados, ademais, reforçavam a percepção pública de que o nível de inteligência dos negros era inferior ao dos brancos, ao tempo em que se acentuou que apenas entre os últimos podia ser encontrada uma boa correlação entre o nível de inteligência e o sucesso profissional. No que se refere aos imigrantes, diferenças dignas de nota foram relatadas, em particular, as que se manifestaram entre os europeus de origem ariana e os oriundos da Europa mediterrânea e do leste, o que propiciou o desenvolvimento de uma ideologia de favorecimento à imigração nórdica e de restrição a determinados fluxos migratórios.

É difícil estabelecer em que medida a Primeira Guerra Mundial contribuiu para desafiar a hegemonia branca, mas o fato é que esta legitimidade passou a ser desafiada na década de 1920, período no qual a adoção de atitudes preconceituosas deixa de ser vista como natural e passa a ser considerada irracional e injustificada. Os próprios psicólogos, que muito contribuíram ao oferecer suporte às políticas eugenistas de restrição à imigração e de desqualificação da inteligência dos negros e imigrantes, passaram a reconhecer não ser possível afirmar com clareza se as diferenças no desempenho poderiam ser explicados pela natureza ou se elas refletiam as condições de privação a que foi acometida a parcela negra da população.

No mesmo ano em que Thomas Garth publica no Psychological Bulletin um artigo no qual dava suporte ao entendimento de que deveria se aceitar como válida a hipótese de que os indivíduos da raça branca teriam um nível de inteligência mais alto que os de outras raça, Carl Brigham (1930), um dos mais veementes defensores desta tese no início dos anos 1920, retira aquilo que previamente afirmara e se posiciona de forma enfática contra esta interpretação, criticando fortemente os procedimentos de coleta e análise dos dados. Ficou claro, então, que as conclusões eram obtidas simplesmente mediante um procedimento que envolvia a aplicação de testes em crianças das raças x, y e z de uma determinada área escolar e, em seguida, comparava-se os resultados, sem que fossem levados em consideração os critérios de composição da amostra de participantes e a maneira pela qual os dados tinham sido tratados e analisados. Para Brigham, as conclusões avançadas por estes estudos comparativos não eram sustentáveis, pois não lhe parecia justificado comparar indivíduos com níveis distintos de domínio da língua. Ademais, os testes utilizados, por usarem sobretudo indicadores verbais, não permitiam a realização de comparações com as pesquisas conduzidas por outros estudiosos.

No final da década de 1930 a crença na existência de diferenças significativas no grau de inteligência, favorecendo uma raça sobre as demais, estava definitivamente abalada. Thompson (1934), em uma revisão publicada no Journal of Negro Education, concluiu que os resultados extravagantes divulgados nas décadas anteriores não apenas foram abandonados, como se tornaram objeto de reprovação pública. Os estudos anteriores, sobretudo os baseados na comparação do desempenho de soldados do exército em testes psicológicos, foram uma vez mais criticados, já que eram considerados inadequados no que concerne aos procedimento e à interpretação dos resultados. Como evidência para as suas conclusões Thompson apresenta o resultado de um levantamento conduzido com os principais estudiosos da área no campo da psicologia, da educação, da sociologia e da antropologia no qual estes se posicionavam em relação a uma das três possíveis teses a respeito das diferenças de inteligência entre indivíduos de raças diferentes. A primeira delas, a de que seria possível postular a existência de raças inferiores e superiores não recebeu qualquer apoio por parte dos sociólogos e antropólogos consultados, sendo considerada válida por apenas quatro por cento dos educadores e cinco por cento dos psicólogos, o que indica uma rejeição quase unânime. É importante salientar, no entanto, que o ponto de vista de que esta diferença poderia existir, embora não pudesse ser definitivamente comprovada, obteve mais apoio do que a tese relativa à igualdade das raças, entre os psicólogos (54% x 18%) e os educadores (44% x 33%), ainda que tenha sido rejeitada pelos sociólogos/antropólogos, que se posicionaram de uma maneira inequivocamente favorável à tese da igualdade entre as raças (20% x 65%). Enfim, para não deixar dúvidas, Thompson conclui o artigo indicando que as diferenças encontradas nos testes comparativos entre brancos e negros poderiam ser atribuídas muito mais ao ambiente do que a qualquer fator intrinsecamente racial.

O estudo de Thompson representa um tendência que se cristaliza entre os anos 1920 e 1930, período no qual a preocupação com a medida objetiva das diferenças no nível de inteligência de brancos e negros é substituída pela preocupação em estudar as atitudes, crenças e opiniões sobre as diversas categorias sociais (Samelson, 1978). Dois estudos, o de L. L. Thurstone (1927), sobre as preferências relativas às nacionalidades, e o de Paul Guilford, sobre as preferências raciais de estudantes universitários, publicado em 1931, refletem bem esta tendência a abandonar a busca de diferenças objetivas entre indivíduos de raças distintas e o surgimento de uma novo foco de interesses, o de identificar porque gostamos mais de uns grupos do que de outros ou preferimos nos associar mais a uns do que a outros.

Estes novos estudos não deixam dúvidas de que era injustificada a tese de que as pessoas eram imunes aos preconceitos. Pelo contrário, parecia ser mais apropriado assinalar que alguns grupos nacionais e raciais eram sistematicamente alvos de avaliações preconceituosas. Cresce, entre os estudiosos, a percepção de que o preconceito deveria ser visto e tratado como um problema social e não como uma resposta natural do organismo. A principal preocupação dos cientistas passa a ser entender e explicar como algumas minorias se tornaram estigmatizadas pela parte majoritária da população. O conhecimento científico deveria desempenhar um papel preponderante nessa tarefa, pois apenas o avanço da ciência proporcionaria os meios para conceber o preconceito como uma atitude injusta a ser abandonada e a encontrar os meios de se alcançar este estado final desejável.

O trabalho de Walter Lippmann, um jornalista que trabalhou para a inteligência estadunidense durante a Primeira Guerra Mundial, desempenhando um papel decisivo como assessor do presidente Woodrow Wilson durante as negociações de armistício, evidenciou a influência exercida pelos modelos mentais arraigados e pelos pontos cegos e indicou como esses impactavam na opinião pública, destacando, em especial,  o papel preponderante desempenhado pelos estereótipos na manifestação dos erros de avaliação e julgamento (Bottom & Kong, 2012).

O apego a crenças arraigadas, a um sistema rígido de opiniões, não é algo incomum, mesmo nos responsáveis por negociações em altíssimo nível, que muitas vezes abrem mão de decidir de forma fundamentada nos dados e nas informações disponíveis e preferem se apegar aos modos tradicionais de ver e interpretar o mundo. Para aliviar um pouco o lado destes negociadores é importante salientar que Lippman considerava esta tendência comum a toda e qualquer pessoa, pois devido às injunções da vida moderna frequentemente somos convidados a opinar, julgar e decidir sobre um sem número de coisas a respeito das quais nada entendemos e, na ausência de conteúdos informacionais apropriados, tendemos a fundamentar nossas decisões em crenças amplamente difundidas na sociedade, sem  que essas tenham sido objeto de avaliações mais criteriosas.

Esta interpretação assegura à percepção um papel preponderante no estudo das atitudes negativas, pois supõe que o mundo é muito mais aquilo que é percebido e interpretado do que propriamente o que se impõe na realidade. Cada pessoa inicialmente define, imagina e constrói um modelo mental do mundo, passando posteriormente a olhá-lo segundo este modelo. A cultura representaria esta visão predominante ao oferecer os meios para a criação do retrato interno que cada um percebe do mundo. Estas fotografias dentro da cabeça, estando presentes de antemão, seriam decisivas, pois por uma economia de esforço, as pessoas já disporiam previamente de teorias sobre o funcionamento do mundo e tenderiam a observá-lo e interpretá-lo em consonância com os códigos impostos pela cultura e transmitidos de geração a geração.

Os estereótipos, as fotografias dentro da cabeça, teriam a função de preservar as tradições culturais e seriam decisivos no sentido de manter o status quo e favorecer a estabilidade das posições sociais ocupadas pelos diversos agentes. Um ataque aos estereótipos seria interpretado como um assalto às crenças centrais, à visão que o indivíduo possui de si mesmo e da cultura na qual está inserido. O apego às crenças estereotipadas se assenta em sentimentos e emoções muito fortes, o que favorece o descrédito daquele que se exprime contra esta visão estereotipada de mundo. A opinião pública desempenharia um papel decisivo nessa tentativa de dotar o mundo de estabilidade, donde o entendimento de Lippmann (1922) de que ela deveria ser interpretada como a versão moralizada e socialmente codificada dos fatos. Os estereótipos ocupam uma posição central nesta interpretação, constituindo-se no recurso disponível para a determinação da maneira pela qual os fatos são julgados e interpretados.

A visão de Lippmann introduz um elemento crucial nas discussões posteriores sobre os estereótipos, que se reflete na decisão individual de acolher ou se insurgir contra os estereótipos, contra esta versão moralizada dos fatos. Ele também antevê não apenas a visão que se sedimenta nos anos 1980 de que os estereótipos são dispositivos de economia cognitiva, como também antecipa as discussões sobre a utilização dos estereótipos como estratégias de justificação e racionalização.  Se insurgir contra a visão moralizada dos fatos representa, nos termos de Lippmann, reconhecer que os códigos e os modelos que usamos são constituídos por estereótipos e que a tolerância e a aceitação do outro depende fundamentalmente de levar a sério este reconhecimento e evitar o uso deliberado desses conteúdos durante o julgamento social. Segundo Lippmann, a nossa visão de mundo incorpora tanto o que existe na realidade, quanto aquilo que imaginamos, esperamos ou desejamos encontrar, o que suscita a interpretação adicional de que os estereótipos são atributos negativos, factualmente incorretos, pois resultam da rigidez mental.

Seja no caso dos estereótipos, tais como discutidos por Lippmann, seja no caso das atitudes preconceituosas, como assinalamos anteriormente, podem ser encontradas evidências de que estes fenômenos são injustificados e que, mais cedo ou mais tarde, eles terminariam por desaparecer… o que acarretaria o fim da estigmatização contra as minorias nacionais e raciais. Bem, não foi isso exatamente o que aconteceu, como acentuaremos na próxima seção.

Os preconceitos persistem e se espalham

preconceitos, anos 30 e 40

A preocupação em descrever e mensurar as atitudes preconceituosas, embora presente desde a década anterior, se tornou preponderante a partir dos anos 1930. Estudos conduzidos no início da década evidenciaram quão negativas eram as crenças compartilhadas a respeito de determinadas categorias sociais e deixaram claro a persistência dos estereótipos e dos preconceitos, assim como a necessidade de se encontrar explicações científicas capazes de contribuir para modificar esta situação ou mesmo debelar esta ameaça.

O trabalho de Katz e Braly (1933) definiu a maneira pela qual os estereótipos passaram a ser estudados nas décadas seguintes. O ponto de partida foi solicitar aos participantes, todos estudantes de uma universidade norte-americana de grande prestígio, que listassem a sua preferência em relação a oito categorias sociais – os próprios americanos, ingleses, alemães, irlandeses, italianos, japoneses, judeus, chineses, turcos e negros. Em seguida, era apresentado aos participantes um conjunto de itens e solicitado que assinalassem as características que consideravam aplicáveis a cada uma das categorias. Para ter uma ideia do que era julgado, o quadro 4.2 reproduz os itens de avaliação incluídos no estudo original.

Quadro 4.2: itens avaliados no estudo de Katz & Braly (1933)


Inteligente, brilhante, cientificamente orientado, espirituoso, sofisticado, alerta, astuto, sonso, meditativo, imaginativo, estúpido, ignorante, supersticioso, ingênuo, industrioso, preguiçoso, honesto, enganador, inconfiável, evasivo, fiel, traiçoeiro, covarde, cruel, gentil, generoso, sovina, mercenário, materialista, vingativo, glutão, briguento, agressivo, cheio de si, gabola, ambicioso, ostentatório, individualista, falador, barulhento, rude, galanteador, cortês, convencional, argumentativo, direto, desmazelado, desconfiado, reservado, silencioso, estoico, ponderado, cabeça dura, impulsivo, cabeça quente, sugestionável, apaixonado, sensual, hedonista, jovial, feliz, sem senso de humor, sensível, metódico, arrumadinho, persistente, imitador, frívolo, agregador, prático, progressista, conservador, musical, artístico, esportivo, tradicionalista, eficiente, muito religioso, nacionalista extremado, fisicamente sujo, leal aos vínculos familiares, arrogante e radical


Na sequência, o participante era solicitado a colocar um asterisco ao lado dos cinco itens  mais apropriados para caracterizar cada uma das categorias. Se alguns itens são claramente positivos, desejáveis e outros francamente negativos, nada desejáveis, pode-se facilmente calcular o grau de desejabilidade próprio de cada categoria.

A tabela 4.1 oferece um sumário dos dados relativos à distância social, mensurada pela lista de preferência das categorias, e de desejabilidade, mensurada a partir da relação entre os traços favoráveis e desfavoráveis selecionados pelo participante.

Tabela 4.1:  Distância  e favorabilidade das dez categorias (Katz e Braly, 1933)

correlacao_distancia_favorabilidade

Como seria de se esperar, os norte-americanos preferiram os norte-americanos, observando-se, em contrapartida, uma clara rejeição aos negros, quando comparados a outros grupos nacionais ou étnicos. Os resultados também sugerem uma forte  correlação entre a distância e a desejabilidade, ou seja, a preferência claramente recaiu sobre os grupos que se supõe terem qualidades mais positivas ou desejáveis, ficando difícil supor, como é comum nos estudos correlacionais, se as pessoas preferem alguns grupos porque eles possuem características mais desejáveis, ou se as características mais desejáveis determinam a preferência por aquele ou por um outro grupo.

O procedimento de inclusão de um asterisco ao lado dos cinco traços mais característicos de cada uma das categorias permitiu a elaboração de uma outra medida de comparação entre os grupos, o consenso, ou seja, indicação dos traços que poderiam ser considerados mais marcantes e vistos como mais característicos de cada uma das dez categorias. Uma vez que o participante deveria escolher apenas cinco entre os 84 traços possíveis,  a probabilidade de um traço ser escolhido por acaso correspondia a 6%, que é o resultado da operação (100 x [5 / 84]). Esta medida, o consenso, foi inicialmente interpretada como a visão compartilhada pelos percebedores em relação a cada um dos grupos alvos, sendo possível destacar os traços mais marcantes para cada uma das categorias.

Este indicador representa os conteúdos dos estereótipos consensualmente atribuídos a cada uma das categorias alvos de julgamento, sendo possível assinalar que, mesmo no caso das categorias com avaliação mais crítica, podem ser encontrados um misto de qualidades positivas e atributos negativos, conforme se observa no quadro 4.3.

  Quadro 4.3: características consensualmente atribuídas a cada uma das dez categorias

consenso

Finalmente, além das medidas de distância, de desejabilidade e de consenso, foi estimada a percepção de homogeneidade para cada uma das categorias. O critério para a determinação da variabilidade dos traços foi o número necessário de características escolhidas até incluir a metade dos itens selecionados, o que corresponde ao valor 250, obtido pela equação (5 [100/2]). Assim, o indicador de homogeneidade dos alemães alcançou o valor de 5, o que corresponde à soma dos itens cientificamente orientados (escolhidos por 78 entre cem participantes), trabalhador (escolhido por 65), estoico (44), inteligente (32) e metódico (31), o que perfaz um total de 250 . Usando o mesmo procedimento, foi possível calcular a percepção de homogeneidade para cada uma das categorias, cujos resultados podem ser observados na figura 4.2.

Figura 4.2: percepção da homogeneidade de cada uma das dez categorias

Katz & Braly

É interessante notar que a relação entre a desfavorabilidade e a homogeneidade não é meramente unilinear, pois se os negros são ao mesmo tempo avaliados de forma desfavorável, assim como são percebidos como mais homogêneos entre si, os alemães, embora tenham obtido escores altos na medida de homogeneidade, não foram negativamente avaliados.

O modelo de Katz & Braly encarna a preocupação central dos pesquisadores durante os anos 1930, que era fundamentalmente a de descrever e dissecar os fatores que constituíam os estereótipos e os preconceitos. O modelo especifica com clareza as dimensões analíticas a serem consideradas: a avaliativa (a valência ou preferência), o grau de atratividade dos atributos, o consenso e a homogeneidade.

Fica claro que apenas descrever e caracterizar os estereótipos e os preconceitos não parece ser suficiente para debelá-los; torna-se necessário explicá-los. Se estudos descritivos como os de Katz e Braly foram capazes de apresentar de forma ordenada os fatores que contribuem para a manifestação dos estereótipos e preconceitos, os estudiosos ainda estavam muito distantes de elaborar uma teoria capaz de explicar como os estereótipos e preconceitos eram ativados e produziam os seus efeitos. Nos anos 1940 o interesse pela mensuração e descrição dos estereótipos chegou a um beco sem saída, pois por mais que eles fossem conhecidos e descritos, continuavam a se manifestar de forma vigorosa, não sendo possível identificar nenhuma maneira razoável de modificar esta tendência. A preocupação central dos estudiosos passa a ser entender e explicar porque os estereótipos e preconceitos, mesmo sendo reconhecidos como pouco razoáveis, sem sentido e injustificados, continuavam a ser adotados indiscriminadamente.

Os estudos descritivos sobre os estereótipos e preconceitos expõem uma tendência que se manifesta com mais clareza a partir dos anos 40, década em que fica claro quão o racismo, mesmo sendo visto como uma atitude injusta e antiquada, continuava a ser acolhido e  difundido. Nos Estados Unidos os alvos do racismo não se restringiam exclusivamente aos negros. O ambiente de guerra tornou mais acentuada esta tendência à intolerância, ao preconceito e à discriminação, que crescia à medida que a ideologia nazifascista dominava nações inteiras. Com a intensificação dos clamores pela guerra, nos Estados Unidos, os preconceitos contra os asiáticos cresceram de forma nítida, especialmente em relação aos japoneses, enviados de forma preventiva e indiscriminada a campos de prisioneiros. Na Europa, o preconceito se intensificou, sobretudo em relação aos judeus, tratados como párias e enviados a câmaras de gases nas regiões sob jugo nazista.

Como explicar esta adesão quase incondicional a uma visão de mundo marcada pelos preconceitos e pelo racismo? Na tentativa de explicar quão invasiva era a experiência do preconceito, pensadores buscaram apoio em teorias psicanalíticas. É importante salientar que o influxo da teoria psicanalítica se deu pela chegada em solo norte-americano, durante a segunda guerra mundial, de cientistas e psicólogos sociais europeus, sobretudo de origem judaica, a fugirem do nazismo. Como os modelos descritivos se mostraram incapazes de ir além das descrições e oferecer explicações para os preconceitos, as teorias psicanalíticas foram de imediato requisitadas e a partir delas foram desenvolvidos estudos experimentais destinados a tentar explicar a persistência e a difusão de algo tão irracional quanto os estereótipos e os preconceitos.

O livro Frustração e Agressão, publicado por Dollard, Doob, Miller, Mowrer e Sears (1939), causou fortes controvérsias teóricas entre os estudiosos, em particular por sustentar, logo nas primeiras páginas, que 1) a ocorrência de uma agressão sempre é precedida por uma frustração e 2) que a existência de uma frustração sempre leva a alguma forma de agressão. Dois anos depois, os autores revisam parcialmente a denominada hipótese da frustração-agressão (Miller, Sears, Mowrer, Doob & Dollard, 1941), mantendo intacta a proposição 1, mas modificando substancialmente o teor da proposição 2, que passa a ostentar a seguinte formulação: a existência de uma frustração pode levar a uma série de respostas, uma das quais é a instigação de alguma forma de agressão.

A frustração, um termo do senso comum apropriado pelos psicólogos, foi definida como qualquer interferência que impede a ocorrência de uma resposta ou, para ser mais exato, que impede a consecução de um comportamento direcionado a uma meta. E quem tem o poder de impedir que as metas sejam alcançadas, senão os poderosos? E quem são aqueles que tem poder? No âmbito da família, os pais, em particular, o pai. No âmbito do trabalho, o patrão, o chefe, o capitalista. No âmbito comunitário, os chefes, as lideranças. No âmbito social, os poderosos, os políticos, os mangangões. Obviamente, é diferente se sentir frustrado e não poder fazer nada, pois quem frustrou detém o controle e o poder, ou se sentir frustrado e agredir a quem impediu que uma meta fosse alcançada.

O conceito de mecanismos de defesa foi considerado, à época, decisivo nessa tentativa de explicar a ocorrência de respostas agressivas dirigidas para o responsável pela experiência de frustração, ou para as respostas que não puderam incidir diretamente contra os poderosos. A noção se origina dos estudos freudianos sobre o recalque, o papel da cultura na repressão e inibição dos impulsos sexuais e agressivos e de como estes conteúdos recalcados, mediante o efeito do deslocamento e da condensação, podem voltar de forma disfarçada e modificada à consciência. A figura 4.3 retrata como alguns destes mecanismos de controle da agressividade manifestam os seus efeitos, sendo particularmente importante o mecanismo de deslocamento da agressividade para outros alvos que não aqueles diretamente responsáveis pela experiência de frustração.

Figura 4.3: relações entre a frustração e agressão

teoria da frustração agressão

Os resultados da ação de cada um destes mecanismos são diferentes e podem suscitar impactos bastante diversos. Uma estratégia de defesa do eu é a repressão – ou recalque, para ser mais exato – dos impulsos agressivos e a inibição dos seus efeitos diretos. Um impulso recalcado, no entanto, não desaparece do mapa, simplesmente. De acordo com a teoria psicanalítica, estes conteúdos podem reaparecer, a exemplo dos sonhos, quando o acesso aos conteúdos inconscientes é facilitado. A depender da quantidade de conexões que a representação recalcada consegue estabelecer com outras igualmente fora da consciência, ela pode ganhar força e aflorar à consciência, de forma disruptiva, como em um sintoma, que se devidamente analisado pode vir oferecer informações sobre os conteúdos recalcados e, em linhas gerais, sobre a vida psíquica da pessoa.

Uma outra forma pela qual os impulsos recalcados podem vir a se manifestar seria mediante o efeito da sublimação. Sublimar vem de sublime, elevado, excelso, grandioso, que inspira pensamentos nobres, valorosos. A ideia central é que para se lidar com as tendências agressivas, contrárias à censura moral e, como tais, recalcáveis, o indivíduo transforma estes conteúdos em atos socialmente aceitáveis, a exemplo de uma obra artística ou de uma ação altruísta.

O eu também pode se defender dos impulsos agressivos suscitados pela frustração mediante o mecanismo da projeção. Projetar, nos termos da teoria psicanalítica, é atribuir a uma outra pessoa os conteúdos mentais não reconhecidos em si mesmo. Neste caso, o percebedor passa a identificar no alvo as características que não admite em si mesmo, pois ao mesmo tempo em que não reconhece carregar em si impulsos agressivos, considera-os característicos de uma outra pessoa. As descrições que proporcionamos até aqui não permitem identificar relações muito nítidas e diretas entre os mecanismos do recalque, da sublimação e da projeção e a manifestação dos preconceitos e da discriminação. Estas relações, no entanto, se tornam mais claras se considerarmos o mecanismo de deslocamento das hostilidades.

A teoria do bode expiatório (Berkowitz, 1989) se origina da tentativa de corrigir os problemas na formulação da hipótese da frustração-agressão, particularmente por indicar as condições pelas quais uma frustração pode se transformar ou não num ato agressivo. Caso fossem encontradas condições apropriadas – um lugar (por exemplo, um bar, mas não uma igreja), um objeto (uma arma, mas não um lençol de cambraia) e, sobretudo, um alvo apropriado, a frustração se transformaria num comportamento agressivo – dirigido para outra pessoa, não para quem causou a frustração. A agressão (ou a discriminação) ocorreria quando indivíduos frustrados, mas incapazes de expressar as suas frustrações em relação aos mais poderosos (patrões, autoridades, pais autoritários etc) transformassem esta frustração em impulsos agressivos, deslocando o alvo, dirigindo-a aos menos poderosos, no caso, membros de grupos marginalizados ou minoritários.

Um exemplo claro deste modelo é magnificamente expresso na crônica De cima para baixo, escrita pelo escritor oitocentista Artur Azevedo. Trata-se da história de um ministro que toma uma chamada do imperador e, não podendo exprimir sua frustração contra a excelsa majestade, desconta a raiva em cima do secretário-geral. Este, impossibilitado de atingir o ministro, despacha o peso em cima do chefe da terceira seção, que por sua vez dispara contra o amanuense, que descarrega a raiva no contínuo, que  detona o servente, que não tendo ninguém abaixo para descarregar a raiva, desfere um potente pontapé no cão, coitado, que “pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor geral e pelo ministro!” (Azevedo, 2001, p. 295).

Considerados conjuntamente, estes esforços comungam a preocupação em formular uma teoria capaz de explicar porque os preconceitos, apesar de serem considerados injustificados, sobreviviam e estavam espalhados nas várias esferas da sociedades. Como tal, trata-se de uma teoria voltada para identificar os universais do comportamento humano, ou seja, mecanismos cujas manifestações independeriam das características individuais, da época e do lugar. A teoria psicanalítica, ao fornecer as noções de inconsciente e recalque, bem como o conceito de mecanismos de defesa do eu, ofereceu os fundamentos para a elaboração de um modelo explicativo, que se ativaria em toda e qualquer pessoa, da mesma forma e seguindo os mesmos princípios. Este modelo, entretanto, estava condenado a enfrentar um enorme desafio, pois os resultados de algumas pesquisas passaram a sugerir que os níveis de preconceito não eram iguais em todas as sociedades, assim como se identificou que no interior de cada país em alguns locais a visão preconceituosa era acolhida com mais intensidade do que em outros. A partir dos anos 50, fortalece-se a percepção de que o nível de preconceito é diferente de pessoa a pessoa. O desafio passa a ser identificar o papel exercido pelas diferenças individuais na expressão dos preconceitos e estereótipos. 

A ideologia nazista, o holocausto e  a redemocratização

racismo anos 50 Duckitt

Se até o final dos anos 40 do século passado a preocupação central era com a identificação das causas dos preconceitos e as teorias eram elaboradas numa linguagem destinada a colocar em relevo os princípios universais que regem as condutas humanas, os estudos conduzidos na década 50, já sob o impacto da Segunda Guerra Mundial e, em particular, com a estupefação suscitada pela  constatação de que a ideologia nazista, ainda que abraçada com maior ou menor intensidade,  foi acolhida por populações inteiras, se voltam para identificar  o tipo de pessoa mais suscetível a acolher atitudes preconceituosas.

O domínio do nazismo, o holocausto, os campos de concentração, a tentativa de extermínio seletivo de alguns grupos, tudo isso  fazia pensar que algo de muito estranho, para não dizer anormal, estava acontecendo. Os pesquisadores se voltam para identificar, mediante o uso de testes e escalas, as características particulares dos indivíduos, tentando diferenciar os mais propensos a embarcarem nessa loucura coletiva, assim como as relações entre esta estranha tendência e outros conceitos psicológicos. Mais do que ser uma característica comum a toda e qualquer pessoa, como se pensava na década anterior, a expressão do preconceito passa a ser vista como a manifestação  de uma necessidade patológica, ou para ser mais exato, passa a ser entendida como a maneira pela qual pessoas profundamente desequilibradas conseguem encontrar um certo equilíbrio e continuar levando a vida de forma relativamente tranquila. O estudo de Wilhelm Reich, por exemplo, procurou explicar a adesão ao fascismo fazendo apelo à estrutura irracional da personalidade do ser humano comum, normal, cujos impulsos foram sistematicamente reprimidos pela sociedade durante o processo civilizatório, especialmente pelas famílias de caráter autoritário e pelas autoridades religiosas (Reich, 1988).

No prefácio elaborado em 1942 para a terceira edição inglesa do Psicologia de Massas do Fascismo,  Reich, então desiludido com os caminhos da teoria freudiana e do marxismo, se questiona porque o fascismo recebeu um apoio tão intenso das massas populares e procura demonstrar que isso não poderia ser explicado pelo modelo tradicional marxista da sociedade de classes, mas sim levando em consideração os mais profundos impulsos existentes na mente e no caráter humano. O fascismo deveria ser entendido como uma atitude emocional do ser humano, oprimido por uma máquina autoritária, que produziria uma tendência ao mesmo tempo mecânica e mística de encarar a vida (Reich, 1988, p. 11)

Ao assegurar que o fascismo estava longe de ser um movimento exclusivamente alemão ou italiano, mas sim um fenômeno universal, Reich se fundamenta nas teorias freudianas para diferenciar as dimensões nas quais a vida mental se desenvolve. O fascismo apenas refletiria o predomínio de uma destas esferas da vida mental sobre as outras duas. A figura 4.4 representa este modelo que podemos qualificar como epidérmico, por fazer alusão a camadas mais superficiais e profundas nas quais os processos mentais se desenvolvem.

Figura 4.4: níveis da vida mental na perspectiva de Wilhelm Reich

níveis da vida mental Reich

A parte mais profunda do ser humano, o seu centro, corresponde ao substrato biológico. As manifestações mais autênticas da biologia humana têm sido reprimidas pelo esforço civilizador e submetidas a controle por milhares de anos. A ausência de contato do ser humano moderno com a sua própria natureza seria uma das características mais marcantes do nosso desenvolvimento. Na falta deste contato, o ser humano passa a ser regido pelas forças mais superficiais da vida mental. O indivíduo médio seria um camarada comedido, atencioso, cuidadoso e responsável; seríamos, por assim dizer, cavalheiros perfeitos,  damas distintas. Neste nível,  poder-se-ia qualificar o ser humano como racional, honesto, trabalhador e cooperativo, em suma, um ente capaz de amar em toda a sua plenitude.

Tudo isso seria maravilhoso se esta capa aparente de cordialidade estivesse permanentemente conectada com a camada mais profunda da natureza humana, se estas características sociais decorressem da fluidez dos impulsos biológicos mais profundos. Desafortunadamente, entre o mais profundo e o mais superficial estaria posicionada uma outra camada da vida mental humana. Nesta dimensão da vida mental humana habitariam os impulsos secundários, aqueles recalcados pelos anos de repressão, desde o início da civilização humana. Neste plano, seríamos cruéis, sádicos, invejosos, lascivos e sanguinários, ou seja, aí teria lugar para todos aqueles impulsos hedonistas e destrutivos que vêm sendo submetidos a controle ao longo do processo civilizatório. A energia biológica oriunda das regiões mais profundas só poderia alcançar a superfície se esta camada fosse transposta. Esta estrutura tríplice explicaria o fascismo e, consequentemente, os preconceitos raciais, uma vez que os impulsos biológicos, ao ultrapassarem esta camada intermediária, sofreriam distorções, sendo a personalidade fascista o resultado de uma condição na qual a manifestação autêntica da vida se transforma em impulsos agressivos e disruptivos.

O fascismo representaria o predomínio deste nível intermediário da irracionalidade, ou seja, seria a expressão da estrutura do caráter do ser humano comum. Ele agregaria, em última instância, as reações irracionais do indivíduo comum e dificilmente poderia ser considerado um movimento das elites. Hitler não era filho da aristocracia, mas sim de um funcionário comum. Ele foi defendido e apoiado pelas massas, embora tenha sido adotado pelas elites para alcançar os seus próprios fins. A ideologia racial seria a expressão deste ódio irracional das massas, do Zé Ninguém, subjugado, dominado pelas autoridades, capaz de encontrar nos grupos fragilizados os alvos perfeitos para exprimir o sentimento de revolta produzido nesse nível intermediário. O racismo seria, nos termos do próprio Reich, um anseio orgásmico restringido pela distorção mística e pela inibição da sexualidade natural.

As ideias de Reich não tiveram uma acolhida muito favorável no mundo acadêmico, muito menos entre os políticos, o que não impediu muitos estudiosos de reconhecerem a existência de indivíduos com tendências psicológicas que os tornariam mais inclinados a aderirem a uma visão autoritária de mundo. Este entendimento foi facilitado por evidências que assinalavam que a tendência a aceitar e apoiar esta percepção autoritária não era isolada, pois aqueles que eram críticos em relação aos judeus, também o eram frente a outros grupos e categorias, a exemplo dos negros, ciganos ou dos gays. Da mesma forma, aqueles que apresentavam índices mais altos na dimensão autoritarismo tendiam a obter escores mais altos em medidas como a rigidez mental, ostentariam atitudes mais etnocêntricas e apresentariam uma tendência mais forte a oferecer respaldo à adoção de medidas extremadas contra os grupos minoritários ou desviantes.

Este conjunto de atitudes preconceituosas recebeu a denominação de personalidade autoritária. Os indivíduos autoritários seriam extremamente inseguros, mentalmente rígidos e marcados por uma certa propensão a adotar valores conservadores. Esta condição seria o reflexo de um desenvolvimento pessoal marcado por um forte conflito entre os impulsos sexuais e agressivos e as forças repressoras destes impulsos. Este conflito resultaria da imposição, por parte dos pais, de um estilo de socialização destinado a fazer com que os filhos fizessem o possível para ascender socialmente, o que acarretaria a formação de uma visão idealizada sobre as relações sociais, cuja consequência mais visível seria fazer com que a criança se transformasse em um adulto submisso, conformista e obediente.

Dada a natureza incontrolável dos impulsos sexuais e agressivos, os conteúdos objeto de repressão seriam deslocados, transformando-se em impulsos inconscientes direcionados aos grupos sociais desfavorecidos. O preconceito, pelo menos na sua face mais rígida, passa a ser visto como a expressão da necessidade de indivíduos acometidos por uma patologia mental, o que fez com que os estudiosos se dedicassem a encontrar a melhor forma de pesquisar as características individuais e especificar como elas se conectam para produzir esta síndrome da personalidade autoritária. O nível de análise, embora patrocinado sobretudo por cientistas sociais, se voltou para uma dimensão mais individual, sendo especialmente relevante o uso de métodos estatísticos para identificar o grau de correlação entre os diversos constructos.

A teoria da personalidade autoritária perseguia o objetivo fundamental de analisar uma tendência, comum em alguns indivíduos, a adotar a ideologia de extrema-direita e a expressar atitudes preconceituosas. Que tipo de indivíduo expressaria esta tendência autoritária? Para responder a esta questão, alguns pesquisadores procuram articular, como já fora feito por Reich, conceitos oriundos das teorias de Freud e de Marx.

Durante a Segunda Grande Guerra, muitos cientistas, especialmente os de origem judaica, entre os quais psicólogos bastante conhecidos, abandonaram os seus países e se estabeleceram na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. A preocupação central do grupo que gravitava em torno de Theodor Adorno era o de identificar porque o antissemitismo encontrou acolhida tão extraordinária numa parcela mais do que razoável da população. Uma questão se impunha com vigor: o que faz com que algumas pessoas sigam de forma irrefletida os líderes políticos e se tornem presas fáceis de discursos extremados, passando a adotar atitudes etnocêntricas, especialmente em relação aos grupos vistos como pouco convencionais?

O conceito de personalidade, conforme se assinala na introdução da obra A Personalidade Autoritária, representaria uma salvaguarda contra os modelos interpretativos que procuravam explicar as diferenças individuais em termos de tendências inatas ou pela raça, como era comum na “psicologia nazista” (Adorno, Frenkel-Brunswick, Levinson & Sanford, 1950). Esta obra se sustenta na suposição de que as convicções de um indivíduo, sejam elas sociais, políticas ou mesmo econômicas, não estão dispersas, mas formam um todo, organizado e sistemático, sendo esta sistematização o produto de uma mentalidade capaz de expressar as tendências mais profundas da personalidade individual.

Esta estrutura profunda seria responsável por moldar as características deste tipo de pessoa, que na aparência seria cuidadosa, respeitosa e amigável, ou seja, dominada por aquela capa de cordialidade referida por Wilhelm Reich. No entanto, além desta superfície encantadora, a vida mental destes indivíduos seria plena de contradições, pois esses seriam, a um só tempo, esclarecidos e supersticiosos, individualistas e preocupados em ser diferente dos outros, ciosos da sua independência e seguidores sem pestanejar das autoridades.

A origem deste tipo de configuração da personalidade poderia ser atribuída ao processo de socialização, em especial à presença de pais amorosos e cuidadosos, mas exageradamente punitivos, que aderiam de forma rígida aos valores convencionais e se orientavam de maneira inequívoca pelas normas socialmente estabelecidas. Estas relações conflituosas entre o amor e o ódio, entre a  proteção e a punição, seriam as grandes responsáveis pelo surgimento dos preconceitos. Esse seria, por assim dizer, o jeito encontrado pelas forças mentais para lidar com as demandas familiares, em particular com as pressões decorrentes dessa ambivalência afetiva. Como estaria organizada este tipo de personalidade? Quais fatores contribuem para o desenvolvimento desta tendência tão etnocêntrica, e como tal, tão inclinada a adoção de atitudes preconceituosas? A figura 4.5 representa os nove fatores organizadores da personalidade, nos moldes estabelecidos pela teoria da personalidade autoritária (Teixeira & Polo, 1975).

Figura 4.5: dimensões da personalidade autoritária

personalidade autoritária

A primeira dimensão, a submissão à autoridade, se refere a uma tendência a se submeter de forma cega e sem questionamentos aos poderosos, e isto independe do grupo ao qual se pertence. O indivíduo é submisso ao pai, no grupo familiar, ao chefe, no ambiente de trabalho, ao líder, nos agrupamentos políticos. A segunda dimensão, a agressividade autoritária, se relaciona com uma forte tendência a ficar de olho no comportamento dos outros, mesmos que esses sejam membros do grupo de pertença, no sentido de identificar e sancionar, da forma mais dura possível, aqueles que se comportem de forma pouco convencional. A terceira dimensão, o convencionalismo, corresponde à adesão rígida e indiscriminada aos princípios da classe média pequeno burguesa, o que permite supor que quanto mais convencional o indivíduo, mais ele tenderia a adotar uma visão de mundo preconceituosa.

O fator destrutividade e cinismo reflete a tendência deste tipo de indivíduo a manifestar um profundo desprezo e uma hostilidade exagerada para tudo aquilo que se refere ao humano e às suas obras, o que sugere a adesão de forma intensa a uma visão pessimista da realidade. A dimensão projeção se refere à tendência a considerar que as ameaças e os perigos sempre se originam nas outras pessoas, quando se trata de um mecanismo destinado a evitar reconhecer os próprios conflitos interiores, temores, inseguranças e incertezas. O poder e a dureza, a sexta dimensão da personalidade autoritária, corresponde a uma tendência a acentuar uma visão hierarquizada do mundo, na qual é exagerada a distinção entre chefes e comandados, fortes e fracos, dominados e submissos, sendo claramente associada com a ideia de que o sentido do eu deve ser fortalecido. A tendência à superstição e a estereotipia se refere à aceitação de uma visão de mundo marcada pela crença no destino e pela admissão de que existem forças sobrenaturais que interferem no mundo dos vivos, a qual se associa uma preferência particular pela realização de interpretações marcadas por uma visão mística da realidade, que por sua vez se encontra associada a uma marcada inclinação a acolher esquemas explicativos convencionalmente aceitos, rígidos e de pouca maleabilidade. A oitava característica se refere a uma tendência a se opor de forma acentuada a qualquer coisa que seja da ordem subjetiva, a evitar a utilização da imaginação e se esquivar de formas de pensamento mais delicadas. Este temor à introspecção faz com que o indivíduo autoritário sempre prefira discutir coisas objetivas a falar sobre os seus anseios, sentimentos, paixões e temores. A nona e última característica dos indivíduos autoritários se refere a uma exagerada preocupação, quase obsessiva, com as questões vinculadas à sexualidade, o que pode ser interpretado como o efeito dos mecanismos de repressão sexual.

A orientação política marxista dos formuladores da teoria da personalidade, em especial a de Adorno, suscitou a interpretação de que existiria uma sobreposição entre os indivíduos com estas características autoritárias e os simpatizantes ou militantes dos partidos ou das organizações políticas de extrema-direita, sobretudo porque um dos indicadores mais marcantes da teoria da personalidade autoritária, a escala F, foi elaborado com a finalidade de identificar os indivíduos com traços de personalidade fascista.

Para evitar esta associação, pensadores vinculados a um ideário político mais liberal, e frequentemente anticomunista, se preocuparam em deixar claro que a deriva autoritária não era uma propriedade exclusiva dos partidos fascistas e muito menos que era uma tendência apenas de indivíduos com preferência pela extrema-direita no espectro político. A distinção estabelecida por Milton Rokeach, no início dos anos 1960, entre indivíduos de mente aberta e de mente fechada, representa um esforço nessa direção, sendo interpretada como uma tendência a estudar o autoritarismo e a intolerância de forma independente dos comprometimentos ideológicos e políticos (Rokeach, 1979). Nessa perspectiva, o indivíduo de mente fechada, seja ele de direita ou de esquerda, não difere daquele descrito como autoritário, uma vez que se caracteriza por rejeitar claramente as ideologias, crenças e valores aos quais não adere, por uma certa falta de maleabilidade mental, sendo extremamente dogmático no plano das crenças e rígido no plano das condutas, ficando extremamente abalado, para não dizer obcecado, quando o fundamento daquilo em que acredita é colocado em cheque. Este indivíduo se exprime e se comporta em consonância com o entendimento de que as autoridades são sábias, devem ser obedecidas e respeitadas, embora viva  em constante sobressalto, por acreditar que o mundo é um ambiente hostil, perigoso e cheio de armadilhas (Rokeach, 1960).

Alguns décadas depois a preocupação em identificar de forma menos restritiva as características dos indivíduos autoritários é retomada na obra de Robert Altemeyer, um estudioso estadunidense, radicado na Universidade de Manitoba, no Canadá. O modelo teórico de Altemeyer é muito mais parcimonioso do que o de Adorno e colaboradores, correspondendo apenas aos três constructos identificados pela cor verde na figura 4.5, a submissão à autoridade, a agressividade autoritária e o convencionalismo.

As pesquisas de Altemeyer foram conduzidas mediante a aplicação de uma escala cujos itens refletem os conceitos que no seu entendimento constituem o construto autoritarismo right-wing, tradicionalmente traduzido para o português como escala de autoritarismo de direita (Altemeyer, 2007) . O enunciado de um dos itens, livremente traduzido, pode ser expresso nos seguintes termos:

Nosso país necessita um líder poderoso, que faça o que precisa ser feito para destruir o estilo de vida radical e pecaminoso que está nos arruinando”.

A primeira sentença (necessitamos um líder poderoso) se refere à dimensão submissão autoritária, a segunda (faça o que for necessário para destruir) à dimensão agressividade autoritária e a terceira sentença, (o estilo de vida radical e pecaminoso que vai nos levar ao buraco), ao constructo convencionalismo.

De resto, as ideias centrais não diferem muito das apresentadas até aqui, pois considera que as pessoas autoritárias tendem a ver o mundo como um lugar perigoso para se viver e procuram cerrar fileira em seu próprio grupo com o intuito de enfrentar as ameaças que se originam de várias frentes. O indivíduo com estas características seria alguém com uma forte tendência a aderir aos valores tradicionais, a confiar de forma cega nas figuras de autoridade e, por fim, a desenvolver um forte senso de agressão autoritária, direcionada particularmente para quem se insurja ou se desvie dos padrões tradicionais. O que tornou o modelo particularmente relevante foi o seu poder preditivo, pois de acordo com o próprio Altemeyer (2007), no contexto norte-americano, foram encontradas evidências de que os indivíduos autoritários apoiavam sem muita discussão práticas como 1) a invasão policial à redação de jornais para obter informações confidenciais; 2) batidas policiais sem autorização, nas circunstâncias em que fosse difícil obter uma autorização judicial; 3) a negação dos direitos a reunião para protesto pacífico contra atos do governo; 4) a discriminação contra ativistas nas repartições de imigração; 5) o jogo sujo contra os partidos de oposição durante o período eleitoral; 6) o uso de provocadores para criar dissensão nos grupos opositores; 7) atear fogo em locais de encontro de organizações consideradas radicais; e 8) ganhar acesso de forma ilegal a correspondências e documentos dos opositores. Numa dimensão heurística, os resultados obtidos com o uso da escala permitiram identificar uma série de correlações entre o autoritarismo e outros constructos, a exemplo do preconceito (Hadock & Zanna, 1994; Duckitt (1993), atitudes (Haddock, Zanna & Esses, 1993), conservadorismo (Duckitt, 1993; Gray & Durrheim, 2006) , nacionalismo, discriminação, defesa do apartheid (Meloen, Linden & Witte, 1996) e punição aos desviantes (Altemeyer, 2007).

Uma vez que as perspectivas discutidas na presente seção se fundamentam metodologicamente na obtenção de  medidas individuais do nível de preconceito, é possível supor que as características particulares dos indivíduos seriam vistas como decisivas na explicação dos estereótipos e preconceitos. Em assim sendo, passa a ser plausível admitir que nas sociedades ou culturas na qual a expressão dos preconceitos ou as políticas discriminatórias fosse mais intensa, o nível de preconceito dos indivíduos deveria alcançar valores muito altos e estaria fortemente relacionado com as medidas de autoritarismo. Em que pese as evidências empíricas oferecidas pela teoria da personalidade autoritária, não demorou muito para ficar claro que as coisas não eram tão simples assim, uma vez que a adesão a uma concepção preconceituosa de mundo era mais intensa do que se imaginara. Fica claro, então,  que associar o preconceito a algum nível de patologia ou de distúrbio mental não parecia se encaixar bem com a realidade.

Racismo institucionalizado

preconceitos anos 60 Duckitt

Os anos 60 do século XX foram emblemáticos, uma vez que neste período vários movimentos de contestação levantaram críticas muito acentuadas a um ampla gama de práticas sociais. Sem pretender ser exaustivo, listamos abaixo uma série de eventos, fenômenos e descobertas que modificaram significativamente os costumes nesta década:

  • maio de 1968 e o movimento estudantil;
  • o movimento feminista;
  • o movimento hippie, a cultura paz e amor e a volta à natureza;
  • a crítica à sociedade de consumo;
  • o surgimento da pílula anticoncepcional e a mudança dos hábitos sexuais;
  • a revolução sexual e a crítica à moral sexual conservadora;
  • mudanças na moda: minissaia, calça jeans, jaqueta de couro e topetes;
  • Timothy Leary e as drogas, psicodélicas ou não;
  • novos estilos musicais: Beatles, Stones, Frank Zappa, Jovem Guarda, Tropicalismo e Raul Seixas;
  • novas formas de expressão artística: On the Road, Andy Wharhol, o Teatro de Arena e o CPC;
  • uma nova cinematografia: Easy Rider, James Dean, Marlon Brando e Brigitte Bardot;
  • Martin Luther King, Malcom X e os movimentos antiracistas.

Em que medida estes movimentos, capazes de modificar por completo os ritmos cotidianos, as várias formas de manifestação artística, a moda e os padrões de consumo, produziram mudanças na maneira pela qual os estereótipos e os preconceitos eram concebidos e estudados? E, mais importante, eles chegaram a causar impactos significativos no sentido de reduzir os preconceitos e a discriminação?

Podemos assinalar que a principal consequência destes movimentos foi a de evidenciar que o preconceito tinha profundas raízes na cultura e nas mentalidades, o que terminou por suscitar o entendimento de que os movimentos antissegregacionistas dos anos 50 e a implementação de políticas de integração racial na década seguinte não foram suficientes para produzir mudanças substanciais no combate ao racismo, pois o acolhimento e a defesa de atitudes preconceituosas continuava sendo uma prática muito comum, mesmo entre militantes e simpatizantes destes movimentos de contestação.

A persistência dos preconceitos facilitou o surgimento de uma tendência a deixar de analisá-los como algo inerente aos indivíduos, a interpretação predominante na década anterior, passando-se a concebê-los como a consequência do forte acolhimento de determinadas normas sociais, uma vez que em muitos contextos o preconceito continuava a ser o padrão mais comum de conduta, em que pese a força das críticas teóricas e sociais às atitudes preconceituosas.

Esta interpretação era reforçada pela suposição de que em locais emblemáticos, a exemplo da África do Sul e seu regime do apartheid, e do sul dos Estados Unidos, onde o preconceito continuava arraigado, não foi possível identificar diferenças significativas nos índices individuais dos preconceito quando comparados com os registrados em pessoas que viviam em regiões em que a discriminação não era tão acentuada (Pettigrew, 1958), donde a suposição de que não sendo o indivíduo o problema em questão, seria necessário identificar na cultura ou na sociedade o foco do problema.

As normas sociais ganharam o status de categoria preferencial para explicar por que, em meio a profundas transformações, as atitudes preconceituosas foram pouco afetadas. Por tudo isso, o modelo explicativo para os preconceitos se torna menos psicológico e ganha uma conotação mais sociocultural. O interesse principal, no plano teórico e empírico, passa a ser identificar como os estereótipos sociais são criados e difundidos, adotando-se, em particular, estratégias metodológicas que se assentavam na utilização sistemática da observação dos comportamentos, sobretudo os de crianças em idade escolar, bem como as técnicas de auto-relato.

Como as normas sociais se disseminam e posteriormente se tornam capazes de afetar a criação, a manutenção e a difusão dos estereótipos e preconceitos? Dois conceitos, no entendimento de Duckitt, oferecem respaldo para estas aproximações teóricas, o de socialização para o preconceito e o de conformidade.

Discutiremos o processo de socialização para o preconceito mais detalhadamente no capítulo 10, sendo importante assinalar no presente momento as duas formas de difusão das crenças estereotípicas e das atitudes preconceituosas na cultura e na sociedade. Para tal, buscamos auxílio numa obra de referência sobre os estereótipos (Schneider, 2004) para elaborar o diagrama apresentado na figura 4.6, no qual diferenciamos as duas  principais formas de socialização das crenças estereotipadas e das atitudes preconceituosas.

Figura 4.6: Influências diretas e indiretas na socialização para o preconceito

socialização para o preconceito

Julgamos desnecessário assinalar que nenhuma criança chega ao mundo de posse de habilidades cognitivas dignas de nota, muito menos com crenças estereotipadas ou atitudes preconceituosas perfeitamente formuladas. Para ser capaz de produzir um julgamento estereotipado, a exemplo de uma criança que diz para uma outra que menino não chora, é necessário um conjunto de operações, cognitivamente complexas e socialmente validadas, que envolvem elementos como perceber a pessoa, buscar na memória as categorias sociais e as características a estas associadas, reconhecer a pessoa percebida como membro da categoria social, identificar se os comportamentos ou as características daquela pessoa são compatíveis com o que se espera dos membros da categoria, ativar os sentimentos e afetos vinculados com a categoria alvo, selecionar os comportamentos apropriados e descartar os indevidos em relação aos membros do grupo alvo.

Afirmar que uma criança chega ao mundo sem os recursos necessários para conduzir julgamentos estereotipados não significa, entretanto, defender o ponto de vista de que a cabeça de uma criança é uma espécie de coco mole e que a cultura funciona como uma seringa que injeta na mente do aprendiz as informações necessárias para o bem sobreviver. Este modelo, denominado da agulha hipodérmica, pela analogia com uma agulha capaz de penetrar facilmente na pele e inocular os conteúdos a serem assimilados, está longe de representar a complexidade das relações que a criança estabelece com o mundo durante o processo de socialização. Por certo que a criança aprende com os pais, sofre influências e, aos poucos, ajusta a sua conduta aquilo que é esperado pelo ambiente familiar. Esta, entretanto, não é simplesmente uma via de mão única, pois a criança, à sua maneira, também é capaz de ensinar, influenciar e controlar o comportamento dos pais… e ela aprende muito rapidamente a fazer isso!

Obviamente o controle estabelecido por uma criança conhece limites e, como seja, é inequívoco que as atitudes preconceituosas são facilmente ensinadas pelos pais e aprendidas pelas crianças, desde que estas disponham dos recursos necessários para decodificar a mensagem transmitida e aplicar o conhecimento recém-adquirido para conduzir os seus julgamentos. As formas diretas de socialização para o preconceito se referem ao processo mediante o qual os pais, amigos e professores influenciam de forma imediata o aprendiz, acentuando o que e como se deve pensar sobre as outras pessoas e de que forma estes pensamentos devem ser utilizados para definir as pautas de conduta em relação aos alvos do julgamento.

Deste modo, se em um ambiente escolar uma criança muito pequena escuta um outro dizer que Pedrinho é diferente (pela cor, pelo modo de falar ou pelo jeitinho singelo) e que por isso ele não deve ser bem tratado e esta criança presencia os seus colegas maltratando o coleguinha, então é natural que a criança admita que existam pessoas diferentes, e isso inclui aquele coleguinha, bem como não se pode estranhar que ela chegue à conclusão de que não é nada demais tratar daquela maneira os diferentes, incluindo Pedrinho, e outros colegas mais fofinhos. Ao fazer isso, esta criança não apenas aprende a diferenciar as pessoas em classes, como também, após classificá-las, pode decidir o que pensar dos membros de cada classe e como deve se comportar em relação a cada um deles. Este processo pode ser mais ou menos deliberado, por exemplo, quando os pais dizem para não se aproximar de fulano ou beltrano, quando os professores mandam tomar cuidado com x ou y ou quando os colegas estabelecem uma divisão entre aqueles com quem se pode brincar e assinalam, à sua maneira, aqueles que podem, e devem, ser objeto de assédio físico e moral.

Obviamente a criança pode se insurgir contra as normas que imperam no ambiente em que se encontra, mas o custo da desobediência é muito alto para alguém que ainda não desenvolveu um sistema de valores muito sofisticado, Aliás, os custos da desobediência não são elevados apenas para as crianças, pois mesmo nós, adultos, tendemos a nos conformar com as normas que fundamentam as relações sociais, sobretudo quando as ações incompatíveis com essas normas são sancionadas por pessoas muito próximas.

Além dessas formas imediatas de socialização para o preconceito é possível destacar que nem sempre é necessário falar de forma direta e objetiva para demonstrar ou ensinar alguma coisa. As formas indiretas de socialização ocorrem quando o percebedor observa e posteriormente imita exemplos concretos, assim como mediante o uso de uma estratégia mais sofisticada no qual o agente não afirma nada de maneira direta e ostensiva a respeito de um determinado grupo ou categoria social, mas deixar no ar uma série de pistas sobre o que pensa ou sente a respeito do assunto. Estas duas formas de socialização indireta contribuem decisivamente para a criação de um contexto cultural regido por normas sociais que auxiliam na manutenção e difusão dos estereótipos e preconceitos.

Um professor, por exemplo, pode não tratar de forma discriminatória ou exprimir seus preconceitos em relação aos membros de uma dada categoria social, mas se durante a interação com alguém deste grupo expressar má vontade, raiva, desgosto ou mal estar, os estudantes podem identificar neste padrão de conduta a forma apropriada de se relacionar com os membros da categoria alvo e em seguida, pela via da imitação, passar a adotar uma forma semelhante de se conduzir. É importante assinalar que, neste caso, não foi necessário o professor apontar de forma ostensiva o alvo e nem indicar os sentimentos e afetos que podem a ele serem associados. O poder dos modelos, a influência exercida pelas figuras de autoridade, tem sido recorrentemente identificado na literatura especializada para que aqui insistamos no papel desempenhado pela imitação na manifestação de condutas antinormativas.

Além do poder do exemplo, uma outra forma indireta de socialização para o preconceito envolve a oferta de pistas e demais elementos que embora não façam apelo direto aos padrões normativas, oferecem indícios para que o percebedor defina e caracterize os padrões de conduta a serem adotados durante a interação com os membros do grupo alvo. A família, as organizações ou instituições, como a igreja, a escola ou os clubes, assim como a mídia, são os principais responsáveis por produzir pistas que contribuem para o fortalecimento de um sistema de normas que favorece a manutenção dos estereótipos e preconceitos. O papel da família e das instituições será exposto com maior profundidade no capítulo 10, de forma que aqui nos restringiremos a assinalar como a mídia oferece uma série de indicadores indiretos que permitem o desenvolvimento de atitudes preconceituosas ou a difusão de uma visão estereotipada sobre os grupos alvos.

A influência da mídia na construção de uma visão de mundo marcada pelas diferenças entre os grupos e categorias sociais é inegável (Scheneider, 2004). Isto não significa dizer, entretanto, que todos os agentes da mídia se preocupam deliberadamente em imprimir suas visões preconceituosas nas mensagens. Um jornalista, um autor de telenovelas, um cronista esportivo ou social, um publicitário, seja quem for, estamos todos imersos em um mundo desigual e compartilhamos boa parte da visão de mundo e dos estereótipos e preconceitos que estão presentes na cultura e na sociedade.

Como, afinal, a mídia oferece suporte a este modelo de mundo no qual preconceitos e estereótipos são vistos como relativamente normais? Um primeiro indicador se refere à sub-representatividade de algumas categorias sociais. Tente lembrar, por exemplo, de um documentário cinematográfico no qual a locução seja feita por uma narradora? Conseguiu? Difícil, pois ao contrário das obras de ficção, nas quais o autor imprime a sua própria visão de mundo, recriando-o a partir das suas habilidades criativas, um documentário geralmente tem o caráter de não ficção e deve, como tal, ter credibilidade. Isso significa, então, que os homens são mais críveis do que as mulheres? Obviamente que não, mas para os documentaristas…

No universo da publicidade, a baixa representatividade de algumas categorias também é marcante. Publicamos, junto aos psicólogos Altair Paim, Walter da Mata e Gilcimar Dantas, um estudo no qual analisamos as peças publicitárias difundidas no horário nobre pela principal emissora televisiva da cidade do Salvador. O nosso objetivo central foi identificar se poderia ser encontrada alguma correspondência entre as características demográficas da população e frequência com que os personagens são retratados nas peças publicitárias (Pereira, Paim, Mata & Dantas, 2011).

Os resultados, que se referem a uma semana de registro de todas as peças difundidas entre as 18 e as  22 horas, no mês de junho de 2010, deixa clara a falta de correspondência entre a representação da população e  a frequência com que ela é retratada nas inserções publicitárias, conforme se observa na tabela 4.2, onde estão registradas a porcentagem da população do Estado da Bahia, da Região Metropolitana do Salvador, a frequência de inserção e o tempo de inserção de peças publicitárias com personagens de cor de pele branca e preta.

Tabela 4.2: percentagem da população do Estado da Bahia, da Região Metropolitana do Salvador, da quantidade e do tempo de inserções publicitárias por categoria racial no horário nobre da televisão

representatividade população na mídia salvador Bahia

A população branca, que no Estado da Bahia corresponde a um pouco mais de um quinto do total, e ainda menos na Região Metropolitana do Salvador, esteve representada em quase oitenta por cento dos anúncios, o que correspondeu a 63,6% do tempo de difusão, enquanto que as demais categorias raciais, que representam a ampla maioria da população, foram contempladas por uma percentagem ínfima da quantidade de inserções (20,8%) e de tempo de difusão (36,4%).

Este exemplo deixa claro que a mídia não se esmera em reproduzir, nos seus veículos, um retrato aproximado da população, o que reforça a interpretação da falta de representatividade de algumas categorias. A esta tendência se acrescenta um outro elemento característico da influência da mídia, que é a da apresentação seletiva de algumas categorias. No caso específico do estudo acima relatado, não apenas os personagens brancos e negros são representados de forma inconsistente com a distribuição populacional, mas também, quando ganham espaço nas peças publicitárias, os negros estão seletivamente associados com produtos que são qualitativamente distintos daqueles que estão associados aos personagens brancos, conforme se observa na figura 4.7, na qual estão representados, em duas nuvens de palavras, os anunciantes aos quais as imagens dos personagens brancos e negros estão fortemente associados.

Figura 4.7: Nuvens de palavras de anunciante associados a personagens masculinos brancos e negros

preconceitos na publicidade salvador, bahia

A nuvem na qual estão associados os anunciantes com os personagens brancos tem uma densidade muito mais alta do que aquela na qual estão representados os anunciantes associados aos personagens negros. Isso indica que um número muito mais significativo de anunciantes incluiu em suas peças personagens brancos, enquanto os anunciantes que utilizaram personagens negros nos seus anúncios foram bem menos diversificados. A análise comparativa dos anunciantes nas duas nuvens deixa claro um padrão: os personagens negros estão presentes nas mensagens institucionais, sobretudo dos governos estaduais e municipais, um banco e  um shopping center, frequentado amiúde por um público de menor poder aquisitivo. Em contrapartida, a análise das mensagens publicitárias nas quais estão inseridos personagens brancos deixa claro uma maior diversidade de anunciantes, incluindo entre outros, agências bancárias, montadoras de automóveis e concessionárias, lojas e supermercados, produtos de beleza, provedores de serviços, fabricantes de bebidas e refrescos.

A mídia não apenas escolhe quem apresenta; ela seleciona como as categorias sociais são apresentadas. Muita vezes os membros dos grupos sociais são apresentados de forma estereotipada. A visão estereotipada dos brasileiros pode ser identificada, por exemplo, na própria publicidade (Batista & Leite, 2011), entre os correspondentes estrangeiros (Paganotti, 2007), nas telenovelas (Afrokut, 2011). O cinema é, neste particular, um exemplo marcante, conforme se constata mediante a identificação dos clichês e cenas estereotipadas na indústria cinematográfica, tal como relatado por um reconhecido crítico (Ebert, 1999) no quadro 4.4.

Quadro 4.4:  Estereótipos na indústria cinematográfica holywoodiana


  • Asiáticos: Lutadores de karatê; os idosos asiáticos sempre se comunicam através de aforismos

  • Latinos: Exímios dançarinos de salsa, mas também traficantes que resolvem todos os seus problemas à bala.
  • Italianos: Mafiosos que recusam a se integrar na sociedade protestante. Contudo, se estiver sozinho, é retratado como uma boa pessoa; se forem mais de quatro,  pode-se esperar que eles façam parte de uma gangue.
  • Chineses; Perversos,exceto os de Hong Kong, que além de perversos são vistos como muito ricos.
  • Japoneses: Mestres em artes marciais, podem ser separados em dois grupos, os com cara de imbecis, mas que ganham sempre, e os malvados, que se vestem de negro e sempre saem derrotados, em que pesem as  trapaças.
  • Russos: Se o filme for antigo, membro da KGB; se recente, da máfia russa.
  • Mexicanos: Cedo ou tarde, o herói americano será cercado por um grupo de mexicanos maus, que sorrirão em uníssono do herói, chamando-o de gringo.
  • Nativos: Os feiticeiros ou doutores de almas dos grupos das culturas primitivas terão sempre a solução para todas as doenças, mesmo as incuráveis, e a eficácia do tratamento será o resultado não apenas da sabedoria, como também das expressões poéticas que a acompanha.  Carregadores nativos em filmes ambientados nas selvas ou nas montanhas ao se aproximarem de um determinado local se recusarão terminantemente a prosseguir, fugindo em uma carreira desabalada ou sorrateiramente durante a noite.

Os exemplos apresentados até aqui são suficientes para demonstrar que as pessoas são socializadas para o preconceito e que, sob as influências diretas e indiretas da família, dos amigos, das instituições e da mídia, terminam por aceitar e naturalizar um sistema de mundo no qual as visões estereotipadas e as atitudes preconceituosas são acatadas sem muita contestação. Por certo que nem todos se comportam da mesma forma e o grau de conformidade com as mensagens impostas pela cultura não é homogêneo.

O conceito de conformidade representa uma tentativa dos estudiosos em identificar de que forma as pessoas obedecem e como esta obediência contribui para o acolhimento dos sistemas normativos nos quais os preconceitos e a discriminação ganham preponderância. A formulação mais sistemática deste conceito no âmbito da psicologia foi elaborada por Kelman (1958), que estabeleceu a diferenciação entre as três formas pelas quais somos influenciados e nos conformamos às normas sociais. A primeira modalidade, a aquiescência, ocorre nas circunstâncias em que receosos de sofrer punições, ou almejando receber recompensas, concordamos em nos comportar de uma determinada maneira, sem que tenha ocorrido uma mudança significativa naquilo em que acreditamos. Basicamente, se trata apenas de uma estratégia destinada a obter recompensas e evitar castigos que, embora funcional em certas circunstâncias, depende inteiramente do controle exercido por quem dispõe do poder de premiar ou punir.

A identificação, a segunda modalidade, se refere à conformidade que decorre dos vínculos afetivos estabelecidos com alguma pessoa de referência. Também neste caso não é necessária qualquer mudança nas crenças ou nas opiniões da pessoa, pois ela se conforma e obedece porque simplesmente prefere manter um bom nível de relacionamento com quem exerce a influência e, nesse caso, simplesmente obedece, sem discutir ou argumentar, pois considera mais importante estar bem e evitar intempéries com quem se gosta ou ama.

A terceira modalidade de influência, a internalização, é a única que se respalda numa mudança significativa nas opiniões e nas crenças, pois envolve a aceitação do ponto de vista exposto por quem está influenciando, o que proporciona uma transformação duradoura nas crenças de quem acredita.

Consideradas em conjunto, parece plausível admitir que estas formas de influência social, em particular, o aquiescimento e a identificação, ajudam a entender como as normas sociais influenciam o comportamento, embora não ofereçam um panorama muito promissor para os programas de redução dos preconceitos e eliminação das formas de discriminação, uma vez que introduzem a possibilidade do agente deixar de se comportar de uma forma preconceituosa não porque tenha modificado os seus pontos de vista e internalizado crenças igualitários como valores fundamentais para o estabelecimento de relações interpessoais e intergrupais mais justas, mas simplesmente porque deseja evitar punições ou ficar bem com quem gosta.

O papel da socialização, bem como o da conformidade com as normas sociais, proporcionou uma nova forma de entender os preconceitos e estereótipos, ao acentuar que a sociedade e cultura, e não os indivíduos, representam os principais elementos na estabilidade e difusão dos preconceitos e estereótipos. Fica em aberto a questão de explicar porque transformações sociais que proporcionaram impactos monumentais em muitos esferas da sociedade não foram capazes de produzir mudanças dignas de nota nas atitudes preconceituosas e na discriminação.

É importante salientar que a interpretação predominante nesta época era a de que as mudanças poderiam ser efetivadas desde que fossem implementadas ou expandidas as leis contra a discriminação, pois essas seriam capazes de modificar de forma sistemática a base normativa que oferece o respaldo social exigido para a manutenção das crenças estereotipadas e das atitudes preconceituosas. Trata-se, como se pode imaginar, de uma interpretação exageradamente otimista e, como tal, se tornou objeto de críticas entre os estudiosos, que rapidamente reconheceram que se os movimentos dos anos 60 representaram uma brisa de modernidade e favoreceram mudanças nos costumes e nas práticas sociais, proporcionando uma visão mais arejada em relação a muitos temas, eles pouco representaram na discussão e redução dos preconceitos, em particular, do preconceito racial.

Esta visão otimista ganhou corpo em função do entendimento de que mediante a implementação de normas destinadas a reduzir os preconceitos em regiões onde os conflitos raciais eram mais intensos, estes poderiam ser reduzidos significativamente, tornando-se semelhante ao padrão registrado nos locais onde os preconceitos não eram tão intensamente acolhidos. Este entendimento de que a redução do preconceito poderia se dar mediante o consenso social pareceu fora de lugar em função das turbulências que se manifestaram, em meados dos anos 1960,  em função da atuação dos movimentos negros. Observa-se, a partir de então, uma ruptura com a perspectiva predominante até então, o modelo de consenso social, surgindo uma nova interpretação da realidade, menos consensualista e mais próxima de uma perspectiva na qual o conflito, o poder e as relações de dominação deveriam ocupar uma posição analítica de destaque (Fairchild & Gurin, 1978).

Dinâmica grupal

preconceitos, anos 70 duckitt

Os novos hábitos e costumes da década de 1960, se foram capazes de proporcionar mudanças dignas de nota em temas como a sexualidade, os costumes e a religião, bem desferir críticas poderosas em relação às guerras, ao colonialismo e à representação política, pouco contribuíram no sentido de modificar a natureza do preconceito, em linhas gerais, e das relações raciais, em particular. Como estas mudanças não foram tão significativas quanto em outras esferas da sociedade, poder-se-ia depreender que o preconceito estava por demais enraizado na própria estrutura social e alicerçado firmemente nas relações sociais cotidianas.

Mais do que a consequência da ação de um sistema normativo, a partir dos anos 1970 o preconceito passa a ser interpretado como o resultado das ações conduzidas e implementadas por grupos de interesse e de pressão perfeitamente identificáveis. O plano de análise deixa de privilegiar as normas sociais, passando-se a buscar a explicação para os preconceitos e estereótipos a partir da dinâmica das relações que ocorrem nos e entre os grupos sociais. Nos anos 1970, em particular devido às críticas dos pesquisadores negros aos estudos anteriores, quase sempre conduzidos por pesquisadores brancos, passa a predominar um modelo voltado para a formulação de explicações mais históricas e sociológicas. O objetivo dos estudos se volta para identificar o papel ocupado por brancos e negros, quais interesses estavam em jogo nas suas relações e como as relações intergrupais que fundamentam o preconceito e a discriminação se constituíram ao longo da história das interações entre estes dois grupos (Ashmore & DelBoca, 1981; Fairchild & Gurin, 1978).

Um livro, publicado por LeVine e Campbell no início dos anos 1970, reflete esta tendência, ao enfatizar que o conflito por recursos reais e tangíveis está na base dos preconceitos e do etnocentrismo (LeVine & Campbell, 1972), conforme discutimos no capítulo anterior, onde abordamos as teorias realistas do conflito, da identidade social e da auto-categorização.

A crítica à visão consensualista se expande, especialmente a partir do entendimento de que se as relações assimétricas entre dominantes e dominados estavam enraizadas na história, seria exageradamente otimista esperar que brancos e negros pudessem do nada chegar a um consenso e viver de forma harmoniosa. A partir do surgimento dos movimentos de contestação à superioridade branca, os ganhos obtidos e o impacto por eles exercido na identidade negra, a exemplo da atitude black is beautiful, fica claro que o conflito não apenas teve o poder de colocar em evidência as injustiças e modificar as relações entre os grupos, como também se transformou numa categoria analítica importante para o estudo das relações entre grupos e categorias sociais que vivem em condições assimétricas.

Conforme assinalado por Fairchild e Gurin (1978), um dos principais objetivos destes novos estudos se referia à análise das relações entre a identidade negra e a autoestima, destacando-se a contestação ao estudo de Clark e Clark sobre os padrões de preferências de crianças negras. Este estudo foi a sequência de uma pesquisa inicial, acerca da consciência racial, publicado no final de década de 1930, no qual eram apresentadas evidências, obtidas em um estudo com 150 crianças negras estudantes de uma escola segregada em Washington, DC, de que os participantes passam a ter um bom nível de consciência racial entre os quatro e cinco anos de idade (Clark & Clark, 1939). Um segundo estudo, publicado em 1947, com crianças de três a sete anos de idade, uma parte de escolas segregadas, e a outra  de escolas mistas, pesquisou uma vez mais a consciência racial, mas desta vez também incluiu a avaliação da identificação da preferência racial das crianças negras. Os resultados apontaram não apenas que as crianças tendiam a preferir brincar, consideravam mais bonitas e consideravam que bonecas brancas tinham a cor mais bonita, assim como assinalavam que as bonecas negras não lhes pareciam bacanas. Adicionalmente, os resultados corroboravam os obtidos no estudo de 1939 de que as crianças possuíam uma boa consciência acerca das diferenças raciais, ao mesmo tempo em que assinalam uma certa confusão na identificação com a própria raça, uma vez que algumas crianças negras, especialmente as que tinham uma tonalidade de pele mais clara, se identificavam com a boneca branca, o que foi interpretado como uma tendência das crianças negras a preferirem a raça branca à negra.

Hraba e Grant, no início dos anos 1970, publicaram um estudo no qual replicaram, cerca de vinte anos depois, o estudo original de Clark e Clark. A comparação dos resultados, tal como se observa na tabela 4.3, indica padrões exatamente opostos aos encontrados no estudo original no que se refere às preferências e à identificação.

Tabela 4.3: Percentagem de escolhas de crianças negras na escolha de  bonecos negros e brancos, nos estudos de Clark & Clark (1947) e Hraba & Grant (1970)

bonecas brancas e negras

Fonte: Clark & Clark (1947) e Hraba & Grant (1970)
* Dados não fornecidos no estudo publicado

 Se os resultados a respeito da identidade racial corroboraram os obtidos no estudo original, no artigo de Hraba e Grant as preferência mudaram radicalmente, pois as crianças negras escolheram brincar, acharam mais bonitas e consideravam a cor das bonecas negras mais bonita, ao tempo em que indicavam que a boneca branca não lhe parecia bem. O que teria ocorrido neste período para produzir mudanças tão significativas no julgamento e na identidade dessas crianças?

Entre as suposições levantadas por Hraba e Grant, uma nos interessa em particular, a de que o impacto das ideias defendidas pelo movimento negro, bem como o resultado das mobilizações, demonstrações e revoltas associadas com movimentos como os do Pantera Negra, no final dos a os 1960, e a formação da atitude Black is Beautiful, referido no título do artigo, suscitaram um padrão de orgulho e de aumento da autoestima da população negra, cujos resultados se refletiram no padrão de resposta das crianças socializadas nessa nova perspectiva.

As mudanças no âmbito da sociedade estadunidense, sobretudo as ocorridas a partir da segunda metade dos anos 1970, criaram um contexto que favoreceu uma mudança significativa na orientação das pesquisas sobre o preconceito. A tradução da obra do psiquiatra argelino Frantz Fanon (1968), publicada em inglês em meados dos anos 1960, evidenciou os nefastos efeitos da discriminação e acentuou a necessidade de lutar contra o poder e a dominação branca. A publicação de textos como os de Blauner (1969), no qual se expande a análise sobre o colonialismo interno, denunciou a natureza das relações entre brancos e negros e acentuou um tipo de colonialismo que incide diretamente sobre as relações de colonização estabelecidas entre habitantes de um mesmo país. Este conjunto de ideias, defendidas sobretudo por autores negros, procurou acentuar uma perspectiva de estudos na qual a noção de conflito desempenha uma posição privilegiada no plano conceitual e, mais importante, estimulou e intensificou a luta da população negra contra os privilégios dos brancos e em defesa dos próprios direitos (Carmichael & Hamilton, 1967).

Se esta foi a marca característica dos estudos sobre os preconceitos conduzidos nos anos 1970, a década seguinte testemunhou um mudança radical de orientação, pois com o crescimento da importância da perspectiva teórica da cognição social, os estudiosos se voltam prioritariamente para abordar o tema segundo uma perspectiva mais psicológica do que sociológica, cultural ou histórica. Questões como as normas sociais, as relações de conflito, de poder e de dominação entre os grupos perderam espaço, gerando novas preocupações para os estudiosos. Uma conclusão, no entanto, parece se impor frente a este estado de coisas: nem a mudança no sistema de normas, nem as políticas de empoderamento dos grupos, a exemplo das ações afirmativas, foram capazes de mudar de forma significativa o preconceito e a discriminação, pois embora as pessoas pudessem se posicionar de forma mais positiva em relação aos grupos minoritários, a esta forma manifesta de simpatia nem sempre correspondia um sentimento íntimo de igualitarismo. Esta conclusão impõe uma visão mais negativa sobre a possibilidade de reduzir os estereótipos e preconceitos, pois se eles estão enraizados nos hábitos mentais e entranhados nas relações sociais cotidianas, combatê-los se torna uma tarefa bem mais difícil do que simplesmente empoderar os grupos e acreditar que isso seja suficiente para modificar a realidade.

O preconceito é um fenômeno universal e inevitável

preconceitos, anos 80 e 90, Duckitt

A principal característica dos estudos conduzidos nas duas últimas décadas do século passado se refere particularmente ao abandono da perspectiva conflitualista que caracterizou os estudos discutidos na seção anterior As expectativas de que o empoderamento dos grupos minoritários e a implementação de políticas de reparação poderiam contribuir para reduzir as diferenças entre brancos e negros e, consequentemente, acarretar uma redução dos preconceitos e estereótipos, não se confirmou. A redução das formas mais flagrantes não significou, em absoluto, o desaparecimento dos preconceitos, que continuaram a se manifestar de maneira mais sutil e menos evidente.

A intensificação dos conflitos raciais, bem como as transformações ocorridas na sociedade nos anos 1970, proporcionou um novo foco de interesse entre os estudiosos. Isso representou uma retomada das questões relacionadas com as atitudes preconceituosas, desta vez numa perspectiva que procurou estabelecer uma diferenciação entre as formas flagrantes e manifestas, bem como uma tentativa de identificar as diferenças entre as dimensões automáticas e controladas da manifestação dos estereótipos e preconceitos. Por certo que a preocupação com as tensas relações entre os grupos não desapareceu, pois o impacto dos estudos sobre a identidade social, fortemente desenvolvida entre os estudiosos europeus, acentuou a importância dos vieses que se manifestam durante as relações intergrupais.

Para tentar entender porque os preconceitos são tão persistentes e perduram, em que pese as mudanças sociais ocorridas nas décadas anteriores, os estudiosos direcionam os seus esforços na tentativa de identificar os processos mentais que atuam durante a ativação dos estereótipos e das atitudes preconceituosas. Novas formulações teóricas foram desenvolvidas e a preocupação central passou a ser a de identificar os universais envolvidos nessas manifestações, acolhendo-se o postulado de que se os produtos do pensamento dependem do contexto histórico e cultural, os processos mentais ocorrem sem muitas diferenças nos diversos contextos nos quais eles se manifestam.

As teorias de base cognitiva, unificadas em torno da perspectiva da cognição social (Pereira, 2013), representaram uma retomada na psicologia social no nível de análise centrado no indivíduo. No plano metodológico, essa tendência representou um claro predomínio das pesquisas experimentais. Conforme se observa no diagrama encontrado na figura 4.8, na década de 1980 os estudos foram conduzidos em um contexto no qual na América os racismos se manifestavam de forma constante e vigorosa em que pese  os movimentos de contestação da supremacia branca, enquanto a Europa conhecia novas formas de fascismo e se preocupava em particular com os movimentos migratórios, especialmente oriundos da África, da América do Sul e dos países do Leste Europeu.

Figura 4.8: influências e perspectivas de estudos dos estereótipos e preconceitos nos anos 1980 e 1990

teorias anos 80 e 90

Fontes: Duckit (1982a; 2010; Fairchild & Gurin, 1978)

O reconhecimento de quão difícil era fazer frente aos preconceitos e estereótipos levou a um entendimento de que eles eram produzidos por mecanismos inerentes à vida mental, o que favoreceu o desenvolvimento de estudos dedicados a esquadrinhar como funcionava a mente humana quando as pessoas conduziam julgamentos estereotipados e expressavam atitudes preconceituosas. A preocupação já não era tanto a de empoderar os grupos e oferecer novas formas de enfrentar os embates do dia a dia, mas sim o de entender porque as pessoas faziam coisas que terminavam por ativar os estereótipos e facilitar a expressão das atitudes preconceituosas.

Podemos, nesse período, identificar duas grandes orientações de estudo, uma voltada para a análise de como as vicissitudes dos processos cognitivos produzem efeitos que facilitam a categorização e a posterior adoção de julgamentos estereotipados e atitudes preconceituosas, e uma segunda, de natureza cognitivo-motivacional, na qual se busca identificar como as cognições são utilizadas para manter uma visão positiva do próprio grupo. Estas mudanças introduzem um nível de análise que difere nitidamente dos estudos conduzidos na década anterior.

Os estudos fundamentados na perspectiva da cognição social estão voltados para a identificação de como os mediadores cognitivos, a exemplo das categorias mentais, das crenças, das expectativas, dos valores e das atitudes, influenciam o julgamento e a tomada de decisão. Trata-se de uma perspectiva mentalista, ou seja, de análise da vida mental enquanto categoria explicativa autônoma, cujo objetivo central é o de evidenciar como a busca de simplificação da realidade social é feita às custas de uma certa economia cognitiva. Esta noção de que somos mentalmente incapazes de dar conta de toda a complexidade do mundo se fundamenta na noção que não dispomos de todos os dados requeridos e nem temos tempo para levar em consideração todos os elementos presentes numa situação antes de que cheguemos a decidir alguma coisa e que, mesmo se fôssemos dotados desta habilidade, não seríamos capazes de processar de forma concomitante todo o fluxo de informação requerido para chegarmos a uma decisão perfeitamente racional (Sanford, 1987).

A suposição central destes estudos pode ser resumida em algumas noções fundamentais, em particular a de que usamos atalhos mentais para facilitar a nossa vida em um mundo complexo, sendo particularmente importante o papel da categorização social, ao impor rótulos que favorecem a diferenciação das características físicas e sociais de determinadas categorias sociais, o que, por sua vez, acarreta uma redução na percepção das diferenças entre os membros de uma mesma categoria e um exagero nas diferenças entre as características percebidas das diferentes categorias. Este processo contribui para a atribuição de estereótipos aos membros da categoria alvo, embora com o aumento da familiaridade com o grupo objeto de julgamento estereotipado os percebedores possam se preocupar com a diferenciação das características dos membros do grupo alvo de julgamento e, em alguns casos, criar subgrupos para incluir aqueles que não possuem características totalmente compatíveis com os estereótipos, o que ajuda a manter intacta a percepção estereotipada do grupo como um todo (Fiske & Russel, 2010).

Alguns estudos conduzidos nesta perspectiva, ao assinalarem como as pessoas tendem a usar atalhos mentais com o intuito de simplificar e interpretar de forma mais direta o mundo em que vivem, contribuem para entender os estereótipos e preconceitos, podendo-se destacar as pesquisas relacionadas como as heurísticas, as base-rates, a atribuição de causalidade, as expectativas e acessibilidade aos conteúdos armazenados na memória.

O programa de pesquisa sobre heurísticas e viés acentuava os limites da ideia de que somos plenamente racionais, ao evidenciar que os atalhos mentais são utilizados de forma consistente pelas pessoas nas suas atividades cotidianas, sem que isso comprometa a capacidade humana de sobreviver em um mundo complexo (Kahneman, Slovic & Tversky, 1982). Os atalhos ajudam a economizar os recursos cognitivos, pois evitam que as pessoas pensem de forma detalhada e aprofundada sobre todos os eventos do dia a dia. Não temos necessidade de ser cuidadosos com absolutamente tudo, pois ficaríamos exauridos transcorridas algumas horas do dia. Podemos muito bem prescindir de pensar de forma rigorosa acerca de boa parte das nossas atividades, uma vez que as heurísticas fornecem soluções perfeitamente funcionais, ainda que às custas de vieses de julgamento. Estes vieses contribuem para a condução de julgamentos errôneos, sendo particularmente importante destacar aqueles com maior potencial de produzir julgamentos estereotipados, as heurísticas da representatividade e da acessibilidade.

A heurística da representatividade ocorre quando um objeto passa a ser incluído em uma categoria em função das suas características se assemelharem ou representarem mais uma categoria do que outra, o que faz com que o julgador leve em consideração as semelhanças entre dois objetos para inferir que um possui as características daquele ao qual se assemelha. Um estudo publicado por Triplet (1992) retrata o efeito deste tipo de heurística. Ele solicitou aos participantes que conduzissem um diagnóstico de alguns pacientes, que variavam quanto ao gênero, a preferência sexual e aos sintomas das doenças e, em seguida, avaliassem quanto o paciente poderia ser responsabilizado por ter contraído aquela doença. Os sintomas apresentados foram semelhantes aos de uma gripe comum. Os participantes, neste caso, deixaram de levar em consideração as informações contidas na descrição dos sintomas e fizeram o diagnóstico, a partir da orientação homossexual do suposto paciente, de que a doença não era uma simples gripe, mas sim AIDS, o que levou o autor, ainda em 1992, a admoestar quão forte poderia ser a influência das heurísticas na criação de uma atmosfera desconfortável e insegura para os portadores do HIV.

Uma outra heurística, a da acessibilidade, ocorre quando julgamos a frequência ou a eficácia causal de um evento a partir da facilidade com que ele pode ser acessado na memória. Por exemplo, Gerrig e Prentice (1991) estudaram como as situações frequentemente representadas nos meios de comunicação de massa são consideradas uma representação adequada dos eventos que ocorrem na vida real das pessoas. Assim, se considerarmos a quantidade de gente que diariamente se deleita com as novelas televisivas, e de quão frequente nelas são representadas situações dramáticas e com um forte teor emocional, podemos supor que quem assiste cotidianamente a estas obras acede quase que diariamente aos conteúdos e às rotinas adotadas pelos personagens, evocando-os muito facilmente e, mais grave, passa a utilizá-los como critério para a condução de julgamentos estereotipados sobre muitos eventos da vida real.

Uma importante linha de pesquisa sobre o impacto dos vieses de julgamento se refere ao entendimento de que os estereótipos, por envolverem a falta de conhecimento sobre as características dos indivíduos julgados de forma estereotipada, poderiam ser combatidos se fossem fornecidas informações que permitissem realizar um julgamento individualizado O entendimento subjacente a esta orientação de estudos é o de que os vieses de julgamento sofrem os efeitos das estimativas que os julgadores fazem a respeito das características dos indivíduos. Em um estudo publicado por Locksley, Borgida, Brekke e Hepburn (1981) ficou claro que durante uma tarefa de julgamento acerca de estereótipos sexuais os participantes, ao receberam informações sobre características individuais de um alvo de julgamento, tendem a negligenciar as informações estatísticas disponíveis. Em termos concretos, devido ao efeito desta heurística podemos dizer que informações oferecidas sobre as características dos indivíduos podem não contribuir para ampliar o conhecimento que temos sobre os outros e, muito menos, ajudar a reduzir os estereótipos.

Estes vieses de avaliação também foram identificados nas circunstâncias em que são realizados julgamentos sobre as causas do comportamento das pessoas do seu próprio grupo e de indivíduos de outros grupos. O estudo publicado por Taylor e Jaggi (1974) foi um dos primeiros a evidenciar as relações entre o processo de atribuição de causas e os estereótipos e preconceito, ao documentar como participantes hindus, solicitados a avaliar atos socialmente reprováveis e positivos de muçulmanos, tenderam a atribuir causas internas para as ações negativas e causas externas para os comportamentos socialmente desejáveis, enquanto tenderam a atribuir causas internas aos comportamentos desejáveis e externas aos atos considerados socialmente negativos dos próprios hindus.

Um outra linha de pesquisa na qual o efeito dos vieses cognitivos interfere no julgamento e na tomada de decisões é o das expectativas, que podem ser definidas como crenças sobre um estado futuro de coisas (Olson, Roese & Zanna, 1996). Uma vez que são elaboradas a partir de crenças sobre coisas que aconteceram no passado e como elas voltarão a se manifestar no futuro, ao proporcionar uma ponte entre o passado e o futuro, as expectativas desempenham um papel fundamental no presente (Moskowitz, 2005). Os estereótipos, em certo sentido, podem ser definidos como expectativas, ou seja como suposições baseadas em experiências passadas que permitem a elaboração de inferências sobre como determinadas pessoas irão se comportar no futuro. Podemos supor, claro, que qualquer comportamento ambíguo de um grupo alvo de estereótipos tende a ser interpretado de acordo com o que é esperado para o perfil dos membros daquele grupo.

Uma última dimensão estritamente cognitiva se refere aos efeitos da acessibilidade nas tarefas de julgamento e tomada de decisões. O entendimento da influência da acessibilidade dos conteúdos disponíveis na memória pode ser alcançado se consideramos que ao realizarmos um julgamento raramente nos damos ao trabalho de buscar de forma exaustiva toda peça de informação necessária para concluí-lo. De forma geral, nos damos por satisfeitos quando acreditamos ter informações suficientes para julgar e decidir. Estas informações geralmente são aquelas facilitadas pela acessibilidade, ou seja, aquelas que buscamos mais recentemente e as que são acessadas com mais frequência. Frente a uma informação nova, por exemplo, quando acabamos de conhecer ou ouvir um relato sobre alguém, dificilmente elaboramos todas as interpretações possíveis a respeito da informação que nos foi fornecida. Preferimos restringir o nosso raciocínio àquilo que é mais acessível e, a depender da informação disponível, podemos avaliar a importância dessa nova informação. No entanto, o impacto dos conteúdos a que temos acesso depende da forma como interpretamos a situação. Isso é fundamental na maneira pela qual julgamos os comportamentos e decidimos como iremos agir em uma dada situação, especialmente quando a situação ou a conduta  a ser avaliada é dotada de uma certa ambiguidade (Schwarz, Bless, Wänkle & Winkielman, 2003). O grau de ambiguidade é um fator importante nas circunstâncias em que envolve a percepção de ser discriminado. Por exemplo, Kaiser, Vick e Major (2006) demonstraram que se uma mulher acredita que o seu parceiro possui uma visão tradicional sobre as mulheres ela se tornará mais atenta para qualquer palavra ou indício de que o parceiro esteja evidenciando uma atitude sexista do que as mulheres que creem que o seu parceiro possui uma atitude menos tradicional em relação ao sexo oposto.

Estes exemplos de estudos regidos por uma perspectiva puramente cognitiva são suficientes para nos ajudar a entender que a preocupação dos estudiosos deixou de estar centrada na dinâmica das relações intergrupais e se voltou para a análise dos processos que ocorrem nos indivíduos, notadamente a maneira pela qual a codificação, o registro e a busca de informações na memória pode levar a erros de julgamento e avaliação. A partir dos anos 1990, no entanto, a cena é tomada por um reconhecimento de que as interpretações inteiramente centradas nos processos cognitivos são insuficientes para dar conta da complexidade dos fenômenos como os estereótipos e preconceitos, especialmente por desconsiderar que eles dependem em grande medida da ativação de mecanismos motivacionais e sofrem uma influência muita acentuada dos afetos e dos sentimentos, tanto do percebedor quanto do alvo. A metáfora do avaro cognitivo passa a conviver com uma outra interpretação, associada a uma outra metáfora, a do ser humano taticamente motivado. A interpretação dominante passa a ser de que na maior parte das vezes agimos no sentido de evitar considerar cuidadosamente as coisas e tomarmos decisões a partir de atalhos mentais, tais como os descritos nos parágrafos anteriores, mas, em determinadas circunstâncias, especialmente quando estamos afetivamente envolvidos ou extremamente motivados, agimos como estrategistas, sempre no sentido de estabelecer o equilíbrio entre as demandas da economia cognitiva e a necessidade de realizar julgamentos apropriados nas circunstâncias que assim o requerem.

Um julgamento apropriado não ocorre sem que o percebedor despenda algum esforço para realizá-lo, sendo particularmente importante, nos estudos dos preconceitos e estereótipos, estabelecer em que medida estas manifestações podem ser controladas mediante o esforço e o controle sobre os pensamentos e sentimentos. Esta introdução de uma perspectiva motivacional esclarece a forma pela qual o tratamento da informação pelo agente cognitivo é essencial em muitas abordagens da psicologia social que vieram a luz nesta época. Destacaremos aqui apenas algumas destas perspectivas, a exemplo da necessidade de closura, da dominância social e das modernas perspectivas sobre o racismo. Esta listagem, longe de ser abrangente, deve ser entendida como exemplos de quais eram as preocupações predominantes dos pesquisadores na década de 1990.

Uma das principais motivações do ser humano é conhecer e ser capaz de se orientar no mundo em que vive. Para isso ele formula e coloca à prova as hipóteses que elabora sobre o mundo. Esse, no entanto, é complexo; são muitas hipóteses a serem testadas e, se o camarada insistir em submeter à prova tudo o que supõe ser acertado sobre o mundo,  por certo embarcará numa jornada sem fim, buscando novas e novas informações para testar e validar cada uma das hipóteses que formula. O conceito de necessidade de closura representa uma tentativa de entender como damos fim a este processo e como somos capazes de congelar este movimento, colocando um freio nessa avaliação. Podemos imaginar que as pessoas podem diferir uma das outras no que se refere a esta necessidade epistêmica de fechamento e que a adoção desta estratégia depende muito da avaliação dos custos e benefícios de se continuar a formular e a testar hipóteses sobre o mundo em que se vive. Este conceito vem sendo utilizado para entender tanto os processos intragrupais, por exemplo, a pressão no sentido da uniformidade, quanto os intergrupais, a exemplo do favorecimento ao endogrupo, a desqualificação dos grupos externos e a assimilação e aculturação de imigrantes (Kruglanski & Fishman, 2009).

O impacto da closura no processo de estereotipização foi documentado em um estudo experimental conduzido em Israel. Kruglanski e Freund (1983) evidenciaram que os participantes, todos estudantes às vésperas de se tornarem professores, ao serem solicitados a avaliar a qualidade de uma composição, cuja autoria fora experimentalmente manipulada para ser atribuída a um estudante da oitava série, também judeu, mas de origem europeia (askenazes) ou africana (sefarditas), avaliaram as composições de forma significativamente distinta, atribuindo uma melhor qualidade ao trabalho do estudante askenaze unicamente quando estavam sujeitos à pressão para o fechamento e, mesmo assim, na condição em que sabiam que a avaliação poderia ser submetida a uma comparação com a conduzida por especialistas no assunto.

Este resultado evidencia como a pressão para o fechamento gera um contexto favorável para a expressão de julgamentos estereotipados, uma vez que os estereótipos, por serem estruturas do conhecimento que vem à mente de uma forma imediata, podem ser usados mais facilmente por indivíduos com necessidade de closura mais alta para conduzirem os seus julgamentos sobre as condutas das outras pessoas. Em um outro estudo, também experimental, porém conduzido na Holanda, foi possível evidenciar o efeito do necessidade de closura no julgamento de hooligans (Dijsterhuis, van Knippenberg, Kruglanski, & Schapper, 1996). Os participantes leram uma série de descrições (por exemplo, Hank de vez em quando arruma uma briga de bar) e, em seguida, foram solicitados a formar uma impressão sobre os membros desse grupo de torcedores. Os resultados evidenciaram um série de indicadores compatíveis com o postulado pela hipótese da necessidade de closura, pois os participantes com alta necessidade de fechamento não apenas foram mais rápidos para chegar a uma conclusão sobre os hooligans, como também atribuíram, de uma forma bem mais intensa que os participantes com baixa necessidade de closura, aos alvos traços e características estereotipadamente atribuídas aos fanáticos torcedores de futebol.

Um das formulações que melhor representa esta perspectiva cognitivo-motivacional pode ser encontrada nos trabalhos que permitiram, nos anos 1990, uma reavaliação mais sistemática da hipótese do autoritarismo de direita. Conforme discutimos anteriormente, esta teoria procurava identificar pessoas com características que as tornavam facilmente submissas à autoridade. Pratto, Sidanius, Stallworh e Malle (1994) desenvolveram um instrumento destinado a identificar a orientação à dominância social. A escala de dominância social tem por objetivo mensurar características de personalidade ou as atitudes favoráveis à igualdade ou a hierarquização no âmbito das relações intergrupais. Estudos empíricos evidenciaram o potencial desta escala em predizer fenômenos como o preconceito, a intolerância, o nacionalismo, o patriotismo, assim como o apoio a posições políticas extremadas, como medidas punitivas rigorosas, a exemplo da sentença de morte, ou mesma a defesa sem reservas de incursões militares punitivas (Pratto, Sidanius e Lewin, 2006). O leitor é capaz de imaginar o que poderia significar alguém com um escore alto na escala de autoritarismo de direta, ou seja, uma pessoa altamente submissa às autoridades, com uma forte agressividade em relação a todas aqueles que não professassem o ideal autoritário e extremamente apegado ao valores e a uma visão de mundo tradicional e, ao mesmo tempo, uma pessoa extremamente hierarquizadora e contrária a qualquer forma de igualdade, seja ela social, econômica ou política. A articulação destas duas dimensões, o autoritarismo submisso, relacionado com o modelo do autoritarismo de direita, e o autoritarismo dominante, característico do modelo da dominância social, passou a ser interpretada não como uma decorrência das características pessoais do indivíduo, mas como o resultado dos esforços do percebedor em deixar claras as suas atitudes e os seus valores em relação aos grupos e à sociedade em que vive. A formulação mais abrangente nesta perspectiva foi elaborada por Duckitt (2001), no denominado modelo do processamento dual motivacional (dual-process motivational model), cuja representação pode ser encontrada no diagrama apresentado na figura 4.9.

 Figura 4.9: diagrama do modelo do processo dual motivacional

processo dual motivacional

Fonte: baseado em Duckitt (1981; 2009)

Em consonância com o modelo apresentado na figura 4.9,  o que permite a expressão do preconceito ou a ativação do estereótipo não é um mero processo cognitivo. O indivíduo certamente é levado a expressar as suas crenças e os seus valores, embora o faça dentro das restrições impostas pelas suas características individuais e pelo ambiente físico e social em que vive. Os indivíduos com altos níveis de autoritarismo submissivo exprimem preconceitos porque são motivados a preservar o que supõem ser a segurança da sociedade em que vivem, uma vez que acreditam que o mundo é um lugar perigoso e ameaçador. A motivação daqueles com características de dominância não é a mesma, pois está voltada para evidenciar a importância de ser poderoso e dominador, a partir da crença de que o mundo é um local inóspito onde apenas os fortes saem vencedores.

Duas outras linhas de pesquisa podem ser considerados nesta rápida revisão dos estudos compatíveis com a perspectiva do ser humano taticamente motivado, mas elas não serão aqui consideradas por razões diversas. Uma primeira linha de pesquisa se refere às novas formas do racismo e do preconceito, a exemplo do racismo moderno, simbólico e das formas sutis e não manifestas dos preconceitos. Iremos tratar este tema de forma mais detalhada no capítulo 7. A outra linha está associada com as pesquisas ordenadas em torno da perspectiva da categorização social, cujas principais orientações teóricas, a identidade social e a auto-categorização, foram discutidas no capítulo 3.

Uma vez que o objetivo principal dos estudos conduzidos nessas duas décadas estava voltado para a identificação de alguns processos psicológicos e como eles influenciavam os preconceitos e estereótipos, os métodos experimentais de estudo foram privilegiados, sendo particularmente marcante a utilização de diferentes formas de priming, especialmente os semânticos e o de formação de dispositivos mentais (mindset priming).

O priming, uma técnica que se tornou bastante popular entre os estudiosos após a introdução e popularização dos microcomputadores como recurso para a condução de pesquisas, é uma tentativa de simular o efeito dos hábitos mentais, que é uma forma de automatismo. Um hábito demora muito a ser formado; automatizar alguns padrões de conduta também requer tempo (Devine, 1989). Como um preconceito pode ser definido como um hábito, um péssimo hábito por sinal, e não sendo eticamente aceitável criar péssimos hábitos em laboratório para estudá-los, os cientistas desenvolveram a técnica do priming para simular como os hábitos mentais influenciam o processo de estereotipização e o acolhimento de atitudes preconceituosas.

O termo priming pode ser traduzido como uma preparação, um antecipação, no sentido em que um hábito antecipa a geração de uma resposta de forma rápida, muitas vezes sem que o agente se dê conta que está agindo de maneira automática e irrefletida.

O priming semântico ocorre nas circunstâncias em que o estudioso facilita a antecipação de uma resposta mediante a apresentação prévia de alguns estímulos verbais, que pode ocorrer tanto de forma consciente, quanto abaixo do limiar da consciência. Por exemplo, podemos supor um estudo no qual os participantes deveriam identificar se uma sequência de letras forma ou não uma palavra. Esta técnica é conhecida como decisão lexical, pois a tarefa é decidir se as letras correspondem a uma palavra que existe no léxico, se o estímulo apresentado é mesmo uma palavra. O interesse dos estudiosos é, sobretudo, o de avaliar o tempo que o participante leva para identificar cada uma das palavras.

Figura 4.10: Influência do priming semântico numa tarefa de de decisão lexical

priming semântico numa tarefa de decisão lexical

Observe na figura 4.10 que o pesquisador alocou os participantes do experimento em três grupos e solicitou que eles identificassem se os estímulos apresentados eram ou não palavras, registrando o tempo de resposta em cada tentativa. Suponha, adicionalmente, que antes da avaliação o pesquisador tenha apresentado, de uma forma muito rápida, digamos, por meio segundo, um estímulo, que poderia ser para o grupo controle uma sequência de letras sem correspondência com qualquer palavra da nossa língua, para o grupo experimental do priming masculino pronomes masculinos, por exemplo, ele ou eles, e para o grupo do priming feminino os pronomes correspondentes, do gênero feminino, ela ou elas.

Os pronomes servem como priming, como preparação, como facilitadores para a identificação mais rápida das palavras semanticamente associadas com o estímulo inicial (Blair & Banaji, 1996). Desta forma, no grupo controle, no qual o estímulo era neutro, não uma palavra, mas sim uma mera sequência de letras, não foi detectado qualquer efeito facilitador. O tempo de resposta para as palavras neutras, assim como para as associadas aos estereótipos de gênero, não diferiu de forma significativa. Os resultados para os grupos experimentais, no entanto, foram diferentes. Os pronomes masculinos facilitaram o reconhecimento mais rápido de palavras frequentemente associadas aos homens, por exemplo, briga, enquanto os pronomes femininos produziram o mesmo efeito nas palavras associadas estereotipicamente às mulheres.

É importante considerar que neste suposto estudo, o tempo de apresentação do priming, de meio segundo, estava acima do limiar da consciência. Em algumas circunstâncias, no entanto, é imperativo que o pesquisador procure evitar que os participantes tenham consciência dos estímulos verbais que servem como priming. Neste caso, o procedimento é denominado priming subliminar e, como o próprio nome indica, a apresentação do estímulo facilitador ocorre abaixo do limiar da consciência do participante. Um estudo que adota este paradigma de pesquisa foi relatado por Lepore e Brown (1997), em um artigo no qual procuram diferenciar a ativação das categorias sociais dos estereótipos associados às categorias. Em um dos experimentos relatados no artigo eles evidenciaram diferenças acentuadas no julgamento de um alvo negro por participantes brancos com alto ou baixo nível de preconceito, quando submetidos ou não à preparação por um estímulo abaixo do limiar da consciência. O priming consistia na apresentação de forma muito rápida, algo em torno de 100 milésimos de segundos, e fora do campo visual da pessoa, de uma série de palavras associadas a algumas categorias sociais, a exemplo dos termos negro, afro, rastafari, reggae e rap. Os participantes do grupo controle realizaram a mesmíssima tarefa, mas os estímulos  foram sequências de letras que não configuravam palavras.  A tarefa do participante era identificar se as palavras foram apresentadas na parte direita ou esquerda da tela de um computador.  Terminado este suposto experimento, os participantes dos dois grupos, o experimental e o de controle, eram convidados a participar de um outro, desta vez sobre a formação de impressões. Neste “segundo” estudo os participantes liam oito sentenças  (duas informando que se tratava de um atleta, duas que era um amante de festas, duas que era agressivo e duas que era pouco confiável) sobre uma pessoa cujo background racial ou étnico não foi informado e, em seguida, deveriam avaliar, em uma escala, as quatro características previamente referidas e, finalmente, responder uma escala elaborada com a finalidade de mensurar o grau de preconceito. Os resultados evidenciaram que os participantes com alto nível de preconceito que foram submetidos ao priming subliminar realizaram uma avaliação mais negativa do alvo do julgamento quando comparados com os participantes com o mesmo nível de preconceito alocados ao grupo controle.

Uma segunda modalidade de priming corresponde mais amiúde ao efeito dos hábitos do que a mera apresentação de um estímulo verbal. Os estudos sobre os dispositivos mentais (mindsets) evidenciam como as soluções que encontramos e que dão certos podem gerar um padrão de resposta crônica que nos impede de buscar alternativas e soluções mais criativas e muitas vezes bem mais simples de serem alcançadas. O efeito deste tipo de cronificação foi demonstrado de forma inequívoca por Luchins e Luchins (1959) .  O que esse tipo de estudo deixa claro é que os hábitos mentais podem nos cegar e impedir que deixemos de ver coisas muito óbvias e isto, por certo, pode afetar uma parcela significativa da nossa vida mental, incluindo os julgamentos estereotipados, as avaliações preconceituosas e as ações discriminatórias.

Imagine que temos uma tarefa, obter uma certa quantidade de água, e que tenhamos três jarros de tamanhos diferentes. Por exemplo, temos três jarros, um com 29 litros, outro com 3 litros e um outro com 1 litro e devemos obter uma medida de 22 litros de água. Para isso, precisamos encher a primeira jarra, a de 29 litros, depois despejamos 3 litros na segunda jarra, ficamos com 26, em seguida jogamos fora o conteúdo da segunda jarra e depositamos mais três litros nesta mesma jarra, o que nos permite obter 23 litros e, em seguida, despejamos um litro na terceira jarra. Com isso obtemos os 22 litros de que precisamos. Observe a posição P1 da figura 4.11 e note que não é difícil entender a operação que resultou na obtenção da quantidade de água solicitada.

Figura 4.11. Experimento sobre rigidez mental

rigidez mental

Para resolver o problema 2, obter 17 litros de água, aplicamos a mesma regra. Partimos dos 40 litros, menos duas vezes 10, obtemos 20, dos quais subtraímos os três litros da jarra C e com isso chegamos aos resultado almejado. A mesma regra, claro, se aplica ao problema 3, obter cinco litros de água. Basta pegar o conteúdo da jarra B, subtrair duas vezes o conteúdo da jarra A, ou seja, duas vezes quatro, menos o conteúdo da jarra C, 3, ou seja, 16 – (2 x 4) – 3 = 5. Resolver o problema 4 não é nada difícil, pois já temos até uma regra, qual seja, basta aplicar a operação B – 2A – C, ou seja, 32 – (2 x 7) – 5.  Como fazemos para obter os dez litros do problema 5? Basta aplicar a mesma regra, certo? Sim, faça isso e você notará que obteve a resposta correta. Mas foi necessário mesmo realizar esta operação toda? Repare bem a figura 4.11. Não seria suficiente colocar duas vezes o conteúdo da jarra A? Claro. E por que não facilitamos a nossa vida? Simplesmente porque desenvolvemos um esquema mental e o utilizamos para conduzir as operações posteriores. Desnecessariamente, diga-se de passagem. Como é desnecessário julgar estereotipadamente, ainda que o façamos.

O que este tipo de experimento evidencia é que um hábito mental pode tornar rígido ou impor uma certa maneira de resolver um problema, pensar sobre a vida ou interpretar a realidade.  Os hábitos podem ser entendidos como dispositivos mentais. Um estudo, conduzido por Bargh, Chen e Burrows (1996), evidencia como os dispositivos mentais  são capazes de influenciar não apenas os nossos julgamentos, mas muitas vezes as nossas condutas, sejam elas intelectuais ou mesmo motoras. A pesquisa, também conduzida de forma experimental, alocou os participantes a dois grupos, criando um dispositivo mental (mindset) naqueles alocados ao grupo experimental, com a finalidade de contrastar os resultados obtidos por este grupo com os encontrados entre os participantes alocados ao grupo controle, ou seja, aqueles que realizaram uma série de atividades sem qualquer relação com o tema da pesquisa, os estereótipos etários. A tarefa para os participantes do grupo experimental envolvia uma série de atividades relacionadas com os idosos. Aos idosos estão associados alguns estereótipos, sendo particularmente marcantes os de que eles são mais esquecidos e de que são mais lentos. Para os participantes do grupo experimental os experimentadores solicitaram que completassem uma tarefa de desembaralhamento de sentenças, que uma vez finalizada permitia a formação de frases que aludiam aos idosos e aos seus padrões de conduta. As frases foram cuidadosamente selecionadas para evitar que fossem feitas alusões a tudo que se referia à lentidão ou a vagareza dos idosos na realização das suas atividades. Os participantes do grupo controle também realizaram a mesma tarefa, embora as frases não fizessem qualquer referências aos idosos. Para avaliar o efeito do priming os estudiosos simplesmente, após agradecerem aos participantes por terem tomado parte do estudo, registraram o tempo que demoraram para percorrer um corredor que comunicava a sala na qual o experimento foi conduzido até a porta de saída do prédio no qual o laboratório estava instalado. Os resultados não deixaram dúvida do impacto da facilitação proporcionada pelo dispositivo mental, pois se os participantes do grupo controle demoraram em média 7,30 segundos para deixar o laboratório e atravessar todo o corredor até a porta de saída, aqueles alocados ao grupo experimental, ou seja, os que foram preparados, demoraram 8,28 segundos, um valor significativamente mais alto que o encontrado entre aqueles que faziam parte do grupo controle. Este resultado deixa claro quão um dos estereótipos frequentemente associados ao idoso, a lentidão, foi capaz de produzir mudanças no comportamento na direção da conduta estereotipada, mesmo que estas pessoas tenham sido tão jovens quanto as que participaram do estudo.

Estes estudos evidenciam que algumas palavras ou hábitos mentais determinam as nossas condutas. Por certo os estudos experimentais são capazes de lançar luzes sobre estudar sob condições controladas o efeito dos processos psicológicos e psicossociais sobre os preconceitos e estereótipos. Assinale-se, no entanto, que o controle experimental é conseguido às custas de uma maior artificialização do contexto no qual a pesquisa é conduzida. Um priming evidentemente é uma simulação do automatismo e, em certo sentido, os resultados podem ser generalizados de uma forma limitada. Não podemos acreditar que um priming reproduza de forma exata os automatismos que se manifestam nas pessoas que acolhem atitudes preconceituosas e se apegam a formas arraigadas de julgamento e avaliação dos outros. Da mesma forma, os estudos conduzidos na perspectiva do grupo mínimo, o paradigma privilegiado nos estudos sobre a identidade social, ajuda-nos a entender os mecanismos que se manifestam durante as as relações intergrupais, mas não são capazes de reproduzir ou replicar de forma exata toda a complexidade inerente a este tipo de fenômeno.

Se considerarmos o avanço do conhecimento desde a década de 20 até o final dos anos 90 do século passado, não podemos desconsiderar que a forma pela qual os estereótipos e preconceitos foram conceituados e estudados sofreu muitas transformações. O efeito destas mudanças ainda se manifesta de forma vigorosa na virada do milênio. Ainda não temos um distanciamento temporal digno de nota para alcançar alguma clareza sobre as tendências ou as direções que os estudos atuais nos encaminham. Por certo, estas mudanças e transformações teóricas e conceituais resultam de conjunto complexo de fatores, incluindo elementos inerentes à ciência, como outros relacionados com os vínculos entre a ciência e a tecnologia, a exemplo do uso cada vez mais comum dos recursos da tecnologia da informação na condução de pesquisas, e outros relacionados com as mudanças sociais, em especial aquelas que se referem ao acirramento dos conflitos identitários, étnicos e religiosos que se tornaram muito evidentes com a cobertura massiva e ininterrupta dos meios de comunicação de massa e das mídias sociais.

Estas transformações, por si, apenas, não são suficientes para nos ajudar a entender a direção de evolução dos estudos sobre os estereótipos e preconceitos. É importante que tenhamos clareza que os estudos atuais se respaldam numa percepção do enorme desafio que é o de integrar uma quantidade enorme de dados e tornar compatíveis estudos conduzidos por perspectivas metodológicas e orientações teóricas distintas. Este parece ser o desafio enfrentado pelos estudos atuais. No capítulo conclusivo deste primeiro volume finalizaremos esta breve revisão histórica dos estudos sobre os preconceitos e estereótipos refletindo, à luz dos desenvolvimentos teóricos mais atuais, as direções de estudos que parecem mais promissoras na atualidade.

Conclusões: hostilidades e irracionalidades