Estereotipos y variabilidad categorial: contraste entre modelos de representación

Diogo Araújo

O conceito de variabilidade categorial tem despertado considerável interesse, dada as implicações que tem para a compreensão dos estereótipos e do processamento de informação social em geral. Dolores Morera Bello e Armando Rodríguez Pérez, da Universidade de La Laguna, Espanha, apresentam neste artigo um estudo experimental que investigou se a variabilidade categorial se armazena como informação abstrata ou se elabora a partir da recuperação de exemplares.
Tradicionalmente, entende-se que os conteúdos dos estereótipos são uma generalização de determinados atributos a todos os membros e uma categoria social. Porém, investigações recentes têm encontrado que as pessoas não são sensíveis apenas a tendência de homogeneização, mas também apreendem as diferenças entre os indivíduos de um mesmo grupo, dando lugar ao conceito de variabilidade percebida.
Os modelos de memória social assumem que os estereótipos consistem tanto em informações abstratas como em informações episódicas. As pessoas disporiam de informações estereotípicas que incluem informações descritivas e avaliativas sobre os membros de um grupo, e ao mesmo tempo, informações sobre a variabilidade entre eles.
Segundo os autores, não existe ainda um consenso sobre qual tipo de informação é utilizada preferencialmente. Os modelos baseados na abstração entendem que o que se armazena são representações cognitivas abstratas, que resumem o conhecimento sobre os grupos. Os juízos de variabilidade sobre uma categoria se elaboram automaticamente enquanto se processa a informação relativa aos membros de um grupo.
Os modelos baseados em exemplares consideram que a memória armazena certos episódios como unidades simples de informação, e que antes de avaliar uma categoria social, as pessoas recuperam os exemplares acessíveis, realizando inferências para dar conta das demandas do ambiente. O juízo de variabilidade só se elabora quando a tarefa em questão lhe requer, sendo preciso recuperar da memória a informação episódica da categoria.
Para investigar se o conhecimento da variabilidade categorial está armazenado como informação abstrata ou se dá a partir da recuperação de exemplares referentes à categoria, elaborou-se um experimento que utiliza três estratégias: determinar se o juízo de variabilidade de uma categoria social é estável ou se modifica com a apresentação de novos exemplares; comprovar se a latência de tempo do julgamento de variabilidade é similar a de um julgamento espontâneo e menor que a de um julgamento baseado na recuperação; por ultimo, determinar se o juízo de variabilidade é independente das condutas recordadas ou, pelo contrário, se existe uma relação entre ambos.
Participaram do experimento 48 estudantes de graduação em Psicologia, para o qual foram apresentados 24 estímulos que faziam referencia a condutas de eficácia e de ineficácia relativas a categoria “general de exercito”. Baseando-se em estudos anteriores com a mesma população desta pesquisa, sabia-se que o atributo “eficaz” é concebido como compartilhado por 75% dos membros da categoria “general de exercito”, sendo um atributo estereotípico, e, portanto, de baixa variabilidade. O desenho fatorial foi de 2×2, formando-se quatro grupos experimentais: condutas de variabilidade baixa e estereotípicas (75% eficaz/25% ineficaz); variabilidade baixa e contra-estereotípicas (25% eficaz/ 75% ineficaz); variabilidade alta e estereotípicas (55% eficaz/ 45% ineficaz); e variabilidade alta e contra-estereotípicas (45% eficaz/ 55% ineficaz). Os exemplos de condutas apresentadas referiam-se a um grupo específico de generais, identificados pelas iniciais.
Após a apresentação dos estímulos, pediu-se que os participantes respondessem uma escala com sete pontos (1=nada/7=muito). Três questões eram sobre a informação apresentada sobre o grupo estímulo: um julgamento automático (quanto são simpáticos), um julgamento de memória (o quanto são reflexivos) e um julgamento de variabilidade global (o quanto são parecidos um com os outros), tendo como objetivo avaliar se a latência do julgamento de variabilidade se aproximava mais de um julgamento automático ou de um julgamento recuperado. Estas questões foram novamente apresentadas, mas pedindo-se que os participantes pensassem na categoria “general” como um todo, ao invés dos exemplificados.
Posteriormente, se solicitou que os participantes avaliassem, atribuindo porcentagens, a variabilidade de 12 pares de atributos bipolares da categoria social dos generais, sendo três relacionadas com a informação apresentada (eficazes/ineficazes, eficientes/ineptos, competentes incompetentes) e os outros nove, não (rudes/corteses, honrados/desonestos, arrogantes/humildes), procurando se verificar o grau de similitude vs.variabilidade percebida, tanto em relação a categoria de forma global como em relação a diversos atributos. Por último, os participantes tinham que recordar o mais fielmente possível todas as condutas apresentadas, para se determinar se existe uma relação entre a variabilidade das condutas estímulo lembradas e a estimativa de variabilidade do grupo.
Os resultados encontrados mostraram que o julgamento de variabilidade permanece estável em todas as condições experimentais, levando-se a conclusão que existe uma crença prévia a cerca do nível da variabilidade da categoria social que não se altera, independente dos exemplares concretos apresentados. Porém, quanto à avaliação da variabilidade dos atributos discriminadamente, houve diferenças significativas. A apresentação de informações estereotípicas levam ao julgamento de menor variabilidade dos atributos do grupo, enquanto as informações contra-estereotípicas levam a uma avaliação de maior variabilidade destes atributos. A análise do tempo de latência da resposta das avaliações de simpatia, reflexividade e variabilidade chegou a conclusão que o tempo de resposta para a variabilidade percebida se aproxima da latência para a avaliação que utiliza a memória, e se distancia do julgamento automático.
A partir dos dados apresentados, o estudo conclui que não é possível afirmar que o juízo de variabilidade está baseado na recuperação de exemplares. Entretanto, a latência deste juízo não permite se afirmar que este ocorra automaticamente, sugerindo um modelo que assume a existência de informações sobre a variabilidade preexistentes na memória, e, portanto, certo nível de abstração, mas suscetível de revisões e modificações diante da informação contextual.

Referência: Morera, D. e Rodriguez Perez, A. Estereotipos y variabilidad categorial: contraste entre modelos de representación. Psicothema, 10, 3, 697-707, 1998

Notícia do dia: Hamas chega aos 21

Artigo publicado: The concept of migration and clandestinity

Título: The concept of migration and clandestinity in the Chinese culture

Autor: Social Science Information 2008;47 623-628

Periódico: Social Science Information 2008;47 505-527

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Não entra nem com macumba

Biblioteca: inclusão de conteúdo

Acrescentado à biblioteca o artigo O direito à identidade cultural dos povos indígenas e das minorias nacionais: um olhar a partir do Sistema Interamericano, de Oswaldo Ruiz Chiriboga.

Resenha: The Role of Threat, Evolutionary Psychology, and the Will to Power

Jamyle Reis

No artigo em questão investigou uma serie de mecanismos psicológicos evolutivo, com base na literatura anterior, que é consistente com a forma como o individuo reage à ameaça autoritária. Estabeleceu-se uma ligação teórica entre a conceitualização de Nietzsche em “desejo de poder” (1901/1967) e a operação de autoritarismo num contexto evolucionário e societal. O resultado é uma conceitualização de autoritarismo mais enraizada teoricamente na ciência filosófica, psicológica, sociológica e biológica.
O texto abarca conceitualizações iniciais como a de Adorno, From entre outros e mais recentes como a de Altemeyer acerca de autoritarismo e ameaça. Adorno et al. (1950) defende que autoritarismo foi resultado de ambiente de infância ameaçado e práticas de criação da criança inconsistente. Erich From (1941) sugere que a ameaça de insegurança, manifestação de uma sociedade capitalista, leva a níveis de autoritarismo ainda mais alto. Altemeyer (1988, 1996) integrou teoricamente o papel da ameaça definindo autoritarismo como um “complexo mundo perigoso” e sugeriu que esse complexo é a causa principal da xenofobia e etnocentrismo manifestada na personalidade autoritária.
Para a psicologia evolucionária todos os seres humanos possuem mecanismos psicológicos que são o resultado naturalmente adaptativo de nossa historia evolutiva. Nesse sentido, o autoritarismo como processo evolutivo opera a nível grupal durante períodos muito longo de tempo, enquanto processos psicológicos manifestam a nível individual durante pontos específicos no tempo. De modo que mecanismos psicológicos específicos quando utilizado por indivíduos sob condições de ameaça, ilustra como autoritarismo opera de uma perspectiva evolucionária.
A teoria da seleção parental e formação de coligação defendem que as pessoas normalmente formam grupos cooperativos a fim de obter os benefícios de uma ação coletiva. Ela prediz que os indivíduos são mais propensos a favorecer parentes do que não parentes. Para a teoria seleção parental e formação de coligação autoritarismo pode ser visto como um subproduto da necessidade de sobrevivência do ancestral anterior. Para Altermeyer (1988), a personalidade autoritária representa um aglomerado de três componentes principais: a submissão a autoridade, convencionalismo e agressão a grupos externos. Então, esses indivíduos autoritários buscam um grupo de identificação formando uma parentela “fictícia”. Assim, em termos de ameaça, o individuo utiliza o grupo autoritário como um “refugio” fora do perigo onde os recursos são agrupados em um esforço coletivo contra os perigos colocados por outros.
Na mesma linha da psicologia evolucionária o texto apresenta a teoria do intercambio social e altruísmo recíproco que sugere assim como os seres humanos procuram maximizar os lucros e minimizar perdas, o mesmo é valido para as relações sociais. A premissa fundamental é que o relacionamento com outra pessoa é avaliado de acordo com nossas percepções sobre o equilíbrio entre o que colocamos na relação e o que ganhamos com isso, o tipo de relação que pretendemos atingir e as chances de ter um relacionamento mais produtivo com outra pessoa.  De modo que a teoria do altruísmo recíproco prediz que comportamento altruísta será também uma função da probabilidade de reciprocidade do beneficio.
Um novo modelo de autoritarismo sugere três facetas sobre a conceitualização de autoritarismo. Explica porque a ameaça é fundamental para o entendimento do autoritarismo, através da abordagem evolucionária mostrando como a ameaça elicia características comportamentais da personalidade autoritária. A segunda faceta refere-se ao autoritarismo conceitualizado como uma variável continua que interage com a ameaça ambiental. Finalmente, esse modelo contribui para a conceitualização teórica do autoritarismo como uma resposta ao ambiente ameaçador. Para o presente modelo variáveis como orientação de dominação social, dogmatismo e outras podem ser vistas como adaptativas sob condições de ameaça. Para uma fundamentação filosófica da teoria recorreu-se aos escritos de Friedrich Nietzsche que sugere que para a direção para auto-preservação é abarcada pelo mais fundamental “desejo de poder”.
O artigo apresentado oferece uma perspectiva do autoritarismo como um subproduto de um passado evolucionário sugerindo que ameaça é importante porque o autoritarismo geralmente é uma função adaptativa. Conclui que pesquisas futuras deveriam examinar não apenas conseqüências negativas do autoritarismo, mas também as vantagens de manter uma visão de mundo autoritária.
Fonte: Hastings, B. M. and Shaffer, B. The Role of Threat, Evolutionary Psychology, and the Will to Power. Theory & Psychology, 18, 423-440, 2008.

Resenha: a natureza do preconceito (capítulos iniciais)

chamada

Letícia Vasconcelos.


O livro, A Natureza do Preconceito, foi escrito por Gordon W. Allport em 1954 e teve seus quatro primeiros capítulos publicados em 2000 no Key Reading de psicologia social da Psychology Press, versão analisada para a elaboração desta resenha.

No primeiro capítulo, Qual é o problema?, o autor se ocupa de definir o que é o preconceito. Segundo ele, o preconceito se origina na generalização errônea e na hostilidade. Ele apresenta, ainda, duas dimensões essenciais que devem estar presentes em qualquer definição de preconceito: atitude e crença.

No segundo capítulo, A normalidade do prejulgamento, o autor afirma que as condições originárias do prejulgamento são capacidades naturais e comuns da mente humana; salientando assim, sua condição de normalidade. Tal condição fica amplamente demonstrada pela quantidade e qualidade dos exemplos de situações prosaicas. O recurso a uma multiplicidade de fontes ilustra a proximidade e casualidade do preconceito no dia-a-dia de todos. No entanto, esta normalidade não fica circunscrita às possibilidades cognitivas; antes, é remetida à construção do sistema de valores pessoais.

O terceiro capítulo, Formação de in-groups, em que busca demonstrar o conceito previamente apresentado de preconceito pelo amor (em oposição ao preconceito pelo ódio), salienta a importância e influência do grupo para cada indivíduo, tomando-o como essencial para a própria constituição do self. Afirma que, embora o familiar seja preferido ao estranho, a hostilidade ao out-group não é condição para a manutenção do in-group. Ainda que seus laços tendam sim a se estreitarem quando as condições gerais estão piores. Com a noção de grupo de referência, tomado de Sherif e Sherif, vem trazer o conceito de sentimento de pertença, que parece se situar na raiz das posteriores formulações sobre justificação do sistema. Como comprovação conclusiva da importância das relações com o in-group o autor demonstra que mudanças de atitudes e crenças são mais facilmente atingidas quando partem do grupo do que dos indivíduos.

Por fim, o quarto capítulo, Rejeição de out-groups, examina três graus pelos quais tal rejeição se expressa: a rejeição verbal, a discriminação e o ataque físico. Cada uma das formas subseqüentes pressupõe a existência da anterior, embora esse caminho nem sempre seja percorrido até o último grau. Compreender a rejeição é essencial para que se possa pensar ações efetivas no sentido de evitá-la, ou, pelo menos, amenizá-la. O autor caracteriza duas formas de expressão do conflito étnico, comuns na América à época, os motins e linchamentos. Fazendo, por fim, uma análise do papel essencial do rumor na deflagração de tais conflitos, apontando-o em contrapartida como possível ferramenta de controle da hostilidade.

Neste texto, escrito há 54 anos, mas ainda uma referência, é possível identificar as origens de inúmeros estudos posteriores, que se ocuparam de verificar, comparar, aprofundar e refutar as afirmações nele anunciadas.

Não surpreende por ser bastante abrangente, nem por abordar a questão do preconceito desde diferentes aspectos, já que estas são características esperadas dos textos escolhidos para integrar este tipo de publicação (key reading); tampouco surpreende por sua atemporalidade, já que também isso se espera de um texto clássico como o presente. Surpreende antes por sua leitura fácil, de tom quase informal, porém sem prejuízo de sua seriedade científica. É um texto que transmite sua mensagem não só por seu conteúdo teórico, mas também por seu estilo.

Notícia do dia: Programador constrói esposa robótica

Não reclama, não dá trabalho e e não detona o cartão de crédito. Clique aqui para ler no caderno de informática da Folha a solução encontrada por um progranador canadense para uma questão tão antiga quanto a humanidade. Afinal, como afirma o o esperto programador, o “software pode ser redesenhado para que ela simule que está tendo um orgasmo”.

Estereótipos e música: rain dogs

Inside a broken clock, splashing the wine with all the rain dogs
Taxi, we’d rather walk, huddle a doorway with the rain dogs
For I am a rain dog too

Oh, how we danced and we swallowed the night
For it was all ripe for dreaming
Oh, how we danced away all of the lights
We’ve always been out of our minds

The rum pours strong and thin, beat out the dustman with the rain dogs
Aboard a shipwreck train, give my umbrella to the rain dogs
For I am a rain dog too

Oh, how we danced with the Rose of Tralee
Her long hair black as a raven
Oh, how we danced and you whispered to me
You’ll never be going back home
Oh, how we danced with the Rose of Tralee
Her long hair black as a raven
Oh, how we danced and you whispered to me
You’ll never be going back home

Artigo publicado: Culture and Implicit Self-Esteem

Título: Culture and Implicit Self-Esteem: Chinese Are “Good” and “Bad” at the Same Time

Autores: Helen C. Boucher, Kaiping Peng, Junqi Shi, and Lei Wang

Periódico: Journal of Cross-Cultural Psychology 2009;40 24-45

Resumo: clique aqui para obter