Resenha: Estereótipos sobre idosos

Maurício Fonseca

Gerontofobia. Termo de origem portuguesa, cujo significado é, segundo o Wikipédia (versão Portugal), o “medo irracional de envelhecer e de tudo que se relaciona com a velhice” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Gerontofobia). Mesmo sendo este um termo lusitano, seu significado retrata uma realidade que ultrapassa fronteiras continentais: há uma percepção social sobre os idosos marcada pela gerontofobia, ou seja, marcada pelo medo de envelhecer. E isso influencia sobremaneira a forma como as pessoas lidam com eles. O artigo estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica, objeto-base (e alvo) desta resenha, parte dessa premissa.
As autoras – graduadas em enfermagem, na cidade de Viseu, Portugal -, em poucas páginas, começam o artigo apresentando diversas definições para o termo estereótipos, sendo que um ponto comum entre elas é o fato de que os estereótipos estão presentes “em todos os domínios da vida social”, e que ele são modelos, que tem como função simplificar a realidade, sendo mecanismo de resolução de problemas e contradições no cotidiano das pessoas e de avaliação e interpretação sobre indivíduos e grupos. Segundo George Box, “essencialmente, todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”. Porém, segundo as autoras, o estereótipo “também contribui para o não reconhecimento da unicidade do indivíduo, a não reciprocidade, a não duplicidade, o despotismo em determinadas situações”. É neste ponto que o artigo “começa” de fato.
O problema começa no momento em que a velhice é encarada como algo prejudicial, nocivo. As autoras conceituam esse processo como “ancianismo”, que seria a discriminação sistemática de pessoas mais velhas. O processo de envelhecimento, quando enxergado apenas como o período final da existência humana, gera rejeição e perturbação nos pares, pois ele acaba sendo associado à ideia de morte, de finitude – em paralelo com uma excessiva valorização da juventude -, o que mostra um grande desconhecimento, inclusive de profissionais da área de saúde, sobre os processos que, de fato, caracterizam a velhice. Consequentemente, o tratamento dado aos idosos será baseado nessas crenças generalizadas sobre o ser idoso.
As autoras descrevem um estudo realizado em Montreal, na França, que objetivou identificar os estereótipos mais usados acerca da velhice. Os resultados apontaram para um uso de estereótipos ligados não a aspectos próprios ao envelhecimento, mas a outros fatores, como personalidade e condição socioeconômica. Assim, o desconhecimento generalizado (inclusive por parte dos próprios idosos) acerca do que seria a velhice pode ser encarado como possível causa, dentre outras, para a formação de atitudes discriminatórias, além da formação de estereótipos de natureza perniciosa. O estudo descrito apresenta considerações que se correlacionam com resultados encontrados no Berlim Aging Study (BASE – Bates & Mayer, 1999), um estudo longitudinal e interdisciplinar envolvendo quase dois mil idosos alemães entre 70 e 105 anos, o qual investigou aspectos intelectuais da população-alvo, visando identificar e descrever as diferenças intelectuais existentes, quando associada às diferentes faixas etárias. Como resultados, o BASE mostrou que, apesar da idade ser determinante fator de risco para o declínio intelectual, o funcionamento competente das habilidades intelectuais na velhice é uma possibilidade real, quando associadas a outras variáveis, como uma boa educação formal, prestigio social, renda e experiências de vida (sendo esta última um forte indicador da presença de “comportamentos sábios” – algo pra ser aprofundado em outra oportunidade).
Em suma, o artigo mostrar que estereótipos possuem uma função simplificadora da realidade, funcionando como heurística na resolução de problemas do cotidiano. Contudo, se esta simplificação for feita de maneira arbitrária, pode-se acabar deixando de lado características importantes, e desconsiderando a possibilidade de haverem no caso, idosos vários que não se encaixem no modelo pressuposto. Assim faz-se necessário a precaução – através da difusão de informações seguras, baseadas em estudos aprofundados – contra a distorção que seu uso pode causar no modo de encarar, no caso, a velhice, pois esta é uma fase intrínseca e inevitável na vida humana, e deve ser enxergada, conhecida, acompanhada e vivida da melhor forma possível. Sem estigmas, nem discriminação.

REFERÊNCIAS
Baltes, P. B., & Mayer, K. U. (1999). The Berlin Aging Study. Aging from 70 to 105. Cambridge: Cambridge University Press
Martins, R. M. e Rodrigues, M. L. Estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica. Millenium. Revista do ISPV, 29, 249-254, 2004.

Resenha: A expressão das formas indiretas de racismo na infância

Tainah Santos

Há uma carência de estudos que analisem as formas sutis e indiretas de racismo na infância, inclusive as autoras do texto conseguem demonstrar claramente isso através de seus estudos. De acordo com o artigo, a teoria que faz a abordagem cognitiva do desenvolvimento do racismo na infância está equivocada ao afirmar que o preconceito infantil reduz a partir de uma determinada idade.

Existem diversas teorias sobre as formas de expressão e racismo contemporâneo, porém com pesquisas realizadas em adultos. E o estudo encontrado sobre preconceito racial infantil está baseado na abordagem cognitiva do desenvolvimento do preconceito na infância, este afirma que o preconceito na infância reduz a partir de uma determinada idade e a análise desse estudo conclui ainda, que o preconceito na infância reduz precisamente após os sete anos. Contudo, a pesquisa realizada pelas autoras do artigo mostra que o preconceito na infância não reduz a partir de uma de uma determinada idade, ele apenas se expressa de forma diferente: sutil e indireta. Então, três estudos foram realizados pelas autoras no sentido de verificar o preconceito e sua expressão de acordo com a idade. Os estudos foram feitos em crianças brancas sergipanas que foram separadas em dois grupos de faixa etária diferentes: 5 a 7 e 8 a 10 anos. A pesquisa mostrou que as crianças com idade de 5 a 7 anos não adquiriram ainda a norma anti-racista e por isso demonstram racismo explícito. A norma anti-racista traz valores que engrandecem a igualdade de direito entre pessoas e as crianças são ensinadas a respeitar o outro independente de sua etnia. Já as crianças a partir dos 7 anos de idade por terem absorvido mais essa norma anti-racista do seu endogrupo de referência, racalcam e reprimem a manifestação racista. Na realidade as crianças continuam expressando comportamentos discriminatórios após os 7 anos de idade, porém de forma indireta e sutil por causa da interiorização da norma anti-racista e dos limites sociais. Essas crianças após os 7 anos de idade manifestam racismo explícito quando este é justificável socialmente, que não seja pela categorização racial e a pesquisa deixa essa questão bem clara. O artigo coloca esse tipo de comportamento como nova forma de expressão de racismo e responsabiliza as normas sociais por isso, em vez de eliminá-lo.

As autoras se basearam na cultura de Sergipe, para conceituar essa forma de procedimento que elas designam como “nova forma de racismo”. Porém é necessário levar em conta as diferenças etno-culturais de cada estado brasileiro, na hipótese de refazer essa pesquisa neles os resultados não serão os mesmos, por isso deve-se ter cuidado com as generalizações. Outro fator relevante é que as normas sociais foram criadas para dar limites e não para eliminar o racismo, como as autoras colocam. Já pensou como viveríamos sem as normas socias? Se essas mesmas normas não cumprisse a função de coibir atos racistas como estariam as crianças de Sergipe? 

Referência: França, Dalila X. ; Monteiro, Maria B. A expressão das formas indiretas de racismo na infância. Sergipe, Análise psicológica 4 (XXII): 705-720, 2004

Resenha: processos cognitivos, cultura e estereótipos sociais

Rafael Raposo

No correria da vida contemporânea o homem vive a fazer escolhas, e até juízos de valor, que muitas vezes passam despercebidas por ele. Por esta razão, Water Lippmann se preocupou em compreender como as representações da realidade social são construídas pelas pessoas. Como as pessoas se situam no mundo? Como organizam as inúmeras informações que dispõem? Porque se apegam a algumas informações e desprezam outras? Para entendermos estas questões é de suma importância conhecer o trabalho de Walter Lippmann: um dos primeiros teóricos a fazer uma reflexão sistemática sobre os estereótipos.
Este teórico afirma que as representações guiam o indivíduo e o auxiliam quando ele precisa lidar com informações complexas, entretanto, estas representações funcionam também como defesas que possibilitam ao mesmo proteger os seus valores, os seus interesses, as suas ideologias. Nesta ótica, as representações não possuem uma posição neutra, pois sofrem uma influência maior do observador do que do objeto propriamente dito.
Lippmann também tenta compreender de que modo à cultura influencia no recorte que o indivíduo faz da realidade, e de que forma estes recortes ganham consistência e estabilidade de significado. Devido a isso, o autor analisa o papel dos preconceitos para a utilização da informação a partir da interpretação da realidade, da memorização e recuperação das informações.
Paralelo a isso, Lippmann analisa a função dos estereótipos na representação da realidade do indivíduo. O teórico define os estereótipos como imagens mentais que auxiliam os indivíduos no processamento da informação que fica delimitado entre o indivíduo e a realidade. Assim, os estereótipos sofrem forte influência do sistema de valores do indivíduo, tendo como função a organização e estruturação da realidade.
Um exemplo para ilustrar como os estereótipos influenciam a representação da realidade do indivíduo (estereótipos individuais), e também pode ficar a mercê das influências culturais (estereótipos sociais), é o estudo de Katz e Braly (1933, citado por Cabecinhas, 2004) em que foi pedido a 100 estudantes universitários para apontarem cinco traços típicos de cada um dos dez grupos-alvo expostos. Aos americanos brancos foram apontadas características positivas (empreendedores, inteligentes, materialistas, ambiciosos e progressistas) totalmente interligadas ao sonho americano propagado na época do estudo, enquanto os americanos negros foram incluídos em categorias negativas (supersticiosos, preguiçosos, despreocupados, ignorantes e musicais) totalmente contrárias aos valores que o “sonho americano” reforçava. Através deste resultado o estudo pode apontar uma das inúmeras variáveis que apontam o motivo da exclusão social que os negros sofriam na época.
Nesse sentido Karlins (et al., 1969 citado por Cabecinhas, 2004) enfatizam a importância da distinção entre os estereótipos pessoais (psicológicos), e os estereótipos sociais (culturais). Os autores defendem que se por um lado os estereótipos culturais dos negros são negativos, as crenças pessoais (estereótipos pessoais) são positivas. Muitos participantes demonstraram uma opinião de apoio aos negros.
Entretanto, mesmo afirmando que os estereótipos funcionam de forma inevitável, Lippmann propôs uma educação crítica para que os indivíduos se conscientizarem do caráter subjetivo que a sua apreensão da realidade possui. Portanto, é de suma importância conhecer o trabalho inovador de Lippmann – seus êxitos e as lacunas deixadas pela sua teoria – para que os pesquisadores sobre estereótipos possam desenvolver novas pesquisas que possibilitem uma melhor compreensão sobre os estereótipos.

Referência Bibliográfica
CABECINHAS, R. (2004). Processos cognitivos, cultura e estereótipos sociais. Actas do II Congresso Ibérico de Ciências da Comunicação, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 21-24 de Abril.

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e emancipação do afrodescendente

Viviane Martins

O Ensaio “O brasileiro, o racismo silencioso e emancipação do afrodescendente”, escrito em 2002 pelo psicólogo, doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento, Ricardo Ferreira trata sobre como o racismo sutil foi estabelecido no Brasil e como se constitui a identidade do negro em nosso país. O autor utiliza a história de uma família constituída por pessoas negras a fim de ilustrar o texto. Ferreira inicia seu Ensaio trazendo a questão da democracia racial brasileira como sendo uma farsa e um entrave para o combate ao racismo
e ao preconceito racial no Brasil. Algumas pesquisas apontam que 90% dos brasileiros acreditam que o racismo existe e conhecem pessoas racistas, porém apenas 10% das pessoas pesquisadas afirmaram ter preconceito racial, ou seja, ele é atribuído, na maioria dos casos, ao outro. Dessa forma, dificulta-se o enfrentamento, já que as pessoas não admitem possuir esse tipo de atitude.

O autor cita o “gradiente de cor” existente na população negra, usando o exemplo da família citada; as três mulheres da família não se autoafirmavam negras – uma se dizia branca, a outra morena e a última, mulata. Apenas a partir das experiências de discriminação racial e do contato com a militância, todas passaram a se reconhecerem como negras. O preconceito racial, de um modo geral, não é tratado abertamente nas famílias. Pelo contrário, denominar o negro de moreno parece ser politicamente correto. O autor relembra que a identidade é construída a partir das interações sociais, então o silenciar sobre o preconceito racial vivenciado pelo afrodescendente contribui para a introjeção de valores negativos em relação a si mesmo e ao seu próprio grupo.

Posteriormente, o autor apresenta aspectos históricos, os quais ele acredita ter contribuído com a instalação do preconceito no Brasil. O primeiro deles é a própria Modernidade, tendo como marco inicial o período das Grandes Navegações e a descoberta do Novo Mundo. A Modernidade trouxe a necessidade de ordem e progresso e para isso, foi adotada, de forma exacerbada, a estratégia de classificar que, para o
autor, significa “incluir o semelhante no padrão desejável e excluir o diferente”. Consequentemente, a intolerância torna-se característica básica das práticas modernas, tornando possível o genocídio. O holocausto judaico é apresentado como exemplo. Ele traz também a escravidão no Brasil como exemplo de um genocídio que ele chama de silencioso: “a experiência da escravidão no Brasil transformou o africano em escravo, o escravo em negro, e o negro numa pessoa destinada a ‘desaparecer’, em nome da constituição de um povo cordial e moreno.”

O segundo aspecto histórico foram as ideias de branqueamento defendidas no início do século XX por intelectuais e cientistas, legitimando a ideia de inferioridade do negro. Estas ideias previam a extinção do negro no Brasil e a imigração do branco europeu a fim de favorecer essa extinção.

O autor delimita três condições que tornaram possível o desenvolvimento do preconceito e sua forma de expressão no referido país: a primeira é a desvalorização e eliminação do diferente em nome da busca pela ordem; a segunda, o processo histórico de escravização do negro africano, reduzindo-o a um mero objeto de uso; a terceira e última consistiu na disseminação de ideias, legitimadas pela ciência, que afirmavam a inferioridade do negro e previam a sua extinção. Na década de 1930, Gilberto Freyre formula o mito da democracia racial, contribuindo com a forma de expressão do preconceito racial à brasileira.

Ferreira coloca ainda em seu Ensaio que o mundo utiliza como referência o padrão branco, o negro acaba por utilizar a referência desse padrão branco na constituição de sua identidade, desvalorizando o “mundo negro” e, consequentemente, desvalorizando a si próprio. A escola acaba sendo conivente e até servindo como espaço para que essa suposta inferioridade do negro seja ratificada. Além disso, o negro é responsabilizado pelos problemas etnorraciais, ou seja, os problemas socioeconômicos enfrentados pelos negros é de responsabilidade apenas deles, esquecendo-se o processo histórico e as questões sociais que ocasionaram esses problemas, de fato. O autor considera também que o padrão de beleza que impera na sociedade é o padrão branco. Dessa forma, o indivíduo negro tem a sensação de não pertencer a nenhum grupo, portanto se sente desvalorizado socialmente. O texto afirma que pesquisas apontam que pessoas submetidas à discriminação tendem a apresentar baixa autoestima, autoconceito pobre, ansiedade e depressão. Porém, se o negro toma consciência dessa desvalorização, ele pode iniciar um processo de enfrentamento, valorizando-se por suas
características raciais. A partir das experiências discriminatórias, o negro é obrigado a pensar sobre as questões raciais, o que acaba proporcionando a desarticulação com o mundo simbólico e uma série de sentimentos “negativos”, que o movem para a ação. Nesse momento, o negro pode vir a praticar o preconceito contra o branco. Ele ainda enxerga a identidade negra como algo externo e acaba por se comportar de forma estereotipada, ou seja, como acha que o negro deve agir. O indivíduo se apega exageradamente a símbolos da cultura negra e acaba por excluir o diferente. Segundo o autor, nesse momento, o negro ainda não está constituindo a nova identidade a partir dos valores negros, mas a partir da desvalorização e exclusão dos padrões brancos. Com o passar do tempo, o indivíduo torna-se menos radical e abandona a visão idealizada e romântica em relação à negritude. Ferreira afirma que “a ‘nova identidade’ construída possui três funções dinâmicas: defender e proteger a pessoa de agressões psicológicas; prover um sentido de pertença e ancoradouro social; e prover uma fundação, ou ponto de partida, para transações com pessoas de culturas diferentes daquelas referenciadas em matrizes africanas.”
Na última sessão do texto, o autor coloca algumas propostas em pauta: a realização de um debate no contexto escolar sobre o preconceito e as páticas discriminatórias, já que a escola é responsável pela formação e educação; a participação do negro em grupos de militância, com o fim de que a vergonha de ser negro, se transforma em orgulho de ser negro; a ampliação do debate na academia e a contribuição da Psicologia no
combate à discriminação; por fim o autor propõe “que a pessoa branca deixe de negar suas raízes culturais africanas e indígenas, assim como o negro brasileiro, sua raízes culturais europeias e também indígenas.”

Ferreira conclui o texto afirmando que aceitação da alteridade é condição fundamental para que haja a reversão do preconceito. Quando o autor coloca os aspectos históricos, a interpretação possível é que o ato de classificar e a necessidade de ordem surgiram junto com a Modernidade, sendo esta responsável até mesmo por genocídios. Sabe-se que o ato de classificar é inevitável ao ser humano e é necessário, pois simplifica nossa vida no mundo. A estratégia de classificar é tão antiga quanto a própria vida em sociedade ou em grupo, assim como a necessidade de ordem. Desde o princípio da humanidade existe a necessidade de se ordenar, como por exemplo, é o caso da divisão de papeis desde a Pré-história que, provavelmente, tinha a função de manter certa ordem. Na Idade Média, os romanos classificavam como “bárbaros” todos os estrangeiros. Certamente, essa nomenclatura era carregada de preconceitos em relação aos estrangeiros, o que significa que a intolerância não é característica restrita à Idade Moderna. Outro aspecto a ser considerado é questão da possibilidade do genocídio que, segundo Ferreira, foi proporcionada pela Modernidade. Sabe-se que as Cruzadas promovidas pela Igreja em nome de Deus foram verdadeiros genocídios. Centenas de pessoas foram mortas nas Cruzadas em nome também de uma ordem, da evitação e combate ao “caos”. Uma verdadeira eliminação do diferente, daquele que não estava de acordo com os padrões delimitados pela Igreja. Ferreira trata da escravidão no Brasil como um genocídio silencioso; provavelmente ele não considerou, neste Ensaio, as inúmeras e frequentes mortes de negros africanos, sobretudo, nos navios negreiros que transportavam os africanos de forma bastante precária e até desumana. Foi um genocídio nada silencioso. O autor descreve um processo de construção identitária do negro brasileiro (que ele chama de afrodescendente) sem deixar claro uma
fundamentação teórica e empírica consistente. Além disso, a forma de construção dessa identidade descrita no texto parece uma ideia generalizada e, o que é mais grave, padronizada. Os movimentos negros mais incisivos e radicais são tratados no texto como românticos e idealizadores da negritude, possuidores de atitudes preconceituosas em relação aos brancos. Para o autor, os militantes desse tipo de movimento estão em fase de transição no processo constituinte de sua identidade. Essas afirmações podem ser facilmente negadas: a supervalorização da cultura negra afrobrasileira não constitui uma forma de desvalorizar a cultura branca, pois esta já está supervalorizada. Não pode se utilizar as mesmas estratégias para grupos socialmente e historicamente diferentes. Faz-se necessária uma forma de reparação do grupo oprimido social, economica e historicamente. As possíveis soluções para o combate ao preconceito e discriminação racial apresentadas pelo autor possuem eficácia duvidosa. Atualmente, sabe-se que a melhor forma de diluição do preconceito é tratá-lo de forma indireta, utilizando-se a estratégia grupal da aprendizagem colaborativa.
Apesar de apresentar algumas lacunas, este Ensaio traz ideias bem estruturadas, e os argumentos usados para explicar o motivo da forma de expressão do preconceito racial no Brasil estão bem colocados, de forma a convencer o leitor; ele parece atingir o objetivo ao qual se propõe.

Ferreira, R. F., O Brasileiro, O Racismo Silencioso e Emancipação do Afrodescendente. Psicologia & Sociedade; 14 (1): 69-86; jan/jun. 2002.

Resenha – Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?

Marta Silva Dantas de Matos

O artigo fonte dessa resenha é produto da tese de doutorado em antropologia “Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte” (Gomes, 2002). A autora embasa sua discussão nos depoimentos de mulheres negras frequentadoras de salões de beleza étnicos. Destaca o papel da escola como um ambiente de reprodução dos estereótipos sociais dirigidos ao corpo e ao cabelo e como o racismo, presente também na trajetória escolar, pode deixar marcas que ficam visíveis até a vida adulta. Os depoimentos coletados apontam a escola como um ambiente onde acriança negra entra em contato com o racismo e com a discriminação. O segundo ambiente de socialização é também o lugar no qual a criança conhece o outro, a diferença e a desigualdade. Essa é uma discussão relevante, pois, desvincula a imagem da escola de um lugar livre de desigualdades, colocando-a como um ambiente social de produção e reprodução de preconceitos e discriminação. Altera também a imagem das crianças, apresentando-as como reprodutoras de estereótipos já
cristalizados na sociedade. Se o negro está fisicamente na sala de aula ele também precisa está representado nos livros didáticos, nas disciplinas, na cultura escolar, nos murais e em tudo que envolva as atividades pedagógicas, curriculares e extracurriculares da escola. É preciso repensar o local destinado aos negros no processo de ensino com o intuito de construir imagens positivas de identificação durante o processo de
escolarização. Na escola, além de português, matemática, geografia e história, as crianças aprendem e diferenciam o “bom” e o “belo”. A autora propõe que para que as experiências dos negros sejam articuladas com as experiências escolares é preciso que os primeiro sejam ouvidos atentamente. Assim, a relação da negra com o cabelo é aqui apresentada como um dos temas norteadores da resignificação das práticas pedagógicas e dos conteúdos tratados no universo escolar. É uma tentativa de aprofundamento e valorização. A escola enquanto um
ambiente de formação de pessoas e de Identidades precisa contemplar todas as formas de existir que formam a cultura brasileira.
O corpo é um objeto de expressão. É o meio que usamos para mostrar ao outro os nossos gostos e a nossa trajetória. É sabido que o corpo e o cabelo do negro são elementos de denuncia, luta, resistência e marcas.
Porém, a escola precisa está atenta ao apresentar isso. Não se pode anunciar apenas um lado da história e subtrair da fala e das práticas a história de um povo que usou o corpo como mecanismo de resistência e o cabelo como denúncia da sua inconformidade (ou conformidade) com o ideal de beleza pré-estabelecido.
A história e a biologia sempre apresentaram as especificidades do corpo negro que serviram como justificadoras da escravidão. Agora, o que precisa ser apresentada são as modificações, as artes, os enfeites
e as alegorias usadas e feitas no corpo como forma de identidade e pertencimento grupal. Nos depoimentos utilizados, a trança surge como técnica de opressão capilar e o alisamento como uma forma de sanar a dor causada pela produção da trança. Não se pode esquecer, porém, que optar pelo cabelo liso não é somente escapar da dor, mas também corresponder ao padrão desejado de beleza.
A escola impõe um modelo higienista e a trança surge como um modo de cuidar e arrumar do cabelo na tentativa de romper com os estereótipos do negro descabelado e sujo. Além disso, a trança é resignificada e passa a ser um estilo negro de penteado e adorno diferente dos usados pelas crianças brancas. Na escola além de ocorrer o primeiro contato com a alteridade, com a discriminação e com o que é normativo, estabelecem-se tensões entre a
vida privada e a vida pública e as crianças aprendem que o cabelo bom é o liso e que o crespo é ruim e indesejável. Na escola a criança vive as primeiras experiências públicas de rejeição do corpo. Se no
ambiente escolar há a possibilidade da discriminação gerar uma baixa autoestima e sentimentos de inferioridade, com os iguais, existe a possibilidade de construção de uma autoimagem positiva de si e do seu
grupo e a criação de estratégias para lidar, por exemplo, com o cabelo. A autora sugere que por estar ligada ao contexto cultural, histórico e político, a subjetividade e a construção da identidade negra passam
por processos coletivos e individuais e que por isso cada sujeito encontra uma forma de lidar com as questões que envolvem sua raça. Nesse contexto, a informação é umO artigo fonte dessa resenha é produto da tese de doutorado em antropologia “Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte” (Gomes, 2002). A autora embasa sua discussão nos depoimentos de mulheres negras frequentadoras de salões de beleza étnicos. Destaca o papel da escola como um ambiente de reprodução dos estereótipos sociais dirigidos ao corpo e ao cabelo e como o racismo, presente também na trajetória
escolar, pode deixar marcas que ficam visíveis até a vida adulta. Os depoimentos coletados apontam a escola como um ambiente onde a criança negra entra em contato com o racismo e com a discriminação. O
segundo ambiente de socialização é também o lugar no qual a criança conhece o outro, a diferença e a desigualdade. Essa é uma discussão relevante, pois, desvincula a imagem da escola de um lugar livre de
desigualdades, colocando-a como um ambiente social de produção e reprodução de preconceitos e discriminação. Altera também a imagem das crianças, apresentando-as como reprodutoras de estereótipos já
cristalizados na sociedade. Se o negro está fisicamente na sala de aula ele também precisa está representado nos livros didáticos, nas disciplinas, na cultura escolar, nos murais e em tudo que envolva as atividades pedagógicas, curriculares e extracurriculares da escola. É preciso repensar o local destinado aos negros no processo de ensino com o intuito de construir imagens positivas de identificação durante o processo de escolarização. Na escola, além de português, matemática, geografia e história, as crianças aprendem e diferenciam o “bom” e o “belo”. A autora propõe que para que as experiências dos negros sejam
articuladas com as experiências escolares é preciso que os primeiro sejam ouvidos atentamente. Assim, a relação da negra com o cabelo é aqui apresentada como um dos temas norteadores da resignificação das
práticas pedagógicas e dos conteúdos tratados no universo escolar. É uma tentativa de aprofundamento e valorização. A escola enquanto um ambiente de formação de pessoas e de Identidades precisa contemplar todas as formas de existir que formam a cultura brasileira. O corpo é um objeto de expressão. É o meio que usamos para mostrar ao outro os nossos gostos e a nossa trajetória. É sabido que o corpo e o cabelo do negro são elementos de denuncia, luta, resistência e marcas. Porém, a escola precisa está atenta ao apresentar isso. Não se pode anunciar apenas um lado da história e subtrair da fala e das práticas a história de um povo que usou o corpo como mecanismo de resistência e o cabelo como denúncia da sua inconformidade (ou conformidade) com o ideal de beleza pré-estabelecido. A história e a biologia sempre apresentaram as especificidades do
corpo negro que serviram como justificadoras da escravidão. Agora, o que precisa ser apresentada são as modificações, as artes, os enfeites e as alegorias usadas e feitas no corpo como forma de identidade e
pertencimento grupal. Nos depoimentos utilizados, a trança surge como técnica de opressão
capilar e o alisamento como uma forma de sanar a dor causada pela produção da trança. Não se pode esquecer, porém, que optar pelo cabelo liso não é somente escapar da dor, mas também corresponder ao padrão
desejado de beleza. A escola impõe um modelo higienista e a trança surge como um modo de cuidar e arrumar do cabelo na tentativa de romper com os estereótipos do negro descabelado e sujo. Além disso, a trança é resignificada e passa a ser um estilo negro de penteado e adorno diferente dos usados pelas crianças brancas. Na escola além de ocorrer o primeiro contato com a alteridade, com a discriminação e com o que é normativo, estabelecem-se tensões entre a vida privada e a vida pública e as crianças aprendem que o cabelo bom
é o liso e que o crespo é ruim e indesejável. Na escola a criança vive as primeiras experiências públicas de rejeição do corpo. Se no ambiente escolar há a possibilidade da discriminação gerar uma baixa autoestima e sentimentos de inferioridade, com os iguais, existe a possibilidade de construção de uma autoimagem positiva de si e do seu grupo e a criação de estratégias para lidar, por exemplo, com o
cabelo.
A autora sugere que por estar ligada ao contexto cultural, histórico e político, a subjetividade e a construção da identidade negra passam por processos coletivos e individuais e que por isso cada sujeito
encontra uma forma de lidar com as questões que envolvem sua raça. Nesse contexto, a informação é um elemento importante para a autoaceitação. A conclusão do artigo é esperançosa ao afirmar que a escola pode atuar tanto na reprodução de estereótipos sobre o negro, o corpo e o cabelo, quanto na superação dos mesmos. Para isso, elas terão que ser consideradas temáticas merecedoras de um lugar nos currículos e em nas discussões pedagógicas. É necessário também entender a construção da questão racial na subjetividade e no cotidiano dos indivíduos e o peso da educação escolar nesse processo. O cabelo e a cor da pele podem – e devem – sair do lugar da inferioridade e ocupar o lugar da beleza negra, assumindo uma significação política. O cabelo compõe um estilo político, de moda e de vida.

Gomes, N. L. (2000). Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelo Crespo: Reprodução de Estereótipos ou Ressignificação Cultural? Revista Brasileira de Educação, Set-Dez, nº 21, São Paulo, Brasil, pp.40-51.