3. Estereótipos e as teorias implícitas

Todos nós, sem exceção, procuramos, e usualmente encontramos, explicações para as coisas que acontecem conosco e com os outros, assim como para os eventos que ocorrem no mundo físico e social. Estas explicações podem não ser tão formalizadas ou lógicas quanto as interpretações genuinamente científicas, mas usualmente são bem elaboradas, de maneira que não temos porque deixar de qualificá-las como teorias. Alguns preferem qualificar as teorias implícitas como ingênuas, outros as referem como teorias do senso comum. Perfilamo-nos ao lado dos que preferem denominá-las teorias implícitas,  o que significa dizer que mesmo que os seus conteúdos não sejam explicitamente enunciados ou conscientemente acolhidos por quem as formula, ainda assim possuem  virtudes suficientes para receber a qualificação de teorias. A suposição subjacente a esse entendimento é a de que as pessoas, ao tentarem explicar as condutas das outras, identificam as variáveis, analisam as possíveis causas da ação ou comportamento e formulam hipóteses para em seguida testá-las,  no que pouco diferem da maneira de agir de um cientista que conduz, por exemplo,  um  teste de análise da variância de um fenômeno.

A suposição de que desenvolvemos teorias implícitas foi introduzida na psicologia social por Bruner e Taguiri, no capítulo sobre a percepção das pessoas encontrado na edição de 1954 do Handbook of Social Psychology. O argumento se centrava no entendimento  de que, ao nos sentirmos informados a respeito dos traços centrais de uma determinada pessoa, acabamos por ir além desses dados isolados e começamos a elaborar alguma teoria a respeito das características de personalidade  dessa pessoa (Brunner, & Taguiri, 1954). Por exemplo,  conforme se observa na figura 1, se reconhecemos alguém como tendo sido ao longo da vida uma pessoa tranquila e calma e notamos que ela se comporta de maneira cuidadosa em uma situação na qual outros agiriam de forma intempestiva, possivelmente tenderemos a agregar que essa pessoa é metódica e organizada e continuará a se comportar dessa maneira em circunstâncias futuras.

Figura 1: Modelo de inferências sobre traços de personalidade

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Isto ocorre porque os traços psicológicos não são vistos como entidades independentes e isoladas. O mais provável é admitirmos que eles se associam segundo uma certa lógica, que nos permite desenvolver inferências a respeito da constelação total dos traços de personalidade que supomos ser o melhor retrato da pessoa que estamos avaliando ou conduzindo o julgamento. Esta configuração pode ser entendida como uma teoria sobre a pessoa e essa teoria, como toda teoria, permitirá a elaboração de previsões a respeito do comportamento futuro,  assim como ajudou a entender as ações da pessoa no passado.

No campo específico da psicologia social, a principal abordagem a respeito das teorias implícitas corresponde a um conjunto de estudos subordinados ao que se denomina teorias atribuicionais da causalidade.  As teorias atribuicionais se  sustentam no entendimento de que as pessoas usam os objetos e eventos para construírem modelos causais, indutivos ou dedutivos, nos quais são estabelecidos relacionamentos entre causas e efeitos.

Um dos primeiros a suspeitar que sistematicamente atribuímos causas aos eventos que observamos foi o psicólogo belga Albert Michotte, ao demonstrar que muitos percebedores ao serem solicitados a descrever o que viam em uma tela na qual eram projetadas formas geométricas que se movimentavam de forma errática não hesitavam em afirmar coisas do tipo ‘o quadrado está arrastando o círculo’, ‘o losango empurrou o retângulo’, ‘a bola pequena está querendo brincar com a bola maior’ etc. Esses relatos não apenas indicavam uma certa tendência a elaborar descrições para os eventos em termos antropomórficos, como também sugeriam que os percebedores eram capazes de elaborar explicações relativamente organizadas para eventos inteiramente aleatórios (Michotte, 1963).

Esta tendência, obviamente, manifesta-se de forma muito acentuada quando o agente é um ser humano e a ação um comportamento social e, sobretudo, quando existe proximidades física ou temporal ou similaridades entre o que se supõe ser a causa e o seu subsequente efeito.

Fritz Heider, no final dos anos 1950, ofereceu os fundamentos para uma formulação mais sistemática das teorias atribuicionais ao postular a diferenciação entre as explicações que fazem referências à pessoa, em contraposição àquelas que se referem às causas impessoais, ou seja, aquelas inerentes à situação na qual o evento se manifesta (Heider, 1970).  O papel da linguagem é fundamental na psicologia do senso comum desenvolvida por Heider,  pois ela permite identificar os tipos de atribuições que usualmente utilizamos para interpretar os comportamentos dos outros (Moskowitz, 2005).

A utilização de verbos e de adjetivos é um fator decisivo no processo de atribuição de causas aos comportamentos. Afirmar que alguém é desonesto não significa a mesma coisa que dizer que face às circunstâncias alguém não teve outra alternativa senão a de tergiversar e se comportar de acordo com parâmetros não compatíveis com os princípios éticos condizentes com o esperado. No primeiro caso, a intencionalidade possui um papel preponderante, enquanto no outro uma série de fatores não intencionais exerce um papel decisivo na manifestação da ação.

Dois verbos, poder e tentar, são decisivos nessas explicações, pois a partir deles podemos concluir  não apenas que o alvo do julgamento tem a capacidade (poder) de efetivar  o comportamento, como também que ele se esforçou para tal (tentar). Em alguns casos, a conduta é possível de ser conduzida de maneira que podemos supor que a pessoa tentou e conseguiu manter o controle sobre os seus próprios atos. Nesse caso, assinalamos que a ação é controlável e estável. Em outras casos, a pessoa nem pode e nem mesmo tenta manter a sua conduta sob controle, donde caracterizá-la como incontrolável e instável.  Assim, podemos diferenciar as condutas que são pessoais, mas estáveis, daquelas pessoais, porém instáveis, da mesma forma como podemos dizer que outras condutas são explicadas pela situação, e também pode ser estáveis ou instáveis.

Em meados dos anos 60, Edward Jones e Keith Davis publicam um artigo no qual desenvolvem as idéias formuladas por Heider e defendem a tese de que nós, humanos, tendemos a acreditar que muitas disposições e intenções subjazem à qualquer ação humana. A teoria da inferência correspondente (Jones & Davis, 1965) sugere que a atribuição de causas favorece o desenvolvimento de um senso de predição e controle sobre o comportamento e sobre o contexto social no qual este se manifesta. Nesse caso, as inferências podem ser mais facilmente derivadas se o comportamento a ser interpretado não for socialmente desejado, se ação manifestadamente representa a vontade do ator ou se supõe que ações possam proporcionar prazer ou satisfação pessoal para o ator.

Posteriormente, o princípio da covariância, utilizado pelos cientistas para analisar as co-variações sistemáticas entre causa e efeito, foi adotado por Harold Kelley para explicar como os percebedores elaboram suas atribuições. Partindo do modelo do cubo da covariância, Kelley (1967) diferenciou três dimensões essenciais na atribuição de causas aos comportamentos sociais, as duas primeiras relativas ao comportamento do ator, a consistência e a distintividade, e uma terceira dimensão, o consenso, relativo ao comportamento dos outros. Um ator pode ter o seu comportamento devidamente explicado se as suas ações se manifestam em um padrão consistente ao longo do tempo, seja se comportando da mesma maneira frente a uma determinada situação ou agindo sempre de uma forma distinta frente a estímulos diferentes. O consenso contribui para a formulação de inferências ao impor uma unidade interpretativa em relação ao comportamento expresso por diferentes pessoas. A decisão sobre a atribuição de causas ao comportamento depende, segundo o modelo de Kelley, da organização dos seguintes fatores:

  • o ator se comporta da mesma maneira (consistência baixa) ou de maneira diversa (consistência baixa) a depender da situação?
  •  o ator apresenta respostas similares a diferentes estímulos (saliência baixa) ou ele age de uma forma diversa (saliência alta) quando os estímulos são diversificados?
  • o ator age de forma diferente das outras pessoas (consenso baixo) ou ele age da mesma forma (consenso alto) que os demais?

A combinação destes fatores é adotada pelo percebedores para atribuir causas aos comportamentos dos atores. Um comportamento pode ser visto, por exemplo, como determinado por causas situacionais nas circunstâncias em que se identifica que a consistência é alta e a distintividade e o consenso são baixos, enquanto os comportamentos são vistos como determinados pela situação quando a consistência e a distintividade são altas e o consenso é baixo.

Os teóricos da atribuição da causalidade admitem explicitamente que a maneira pela qual os percebedores explicam o comportamento corresponde a uma forma lógica e consistente de ação, o que evidentemente não é verdadeiro, nem para os cientistas e muito menos para as pessoas comuns. Algumas vezes as explicações não são lógicas e estão sujeitas a uma série de vieses e erros de julgamentos.

Um dos principais vieses de julgamento, conhecido na literatura psicossocial como erro fundamental de atribuição (Jones e Harris, 1967), pode ser definido como a tendência a superestimar o impacto dos fatores disposicionais em detrimento dos fatores situacionais. Um outro viés identificado pelos teóricos da atribuição é o chamado efeito ator-observador, que pode ser definido como a tendência do ator a atribuir os seus comportamentos socialmente indesejáveis a causas situacionais, enquanto um observador preferencialmente tende a explicar este mesmo tipo de comportamento a partir de disposições estáveis.

Um terceiro tipo de viés, ao contrário dos anteriores que possuem uma base fortemente cognitiva, encerra um caráter eminentemente motivacional. Trata-se de um viés de atribuição a eventos em que o sucesso e o fracasso desempenham um papel fundamental. Neste caso, mecanismos motivacionais para a manutenção da autoestima em níveis elevados atuam no sentido de fazer com que a pessoa tenda a atribuir a causas internas às suas inegáveis habilidades e capacidades pessoais, aos seus próprios sucessos, ao mesmo tempo em que atribui a fatores externos e impessoais, tais como a falta de sorte ou a dificuldade da tarefa, os próprios fracassos. Em contrapartida, também adota uma tendência oposta e simétrica, atribuindo a causas externas, tais como a facilidade da tarefa ou uma sorte fenomenal, para a explicação do sucesso dos outros, enquanto apela para uma fonte de explicação interna, a incompetência, para explicar o fracasso dos outros.

Para Weiner (1985) as pessoas fazem as atribuições a partir de três dimensões distintas, o locus, a estabilidade e o controle. A primeira destas dimensões, o locus, assume duas posições, a interna e a externa; a segunda dimensão, incorpora outras duas posições, a estabilidade e a instabilidade e, por fim, a dimensão do controle, também dicotômica, diferencia os elementos controláveis dos considerados incontroláveis.

Desta forma, seriam atribuídas quatro tipos de causas para os eventos e elas podem ser chamadas à cena de forma diferenciada. Por exemplo, o sucesso ou o fracasso de um candidato em concurso pode ser explicado por um ou pela conjunção dos seguintes fatores:

  • Capacidade.  Trata-se de um atributo interno, estável e controlável. Como tal, a capacidade do candidato em assimilar o conteúdo da matéria do concurso não sofre flutuações dignas de nota com a passagem do tempo. Se ele é aprovado, a explicação é a de que ele é simplesmente capaz e a sua capacidade foi o fator decisivo no sucesso; se reprovado, a explicação aponta que ele não possui capacidade de superar uma prova daquela natureza, devendo procurar outra carreira ou fazer um concurso que seja mais compatível com as suas capacidades.
  • Esforço. Trata-se um atributo interno, instável e controlável. Nesse caso, a explicação para o sucesso se refere à quantidade de esforço que o candidato despende na realização da tarefa. O fracasso, por sua vez, é explicado pela via oposta, não sendo incomum a explicação ser construída a partir do argumento de que o candidato não estava motivado o suficiente, não se esforçando para alcançar a meta que especificara.
  • Dificuldade na tarefa. Por se tratar de um atributo externo, estável e incontrolável, a fonte de explicação não se localiza no indivíduo, mas em fator relacionado com a situação, no caso, o grau de dificuldade imposto por quem elaborou a prova.
  • Sorte.  Também se trata de um atributo externo, instável e incontrolável. Nesse caso, pode acontecer do candidato ser bafejado com o auspicioso fato de ter estudado os pontos certos nos livros certos ou, se não obtiver sucesso, ter sido contemplado com um ponto difícil na prova ou ter o baita azar de escolher os pontos errados do concurso para dedicar a atenção.

A concepção de teoria implícita que adotamos encontra-se subordinada à teoria folk da mente, desenvolvida por Bertram Malle (Malle, 1999; Malle, 2004). Embora acolha como ponto de partida as teorias atribuicionais da causalidade, Malle sugere que essas se ressentem da dificuldade decorrente da confusão introduzida por desenvolvedores posteriores que transformaram a distinção inicial estabelecida por Heider entre causalidade pessoal e impessoal em um modelo teórico que postula uma distinção menos precisa entre causas pessoais e causas situacionais.

Malle sugere que esta dificuldade pode ser superada com a retomada de posições tradicionais da psicologia folk, nas quais se  estabelece a diferenciação entre as explicações fundamentadas em causas e aquelas que sugerem algum tipo de intencionalidade por parte do agente. O modelo geral da influência das teorias implícitas no processo de estereotipização pode ser representado no diagrama encontrado na figura 2, onde podemos identificar as duas principais fontes de influência acima aludidas e os seus elementos constitutivos.

Figura 2: Domínios de explicação, com os elementos causais (modificado de Malle, 2004)

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No que concerne aos estereótipos, insistimos que as teorias implícitas são utilizadas para fazer alusões às condutas de pessoas que foram des-individualizadas e vistas como subsumidas por um ente social, um agregado, um grupo ou uma categoria social. Assinalamos que esse processo pode ser denominado entitatividade e sugerimos  que o senso comum adota uma das várias modalidades de explicações acima referidas para construir um relato organizado e coerente acerca da conduta dos indivíduos que pertencem a esse ente social.  Nesse sentido, as teorias implícitas  cumprem um papel decisivo no processo de estereotipização, uma vez que oferecem os fundamentos para a formulação e a posterior aceitação da crença de que os atributos dos indivíduos que pertencem a um mesmo agregado, categoria social ou grupo são similares e intercambiáveis entre si.

Teorias implícitas fundamentadas na causalidade

No caso específico dos estereótipos, as principais fontes de atribuição de causas internas e não-intencionais se referem aos traços psicológicos e às essências.

Traços psicológicos

A importância dos traços psicológicos nas teorias sobre os estereótipos fora assinalada desde os estudos iniciais conduzidos por Katz e Braly, onde se procurava identificar os adjetivos correspondentes às disposições estáveis que caracterizam os comportamentos dos membros das diversas categorias sociais. No plano teórico, a vertente que exerceu o mais forte impacto no campo de estudo dos estereótipos foi a teoria da inferência correspondente, de Edward Jones e Keith Davis, que como o próprio nome indica, interessava-se em identificar os fatores que poderiam levar o percebedor a inferir disposições subjacentes no comportamento de um ator (Jones & Davis, 1965).

Talvez o modelo teórico que melhor acentue o papel desempenhado pelos traços psicológicos no processo de aplicação dos estereótipos é o modelo do viés linguístico intergrupal. Essa teoria adota como ponto de partida as diferenças na categorização linguística de distintos grupos sociais identificadas por Semin e Fiedler (1988). A ideia fundamental é a de que uma mesma cena pode ser traduzida verbalmente mediante a utilização de quatro elementos da linguagem, elencados do mais concreto ao abstrato, segundo a enumeração abaixo:

  1. verbos que descrevem ações. Os verbos descritivos são utilizados para a descrição de condutas específicas e eventos com início e final claramente identificáveis. Como tais, dificilmente poderíamos considerá-los sob uma perspectiva positiva ou negativa. Trata-se da estrutura linguística com o nível mais baixo de abstração, sendo usualmente adotado para fazer alusões a eventos e situações concretas;
  2.  verbos que interpretam ações. Em um nível um pouco mais abstrato, os verbos interpretativos vão além de uma dimensão meramente descritiva, pois adicionam informações, além daquela que pode ser ostensivamente observada, ao que está sendo relatado. Normalmente esses verbos também fazem alusões a situações relativamente concretas, com início, meio e final claramente delimitados;
  3.  verbos que fazem referências a estados duradouros. Os verbos que se referem a estados duradouros, embora façam alusões a eventos claramente discerníveis, indicam estados mentais relativamente estáveis, sendo difícil identificar, no plano temporal, o início ou fim do estado mental do emissor da ação; e
  4.  adjetivos. Os adjetivos representam estruturas linguísticas que permitem a codificação dos eventos de uma forma ainda mais abstrata que as estruturas previamente arroladas, sendo usualmente caracterizados como variáveis disposicionais. Isso significa que se referir a um pessoa mediante a aplicação de um adjetivo cria um estado mental no qual se imputa ao agente que produziu a ação uma certa estabilidade de comportamento, indicando que ele continuará a manifestar a mesma conduta independente das circunstâncias geográficas, temporais ou culturais.

Consideremos a cena encontrada na figura 3, extraída de um experimento que conduzimos (Pereira, Fagundes, Silva, & Takei, 2003; Pereira, Silva, Fagundes, & Takei, 2003) para testar o viés linguístico intergrupal em uma amostra de participantes da cidade do Salvador, Bahia. As figuras a e b são idênticas, exceto por um detalhe, as características físicas da cor da pele do garoto que devolve a carteira ao dono.

Figura 3: exemplo de imagens utilizadas no estudo sobre o viés linguístico intergrupal

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Cada participante do estudo avalia apenas uma das duas sequências de imagens. As opções de resposta correspondem aos níveis de abstração relacionados com o modelo do viés linguístico intergrupal.

  • O garoto pega a carteira (verbo descritivo);
  • O garoto devolve a carteira (verbo interpretativo);
  • O garoto se sente bem por devolver a carteira (verbo que faz alusão a um estado duradouro);
  • O garoto é honesto (adjetivo).

A hipótese do viés linguístico intergrupal procura identificar as circunstâncias nas quais adotamos essas estruturas para codificar cenas constituídas por imagens, tais como as encontradas na figura 3. Para isso consideramos o grau de positividade ou negatividade da cena (a valência), bem como a filiação grupal (endogrupo ou exogrupo) de quem avalia a cena e de quem é avaliado (Maass, Salvi, Arcuri, & Semin, 1989).

A linguagem, portanto, passa a ser vista como um recurso de confirmação ou de refutação das crenças sobre os grupos sociais, uma vez que uma codificação mais abstrata oferecerá mais informações acerca do protagonista, enquanto uma linguagem mais concreta enfatizará mais os elementos do contexto. No caso específico do exemplo, uma ação de devolver uma carteira perdida ao seu legítimo dono é uma ação claramente positiva no plano moral e ético. A codificação de uma ação dessa natureza será diferente, caso ela seja executada por alguém do próprio grupo ou do outro grupo. Nesse último caso, é de se esperar que os participantes de cor de pele branca, quando solicitados a escolher a sentença que melhor representa a ação do garoto branco tenderiam a escolher a alternativa mais abstrata, atribuindo, mediante a escolha do adjetivo honestidade, mais qualidades positivas aos membros do próprio grupo. No entanto, se o alvo do julgamento for um membro do outro grupo, o garoto negro, o modelo do linguístico intergrupal sugere que os participantes escolheriam  as opções de resposta menos abstratas, a exemplo da alternativa ‘o garoto pega a carteira’, pois uma codificação menos abstrata indica algum grau de dissociação entre o ator e cena. Nesse sentido, pode-se admitir não apenas que o viés linguístico intergrupal, particularmente nas circunstâncias em que a cena é codificada em um nível de maior abstração, é um recurso importante para mensurar o nível implícito de preconceito (Hippel, Sekaquaptewa, & Vargas, 1997), como também que os adjetivos representam estruturas linguísticas decisivas no processo de atribuição de causas aos comportamentos dos grupos ou categorias sociais estereotipizados.

Essências 

‘Aquilo é um monstro. Não tem jeito de melhorar, a ruindade está no sangue’.  Quantas vezes não ouvimos expressões desse tipo para se referir a determinadas pessoas? Note que o pronome demonstrativo utilizado foi aquilo, não aquele. Note também que a monstruosidade não é vista com uma qualidade, ou melhor, como uma falta de qualidade da pessoa, e sim como algo inerente a um ente desumano. Observe também que essa expressão denota qualquer impossibilidade de aperfeiçoamento da pessoa alvo do julgamento.

Por que pensamos assim? O que nos leva a pensar dessa forma, a tratar algumas pessoas como se elas não fossem exatamente humanas ou pelos menos que possuíssem alguns traços ou qualidades que as tornam menos humanas que os mortais comuns? Uma das respostas para essa questão,  o essencialismo psicológico, se refere à  tendência que temos a pensar que as coisas, os objetos inanimados, e os seres vivos, inclusive nós, humanos, somos dotados de essências que nos tornam exatamente o que somos. Não que as possuamos, estamos longe de afirmar esse tipo de coisa, mas pensamos e agimos como se isso fosse verdadeiro. Ainda que objetos naturais, seres vivos e humanos não possuam essências, acreditamos que eles as possuem,  e não duvidamos disso.

Isso ocorre porque o nosso pensamento é fundamentalmente regido por abstrações. Pensar na extensão plena do termo é refletir mediante o uso de conceitos, ir além das operações concretas do pensamento. Ao abstrairmos, somos capazes de ir além do mero fluxo das sensações mais imediatas, das amarras da percepção ou dos exageros da imaginação e passamos a extrair informações heuristicamente invariantes desse mundo em incessante transformação.

Devemos a Medin (1989)  a demonstração inicial desse essencialismo, conforme observado na animação encontrada na figura 4, onde se nota que o cinza, uma cor inicialmente neutra em relação às cores branca e negra, se torna mais próxima de um desses extremos quando qualificada por um substantivo apropriado.

Figura 4: demonstração inicial de Medin

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Como podemos observar, a cor cinza está mais próxima do polo negro quando pensamos numa nuvem cinza e do polo branco quando pensamos em cabelos cinza. Isso ocorre pelo impacto de um elemento abstrato, uma teoria, a do envelhecimento, no caso do cabelo, e as teorias meteorológicas, no caso das nuvens.

Essa operação é possível de ser explicada se acreditamos que além das aparências existe uma realidade subjacente e oculta que só pode ser entendida mediante o engenho humano e se aceitamos a diferenciação entre as explicações que aludem a fatores profundos, em contraposição àquelas que se fundamentam em fatores de superfície.

A distinção entre aparência e essência parece exercer um importante papel no desenvolvimento dos processos mentais superiores e é decisiva ao refletirmos sobre a possibilidade de um ente possuir uma identidade própria e poder ser enumerado, diferenciado daqueles que dele se distinguem e visto como semelhante em relação aqueles com os quais compartilham a mesma estrutura de atributos.

Em relação aos elementos de superfície, temos poucas razões para duvidar que o mundo é exatamente o que ele aparenta ser. Continuamos acreditar que a água do mar é azul, mesmo quando a colhemos com as mãos em concha e a reconheçamos como translúcida. Os dados sensoriais parecem ser confiáveis e, na maior parte das vezes, fornecem informações mais do que suficientes que permitem nos orientar, tomar decisões e seguir a vida da melhor maneira possível.

Em relação aos fatores de profundidade, às essências, as coisas mudam de figura, pois não apenas os elementos de superfície são incapazes de defini-las, como também não dispomos de elementos analíticos que facilitem essa apreensão. Gelman (2003; 2003a; 2004) sugere a noção de um lugar onde se coloca essa essência, definindo uma estrutura conceitual  denominada  ‘essence placeholder’. Conforme se observa na figura 5, o entendimento principal dessa teoria é a de que embora não chegamos a ter o alcance de qual é a essência que define os membros de uma categoria social, não duvidamos que a essência é um elemento decisivo nessa definição.

Figura 5: Modelo do essence placeholder

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O essencialismo psicológico se nutre da ideia de que as pessoas compartilham uma série de crenças essencializadas sobre os membros de uma categoria social, embora não saibam exatamente o que é essa essência ou que ela pode significar. Em alguns casos, a essência é caracterizada como uma substância (‘aquilo está no sangue’), enquanto em outros a essência pode ser vista como um poder (‘quando aquilo baixa, parece que ele vira bicho’). Em algumas circunstâncias, a essência é vista como uma qualidade (‘quando acontece, ele muda da água para o vinho’) e em outras como um processo (‘você viu como ele se transformou completamente?’). Às vezes, a essência é definida como um relacionamento (‘parece que tem uma coisa que anda junto e o domina completamente’), enquanto em outra como uma entidade (‘você viu como ele se transformou completamente?’). Não importa muito como a essência é definida, se substância, poder, qualidade, processo, relacionamento ou entidade, o mais importante é que qualquer uma desses elementos passa a ser visto como a causa das propriedades típicas e das características da categoria essencializada. Para o essencialismo psicológico são esses fatores que conferem identidade à categoria e permitem que o pensamento categórico se manifeste e exerça os seus efeitos (Gelman e Hirschfeld, 1999). Os efeitos preponderam mesmo na ausência de clareza dos elementos que definem a essência ou sem que seja apresentada qualquer evidência sobre a existência de qualquer tipo de essência.

Conforme assinala Gelman (2003; 2004), ainda que não ostentemos crenças precisas sobre a essência dos membros de um grupo ou categoria social, continuamos a crer que eles possuem uma essência que os definem. O raciocínio essencialista depende do acolhimento da noção de que os membros do grupo ou da categoria compartilham uma essência subjacente, não observável, profunda, que não apenas define os atributos internos e externos da categoria, como também oferece os elementos definidores que permitem a inclusão do indivíduo como membro da categoria ou grupo social. E isso, conforme assinala o modelo do placeholder, não é exige qualquer tipo de evidência empírica (Medin & Ortony, 1989).

Ainda que as manifestações sejam variadas, a literatura especializada apresenta uma série de evidências teóricas e empíricas de que a formulação básica do essencialismo psicológico se sustenta em quatro crenças fundamentais, conforme observado na figura 6.

Figura 6: crenças básicas que fundamentam o essencialismo psicológico

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Consideremos, para fins de exemplo, a essencialização das mulheres. A primeira dessas crenças, a da etiologia biológica da categoria, sustenta as formas mais conhecidas de naturalização das essências. Por essa via, as diferenças entre os sexos se sustentam em uma estrutura biológica, no caso específico, o cromossomo Y, na ausência do  qual o indivíduo não pode ser incluído na categoria das mulheres. É importante salientar que as discussões sobre a identidade de gênero ou sobre a identidade sexual não se confundem com esse padrão essencialista de raciocínio. Essa crença representa a dimensão material que oferece sustentação aos arrazoados essencialistas sobre mulheres e homens.

A segunda crença que fundamenta a essencialização psicológica é a da imutabilidade, uma vez que se considerarmos a distinção entre estrutura superficial e profunda, o que sofre modificações e está sujeito a transformações é o plano das aparências, não o das essências. Estas seriam, por assim dizer, imutáveis, conferindo à categoria um estatuto de permanência que está na raiz da própria substância que define a identidade do ente assim caracterizado. Nesse sentido, desenvolve-se o raciocínio de que uma vez mulher, sempre mulher, mesmo que se fizessem presentes modificações na estrutura superficial, a aparência física, por exemplo.

A terceira crença comum à essencialização psicológica é da informatividade. Uma vez que sabemos a base material que a define e a reconhecemos com uma entidade permanente e não transitória, começamos a entender que ao estarmos informados de alguns atributos da categoria podemos não apenas generalizar para os outras mulheres, como também podemos desenvolver uma série de conjecturas sobre os padrões de conduta e de ação dos membros da categoria como um todo. Assim, no caso das mulheres, se sei que Maria é uma mulher, sei que ela compartilha com outras mulheres gostos, inclinações, tendências, hábitos etc. que as caracterizam como mulher e que são diferentes daqueles encontrados entre os homens.

A quarta crença que fundamenta o essencialismo psicológico é a da descontinuidade. Essa crença patrocina uma linha divisória intransponível que separa a natureza dos entes com bases biológicas distintas. No exemplo citado, ao se ser uma mulher, não se pode ser homem, pois  essas categorias são discretas, descontínuas e, como tais, não permitem essa sobreposição nem qualquer amálgama entre elas.

A crença de que as pessoas são dotadas de essências é provavelmente a característica mais marcante da estereotipização de algumas categorias sociais, especialmente daquelas mais facilmente sujeitas ao raciocínio naturalista ( Eagly & Steffen, 1984; Fazio & Dunton, 1997; Gaertner & McLaughin). Em uma importante revisão dos estudos empíricos, Haslam, Rothschild e Ernst (2000) sintetizam o nível de essencialização ao qual é submetido cada uma das principais categorias sociais. O gráfico encontrado na figura 7 não deixa dúvidas acerca do impacto do pensamento categórico na essencialização do gênero, da etnia e raça, indicando, adicionalmente que outras categorias, a exemplo da orientação política e a doença mental são essencializadas de forma menos intensa.

Figura 7: Gráfico com o nível de essencialização de diferentes categorias

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Exemplificaremos a seguir, em relação a algumas categorias, como essa essencialização se sustenta na articulação de proposições identificadas nas quatro crenças básicas previamente referidas.

  • Sexo e gênero

Essas duas categorias, sexo e gênero, são  provavelmente as categorias com o grau mais intenso de essencialização,  uma vez que desde muito cedo as crianças essencializam as diferenças entre os sexos e adotam padrões estereotipados de condutas em relação aos indivíduos do sexo oposto (Taylor, 1996). Esta tendência se manifesta de forma muito nítida, em vários domínios da vida cotidiana, como podemos observar as diferenças nas escolhas dos carrinhos em um parque de diversões pelas crianças representadas nas fotografias encontradas na figura 8.

Figura 8: diferenças entre meninos e meninas

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A literatura tem identificado inúmeras evidências do impacto do pensamento essencialista na manifestação de preconceitos e estereótipos de gênero. Coleman e Hong (2008) sugerem que mulheres que acreditam na determinação biológica das diferenças de gênero tendem a endossar mais os traços estereotípicos associados às mulheres e demoram muito mais a rejeitar as explicações estereotipadas que aquelas que rejeitam o determinismo biológico. Na mesma direção,  Gaunt (2007) assinala que os pais com uma visão mais essencializadora sobre as diferenças entre os sexos provém menos cuidados diretos e são menos envolvidos com a educação dos filhos do que os pais com crenças menos essencializadoras.  O impacto do pensamento essencialista também contribui para as dificuldades de desempenho, a se considerar as evidências apresentadas por Dar-Nimrod e Heine (2006) de que se forem fornecidas explicações essencializadoras para as diferenças no desempenho em matemática, as mulheres tenderão a apresentar um desempenho significativamente inferior em testes de matemática quando comparadas com os resultados obtidos pelos homens.

A influência da essencialização biológica não se manifesta exclusivamente nas culturas ocidentais, a se considerar os argumentos apresentados por  Mahalingam (2003) sobre o impacto da essencialização na sociedade indiana, na qual foram encontradas evidências de que as mulheres desfrutam de menos prestígio e são mais essencializadas, ao serem percebidas como mais naturais e corporificadas do que os homens.

  • Raça e etnia

Os primeiros estudos psicossociais na área de socialização para o preconceito já assinalavam que as crianças categorizavam a raça de uma maneira muito diferente das outras formas de categorização, a exemplo da ocupação (Hirshfield, 1995; 1996). O fundamento para esse tipo de essencialismo é um espécie de raciocínio por analogia, que se manifesta nas circunstâncias em que os grupos sociais são percebidos como entes que se comportam de uma maneira que pode ser interpretada como semelhante às espécies biológicas, ou seja, quando se percebe que os membros se acasalam  com membros do próprio grupo, o que facilita a percepção de endogamia,  e reproduzem novos membros, o que facilita o entendimento de que eles geram descendência (Gil-White, 2001).

Muito estudos documentam associações consistentes entre altos níveis de essencialização étnica ou racial e a tendência ao preconceito ou à estereotipização. Haslam, Rothschield e Ernst (2002) relataram uma correlação positiva entre essencialização e atitudes negativas em relação aos negros. Um estudo conduzido na Alemanha,  encontrou associações entre a essencialização  e os preconceitos raciais em relação aos turcos e  africanos e seus descendentes (Keller, 2005). O impacto do essencialismo, no entanto, é bem mais complexo do que simplesmente assegurar correlações entre altos níveis de essencialização e os preconceitos e estereótipos. Chao, Chen, Roisman e Hong (2007) identificaram entre indivíduos residentes  nos Estados Unidos da América com background bicultural (asiáticos e americanos),  que quanto maior a tendência à essencialização, mais difícil era navegar entre as duas identidades culturais e fazer mudanças nos enquadres culturais, pois as identidades sociais e culturais se tornavam mais rígidas. Há de se assinalar, por outro lado, que os pensamentos essencialistas também podem cumprir um papel positivo de afirmação da identidade étnica (Verkuyten, 2003).

  • Orientação sexual

 As crenças essencializadoras sobre a orientação sexual estão organizadas a partir de duas dimensões básicas : por um lado, um sistema de crenças na qual se sustenta a ideia que a orientação sexual é imutável, pois se fundamenta na  biologia e, por outro lado, um sistema de  crenças que se sustenta na suposição de que as  orientações sexuais são profundamente diferentes e binárias (Hogarty & Pratto, 2001). A primeira formulação permite o desenvolvimento de atitudes mais positivas em relação às orientações sexuais não hegemônicas, enquanto a segunda está fortemente associada com o acolhimento de atitudes extremamente negativas em relação aos que são percebidos como associados às orientações sexuais não hegemônicas.

As principais evidências a respeito da essencialização da orientação sexual se refere à homossexualidade. A crença na descontinuidade, ou seja, de que as categorias possuem frenteiras claramente delimitadas está firmemente associada com atitudes negativas em relação aos homossexuais, enquanto as crenças da imutabilidade, ou seja, a de que a orientação sexual é biologicamente fundamentada, imutável e constante desde o nascimento, assim como a da universalidade, ou seja a noção de que a homossexualidade existe em todas as culturas e existiu em todas as épocas, estão associadas com atitudes mais positivas em relação aos homossexuais (Haslam & Levy, 2006).

  • Doença mental

Se as doenças estritamente médicas são percebidas como tendo uma fundamentação claramente biológica, o que favorece a expressão do raciocínio essencializador, essa tendência não é tão intensa quando se trata das doenças mentais.   Ainda assim, a essencialização da doença mental ocorre, acabamos por acreditar que a doença é uma categoria natural, uma vez que concebemos que ela ocorre de forma natural e inevitável, possui fronteiras claramente definidas e a sua etiologia pode ser remontada a causas naturais. Assim concebido, acolhemos um modelo biológico de doença mental, o que, por sua vez, acarreta uma menor tendência a responsabilizar o paciente pelos seus atos do que nas circunstâncias em que os sintomas são vistos como decorrentes da irresponsabilidade, ausência de controle ou mesmo ‘falta de vergonha na cara’ do portador do doente mental. Nesse sentido, as explicações fundamentadas em modelos psicológicos da doença mental podem acarretar manifestações mais acentuada das atitudes negativas em relação ao doente.

Haslam (2005) identificou três modelos de anormalidades: o moralizador, o psicologizador e o medicalizador.  As evidência encontradas na literatura sugerem que a essencialização é maior para sintomas psicológicos do que para sintomas médicos da doença mental, embora essa tese seja acolhida de forma mais acentuada entre leigos do que entre os especialistas no assunto (Ahn, Flanagen, Marsh & Sanislow, 2006). Isso não significa afirmar, no entanto, que uma visão essencializadora biológica acarreta necessariamente uma redução no preconceito, pois as evidências também indicam que  quanto mais intensa é a essencialização, mais negativas tendem a ser atitudes e mais acentuado o grau de estigmatização em relação aos portadores de doenças mentais  (Read, Haslam, Sayce & Davies, 2006; Read & Harré, 2001; Mehta & Farina, 1997).

 

Essencialismo e estereotipização 

Em resumo, podemos dizer que o essencialismo psicológico é a tendência a se atuar como se as coisas fossem dotadas de essências, ou seja, como se existissem estruturas subjacentes que tornam as coisas o que elas em definitivo são (Medin, 1989). Em contrapartida às  teorias clássicas da categorização, o essencialismo sugere que a semelhança entre os objetos é  uma consequência, não a causa da categorização, donde ser possível afirmar que tanto as similaridade quanto as teorias implícitas permitem que os indivíduos sejam categorizados, daí a necessidade em se admitir que a categorização resulta tanto dos fatores de superfície quanto dos fatores de profundidade (Yzerbyt, Rocher, & Schadron, 1997; 2002).

As consequências do pensamento essencialista são claras: uma vez essencializada, ainda que pessoa possa modificar a o seu aspecto externo ou os seus padrões aparentes de conduta (a estrutura superficial), ela continua a ser percebida como membro da categoria social a qual originalmente estava adscrita. Além disso, em decorrência do raciocínio entitativo, a suposição de que os grupos são estruturalmente organizados e que os indivíduos compartilham traços e características semelhantes entre si, permite o desenvolvimento de um forte potencial indutivo, o que permite o surgimento da tese de que os membros de um grupo  compartilham um destino comum.

A adoção do pensamento essencialista é decisiva na formulação de juízos negativos sobre os membros do exogrupo (Betancour, Rodríguez, Quiles, & Rodríguez, 2005; Estrada, Yzerbyt & Seron, 2004; Gelman, 2004; Haslam, Bastian & Bisset, 2004; Jost & Major, 2001; Haslam, Bain, Douge, Lee & Bastian, 2005; Keller, 2005; Picket, 2001), uma vez que ele favorece:

  • a acentuação perceptiva das diferenças intergrupais;
  • a tendência de infra-humanizacão dos membros do exogrupo;
  • a promoção de atribuições causais internas e disposicionais;
  • a intensificação da expressão dos preconceitos; e
  • a justificação das desigualdades sociais.

Teorias implícitas fundamentadas na intencionalidade

Se as explicações causais aludem aos comportamentos expressos sem que esteja envolvida qualquer intenção por parte do agente, as explicações mediante atribuição de intenções se referem aos comportamentos que levam em conta considerações sobre as razões dos agentes. Uma ação de discriminação, decorrente de um julgamento estereotipado, pode ser definida em algumas circunstâncias como um ato estritamente intencional. Analise-se o caso de uma pessoa que considera justificado subtrair a vida de um indígena, baseado na convicção de que os índios, por não terem recebido o sacramento do batismo, não alcançaram o estatuto de humanos. O primeiro elemento a se considerar é a presença de um agente, ou seja, alguém que possui um desejo, usualmente explícito, de justificar e racionalizar o julgamento acerca de um outro, a partir de um dado critério categórico, não individualizante. Em segundo lugar, presume-se, além do desejo, a presença de uma crença a respeito de uma determinada ação que potencialmente permita a operacionalização do julgamento. Além do desejo e da crença, é importante incluir uma intenção, ou seja, um elemento capaz de transformar o que até então existia apenas em potência em um ato aberto e manifesto. Uma intenção, no entanto, não se transforma em uma ação se o agente não possuir as habilidades necessárias, ou seja, os fatores que o habilite a transformar aquilo que almeja em um ato concreto. Finalmente, uma teoria folk da mente requer um quinto elemento, a consciência de que a ação está sendo conduzida de uma forma consistente com as intenções que se expressaram na crença decorrente do desejo do agente.

Uma vez que nem toda intenção pode ser transformada diretamente em ação, as explicações folk fundamentadas na noção de intencionalidade do agente assumem três formulações distintas, conforme se observa no diagrama apresentado na figura 9, que complementa o diagrama encontrado na figura 2.

Figura 9: Domínios de explicação (destacados em negrito), com os elementos causais e os componentes folk da intencionalidade (modificado de Malle, 2004)

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O argumento pode ser melhor compreendido caso seja considerado o caso do oficial russo de origem sueca, tal como relatado nas Memórias de um Revolucionário, de Piotr Kropotkin. Trata-se de um oficial do exército russo enviado, em 1870, aos Estados Unidos, para comprar fuzis para o exército russo, missão que cumpriu com correção, ainda que o resultado não tenha agradado ao impetuoso irmão do czar, o príncipe Alexandre Alexandrovich, encarregado da inspeção dos armamentos adquiridos pelo exército imperial russo. Sentindo-se humilhado e insultado pelo príncipe, o ofendido, nas palavras de Kropotkin, um tipo de homem digno e respeitável, com frequência encontrado na nobreza sueca instalada na Rússia, se retira de imediato, enviando uma carta ao ofensor, na qual informa que se uma retratação não fosse apresentada em vinte quatro horas, ele daria fim à própria vida. Kropotkin relata ter encontrado o oficial na casa de um amigo em comum, contando os minutos à espera de uma retratação, que afinal não veio.

Uma teoria implícita capaz de explicar o ato do oficial russo, o suicídio à japonesa, nas palavras de Kropotkin, se refere diretamente às razões do agente, que mediadas pela intenção se transformam diretamente em um evento comportamental. É absolutamente plausível conceber que o oficial encontrou motivos e razões suficientes para cometer um ato desta natureza, especialmente por se tratar de um militar, regido por um sistema de regras rígidos no que concerne à honra, que se sente injustamente acusado e não vislumbra alternativa que não o autoextermínio para salvar a honra conspurcada por uma falsa acusação. A relação entre os motivos e a ação é direta, sendo irrelevante adicionar outras fontes de explicação, que não as razões ou motivos de quem comete o ato.

Introduz-se uma outra teoria implícita, a história causal das razões, nas circunstâncias em que não é possível estabelecer um vínculo direto entre a intenção e a razão. Nesse caso, as teorias explicativas são elaboradas com base no background das razões dos agentes e de como estas impõem um determinado curso de ação. Aqui, o que se pergunta não é, a exemplo do primeiro caso, como a intenção se transforma em comportamento. Interessa identificar o que favorece a acolhida daqueles motivos ou razões específicas. Nesse caso, elementos como as crenças, as atitudes ou os valores desempenham um papel decisivo na identificação da história causal das razões. Provavelmente, o oficial não seria tão sensível às questões de honra ou a acusação por parte do príncipe se ele não dispusesse de um sistema de crenças relativamente bem formulado sobre a vida na corte ou no exército. Da mesma forma, uma atitude positiva sobre a honra, os deveres e as obrigações militares deve ter desempenhado um papel importante na decisão que levou ao suicídio. Ademais, como dotar de sentido uma decisão desta natureza sem fazer alusões a um sistema de valores, no qual a honra pessoal, familiar ou profissional ocupa uma posição destacada?

Uma terceira teoria implícita se refere aos fatores habilitadores e contempla os elementos presentes na situação e que permitem ou inibem a transformação da intenção em um comportamento manifesto. Quais tipos de pressões inerentes à situação contribuíram para que o oficial agisse de forma a dar cabo à própria vida? Qual o papel desempenhado pela promessa escrita na carta enviada ao irmão do czar? Como quebrá-la, como voltar atrás sem desonrar o próprio nome, o da família e mesmo o do exército imperial? Poderia olhar para os colegas oficiais ou mesmo dar ordens aos subalternos? Pressões situacionais nada desprezíveis podem explicar o ato do oficial, além das intenções e da história causal das razões.

Estas três modalidades de teorias, os fatores situacionais que habilitam à ação, a história causal das razões e as razões e motivos correspondem às teorias explícitas fundamentadas na intencionalidade, que em conjunto com as teorias fundamentadas na causalidade contribuem para fornecer as teorias explícitas adotadas para a formulação dos estereótipos. Estas teorias implícitas são adotadas durante a ativação dos estereótipos nas circunstâncias em que o agente dispõe de elementos perceptuais capazes de fazer com que os indivíduos sejam percebidos de uma forma não individualizada e sejam tratados como partes de uma entidade social mais ampla. Os estereótipos, na perspectiva aqui exposta, resultam e podem ser explicados mediante a ação destes dois processos, a entitatividade e as teorias implícitas.

Os estereótipos entre a entitatividade e as teorias implícitas

A definição de estereótipos proposta no início do presente volume retoma algumas tradições de estudo dos estereótipos e introduz algumas rupturas. Em relação aos estudos tradicionais, ela é compatível com o entendimento de que os estereótipos são crenças, ou seja, produtos mentais, e como tais, produzidos por alguns processos psicológicos e sociais. Ademais, reconhece que, mediante o impacto da entitatividade, os estereótipos contribuem de forma sistemática para que o agente cognitivo encontre os meios de mapear as regularidades e impor ordem à experiência perceptual e cognitiva, como também contribuem, em decorrência da ativação de teorias implícitas, para a adoção de estratégias de racionalização e justificação das desigualdades sociais, operações importantes no curso das relações intergrupais. A inspiração da presente definição origina-se, em particular, em estudos desenvolvidos pelo grupo de Louvain, onde se procura caracterizar os estereótipos pela dupla via da entitatividade e do essencialismo (Yzerbyt, Corneille & Estrada, 2001), embora diferencie-se por relativizar o papel da homogeneidade, enquanto dimensão essencial da entitatividade, e do essencialismo, como elemento decisivo na construção das teorias implícitas.

Por outro lado, a definição estabelece uma ruptura com a tradição de circunscrever os estereótipos apenas a um determinado tipo de ente, as categorias sociais. O reconhecimento de que os agregados e os grupos sociais potencialmente podem ser objetos de julgamento estereotipados impõe necessariamente a aceitação de que a estereotipização é uma operação que envolve elementos de natureza cognitiva, mas que as ações mútuas entre os diferentes tipos de entes, sejam eles agregados, membros de distintas categorias sociais e os diversos grupos de pressão, também devem ser considerados. Esta relação entre estes dois planos, o pensamento e a ação, não se restringe exclusivamente ao esforço para internalizar as relações entre os distintos entes sociais. Um ato como o do oficial sueco relatado por Kropotkin é tão social na sua natureza, quanto íntimo no seu desfecho. Ele não apenas ensina o quão cada um cotidianamente enfrenta os desafios da própria consciência, como também demonstra que atos aparentes irracionais podem ser explicados de forma racional desde que sejam consideradas as forças presentes na situação, os hábitos e costumes, bem como as idiossincrasias que cada ser humano carrega na caixa torácica ao longo da existência.

No próximo capítulo desenvolveremos de forma mais aprofundada as ideias aqui expostas e  avançaremos no sentido de apresentar as evidências compatíveis com o modelo exposto no presente capítulo.