Resenha: Dizer «não» aos estereótipos sociais: As ironias do controlo mental

Janielly Braz

É possível evitar a esteriotipização? Os indivíduos que desejam suprimir qualquer tipo de pensamento que forme um estereótipo podem obter sucesso? Essa é a questão chave do artigo de Dora Luiza Geraldes Bernades, para isso a autora faz uma revisão teórica sobre a tentativa de suprimir os pensamentos estereotipados e suas implicações.

Sabe-se, através de evidências empíricas, que se um indivíduo tentar suprimir um determinado tipo de pensamento o mesmo pode retornar a consciência com maior impacto, se comparado a alguém que não participou do mesmo tipo de tarefa, esse feito irônico é denominado efeito ricochete (Wegner, 1994).

O mesmo ocorre com os estereótipos? Considerando que os mesmos são ferramentas importantes para dinamizar o raciocínio quanto á percepção das informações que estão no entorno social do sujeito, pois pensar a partir de categorias é um processo muito mais eficiente. Porém não se pode esquecer que, como cita a autora, o estereótipo é uma faca de dois gumes, pois possui implicações nefastas para o indivíduo – vítima, além das implicações histórico-sociais já conhecidas.

Um recente estudo feito por Macrae, Bodenhausen e seus colaboradores (Macrae, Bodenhausen & Milne, 1998; Macrae, Bodenhausen, Milne & Jetten, 1994) sugeriu ser uma tarefa impossível conter o pensamento preconceituoso e até mesmo tal tentativa pode suscitar o oposto, ocorrendo um aumento nas categorizações estereotipadas se comparado a sujeitos que não participaram da tentativa de controle desse tipo de pensamento, seria então o efeito ricochete do estereótipo (ERE).

Foi à observação desse efeito que fez com que Macrae e seus colaboradores (Macrae et al., 1994) questionassem até que ponto é possível, mesmo para os indivíduos que possuem a real intenção, controlar o uso dos estereótipos? Devido a implicações sociais profundas a supressão dos estereótipos é muito mais complexa que a supressão de outros tipos de pensamentos, por isso a autora faz uma revisão literária de estudos sobre a supressão dos estereótipos.

Experimentos feitos por Macrae et al. (1994a) confirmaram que o efeito ricochete ocorre realmente com os estereótipos, ou seja, ao ser tentada a supressão os pensamentos voltam à consciência ocasionando impacto na avaliação de determinados comportamentos. Porém partindo do pressuposto que na vida social não há instruções tão explícitas para supressão do pensamento estereotipado como verificar esse efeito no dia a dia?

Uma alternativa seria o aumento da consciência contra a estereotipização e preconceito, ocasionando numa supressão espontânea dos estereótipos, algo que funcionasse como uma vontade natural do indivíduo.

Há também de se considerar a atitude pessoal do indivíduo, pois o efeito ricochete não ocorrerá da mesma maneira em indivíduos que diferem quanto ao grau de preconceito. “Monteith, Spicer e Tooman (1998) verificaram que as pessoas com alto e baixo preconceito diferem no grau de acessibilidade do estereótipo de homossexual após tentativa de supressão”. Lepore e Brown (1997) verificaram que os participantes com baixo preconceito podem não mostrar evidências de ativação do estereótipo. Isso ocorre também com indivíduos que possuem o compromisso pessoal de conter o preconceito, existindo então uma motivação interna para controlar o preconceito.

Como a supressão dos estereótipos está sujeito a diversos fatores, segundo a autora, mesmo indivíduos com alto nível de preconceito podem não aplicar os estereótipos caso as normas sociais façam com que eles não se baseiem nisso. Ainda há os indivíduos que procuram adotar uma prática mais justa e não estereotipar os componentes de um outro grupo, nesse caso ele não vai suprimir o estereótipo, mas vai estabelecer um novo estado mental. Baseada nesses dados a autora conclui que a supressão dos pensamentos estereotipados pode não ser a melhor forma de conter o preconceito. Mesmo assim a supressão não deve ser descartada, pois também pode servir para alertar sobre os lados negativos dos estereótipos, o fato de deixá-los mais evidentes pode ser uma forma de mostrar o quanto são indesejados.

As considerações trazidas pelo artigo são interessantes principalmente por avaliar o quanto é difícil desmanchar os estereótipos após o contato com eles e o quanto é necessário estudos futuros sobre outras vias que possibilitem acabar com o preconceito.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.

Foto do dia: Now Then, Now Then (people of the world)

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Resenha: Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais

Yasmin Oliveira

Ivan Paganotti é jornalista freelancer formado pela Universidade de São Paulo e professor de Jornalismo no Colégio Stockler. O artigo “Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais” baseia-se nas pesquisas para o seu Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social “Uma certa libertinagem, muito carnaval e um pouco de pecado O Brasil dos correspondentes internacionais”.

A partir da revisão de literatura, o autor explica que as impressões estrangeiras são fontes da identidade pessoal de um país. É evidente que os meios de comunicação de massa se encarregam de transmitir, difundir e criar estereótipos a respeito das mais diversas categorias sociais, sobretudo através dos jornais, da rádio, da televisão e do cinema.

A pesquisa de Paganotti propõe que, através das produções dos correspondentes internacionais, entre o período de 2002 e 2005, é possível identificar as imagens coletivas referentes ao Brasil, e os estereótipos freqüentemente utilizados para representar a identidade brasileira. O artigo aborda as estratégias de construção, reprodução e transformação destes estereótipos.

O material divulgado, pelo meio jornalístico, no caso, correspondentes internacionais, é um fator que influencia a própria construção do imaginário coletivo estrangeiro sobre o país. Esse processo implica uma categorização e uma conseqüente simplificação sobre os temas e os locais que tratam.

Essa simplicidade é, em certo nível, vantajosa, para os correspondentes, pois não é possível um aprofundamento temático devido ao curto tempo e espaço que dispõem. Ainda mais ao se pensar em notícias internacionais que se encontram mais distantes da realidade dos espectadores.

Além de fazer parte desse processo de criação dos estereótipos, o material publicado através dos correspondentes internacionais, freqüentemente, reproduz os estereótipos existentes.

Levando em consideração os processos de estereotipia, o autor do artigo separou os textos em quatro grupos de “Brasis”: o “de sangue”; o “de lama”; o “verde”; e o “de plástico”.

O Brasil sangrento foi o grupo de notícias mais encontrado nos jornais, tem como foco a violência, o tráfico de drogas, a insegurança generalizada e a impunidade. É importante ressaltar que costumam vir atrelados a justificativas estruturais, como omissão governamental, pobreza e exclusão social.

Em segundo lugar quanto ao aparecimento, está o Brasil de lama. Comumente associado a idéia da violência, mas tendo como foco os textos que acusam a corrupção política, o subdesenvolvimento e a pobreza.

O Brasil verde apesar de ser o mais antigo grupo de representação do país foi ao longo da história sendo remodelado e além de trazer a já conhecida exótica Amazônia com sua importância ecológica, a apresenta como uma “terra sem lei” e da depredação ambiental.

O Brasil de plástico é o mais otimista, com caráter propagandístico de exportação, neste grupo encontram-se as notícias das festas, liberdade sexual, dos negócios e da alta sociedade. Um caráter interessante dos estereótipos é que, muitas vezes, sua amplitude alcança os próprios alvos, no caso os brasileiros, que, além de assimilarem o Brasil das festas e a esperança do futuro passam a agir de acordo com essas informações.

Em sua pesquisa, Paganotti, se preocupou em identificar os textos que procuravam reproduzir os estereótipos, assim como, os que buscavam transformá-los. Segundo o autor, o jornal é um local adequado para a valorização dessas modificações. Mas o observado por ele foi um nível de repetição incrivelmente superior às transformações dos estereótipos.

O artigo termina com uma espécie de alerta para os interesses particulares que regem essas perpetuações, e inclusive algumas das transformações que são feitas. Estes interesses são, normalmente, de fins mercantis. Mas como o autor deixa claro, os estereótipos não são criados e reproduzidos unicamente para este fim, mas, também, não é possível negá-los.

Os resultados da pesquisa apontam para uma predominância dos estereótipos de cunho negativo. Uma possibilidade para a insistência na perpetuação destes estereótipos descritos é o interesse dos que transmitem as notícias (sejam a própria instituição jornalística, o público alvo – os leitores, ou interessados dos mais diversos) em de alguma forma minimizarem a importância do país. O Brasil verde não tem competência para administrar seu patrimônio ecológico, o Brasil de lama vive uma situação de omissão do poder e incapacidade dos pobres, e o Brasil sangrento em estado de insegurança constante. E por outro lado existe o interesse em vender outro Brasil, o de plástico, pais do futuro e das festas carnavalescas e da sexualidade a flor da pele.

Todos esses “Brasis” e estatísticas trazidas pela pesquisa são interessantes para se refletir sobre o porquê dessas representações da identidade brasileira. Discussão esta compatível com o trazido por Paganotti na sua revisão de literatura: os estereótipos baseiam-se em relações afetivas, dizem, portanto, menos sobre a realidade e mais sobre como é tratado.

Corroborando com Paganotti, Gomes (2007) afirma que “o jornalismo é uma construção social que se desenvolve numa formação econômica, social, cultural particular e cumpre funções fundamentais nessa formação”. Para a mesma, a notícia é uma construção e jamais uma representação precisa da realidade. Dessa forma, conclui-se que o processo de produção da notícia inclui o conhecimento das áreas temáticas de cobertura noticiosa; o conhecimento das expectativas dos receptores; e os interesses vigentes na sociedade de publicação.

Referências:
Paganotti, I. Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais. RUMORES – Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias 1, 1, 2007.
Gomes, I. M. Questões de método na análise do telejornalismo: premissas, conceitos, operadores de análise. ECOMPOS – Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 4-31, 2007.

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Resenha: Representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento

Milena Magalhães

As representações sociais do idoso e da velhice se refletem no modo como são tratados, e são fruto das circunstâncias materiais e dos sistemas de valores e crenças de cada sociedade, e sofreu mudanças com o passar do tempo. Nesse estudo as autoras colocam como essa representação mudou ao longo do tempo, e como existem diferentes imagens sobre os idosos na sociedade contemporânea, por vezes considerados sábios, e em outras considerados velhos decrépitos.

Essas autoras apontam ainda a proposta de Park de trocar o termo velho por idoso, o que seria favorável a manutenção dessa classe etária. Colocam ainda que os estudos que investigam crenças, atitudes, percepções e representações sociais do idoso predominam os aspectos negativos.

Isso pode ser facilmente percebido, como por exemplo a idéia que se tem de que os idosos não fazem sexo, não podem frequentar determinados lugares e que eles têm que ficar em casa, fazendo tricô ou jogando baralho.

As crianças estão inseridas desde a primeira infância em um mundo estruturado pelas representações sociais, e o modo como ela percebe e se posiciona e no mundo é por influência destas.

O estudo foi feito com dois grupos de crianças de baixa renda da zona rural. A estratégia metodológica utilizada foi a utilização do desenho aliado à entrevista semi-estruturada e da brincadeira tematizada como instrumentos de investigação.

As autoras optaram por apresentar os resultados e a discussão em dois tópicos: O envelhecer: porque uma pessoa é velha e Como é uma pessoa velha.

As crianças dão uma ampla importância às características físicas, rugas e cabelos brancos, como forma de reconhecer os idosos. O que é justificável já que são características visíveis e palpáveis, além do mais os seres humanos se utilizam da aparência física para se reconhecerem, e essa observação é base para os julgamentos sobre o status e o valor dos outro. Mas essas características não são os únicos métodos que as crianças utilizam para fazer a distinção do idoso. Uma das crianças aponta o uso da bengala como um indicativo da idade, o que faz com que percebamos que a associação do idoso a limitações físicas já é algo feito desde a infância, e isso normalmente não é modificado ao longo de sua vida. Outras ainda apontam as limitações, a fragilidade e a morte como outros indicativos.

Muitas crianças fazem uma associação do idoso como avós – se é idoso é avô, se é avô é idoso –, porém isso não é feito por crianças que moram com os avós, estas não classificam seus avós como idosos. Isso nos mostra como o grupo que está se relacionando com a criança é importante para a construção das representações sociais.

Na questão que se refere à condição do idoso vale ressaltar que quanto mais velhas as crianças eram, mais a doença era associada a eles, colocando ainda a idéia de que os idosos são desagradáveis e indesejados. Isso é fruto do que lhes rodeia, o idoso, infelizmente, é visto assim pela sociedade, e essa ideéa tão errada é passada para as crianças, que inicialmente apenas reproduzem o que vêem e ouvem, mas que depois admitem como verdade, passando para as pessoas a sua volta.

Mesmo acreditando que o idoso é doente algumas crianças os colocaram com sendo ativos, que trabalham, que viajam e circulam pela cidade, mas as crianças que já tinham visitado cidades maiores ou tido acesso a programas televisivos os colocou também como pobres e mendigos.

As crianças colocaram o envelhecimento como um processo natural relacionado com a passagem do tempo, em que todos estão sujeitos. E que elas serão idosas quando tiverem crescido, casado, tido filhos e netos. Essa representação mostra claramente a influencia da sociedade que determina um ciclo a ser cumprido desde a infância.

As contradições existentes nas falas das crianças nos mostra como elas estão atentas a tudo a sua volta, e fazendo as suas representações a partir dessas informações. Dessa forma é nessa fase que se deve apresentar as crianças as diferenças existentes entre os objetos sociais, para assim, diminuir os preconceitos e os estereótipos negativos que se relacionam com os idosos e com outros objetos sociais.

Esse estudo que buscou entender como a velhice, o idoso e o envelhecimento são percebidos e representados é bastante importante pois dá a oportunidade de compreender os comportamentos e sentimentos para com estes. Porém, possui algumas limitações como o número de participantes que é muito baixo, além da amostra conter apenas representantes de uma mesma classe e de um mesmo local, mas, ainda assim, o estudo nos possibilita uma visão acerca dessa temática.

Notícia do dia: Mulher é presa após furtar para pagar fiança do companheiro

Uma estranha história publicada no jornal A Tarde relata a história de uma mulher que foi autuada por furto, motivada pelo justo desejo de pagar a fiança do mariado que estava  preso por espancá-la. Clique aqui para ler a reportagem.

Foto do dia: hula dancers手叉腰 (people of the world)

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Resenha: Os Flintstones e o preconceito na escola

Patrícia Carvalho

As relações interpessoais são perpassadas pelos estereótipos – crenças coletivamente compartilhadas acerca de algum atributo, característica ou traço psicológico, moral ou físico atribuído extensivamente a um agrupamento humano (Krüger, 2004). Estes se constituem um importante mediador entre a percepção dos indivíduos e os fatos sociais, visto que moldam e direcionam a primeira a aspectos específicos dos últimos, limitando-os, assim, ao seu escopo.

A compreensão de tal fenômeno justifica-se, então, por sua ampla interferência na estruturação das interações sociais, estando este, muitas vezes, atrelado a manifestações de preconceito – um julgamento negativo de um grupo e seus membros individuais (Myers, David. 2000) – e discriminação – comportamento manifesto que se exprime através da adoção de padrões de preferência em relação aos membros do próprio grupo e/ou de rejeição em relação aos membros dos grupos externos (Pereira, 2002).

Tânia Baibich, professora adjunta III do departamento de Teoria e Prática de Ensino do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná, aborda em “Os Flintstones e o preconceito na escola” a temática do preconceito e sua negação.

O texto trás a problemática da comum negação da existência de preconceito atuando como perpetuadora dessa atitude. Por trás de um discurso politicamente correto de igualdade escondem-se as estatísticas de injustiça e desigualdade social, regional, de gênero etc. Fato que denuncia a incongruência gritante entre a realidade e o que dela é pregado.

A partir da aplicação de um questionário composto por questões abertas e fechadas em nove professores e um funcionário da secretaria de uma escola publica, a autora procurou avaliar a ocorrência e possível negação da existência de preconceito no ambiente da escola. Os resultados seguem a tendência de negação encontrada em outros contextos de socialização, apontando para uma deficiência estrutural da instituição escolar que compromete uma de suas principais finalidades: a formação de uma consciência crítica que não permita a aceitação pacifica (e conseqüente introjeção) de valores errôneos.

Baibich destaca algumas questões levantadas pelas entrevistas que caracterizam a existência do que chamou “varredura para debaixo do tapete” nas condutas dos sujeitos. Esses vão desde o “reconhecimento da existência do preconceito” até “o tratamento dispensado pela escola à questão do preconceito e de suas conseqüências” além da “observação do preconceito em si e/ou nos outros”.

Em todos os quesitos é marcante a presença de um discurso de negação referente ao próprio comportamento e denúncia de praticas preconceituosas por parte de outros. Fica, assim, clara a distância entre a realidade escolar daquilo que pretende-se a partir de uma educação igualitária: “uma escola que alicerce uma sociedade que nunca mais permita a barbárie”. Barbárie essa embasada numa idéia extremada de alteridade.

A concepção de alteridade, presente na base do comportamento preconceituoso, é percebida desde os tempos antigos e parece estar relacionada às diferenças culturais. Seja entre os índios sul-americanos ou entre os romanos, a percepção de um outro é marcante e assume importante papel nas dinâmicas intra e intercomunidades.

A questão central em tal discussão parece girar em torno da tênue linha entre uma a distinção equilibrada entre o ingroup e outgroup – imprescindível ao processo de formação da identidade – e seu extremismo. Seja nos atentados terroristas ou nos feitos nazistas a concepção de eu e de outro configura-se o cerne de um problema que envolve diversas instancias da sociedade: desde as instituições de ensino ate as políticas publicas e idéias veiculadas na mídia.

Referências
Baibich, T. Os Flintstones e o preconceito na escola. Educar, 19, 2, 111-129, 2002.
Krüger, Helmuth. Cognição, Estereótipos e preconceitos sociais. Em Marcos E. O. Lima e Marcos E. Pereira. Estereótipos, preconceitos e discriminação. Perspectivas teóricas e metodológicas. Salvador: EDUFBA, 2004.
Myers, David (2000). Psicologia Social. São Paulo: LTC.
Pereira, Marcos E. (2002). Psicologia Social dos estereótipos.

Foto do dia: Are You Being Served? (people of the world)

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Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Contribuição: Bernardo Follador Lo Bianco de Oliveira

Este artigo trata de um estudo realizado por Maria Cristina Ferreira sobre a aplicação do Inventário de Sexismo Ambivalente, desenvolvido por Glick e Fiske (1996), em uma amostra brasileira. Este instrumento tem demonstrado boas características psicométricas, no que se refere à identificação e comparação de atitudes sexistas – inclusive as maneiras mais modernas e encobertas – não só nos Estados Unidos, como no Chile, na Alemanha e no México. O objetivo do trabalho foi replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo (hostil e benevolente) no Brasil, verificando as relações desses fatores com as diferenças de gênero.

Maria Cristina Ferreira é graduada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1972), e possui mestrado e doutorado em Psicologia pela Fundação Getúlio Vargas – RJ (1977 e 1985). Atualmente é professora titular na Universidade Salgado de Oliveira e atua principalmente com os seguintes temas: comportamento organizacional, psicologia transcultural, papéis de gênero e medidas psicológicas. Ela apresentou este artigo em 2004 na XXXI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, no Simpósio Relações sociais de gênero: Possibilidades e perspectivas de análises psicossoal.

O artigo foi dividido em três partes: uma introdução com a revisão de literatura, uma segunda parte, de título método, que explica os procedimentos de aplicação do instrumento e, por fim, a discussão dos resultados obtidos.

A autora inicia sua revisão de literatura remetendo à obra de Gordon Allport “A natureza do preconceito” (1954) a origem dos estudos científicos do preconceito sob a perspectiva psicossocial. Porém hoje a definição que se tornou consenso é a de Smith e Mackie (1995), que o define como uma atitude negativa dirigida a membros de determinados grupos sociais em função de uma pertença ao grupo. Enquanto um tipo de atitude o preconceito apresenta um componente cognitivo – crenças e representações negativas que caracterizam membros de determinados grupos sociais –, um afetivo – sentimentos e avaliações negativas –, e um comportamental – associado à discriminação e a atos hostis –. Em meio aos diferentes tipos de preconceito encontramos o sexismo, que compreende avaliações negativas e atos discriminatórios direcionados a mulheres devido a sua condição de gênero.

As teorias feministas explicam o sexismo como um resquício da cultura patriarcal. Elas apontam que a dicotomia público versus privado característica das sociedades patriarcais dotou o homem de um poder estrutural – controle das instituições econômicas, políticas e legais – e delegou às mulheres o cuidado da casa e dos filhos, concedendo, assim, ao primeiro a característica de grupo dominante. Esses valores, reforçados constantemente durante o processo de socialização, dariam origem às representações das mulheres como dóceis, submissas e responsáveis.

A literatura mais recente, porém, tem mostrado que as atitudes tradicionais a respeito da mulher têm sido substituídas por novas formas de sexismo. Os estudos de Swin, Aikin, Hall e Hunter (1995) apontam que atualmente a antipatia dirigida ao sexo feminino tem se expressado de forma mais simbólica ou indireta na atualidade. Esse sexismo moderno é caracterizado pela negação de que a discriminação contra a mulher ainda exista e por um antagonismo contra as lutas e políticas de apoio à população feminina.

Glick e Flicke (1996), ao estudarem estas novas formas de sexismo, propuseram que este tipo de preconceito se expressa através de duas facetas distintas: sexismo hostil e sexismo benevolente. O primeiro manifesta-se através de grande antipatia com as mulheres e o segundo por meios de sentimentos e condutas positivas em relação a estas – caracterizados pela visão idealizada da mulher como objeto romântico e pelas atitudes de reverência e proteção. Entretanto, estes mesmos autores, registram que apesar de se manifestar através de atitudes de proteção, idealização e afeto, o sexismo benevolente é permeado pela mesma ideologia do sexismo hostil – crenças sobre a inferioridade feminina – e também pode ser usado para justificar as desigualdades de gênero. Fundamentados nessas concepções teóricas, Glick e Flicke desenvolveram o Inventário de Sexismo Ambivalente, composto de 22 afirmativas com opções de resposta Likert de 6 pontos.

Na segunda parte do artigo a autora explica os procedimentos utilizados para aplicação deste inventário. A amostra foi composta de 540 universitários do Rio de Janeiro, de ambos os sexos e de idade média 21,83 anos. As 22 afirmativas da versão original do Inventário de Sexismo Ambivalente foram todas mantidas, traduzidas e corrigidas por 4 pessoas bilíngües. Porém houve uma dificuldade de tradução nos itens fraseados negativamente e decidiu-se trabalhar com todos os itens fraseados no sentido positivo. A aplicação do questionário se deu nas próprias salas de aula e os participantes foram solicitados a contribuir para uma pesquisa sobre a percepção das pessoas a respeito de diferentes grupos sociais. Os que deram suas opiniões a respeito de cada uma das frases do questionário de acordo com a escala Likert de 6 pontos, variando de “discordo fortemente” a “concordo fortemente”.

Os resultados obtidos foram bem semelhantes àqueles coletados em outros países. A estrutura fatorial obtida reproduziu fielmente a estrutura original, com os itens apresentando cargas fatoriais elevadas em um fator associado ao sexismo hostil ou em outro fator associado ao sexismo benevolente. Tais fatores foram responsáveis por 29% da variância do instrumento e sua consistência interna (Alfa de Cronbach) revelou resultados de 0,84 e 0,75 respectivamente. Os homens apresentaram escores significativamente mais altos para a escala de sexismo hostil, mas na escala de sexismo benevolente não houve distinção entre os sexos.

Ferreira conclui o seu artigo discutindo os resultados do estudo. Ficou evidente que a estrutura bi-dimensional obtida com a análise fatorial reproduziu integralmente as duas formas de sexismo (hostil e benevolente) dos estudos Glick e Flicke, confirmando que se trata de construtos independentes. Também ficou comprovado que o instrumento pode mensurar estes construtos em uma amostra brasileira de forma válida e fidedigna. A convergência dos resultados com amostras diversificadas obtidas anteriormente apontam a favor da posição de que o sexismo benevolente e hostil se caracterizam por ideologias válidas transculturalmente.

A autora considera as mulheres rejeitarem apenas o sexismo hostil, mas aceitarem o sexismo benevolente, como um sinal de que elas também impõem resistências às políticas que buscam reduzir as desigualdades entre os sexos. O sexismo benevolente ser aceito na mesma proporção por ambos os gêneros indica que ele pode estar sendo utilizado para levar a mulher a aceitar o maior poder estrutural dos homens e ainda ser recompensada por isso, já que este poder seria usado para lhe proteger. O fato de ele ser associado à proteção, admiração e afeto masculino, mascara toda a sua ideologia patriarcal que busca reforçar as desigualdades. Em outras palavras, ao endossarem o sexismo benevolente, as mulheres reforçam toda a ideologia hierárquica da relação entre os sexos afirmando que os homens não as dominam, mas as protegem. Ferreira conclui o texto afirmando que o sexo feminino ainda não tomou consciência do modo sutil através do qual o sexismo benevolente perpetua os valores patriarcais que limitam suas oportunidades.

O trabalho de Maria Cristina Ferreira alcançou a maioria dos seus objetivos, replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo e analisar as relações entre esses fatores e as diferenças de gêneros. Porém, podemos questionar se uma amostra de 540 alunos de nível superior é a melhor amostragem para testar a fidedignidade e a validade de um instrumento na realidade brasileira. O ponto forte do artigo é sua revisão de literatura que, de forma breve e abrangente, cobre as bases que fundamentam a ambivalência do sexismo; tornando-o uma leitura agradável para iniciar-se no assunto.

Referencia: Ferreira, M.C. (2004). Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de genero. Temas em Psicologia da SBP. Vol.2. No 22. Pg. 119-126.