Resenha: Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais.

dezembro 18, 2011
Zélia Fernandez

O artigo traz uma importante articulação entre a produção dos textos de correspondentes internacionais e os seus efeitos na manutenção dos estereótipos relacionados a imagem do Brasil no exterior. O artigo está dividido nas suas 15 páginas, em quatro partes : na primeira parte o artigo traz o resumo e uma introdução com uma revisão histórica das atividades de correspondências de notícia no Brasil e uma pequena revisão teórica sobre os estereótipos, na segunda parte ele apresenta sua metodologia de pesquisa descrevendo também seu referencial teórico para análise metodológica e que serve de referência para confirmação da sua hipótese de pesquisa. Na terceira parte o autor discute os seus resultados fazendo uma articulação rica entre o quanto a manutenção dos estereótipos é reforçada nessas produções jornalísticas, o papel do profissional nas suas escolhas e as repercussões sócio econômicas da manutenção desses estereótipos. E ao final, as referências bibliográficas.
O autor é I.Paganotti, jornalista freelancer formado pela Universidade de São Paulo, professor de Jornalismo do Colégio Stockler.

Na primeira parte do artigo o autor apresenta o resumo e os primeiros exemplos do tratamento que a imagem do Brasil recebe pela mídia e os instrumentos que serão utilizados para aprofundar o tema, assim como uma revisão histórica das impressões estrangeiras como fonte da identidade nacional.

Ele descreve como historicamente a imagem do Brasil foi sendo construída e a formação de uma idéia de Brasil a partir da perspectiva do olhar estrangeiro, mais especificamente da visão dos correspondentes internacionais, que ele chama dos novos jesuítas, que com seus relatos de viagem são responsáveis por levar as noticias do Brasil para fora.

As reportagens feitas por esses profissionais chega a casa dos milhares anualmente e portanto a construção de uma imagem brasileira, onde se reproduz muitos estereótipos não consegue estar fora da pauta. Nesse sentido são dois brasis que são normalmente descritos nesses relatos: o do paraíso e o do inferno.

O autor faz uma pequena revisão teórica do conceito de estereótipo, citando autores como Lippman e Maisonneuve. Segundo o autor é a partir dos estereótipos presentes nos muitos relatos dos estrangeiros sobre o Brasil, que vão se sustentar a imagem do pais lá fora e ajudar a construir o imaginário coletivo estrangeiro sobre o Brasil.

Na segunda parte do texto ao autor apresenta o método da sua pesquisa. Ele usou como fontes o The New York Times dos EUA, El Mundo da Espanha, Diário de Notícias de Portugal, The Guardian e The Observer da Inglaterra, Página/12 e El Clarín da Argentina.

Analisando 1244 textos e usando como referencial teórico para análise dos textos a análise crítica do discurso, definida por Fairclough como “o exame das conexões implícitas entre as características textuais e os processos sociais (Fairclough, 1997: 97)”, ele procurou aprofundar o quanto havia de reprodução ou transformação dos estereótipos. De acordo com Fairclough se pode utilizar uma estratégia mais normativa, reproduzindo uma idéia por meio da repetição ou mais criativa transformando pela contestação, discussão ou até mesmo negação “os pressupostos e estereótipos apresentados”. Segundo o teórico as manifestações criativas mantidas em longo prazo “podem também alterar permanentemente as próprias imagens, pressupostos ou estereótipos que a opinião pública tem sobre certos temas (idem, 1992: 165)”. O autor se preocupou em procurar detectar sinais de desconstrução da imagem estereotípica que os estrangeiros têm sobre o Brasil, nas suas narrativas.

Na terceira parte do texto o autor discute os seus resultados fazendo uma classificação muita rica dos relatos levantados em quatro grupos temáticos estereotipados. São eles: O Brasil “verde”: concentra-se na exaltação da beleza natural do país, o Brasil “de lama”: que foca a corrupção política, o subdesenvolvimento e a pobreza endêmica e freqüentemente inter-relacionados a o terceiro grupo temático, o Brasil “de sangue”: que é o Brasil da violência, incluindo o tráfico de drogas, que leva a um cenário de insegurança. E finalmente no quarto grupo o Brasil “de plástico”: que é um Brasil muito publicitário, “é a nação das festividades carnavalescas, da liberdade sexual (seja qual for a orientação), dos negócios, da alta sociedade e seus caprichos”.

No artigo há uma tabela onde as quatro categorias temáticas são apresentadas e a freqüência em que cada sub tipo relacionados a elas aparece. Uma conclusão muito interessante do autor é sobre a freqüência de estruturas representativas simplificadoras que aparecem em cada três reportagens, deixando claro que a repetição de estereótipos é mais comum do que a transformação. Uma categoria no entanto, chama mais a atenção como aquela que possui o maior percentual de transformação, com 88, 9% , é o da miscigenação, superando o mito da democracia racial. No entanto a maioria ainda é o da reprodução de estereótipos, com uma predominância do Brasil “sangrento” nas ligações com o tráfico de drogas e em segundo lugar o Brasil “de lama” com grande repetições de estereótipos como a corrupção e a pobreza. Aqui o autor faz uma análise muito apropriada de como a escolha do vocabulário pode influenciar a representação e conseqüentemente pode colaborar com os processos de estereotipia onde se passa a idéia por exemplo de que: “é em meio à pobreza que cresce o banditismo”.

Os estereótipos oferecem uma possibilidade de ajuda aos correspondentes no sentido de dar a eles um caminho simplificador, onde eles possam apenas aprofundar, a sua narrativa.O problema apontado pelo é autor é a permanência ou insistência no uso de certas representações que não dizem respeito mais a realidade e que carece de questionamento e transformação, levando a um déjà vu de pré-conceitos e conceitos ideologicamente enviesados. O autor aponta ainda poucos esforços no sentido do que seria uma prática interessante, que a discussão sobre a utilização de estereótipos, tornando esse mecanismo mais consciente, tanto por parte do jornalista quanto do leitor.

A superação ao longo dos anos de uma narrativa transformadora da imagem de um Brasil exclusivamente sensual, festivo e exótico, portanto reducionista, para uma mais crítico, acabou criando novos estereótipos, onde se enfatiza demais certos aspectos negativos. Nesse ponto do artigo e para finalizar, o autor faz uma interessante articulação entre as repercussões ideológicas e sócio econômicas da utilização desses estereótipos. Ele coloca que a expressão desses estereótipos nas narrativas desses profissionais, os alterando ou os mantendo, tem o efeito de servir a interesses, seja intencionalmente ou não.

Referência: Paganotti, I. Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais. RUMORES – Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias 1, 1, 2007


Artigo publicado: Intraregional Migration, Direct Action Land Reform, and New Land Settlements

setembro 29, 2010

Título: Intraregional Migration, Direct Action Land Reform, and New Land Settlements in the Brazilian Amazon

Autores: Stephen G. Perz, Flavia Leite, Cynthia Simmons, Robert Walker, Stephen Aldrich and Marcellus Caldas

Periódico: Bulletin of Latin American Research, 29, 4, 459-476

Resumo: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1470-9856.2010.00384.x/abstract


A visão estereotipada do Brasil no cinema

agosto 27, 2010

Contribuição: Carmem Barbosa

“Os brasileiros que vivem no exterior também ajudam a criar uma imagem estereotipada do Brasil”. Essa afirmação é de Randal Johnson, professor da Universidade da Califórnia e autor de diversos livros sobre cinema e literatura brasileiros.
Segundo a matéria que pode ser lida nosite  abaixo, lá fora  vêem o Brasil  como  um lugar onde só existe samba, futebol e mulher semi-nua, ou um lugar de pobreza, seca e fome.O país é reduzido a estes dois pólos.
Porém segundo a matéria esta visão estereotipada não ataca apenas etnias diferentes. “Basicamente, o alvo é o Outro. Los Angeles e os sulistas americanos costumam ser retratados por clichês, assim como nós sempre pensamos nos japoneses como criaturinhas iguais, viciadas em arroz e tecnologia.”
Clique aqui para acessar o blog.


Estereótipos e televisão: olimpíadas, 50 strippers e meio quilo de coca

agosto 20, 2010

Contribuição: Carolina Aguiar


Estereótipos e humor: brasileiros

março 25, 2010

Contribuição: Ana Rita Fraga


I Simpósio sobre Estereótipos e Exclusão Social: Leoncio Camino

agosto 27, 2009

Resenha: Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais

julho 24, 2009

Yasmin Oliveira

Ivan Paganotti é jornalista freelancer formado pela Universidade de São Paulo e professor de Jornalismo no Colégio Stockler. O artigo “Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais” baseia-se nas pesquisas para o seu Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social “Uma certa libertinagem, muito carnaval e um pouco de pecado O Brasil dos correspondentes internacionais”.

A partir da revisão de literatura, o autor explica que as impressões estrangeiras são fontes da identidade pessoal de um país. É evidente que os meios de comunicação de massa se encarregam de transmitir, difundir e criar estereótipos a respeito das mais diversas categorias sociais, sobretudo através dos jornais, da rádio, da televisão e do cinema.

A pesquisa de Paganotti propõe que, através das produções dos correspondentes internacionais, entre o período de 2002 e 2005, é possível identificar as imagens coletivas referentes ao Brasil, e os estereótipos freqüentemente utilizados para representar a identidade brasileira. O artigo aborda as estratégias de construção, reprodução e transformação destes estereótipos.

O material divulgado, pelo meio jornalístico, no caso, correspondentes internacionais, é um fator que influencia a própria construção do imaginário coletivo estrangeiro sobre o país. Esse processo implica uma categorização e uma conseqüente simplificação sobre os temas e os locais que tratam.

Essa simplicidade é, em certo nível, vantajosa, para os correspondentes, pois não é possível um aprofundamento temático devido ao curto tempo e espaço que dispõem. Ainda mais ao se pensar em notícias internacionais que se encontram mais distantes da realidade dos espectadores.

Além de fazer parte desse processo de criação dos estereótipos, o material publicado através dos correspondentes internacionais, freqüentemente, reproduz os estereótipos existentes.

Levando em consideração os processos de estereotipia, o autor do artigo separou os textos em quatro grupos de “Brasis”: o “de sangue”; o “de lama”; o “verde”; e o “de plástico”.

O Brasil sangrento foi o grupo de notícias mais encontrado nos jornais, tem como foco a violência, o tráfico de drogas, a insegurança generalizada e a impunidade. É importante ressaltar que costumam vir atrelados a justificativas estruturais, como omissão governamental, pobreza e exclusão social.

Em segundo lugar quanto ao aparecimento, está o Brasil de lama. Comumente associado a idéia da violência, mas tendo como foco os textos que acusam a corrupção política, o subdesenvolvimento e a pobreza.

O Brasil verde apesar de ser o mais antigo grupo de representação do país foi ao longo da história sendo remodelado e além de trazer a já conhecida exótica Amazônia com sua importância ecológica, a apresenta como uma “terra sem lei” e da depredação ambiental.

O Brasil de plástico é o mais otimista, com caráter propagandístico de exportação, neste grupo encontram-se as notícias das festas, liberdade sexual, dos negócios e da alta sociedade. Um caráter interessante dos estereótipos é que, muitas vezes, sua amplitude alcança os próprios alvos, no caso os brasileiros, que, além de assimilarem o Brasil das festas e a esperança do futuro passam a agir de acordo com essas informações.

Em sua pesquisa, Paganotti, se preocupou em identificar os textos que procuravam reproduzir os estereótipos, assim como, os que buscavam transformá-los. Segundo o autor, o jornal é um local adequado para a valorização dessas modificações. Mas o observado por ele foi um nível de repetição incrivelmente superior às transformações dos estereótipos.

O artigo termina com uma espécie de alerta para os interesses particulares que regem essas perpetuações, e inclusive algumas das transformações que são feitas. Estes interesses são, normalmente, de fins mercantis. Mas como o autor deixa claro, os estereótipos não são criados e reproduzidos unicamente para este fim, mas, também, não é possível negá-los.

Os resultados da pesquisa apontam para uma predominância dos estereótipos de cunho negativo. Uma possibilidade para a insistência na perpetuação destes estereótipos descritos é o interesse dos que transmitem as notícias (sejam a própria instituição jornalística, o público alvo – os leitores, ou interessados dos mais diversos) em de alguma forma minimizarem a importância do país. O Brasil verde não tem competência para administrar seu patrimônio ecológico, o Brasil de lama vive uma situação de omissão do poder e incapacidade dos pobres, e o Brasil sangrento em estado de insegurança constante. E por outro lado existe o interesse em vender outro Brasil, o de plástico, pais do futuro e das festas carnavalescas e da sexualidade a flor da pele.

Todos esses “Brasis” e estatísticas trazidas pela pesquisa são interessantes para se refletir sobre o porquê dessas representações da identidade brasileira. Discussão esta compatível com o trazido por Paganotti na sua revisão de literatura: os estereótipos baseiam-se em relações afetivas, dizem, portanto, menos sobre a realidade e mais sobre como é tratado.

Corroborando com Paganotti, Gomes (2007) afirma que “o jornalismo é uma construção social que se desenvolve numa formação econômica, social, cultural particular e cumpre funções fundamentais nessa formação”. Para a mesma, a notícia é uma construção e jamais uma representação precisa da realidade. Dessa forma, conclui-se que o processo de produção da notícia inclui o conhecimento das áreas temáticas de cobertura noticiosa; o conhecimento das expectativas dos receptores; e os interesses vigentes na sociedade de publicação.

Referências:
Paganotti, I. Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais. RUMORES – Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias 1, 1, 2007.
Gomes, I. M. Questões de método na análise do telejornalismo: premissas, conceitos, operadores de análise. ECOMPOS – Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 4-31, 2007.


Foto do dia: Brazilian Bikinis

julho 10, 2009

Brazilian Bikinis, originally uploaded by Liqueur Felix.


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