2. Agir, sentir, acreditar: uma antiga diferenciação ainda prevalente

Em que pese o avanço da filosofia e das ciências, ainda não temos clareza sobre o que define a nossa natureza. Falta-nos um entendimento razoável sobre o que pode ser definido como a imagem de ser humano. Sabemos, em certa medida, o que nos diferencia dos outros seres, embora isso pouco contribua para a compreensão do que substancia o nosso senso de humanidade. Um animal político, um ser que sorri, um organismo racional ou um ente simbólico, ainda que essas dimensões contribuam para oferecer uma visão razoável sobre o que somos, elas nos parecem insuficientes e algo insatisfatórias.

Na falta de um modelo unificador, dispomos de uma série de perspectivas antropológicas que, com maior ou menor sucesso, tem  encontrado alguma acolhida entre os estudiosos. Mediante a reflexão racional e crítica foram sendo formuladas concepções que sobreviveram à passagem do tempo, seja por seus próprios méritos, seja pela falta de alternativas mais sugestivas. Uma definição que exerce uma influência duradoura na imagem que fazemos do ser humano é a de que somos um ente orientado por três grandes funções, as cognoscitivas, as afetivas e as conativas. Em resumo, somos humanos porque pensamos, sentimos e agimos.

As funções cognoscitivas se referem aos pensamentos, às crenças, aos valores, ou seja, a tudo aquilo associado às nossas capacidades intelectuais. As funções afetivas se referem, claro, aos sentimentos e às emoções, e se relacionam com experiências como o prazer, a alegria, o medo, o receio, o asco e a uma série de estados associados às respostas internas do organismo. A terceira função, a conativa, se relaciona com a atividade, com os comportamentos motivados e com o que nos leva a agir de uma maneira e não de outra. Estes três processos psicológicos caracteristicamente humanos, o pensar, o sentir e o agir estão fortemente relacionados com os conceitos de estereótipos (cognição), de preconceitos (afetos) e de discriminação (ação).

Modelo atitudinal dos estereótipos e preconceitos

A diferenciação entre as dimensões cognitivas, afetivas e conativas está particularmente presente nos estudos sobre as atitudes, em especial naquilo que se convencionou denominar modelo tripartite das atitudes (Albarracin, Johnson, Zannae, & Kunkale, 2005). As relações entre os estereótipos, preconceitos e discriminação e o estudo das atitudes não podem ser desconsideradas. Petty e Cacciopo (1986) sugerem que uma atitude é uma avaliação geral de um objeto atitudinal (as pessoas, o eu, um grupo social, objetos físicos ou questões abstratas). Para ser uma atitude, no entanto, esta avaliação deve ser duradoura, persistir ao longo do tempo e, como tal, estar armazenada na memória, sendo potencialmente evocável, de forma imediata ou não, mediante procedimentos de buscas nas nossas lembranças. Neste sentido, uma atitude difere de uma opinião, pois se esta se transforma ao sabor das circunstâncias, mudar uma atitude é um processo bem mais vagaroso.

Qualquer atitude é francamente avaliativa, como pode ser depreendido em definições como as de Eagly e Chaiken (1993) e Krosnic, Judd e Wittenbrink (2005), nas quais se concebe uma  atitude como uma tendência psicológica a avaliar de forma favorável ou desfavorável uma entidade particular. Neste sentido, um preconceito pode ser entendido como uma atitude negativa em relação a uma classe especial de objeto, um grupo humano ou uma categoria social. Uma diferença, no entanto, há de ser apontada. As atitudes podem ser consideradas onipresentes e inevitáveis, uma vez que as pessoas expressam respostas avaliativas até mesmo para os objetos com os quais nunca tiveram qualquer experiência pessoal, sendo praticamente impossível identificar objetos que nunca tenham sido alvo de uma avaliação atitudinal (Greenwald, 1989). O preconceito, ao contrário, não possui este caráter de ubiquidade, sendo possível imaginar que alguns grupos possam ser objeto de uma avaliação atitudinal, ainda que esta avaliação não seja preconceituosa.

Um exemplo ajuda a entender a importância da dimensão avaliativa e de como, no modelo tripartite, esta avaliação depende da relação supracitada entre as três dimensões. Viajar de avião é uma experiência habitual para muitas pessoas e suscita atitudes muito diversas. Não poucos possuem uma atitude francamente negativa em relação a este meio de transporte. Esta avaliação desfavorável se fundamenta numa série de crenças: viajar de avião é extremamente desconfortável; é uma viagem cara, arriscada e perigosa; as empresas cada vez mais reduzem o conforto dos passageiros. Estas crenças estão associadas a determinados estados afetivos, em particular, o mal estar ou a raiva para com as empresas ou mesmo para com os trabalhadores no exercício das suas funções laborais, ou a ansiedade, quando se imagina o risco de viajar, sem paraquedas, a novecentos quilômetros por hora, a dez mil metros de altura, o chão lá embaixo e o ar sem cabelos pra se agarrar. Presume-se, finalmente, em função das crenças e dos afetos negativos, que estes passageiros procurarão agir em consonância com o que acreditam e sentem, evitando, sempre que possível, as viagens aéreas. É importante salientar que não podemos falar de preconceitos em relação a um meio de transporte. O percebedor pode, por exemplo, acolher estereótipos ou cultivar preconceitos em relação aos comissários de bordo ou a certas classes de passageiros, mas em relação a um meio de transporte, um ente que não é uma categoria ou grupo social, ele acolhe atitudes ou crenças, mas não preconceitos e estereótipos.

A aproximação entre os conceitos de atitudes e o de preconceitos, ou seja, passar a se referir às atitudes preconceituosas, pode ser desenvolvida se considerarmos a concepção funcional das atitudes, tal como formulada no início dos anos 60 do século passado (Katz, 1960). Nesta perspectiva, as atitudes preconceituosas atendem a quatro funções, as de conhecimento,  a utilitária, a de defesa do eu e a de expressão de valores.

A primeira função de uma atitude é a avaliativa, ou seja, ela fornece os elementos necessários e suficientes para que os objetos presentes na realidade sejam avaliados, em particular mediante a atuação de mecanismos de simplificação e organização da realidade. A estrutura organizativa das atitudes funciona como um quadro de referência mediante o qual os estímulos desconhecidos e os novos exemplares de categorias conhecidas são incorporados e acomodados. Se supomos que um residente em um país europeu tenha uma atitude preconceituosa em relação aos imigrantes de países não europeus, este quadro de referência servirá para avaliar imigrantes africanos, a exemplo dos senegaleses e nigerianos, como também sul-americanos, como os equatorianos e brasileiros, assim como servirá para avaliar os asiáticos, filipinos e chineses. Em que pese as diferenças geográficas e culturais, os rótulos verbais como ‘estrangeiros’, ‘subdesenvolvidos’, pobres’ ou ‘marginais’ se organizam em torno de uma estrutura relativamente lógica em relação à qual todas estas avaliações estão subordinadas. Este quadro de referência tanto pode ser utilizado para avaliar os estrangeiros oriundos de países cujo contato é relativamente comum, quanto os estrangeiros de países de fluxo migratório não tão intenso. Usualmente a função avaliativa de uma atitude tende a se manifestar com mais clareza nas situações novas, incomuns e dotadas de uma certa imprevisibilidade, pois a incerteza quase sempre está  acompanhada por uma tendência a buscar uma maior clareza de julgamento.

A segunda função desempenhada por uma atitude é a utilitária. Como as pessoas vivem em um determinado contexto normativo é de se esperar que algumas condutas sejam reforçadas e outras sancionadas. Podemos afirmar que as atitudes contribuam no sentido de diferenciar as condutas potencialmente reforçáveis daquelas que podem levar a algum tipo de punição. No exemplo anterior, um adolescente ou um adulto que faz parte de um grupo de coetâneos por certo sabe que as suas condutas são monitoradas, como também tem conhecimento de que se vier a estabelecer algum vínculo de amizade ou mesmo um relacionamento afetivo com algum imigrante estrangeiro pode sofrer algum tipo de retaliação. A ideia subjacente a este entendimento é a de que os interesses pessoais são decisivos no planejamento das condutas. Uma vez que as atitudes desempenham um papel decisivo no sentido de preservar os interesses pessoais, a função utilitária está fortemente associada às situações nas quais o risco se encontra presente. Nessa perspectiva, a atitude acaba sendo um refúgio seguro no sentido de alcançar recompensas e, sobretudo, evitar punições.

A terceira função de uma atitude preconceituosa é a de defesa do eu… de quem tem preconceito. Um valor fundamental da civilização ocidental é o da igualdade. Ser preconceituoso implica, necessariamente, em considerar uma outra pessoa de forma desigual, ou seja, introduz um tratamento injusto. Uma vez que ser injusto pode causar danos à autoestima ou ao autoconceito, as atitudes são utilizadas para negar ou minimizar essas ameaças à imagem pessoal. Elas funcionam como uma espécie de mecanismo psicológico destinado a deslocar a fonte da ameaça, atribuindo-a aos membros dos grupos externos. No exemplo anterior, é de se esperar que as pessoas mais sensíveis não se sintam bem em discriminar ou mesmo acolher atitudes preconceituosas sobre os imigrantes, mas como o fizeram, podem considerar os estrangeiros ameaçadores e perigosos, encontrando justificativas para os atos que cometeram ou que porventura venham a cometer. Da mesma forma, pode ser que tentem justificar racionalmente as crenças estereotipadas, passando a considerar legítimas as ações e as condutas que adotam em relação aos imigrantes. Como é possível imaginar, a função atitudinal de defesa do eu se manifesta com mais clareza nas circunstâncias emocionalmente carregadas.

Uma atitude também pode ter uma função expressiva, pois ela contribui para exprimir tanto valores, quanto características inerentes à identidade pessoal ou social. As identidades pessoal e social são elementos essenciais nos relacionamentos interpessoais, assim como nas relações intra e intergrupais. A afirmação da identidade social é um fator decisivo para a valorização do próprio grupo e usualmente está associada à desvalorização dos grupos aos quais não se pertence, os denominados exogrupos. Deste modo, uma atitude preconceituosa pode servir para expressar as diferenças de avaliação entre as características do próprio grupo, evidenciando os atributos e qualidades positivas que se possui por pertencer àquele grupo, bem como as características negativas comuns aos membros do outro grupo. Adicionalmente, a função expressiva das atitudes pode atender a outro tipo de requisito, por exemplo, impressionar outras pessoas, como na situação em que alguém expressa em público uma atitude que não acolhe intimamente com a finalidade de ser melhor aceito pelo grupo ao qual pertence. Voltando ao caso dos imigrantes, pode ser que a pessoa se esmere em expressar seus preconceitos contra os imigrantes estrangeiros com a finalidade de fazer uma bela figura entre os amigos e conhecidos xenófobos, como também pode ocorrer, em um contexto diverso, que esta pessoa exprima com vigor pontos de vista claramente favoráveis aos imigrantes apenas para impressionar colegas de trabalho ou de faculdade. Qual seja o caso, a ativação da função expressiva das atitudes é comum em situações nas quais a pessoa deseja causar uma boa impressão.

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Perspectivas do percebedor e do alvo

Antes de avançarmos, é importante introduzir uma diferenciação muito importante nos estudos sobre estereótipos e preconceitos. Trata-se da distinção entre quem percebe e quem é percebido, entre quem avalia e quem é avaliado. Quem avalia é o percebedor, aquele que acolhe e exprime uma atitude negativa; o alvo, é aquele que é avaliado, julgado ou sofre a consequência de uma ação discriminatória.

Os estudos sobre os preconceitos e estereótipos tendem a privilegiar, no plano heurístico, a perspectiva do percebedor. Os alvos, neste sentido, se tornam duplamente vítimas de injustiças, pois não apenas estão sujeitos aos julgamentos que se lhes aplicam, como também têm sido objeto de interesse muito menos acentuado por parte dos estudiosos. 

As principais diferenças entre as perspectivas do percebedor e do alvo estão expostas no quadro 1.

Quadro 1: Perspectivas do percebedor e do alvo

perspectivas do percebedor e do alvo

Ao escreverem o capítulo introdutório da obra Prejudice: Target’s Perspective (Preconceitos: perspectivas do alvo), no final dos anos 90 do século passado Swin e Stangor (1998) sugeriram que apenas nessa década os estudos sobre a perspectiva de quem sofre o preconceito começaram a ser publicados de forma mais sistemática, embora possam ser encontrados estudos anteriores a esse período compatíveis com essa perspectiva (Horowitz, 1939; Clark e Clark, 1939, 1947; Lewin, 1947; Goffman, 1963).

É plausível admitir que esse repentino interesse pelo tópico tenha sido mais um dos reflexos da chamada crise de relevância da psicologia social, um conjunto de críticas que abalou os fundamentos dessa disciplina e favoreceu o surgimento de clamores de que a psicologia social deveria rever alguns dos seus princípios mais caros. O reconhecimento de que o interesse dos pesquisadores era bem mais acentuado em relação ao estudo e pesquisa sobre quem tem ou expressa o preconceito (o agente) em detrimento de quem o sofre parece refletir a tendência geral da psicologia social à época, qual seja, a de negligenciar a pesquisa e os estudos sobre os problemas e questões que afetavam a população e os grupos menos favorecidos, bem como as minorias sociais. O ponto central das críticas acentuava que a psicologia social oferecia respaldo a uma visão de mundo inteiramente consistente com o que se concebia como um modelo de mundo branco, anglo-saxônico e protestante, expressão frequentemente aludida pelo acrônimo WASP.

Uma das consequências mais evidentes desse clamor por estudos na perspectiva do alvo foi o surgimento de um conjunto sistemático de estudos destinados a analisar os estereótipos e preconceitos segundo a perspectiva de quem sofre a ação. Nessa primeira revisão, os estudos publicados na coletânea acima referida foram organizados a partir de três grandes questões de pesquisa, que refletiam as principais preocupações dos autores que começavam a se dedicar ao assunto.

  • 1. Como deve se portar uma pessoa quando reconhece que se encontra numa situação na qual um estereótipo ou preconceito se manifesta?

Esse tema é discutido em torno de algumas noções fundamentais. A primeira delas é a de que nem todo mundo age da mesma maneira. Trata-se, portanto, do tema das diferenças individuais. Exatamente por serem diferentes, os indivíduos reagem de maneira diversa a uma mesma situação. Uma pessoa pode se sentir humilhada ou ultrajada ao se perceber alvo de uma atitude preconceituosa; outra, ao contrário, pode considerar o evento como um acontecimento menor ou destituído de importância. Alguns podem não reagir de forma explícita, mas internalizar ou mesmo vir a cronificar a ansiedade inerente à situação de ser tratado de forma injusta.

Admitir que nem todo mundo é igual nos leva diretamente a um segundo tema, a do reconhecimento de que o preconceito é uma chaga social. Nem todo mundo acha que o preconceito se constitui em um problema que atinge a toda uma sociedade e que deve ser enfrentado de forma decisiva. Essa é uma discussão muito importante na perspectiva do algo, levando muitos militantes e ativistas a serem acusados de estarem inflacionando um julgamento, a identificarem preconceitos quando não foi isso que ocorreu ou mesmo a serem acusados de serem mais racistas que os demais, por estarem sempre interpretando o mundo pela ótica da discriminação racial.

Um terceiro tema se refere às circunstâncias nas quais ocorrem os episódios de discriminação. Consideremos, por exemplo,a questão da discriminação racial. Quando ocorrem os episódios de discriminação? Eles se manifestam mais durante qual época do ano? No verão ou no inverno ? Pela tarde ou pela noite ? No fim ou no início do mês? Em espaços públicos ou em locais privados? Em estabelecimentos de serviços ou em plantas industriais? Mais como pessoas do mesmo sexo ou com pessoas do sexo oposto?
Esses três temas, ordenados em torno da questão em epígrafe especifica que é importante saber que os alvos lidam de forma distinta coma experiência de se reconhecer como alvo de um preconceito, indicam que as diferenças individuais são decisivas nesse julgamento e, sobretudo no reconhecimento de que embora os estereótipos devam ser concebidos como um importante problema frente ao qual todos devem estar comprometidos em obstar, nem todos estão em acordo com esse ponto de vista.

  • 2) A experiência de ser alvo frequente de estereótipos, preconceitos e da discriminação influencia os pensamentos, os sentimentos e comportamentos daqueles que se sentiram incomodados pelo tratamento injustificado?

Uma questão marcante nessa perspectiva de estudo dos alvos dos preconceitos se refere ao impacto dessas experiência na saúde física e, em particular, na saúde mental de quem corriqueiramente é alvo de tratamento discriminatório. Podem ser identificados algumas evidências de que o racismo deteriora a saúde de suas vítimas. Os efeitos podem ser manifestar no plano físico, a exemplo do sistema circulatório ou do sistema autoimune, como pode também acarretar uma experiência crônica de estresse e a ansiedade. Uma questão importante se refere a identificar como a ansiedade internalizada e cronificada pode acarretar demandas psicológicas acima dos recursos disponíveis pelos indivíduos, vindo posteriormente a se transformar em agravos à saúde mental.

Uma outra linha de estudos se refere ao impacto do tratamento diferenciado no desempenho dos alvos de preconceitos. Os estudos, subordinados ao tópico da ameaça dos estereótipos, evidenciam que fazer parte de um grupo sobre a qual pesa um crença amplamente compartilhada de que a categoria é incompetente em um determinado domínio de conhecimento pode levar o indivíduo a exprimir uma tendência a se comportar em consonância com o que socialmente esperado, ou seja, a ter um padrão de desempenho abaixo da crítica, confirmando as profecias acerca do desempenho negativo dos membros do grupo.

Uma terceira linha de discussão subordinada ao tópico ora em discussão se refere às consequências pessoais, para o alvo, da divulgação pelos meios de comunicação de massa de que um membro da categoria a que se pertence cometeu um crime de ampla repercussão pública. Quais os temores suscitados pela divulgação da notícia
? O alvo não pode ser confundido com o criminoso ou pode vir a ser acusado de ser capaz de cometer o mesmo tipo de crime? E quando o crime é de natureza sexual, o alvo não é visto como ainda mais perigoso?

Como pode ser depreendida das discussões anteriores, tratam-se de situações injustas e estressantes e,como tais, os alvos podem decidir ou não por enfrentá-las. Esse é o terceiro conjunto de temas subordinados à perspectiva de estudo dos alvos.

  • 3. Como e em que medida os alvos tentam e são capazes de eliminar ou reduzir o impacto dos estereótipos e preconceitos nas suas vidas?

É difícil acreditar que as pessoas possam simplesmente tirar de letra a experiência de ser alvo de um tratamento discriminatório ou objeto de uma atitude preconceituosa. A sensação de injustiça pode ser dolorosa, muito dolorosa, acarretando mal estar, desconforte e uma certa quantidade de estresse. Seria possível, então, para os alvos, desenvolverem estratégias pelas quais possam fazer frente ao estresse ou ao desconforto de ser alvo de estereótipos e preconceitos?

A essa primeira questão se agrega uma segunda, que é a de identificar se o melhor a ser feito é tentar contradizer as crenças estereotipadas que os outros têm sobre o próprio grupo, nem que para isso seja necessário adotar uma atitude confronto em relação a quem age de forma preconceituosa. Essa, no entanto, pode não ser a melhor alternativa em todas as circunstâncias nem a melhor solução para todos os tipos de preconceituosos, sendo algumas vezes mais sensato confirmar de forma exagerada a visão do percebedor, de maneira que esse possa perceber quão injusto e insensato é o julgamento que está fazendo a respeito do grupo alvo dos estereótipos e preconceitos.

Além das duas temática aqui assinaladas, ambas de natureza individual, uma terceira linha de pesquisas se relaciona com um enfrentamento mais coletivo, onde o essencial é determinar de que forma os grupos podem se organizar para fazer frente a situação de opressão ou de injusta a que se encontram sujeitos. Nesse caso, o essencial é contribuir para a criação e o fortalecimento de agenciamentos coletivos capazes de se contrapor aos efeitos dos grupos oligárquicos e das crenças preconceituosas que se encontram enraizadas na sociedade.

Conceitos fundamentais

Nesta seção apresentaremos algumas definições preliminares, embora o leitor desde logo sinta-se avisado que ao longo da obra elas serão retomadas e tratadas de maneira mais aprofundada. As definições básicas aqui apresentadas possuem um caráter provisório e atendem ao objetivo precípuo de estabelecer uma linguagem comum que possibilite acompanhar os argumentos desenvolvidos nos capítulos subsequentes, assim como cumprem o papel de servir como um vocabulário básico, ao qual o leitor pode retornar, sempre que julgar conveniente.

Discriminação
O termo discriminação se refere a um comportamento ou uma conduta, mais ou menos perceptível ou claramente manifesta, que pode ser interpretada como um comportamento diferenciado em relação a um membro de um grupo ou categoria social. Ao contrário dos preconceitos que envolvem uma avaliação negativa, uma discriminação, embora usualmente ostente uma conotação negativa, pode ser positiva, o que ocorre nas circunstâncias em que se supõe ser necessário reparar o grupo ou categoria alvo de um tratamento injusto previamente identificado.

Preconceitos
A noção de preconceito se refere a uma avaliação negativa a respeito dos membros de um grupo ou categoria social. Esta avaliação é acompanhada de estados afetivos ou sentimentos negativos em relação aos membros do grupo ou da categoria alvo, o que faz com que os percebedores procurem evitar manter contato ou, em casos mais extremos, tentem desqualificar ou prejudicar os alvos.

Estereótipos
Estereótipos são crenças socialmente compartilhadas que se referem às características de um grupo ou categoria social. Usualmente, os conteúdos dos estereótipos se referem a traços ou características psicológicas que supostamente representam um retrato exagerado ou pouco correto do grupo ou da categoria social.

Racismo
O termo racismo se refere a um sistema de crenças e de ideologias que se sustenta numa hierarquização das categorias, geralmente elaborado a partir de pressupostos biológicos, que serve como fundamento para a implementação de ações destinadas a favorecer um grupo em detrimento de outros.

Sexismo
O termos sexismo se refere a uma ideologia que supõe diferenças constitucionais entre homens e mulheres, o que serve como justificativa para o tratamento hierarquizador e desigual entre pessoas de sexos diferentes.

Estigmas
O conceito de estigma se refere a marcas físicas, psicológicas ou sociais que funcionam com sinais de que os seus portadores possuem atributos que os desqualificam como humanos ou, pelo menos, que os tornam menos humanos que os demais.

Exclusão social
Se refere a uma ação deliberada no sentido de colocar à parte, seja por ações mais implícitas ou manifestas, os membros de algumas categorias ou grupos sociais, impedindo-os de ter acesso a bens materiais e simbólicos supostamente acessíveis a todos.

Categoria social
Uma classe de indivíduos que se supõe compartilhar características e traços psicológicos comuns. A este grupo se aplica um rótulo verbal, ao qual se atribui o poder de ativar representações sobre os membros do grupo, o que faz com que os indivíduos nele incluído sejam despersonalizados e percebidos sobretudo a partir das características supostamente compartilhadas com os demais membros do grupo.

Grupos sociais
Uma associação de pessoas que compartilham uma identidade comum e que se supõe estarem psicologicamente vinculadas entre si. O endogrupo (ingroup) se refere ao grupo ao qual se pertence, podendo ser traduzido como ‘o meu próprio grupo’, enquanto o termo exogrupo (outgroup) se refere aos grupos externos, traduzindo-se como ‘o grupo ao qual não pertenço’.

 

Modos de estudo

Como os pesquisadores estudam os estereótipos? Dedicamos esta última seção do presente capítulo a apresentar, de forma panorâmica, os métodos e as técnicas de pesquisa utilizadas pelos estudiosos dos estereótipos e dos preconceitos. Como ponto de partida, julgamos imprescindível diferenciar um problema de pesquisa de uma questão social. Não é incomum que candidatos à seleção nos programas de mestrado e doutorado procurem os orientadores com um projeto de pesquisa no qual se encontra enunciada uma importante questão social a ser enfrentada. Ter uma questão, por mais relevante que ela seja no plano social, não configura, entretanto, um problema de pesquisa, sendo necessário alguma fundamentação teórica para que este problema social se transforme efetivamente numa questão passível de ser abordada numa perspectiva científica. Para tal, o problema de pesquisa deve estar respaldado em alguma teoria científica. Se este é o ponto de partida,  o ponto de chegada é reconhecer que as teorias científicas também não passam de crenças! Crenças cientificamente justificadas.

Como os cientistas estudam os estereótipos e os preconceitos? Quais as decisões que tomam? Como concluem que uma determinada interpretação da realidade é mais justificada do que outra? O diagrama apresentado na figura 1 oferece um indicador das questões consideradas pelos pesquisadores no estudo dos estereótipos e preconceitos. Conforme assinalou, há algumas décadas, Kurt Lewin, um psicólogo social muito conhecido, não existe nada mais prático do que uma boa teoria. Este papel central da teoria pode ser identificado no diagrama, pois, conforme assinalamos, tudo começa e acaba com a teoria. Podemos observar, fazer conjecturas, levantar hipóteses, mas estas só fazem sentido quando são consistentes e podem ser inseridas no arcabouço de uma teoria. A teoria também define a lógica da pesquisa, o desenho ou delineamento a ser selecionado pelo pesquisador para que as suas conclusões possam ser consideradas válidas. Para isso, ele operacionaliza a hipótese a ser testada e define as estratégias de coleta de dados mais consistentes para encontrar uma boa resposta para o problema de pesquisa.

diagrama_decisao metodos 2Figura 1: fluxograma de decisão acerca dos métodos de estudos dos estereótipos e preconceitos

Na psicologia  as informações tradicionalmente podem ser obtidas mediante três grandes recursos: a observação, o relato dos participantes e a condução de experimentos. Seja qual for o procedimento, o pesquisador deve abrir mão das crenças pessoais que acolhe e se voltar para as outras pessoas, seja observando o que elas fazem, ouvindo o que elas têm a dizer ou registrando como elas se comportam em determinadas situações.

O desenho de pesquisa permite formular com precisão os procedimentos para a operacionalização e o teste das hipóteses, assim como permite ao pesquisador identificar os procedimentos de coleta de dados a serem adotados durante a condução do estudo. Ainda que os procedimentos de coleta de dados nas pesquisas sobre os estereótipos e os preconceitos estejam fortemente associados com os modelos teóricos que lhes deram origem, é importante destacar algumas questões metateóricas e práticas que interferem na decisão de adotar ou não determinados tipos de recursos metodológicos. Os primeiros estudos empiricamente orientados acerca dos estereótipos, conduzidos por Katz e Braly (1933), se restringiam a perguntar aos participantes quais adjetivos, numa lista de quase cem, poderiam ser atribuídos a determinados grupos sociais. Este método, denominado checklist, ainda hoje muito utilizado, supõe que o respondente tenha um certo grau de consciência do que está sendo solicitado a responder e que seja capaz de relatar as suas próprias atitudes, crenças, modos de pensar ou de agir em relação a um determinado grupo ou categoria social.

É importante assinalar, no entanto, que ser capaz de produzir um relato não significa, necessariamente, que este relato é preciso ou retrata de forma correta as crenças e atitudes do informante. Muitos participantes relutavam em participar de estudos que usavam a técnica do check list. Eles não se sentiam à vontade para responder ou mesmo se recusavam explicitamente a participar do estudo, pois consideravam esta forma de conduzir pesquisas um insulto à inteligência humana. Educadamente, muitos assinalavam que as opções de respostas a que tinham acesso eram genéricas demais e não faziam jus à complexidade dos julgamentos requeridos durante as tarefas de avaliação (Brigham, 1971; Devine & Elliot, 1995; Karlins, Coffman & Walters, 1969; McCauley & Stitt, 1978) .

Este desconforto faz com que na nossa área de estudos o pesquisador se defronte com uma questão metodológica fundamental. Ele informará ou não ao participante que o tema da pesquisa se refere aos estereótipos ou preconceitos? Não é impossível conduzir estudos em que o participante não saiba que está fazendo parte de uma investigação destinada a avaliar os estereótipos e os preconceitos. Se este é o caso, os dados da pesquisa devem ter sido obtidos por instrumentos de medidas indiretas. Se, no entanto, ficar explicitado ou se o participante for informado que as suas crenças estereotipadas ou as suas atitudes preconceituosas estão sendo estudadas, então o pesquisador está fazendo o uso de métodos diretos de pesquisa.

Medidas indiretas

Nem sempre o participante sabe que suas atitudes ou reações preconceituosas estão sendo registradas e catalogadas. Nesse caso, ele participa de uma atividade, geralmente criada pelo pesquisador, com a finalidade de disfarçar o verdadeiro objetivo do estudo e, enquanto se dedica a esta tarefa, alguns correlatos físicos ou psicológicos são registrados e posteriormente analisados pelo pesquisador, com o objetivo de identificar as relações entre estas medidas indiretas e os construtos psicológicos objeto de interesse (Gawronsky & Payne, 2010).

As medidas indiretas dos estereótipos e preconceitos contemplam técnicas muito distintas entre si, como o registro de indicadores cerebrais, a exemplo do MRI e do potencial evocado, diferentes medidas do tempo de resposta, a exemplo dos testes de associação implícita (Teige-Mocigemba, Klauer & Sherman, 2010), ou diferentes formas de ativação de conteúdos mentais, como ocorre quando da utilização das distintas modalidades de priming (Bargh & Chartrand, 2000).

Medidas diretas explícitas e implícitas

Se, no entanto, o participante sabe que as suas respostas estão sendo objeto de avaliação é de se esperar que ele tente ajustá-las, e isso pode comprometer tanto a validade (o que o pesquisador imagina estar estudando é o que ele de fato está investigando?) quanto a confiabilidade (o estudo está sendo bem planejado e executado?)  da pesquisa. Nestas circunstâncias, o pesquisador se depara com duas principais fontes de preocupação, a desejabilidade social e as estratégias de auto-apresentação. A desejabilidade social se refere à tendência do participante a ajustar o que diz em direção àquilo que é politicamente correto ou tentar seguir o padrão de resposta que ele imagina ser esperado pelo pesquisador. Nos estudos sobre os estereótipos e preconceitos, especialmente nos estudos que envolvem algumas classes de participantes, a exemplo de universitários, não é incomum que o participante evite expressar respostas que possam conotar uma visão preconceituosa do mundo. Em outras situações é comum que o participante possa expressar a visão de mundo compartilhada pelos grupos sociais ao qual se encontra vinculado, mesmo que isto signifique oferecer uma resposta que não seja condizente com o que pensa intimamente.

A adoção de determinadas estratégias de auto-apresentação é uma decorrência da preocupação do participante em criar e manter uma impressão positiva acerca de si mesmo. Nesse caso, ele pode ajustar suas respostas de forma que essas contribuam muito mais para a elevação da sua própria autoestima, o que pode gerar uma representação pouco apropriada das suas crenças e atitudes. A maneira encontrada pelo pesquisador para enfrentar os desafios impostos pelos efeitos da desejabilidade social ou da auto-apresentação é estimar o impacto relativo dessas duas fontes de comprometimento do estudo e decidir se fará uso das medidas diretas explícitas ou implícitas (Greenwald & Banaji, 1995).  Se o pesquisador se dedica ao estudo de uma dimensão em relação a qual se supõe que o efeito da desejabilidade e da auto-apresentação seja pouco significativo, ele pode usar as medidas diretas explícitas. Ao usá-las o pesquisador indaga diretamente ao participante sobre as crenças estereotipadas ou as atitudes preconceituosas a respeito de um determinado grupo ou categoria social. A adoção deste tipo de medida depende fundamentalmente do pesquisador estimar que o tema não é suficientemente controverso para suscitar respostas distorcidas do participante ou que este faz parte de um grupo ou categoria social que não teria qualquer razão para evitar expor explicitamente suas atitudes e crenças. Técnicas como as do checklist, assim como recursos como as escalas de distância social ou de preconceitos explícitos, continuam sendo muito utilizados, usualmente em combinação com métodos ou técnicas menos explícitas (Reis & Judd, 2000).

Ao utilizar as medidas diretas implícitas o pesquisador também faz indagações ao participante, mas, neste caso, tem o cuidado de substituir as questões que se referem ao seu real interesse por outras que podem oferecer indicadores indiretos sobre o construto que deseja estudar (Dovidio & Gaertner, 2000; Kinder & Sears, 1981; McConahay, Hardee & Batts, 1981; Mcconahay & Hough, 1976; Pearson, Dovidio & Gaertner, 2009; Pettigrew & Meertens, 1995; Sears & Hlenry, 2003). Caracteristicamente, os instrumentos de medida implícita dos preconceitos são construídos a partir de uma lista de itens a respeito de temas como os valores e opiniões sobre políticas sociais, práticas ou costumes e, a partir destas respostas, são elaborados os indicadores do nível de preconceito (John & Benet-Martinez, 2000). Uma série de escalas, a exemplo das de preconceito sutil, racismo simbólico, racismo ambivalente, dominância social e técnicas, como o teste de desembaralhamento de sentenças ou o de decisão lexical, podem ser consideradas como formas diretas implícitas de mensuração dos estereótipos e preconceitos. Em resumo, o participante pode nem saber que os seus preconceitos estão sendo estudados ou pode ser informado de forma mais ou menos explícita pelo pesquisador que as suas atitudes e crenças estão sendo registradas.

Iniciamos o presente capítulo aludindo ao modelo atitudinal de estudo dos estereótipos e dos preconceitos, que nos parece a visão hegemônica entre os estudiosos. Posteriormente, estabelecemos a diferenciação entre as duas perspectivas de estudo, acentuando que é possível conduzir pesquisas sob a perspectiva do percebedor, a mais comum, mas também sob a perspetiva do alvo, que precisa ser objeto de maior atenção por parte dos estudiosos. Na sequência, apresentamos algumas definições preliminares dos conceitos usualmente adotados pelos pesquisadores da área e, finalmente, indicamos os métodos e as técnicas de estudo tradicionalmente utilizadas. No próximo capítulo nos dedicaremos a discutir a discriminação, a face mais visível do nosso objeto de estudo.

Capítulo 3. Discriminação: aí o bicho pega!