Resenha: A imagem das enfermeiras frente aos estereótipos: uma revisão bibliográfica

dezembro 21, 2011
Cecília Spínla


As autoras iniciam o texto explicitando a relevância dos profissionais de enfermagem manterem uma comunicação eficiente com os pacientes, mas revela que esta é dificultada pelo estereótipo da profissão que faz com que os pacientes possuam preconceitos com os profissionais.

As autoras afirmam que a profissão sofre estereótipo com relação ao gênero e explica que este sofre contribuição da tradição judaico-cristã que define uma dominação do homem sobre a mulher. Corrobora com este fato o papel da mulher na idade Média que era responsável por atividades de menor complexidade. Nesta ocasião o cuidar médico era reservado aos homens e ás mulheres restava o cuidado e a manutenção da higiene dos doentes e da ordem do ambiente, trabalho considerado sujo para os médicos que na sua maioria eram de famílias abastadas.

O texto identifica também o preconceito social que reserva aos profissionais da área o estigma de indivíduos que não tiveram uma melhor oportunidade de formação profissional.

Segundo o texto, o trabalho de enfermagem foi por muito tempo desenvolvido por mulheres religiosas que se dedicavam aos doentes, realidade que durou até o início do século XVI, quando ocorreu a revolta Luterana e a ascenção do anglicanismo.

Com a queda do catolicismo e a expulsão das religiosas dos hospitais, a Enfermagem, sem mão-de-obra qualificada, passou a ser exercida por mulheres de moral duvidosa que eram submetidas a péssimas condições de trabalho.

É neste cenário que se constrói a imagem da profissão. Doentes que preferem tratar-se em casa para não sofrerem maus tratos, comerem péssimas comidas ou terem que ceder a suborno por parte dos “profissionais” de Enfermagem.

Outro estereótipos relacionando a profissão diz respeito a desvalorização do serviço prestado e a visão da enfermagem como mão de obra barata. Essa visão, segundo Padilha (1998) advém da prática da Enfermagem no Brasil por religiosas, criando o entendimento de que esta prática deveria ser prestados apenas pelo amor de Deus e que a remuneração a esses serviços constituiria-se em ato impuro e mercenário.

É discutido pelas autoras também o papel da mídia na formação da imagem do profissional de Enfermagem. Para as autoras este veículo dissemina a idéia da Enfermeira como símbolo sexual, prejudicando ainda mais a desmistificação desses falsos conceitos perante a da sociedade.

Encontramos também no texto uma reflexão sobre o estereótipo de submissão no âmbito de valor da profissão da Enfermagem com relação a Medicina, o que advém de uma tradição militar que prezava pelo treinamento da enfermeira para agir com fiel observância às ordens médica e atenta ás relações de autoridade.

Com os dados acima apresentados podemos entender o preconceito que sofre a profissão de enfermagem e compreender o porque das autoras do texto trazerem neste artigo a preocupação com a capacidade de escuta e confiança do paciente/doente com esses profissionais. Tendo em vista que as relações estabelecidas sofrem influência de todos os estereótipos acima citados, que são muitas vezes reforçados pela nossa sociedade atual, é esperado que estes profissionais sofram o estigma de inferiores e menos competentes e com isso encontrem dificuldade de ascender profissional e socialmente.

Reforçando esses preconceitos, a nossa sociedade atual tende a reconhecer no médico o único profissional capaz de atender integralmente no âmbito da saúde, ficando todos os demais profissionais a cargo de implementar as ações descritas. Exemplo claro temos na Lei do Ato Médico que busca legitimar a soberania deste profissional em detrimento às outras profissões da área de saúde.

Perde-se com isso a noção da relevância do serviço de enfermagem, que atua no ambiente hospitalar cuidando da evolução dos pacientes, supervisionando e controlando rotinas e suportando os serviços médicos e multidisciplinares dispensados aos pacientes.

As autoras concluem que o combate a este preconceito formado sobre a profissão de Enfermagem pode ser feito primeiramente através da identificação e conhecimento destes na população e posteriormente com a criação de estratégias de enfrentamento e divulgação da verdadeira profissão, revertendo assim ao profissional, a valorização da sociedade pelo
seu trabalho.

Referência: Santos, C. e Luchesi, L. A imagem das enfermeiras frente aos estereótipos: uma revisão bibliográfica.Proceedings of the Brazilian Nursing Communication Symposium, 2002, São Paulo, Brasil


Resenha: Estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica

dezembro 20, 2011
Cecília Spínla

As autoras iniciam o texto incentivando uma reflexão sobre estereótipos e trazem alguns conceitos que clarificam o tema para os leitores. Entendido por Ayesteran e Pãez (1987) como “uma representação social sobre os traços típicos de um grupo, categoria ou classe social”, atualmente os estereótipos mais estudados são os étnicos, sendo também muito presente em nosso convívio social os estereótipos de gênero, profissão, classe social e o de ciclo de vida, objeto deste artigo.

As autoras alertam para a complexidade da literatura sobre o tema já que se trata de um “conceito multiunívoco – constructo categorial, generalizador, estável e definidor de um grupo social”.

No caso dos idosos, preconceito oriundo do ciclo de vida do indivíduo, a autora defende que este se caracteriza como uma representação social da gerontofobia, que se define como o “processo de estereotipia e de discriminação sistemática, contra as pessoas porque são velhas” (Staab e Hodges, 1998).

Neste processo se associam ao idoso conceitos e traços negativos associados à incapacidade, fraqueza e inutilidade, percepções pejorativas do fenômeno de envelhecer.

Vale ressaltar que o estereótipo sofre influência direta do contexto cultural em que está inserido, e na nossa atual sociedade vemos reforçado a visão da “velhice como uma doença incurável, como um declínio inevitável, que está votado ao fracasso”.

As autoras apresentam no artigo um estudo realizado na Université de Montreal por Champagne e Frennet que identifica catorze estereótipos mais frequentes em idosos, são eles:

* Os idosos não são sociáveis e não gostam de se reunir;
* Divertem-se e gostam de rir;
* Temem o futuro;
* Gostam de jogar às cartas e outros jogos;
* Gostam de conversar e contar as suas recordações;
* Gostam do apoio dos filhos;
* São pessoas doentes que tomam muita medicação;
* Fazem raciocínios senis;
* Não se preocupam com a sua aparência;
* São muito religiosos e praticantes;
* São muito sensíveis e inseguros;
* Não se interessam pela sexualidade;
* São frágeis para fazer exercício físico;
* São na grande maioria pobres.

A análise da pesquisa chama a atenção para a confusão de conceitos existentes que faz com que os pesquisados destaquem como características da velhice traços de personalidade e fatores socioeconômicos ao invés de características específicas do envelhecimento.

A partir deste ponto podemos refletir sobre a possível existência de mitos sobre o envelhecimento que impedem o estabelecimento de contatos e conhecimento verdadeiros sobre os idosos.

E com base nessa análise a autora conclui o artigo alertando aos leitores a necessidade de atentarmos para os mitos e estereótipos criados sobre a velhice, pois eles estão muitas vezes ligados ao desconhecimento do processo de envelhecimento mas mesmo assim geram enorme sofrimento nos idosos e influenciam fortemente na nossa interação com os idosos.

Referência: Martins, R. M. e Rodrigues, M. L. Estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica. Millenium. Revista do ISPV, 29, 249-254, 2004


Resenha: Aparência física e amizade íntima na adolescência: Estudo num contexto pré-universitário

dezembro 19, 2011
Apohena Noroya

O artigo se configura como uma pesquisa que aborda a associação entre a percepção sobre a aparência física e a amizade intima, considerando-os como um fator de importante valor preditivo no desenvolvimento psicossocial de adolescentes. Na introdução o autor caracteriza intimidade como uma relação emocional marcada pela concessão mútua de bem-estar, pelo consentimento explicito para revelação dos assuntos privados, podendo envolver a esfera dos sentidos e pela partilha de interesses e atividades em comum, favorecendo o crescimento e a auto-revelação do adolescente.
Segundo o autor, alguns estudos estabelecem que o conceito de intimidade/amizade intima na adolescência e pré-adolescência, pode ser estruturado em oito dimensões: sinceridade e espontaneidade; sensibilidade e conhecimento; vinculação; exclusividade; dádiva e partilha; imposição;atividades comuns; confiança e lealdade. Sendo que a intimidade deve ser avaliada numa esfera dual, onde se conhece a si mesmo e ao outro ao mesmo tempo. O conceito de intimidade corporal passa primeiro pela percepção que se tem de si próprio, o auto-conceito, que pode ser positivo ou negativo e a depender de como os adolescentes vêem o próprio corpo isso vai ser determinante para sua relação com o outro, pois o corpo físico e aparência são o meio por excelência de acesso ao mundo e a toda experiência de vida.
Na adolescência emergem as verdadeiras relações de amizade baseadas na intimidade e o favorecimento de novas formas protegidas de intimidade através das redes sociais da internet favorece a propagação da amizade entre eles. Junto a outros adolescentes eles se sentem mais seguros para compartilhar interesse, valores, credos atitudes sem o medo de se sentirem julgados. Outro aspecto que o autor destaca como determinante nas mudanças dos relacionamentos íntimos entre adolescentes são os aspectos da puberdade e as transformações dos impulsos sexuais.
O auto-reconhecimento, o ser reconhecido pelo outro, construir, partilhar relações de intimidade e interagir socialmente constitui-se como um exercício de equilíbrio para o adolescente e as falhas deste equilíbrio podem determinar falhas na construção da identidade e isolamento social no futuro. Existem ainda segundo o autor, diferenças de gênero na forma pela qual meninas e meninos lidam com estas experiências, ocorrendo segundo alguns autores uma maior destreza entre as meninas no estabelecimento de relações com base na intimidade e no entendimento interpessoal.
Para analisar a relação entre a percepção sobre a aparência física e as relações de amizade intima na adolescência, o autor optou por realizar uma pesquisa com alunos pré-universitários de duas Escolas Secundárias de Portugal entre alunos do sexo feminino e masculino. Foi utilizado um questionário contendo as: Escala de Amizade Intima, Escala de Percepção de Auto-conceito(adaptada para a população portuguesa) e Notação Social Familiar – Graffar Adaptado que investiga o nível socioeconômico, além de dados de identificação sobre os adolescentes.
Os resultados mostraram diferenças entre gêneros onde os valores de amizade intima são mais elevados no sexo feminino e os valores de percepção sobre a aparência física, mais elevados no sexo masculino, o que sugere uma valorização diferente, entre sexos, dos aspectos do auto-conceito físico e da amizade intima na adaptação social e pessoal de adolescentes. As meninas apresentam mais maturidade do que os meninos para lidar com uma relação de amizade intima, sendo que, entre os indivíduos do sexo feminino e do masculino existe uma predileção por amizades do sexo feminino por motivações diferentes, pois as meninas buscam pares aos quais se identificam e os meninos buscam o sexo oposto numa perspectiva de auto afirmação da sua masculinidade.
Os valores de percepção sobre a aparência física revelam-se mais influentes num baixo auto conceito feminino, acredita-se pela própria cobrança, muito maior entre os indivíduos do sexo feminino pela beleza física e a necessidade de ser aceita por pares de ambos os sexos.

Referência:
Cordeiro, Raul A. Aparência física e amizade intima na adolescência: Estudo num contexto pré-universitário. Análise Psicológica, 24, 3, 509-517, 2006.


Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controle mental.

dezembro 16, 2011
Wilma Ribeiro

Quem consegue escapar dos estereótipos? Portugueses, brasileiros, italianos, taxistas, garçonetes, políticos, todos os grupos existentes possuem seus esquemas categóricos e, portanto, seus estereótipos. Todos nos encontramos em categorias sociais que por sua vez são estereotipadas. Estereótipos são, sem dúvida, estruturas cognitivas úteis no nosso cotidiano. Rápidos, automáticos, espontâneos, naturais, nos fazem economizar recursos cognitivos e simplificar nossa realidade. Em contrapartida, nossos preconceitos se encontram em maior ou menor medida associados a um estereótipo. Seria possível controlar o pensamento estereotípico com eficácia? O artigo de Bernardes (2003) trata do suporte teórico dos mecanismos de supressão do estereótipo e das conseqüências da utilização do mesmo.
O estereótipo refere-se a crenças e conhecimentos a respeito de determinado grupo, que podem influenciar as percepções e os comportamentos relacionados ao mesmo e aos seus membros. Um problema pode surgir quando os estereótipos fazem com que um indivíduo afaste ou rejeite outro por este pertencer a determinada categoria, sem que este último tenha a chance de se fazer conhecer efetivamente com suas qualidades e limitações. Por exemplo, você pode desconsiderar Karla em uma entrevista de emprego de uma empresa, por ser mulher, e perder uma fiel e competente funcionária. Os estereótipos levaram a tomar esta decisão.
Será que uma supressão do estereótipo resolveria este problema? De acordo com o artigo de Bernardes (2003), a tentativa de inibir os pensamentos estereotípicos de acederem à consciência (supressão) pode resultar em efeitos indesejados. Se reiteradas vezes um pensamento é detectado conscientemente a fim de que se possa suprimi-lo, o resultado pode ser a hiperacessibilidade do mesmo, fazendo com que se torne mais acessível do que se não tentasse suprimi-lo. Este é o chamado efeito de ricochete (ERE). Este efeito foi observado nos experimentos realizados em que havia uma supressão explícita (Pedia-se ao participante para não pensarem em estereótipos) e em situações em que a supressão era induzida pela situação (Avaliador pertencia ao grupo a ser estereotipado pelo participante).
A autora também aponta alguns estudos que relacionam estereotipização e memória, citando dentre eles o de Macrae et al (1996). Tais estudos sugerem que a supressão do estereótipo requer recursos atencionais da parte dos indivíduos. Em situações de supressão em que informações estereotípicas e não estereotípicas estavam disponíveis, os participantes posteriormente lembravam-se mais daquelas estereotípicas. O ato de suprimir o estereótipo pode impedir o processamento e retenção da informação não-estereotípica.
Somos, portanto escravos dos estereótipos? Não. A autora aponta alguns autores dentre eles Monteith et al. (1998) que advogam que nem sempre a supressão leva a efeitos irônicos. Um fator moderador relaciona-se a atitude pessoal relacionada a que tipos de grupos estão sendo estereotipados. Por exemplo, estereotipar pedófilos é diferente de estereotipar mulheres, uma vez que para esses últimos há normas pessoais e sociais contra a aplicação de estereótipos. Assim, “quando os indivíduos são instruídos a suprimir os estereótipos dos grupos para os quais não têm preocupações sociais e pessoais acerca da estereotipização, o subsequente ERE poderá não ocorrer.” Ademais, foi verificado que entre os indivíduos com um baixo nível de preconceito havia uma grande probabilidade da ativação dos estereótipos não chegar a se concretizar. E mesmo que esta ocorra, a motivação dos mesmos e o sentimento de culpa subjacente, leva-os a evitar reações estereotípicas. O processo de supressão de pensamentos estereotípicos pode se tornar automático através da prática. Além disso, a negação das associações estereotípicas também facilita a inibição da ativação do estereótipo após a categoria social ter sido apresentada.
A autora também aponta para outras estratégias que podem ser utilizadas de maneira eficaz no momento em que se deseja evitar um estereótipo: a substituição dos pensamentos estereotípicos por outros (por crenças igualitárias, por ex.) e a individuação do alvo (formar impressões com base em informações individuais sobre o alvo). Verifica-se também que aqueles indivíduos que estabelecem o objetivo de não serem preconceituosos, podem viabilizar a não ativação dos estereótipos.
Ao considerar os efeitos negativos das crenças estereotípicas surge a necessidade de evitá-las. Estas vão de encontro às normas de igualdade e de justiça, em especial em uma sociedade dita democrática. Além disto, estas crenças conduzem a um sentimento de culpa em pessoas que possuem senso de justiça e uma visão aberta da realidade. Seria, portanto muito interessante se pudéssemos simplesmente dizer a nós mesmos para não sermos preconceituosos e automaticamente todos os nossos estereótipos negativos desaparecerem. Desta forma especificamente não. Mas a depender das condições, motivações e objetivos podemos fazer uso não apenas da supressão como também das outras estratégias para evitar o impacto dos estereótipos sociais.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controle mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.


Artigo publicado: Person Categorization and Automatic Racial Stereotyping Effects on Weapon Identification

setembro 4, 2010

Título: Person Categorization and Automatic Racial Stereotyping Effects on Weapon Identification

Autores: Christopher R. Jones and Russell H. Fazio

Periódico: Personality and Social Psychology Bulletin 2010;36 1073-1085

Resumo: http://psp.sagepub.com/cgi/content/abstract/36/8/1073


Notícia do dia: estereótipos em nome da hospitalidade

setembro 4, 2010

Contribuição: Diogo Araújo

Quase sempre os estereótipos são utilizados pelas pessoas de forma negativa. Porém, o orgão oficial de turismo inglês, preocupado com gafes ao se atender os estrangeiros que invadirão Londres durante os Jogos Olímpicos de 2012, pretende usar os estereótipos para que o país seja um melhor anfitrião. Foi realizado um levantamento de comportamentos que devem ser evitados quando se lidar com visitantes de várias nacionalidades, com o objetivo de criar uma cartilha e prevenir situações embaraçosas.   Clique aqui para ler.


A visão estereotipada do Brasil no cinema

agosto 27, 2010

Contribuição: Carmem Barbosa

“Os brasileiros que vivem no exterior também ajudam a criar uma imagem estereotipada do Brasil”. Essa afirmação é de Randal Johnson, professor da Universidade da Califórnia e autor de diversos livros sobre cinema e literatura brasileiros.
Segundo a matéria que pode ser lida nosite  abaixo, lá fora  vêem o Brasil  como  um lugar onde só existe samba, futebol e mulher semi-nua, ou um lugar de pobreza, seca e fome.O país é reduzido a estes dois pólos.
Porém segundo a matéria esta visão estereotipada não ataca apenas etnias diferentes. “Basicamente, o alvo é o Outro. Los Angeles e os sulistas americanos costumam ser retratados por clichês, assim como nós sempre pensamos nos japoneses como criaturinhas iguais, viciadas em arroz e tecnologia.”
Clique aqui para acessar o blog.


II Seminários abertos sobre Estereótipos, Preconceitos e Exclusão Social: Maturidade II

outubro 30, 2009

II Seminários abertos sobre Estereótipos, Preconceitos e Exclusão Social
Maturidade: possibilidades e limites
Maria Augusta dos Santos
Clube da Melhor Idade Viver a Vida
01 de outubro de 2010
Universidade Federal da Bahia
LEPPS


II Seminários abertos sobre Estereótipos, Preconceitos e Exclusão Social: obesidade

outubro 5, 2009

II Seminários abertos sobre Estereótipos, Preconceitos e Exclusão Social

08 de Outubro (Quinta-feira), 18h, Auditório 1

Tema

Obesidade.

Convidados

Fernanda Lanbeiro, psicóloga do Núcleo de Obesidade do Hospital Espanhol, Especialista em Transtornos Aliementares e Obesidade pela USP, Mestranda em Cultura e Sociedade pela UFBA
Pacientes do Núcleo de Obesidade do Hospital Espanhol

Local

Faculdade de Educação (FACED) – Canela.

Informações: lepps.ufba@gmail.com


Resenha: Influencia de los estereotipos en la percepción de la obesidad

julho 14, 2009

Natália Canário Gomes

A Organização Mundial de Saúde define o sobrepeso e a obesidade como um acúmulo excessivo de gordura no corpo com níveis capazes de afetar a saúde, sendo considerados os maiores fatores de risco para diversas doenças crônicas. Atualmente, não só os países desenvolvidos apresentam um alto número de pessoas acima do peso ideal. O que vem acontecendo é um aumento, principalmente nas áreas urbanas, de casos de sobrepeso e obesidade mesmo em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Estes dados fizeram crescer o interesse nos programas de tratamentos para redução destas taxas. No entanto, o que se vê é uma grande preocupação com os hábitos alimentares e de atividades físicas, deixando de lado as diferentes percepções que existem não só acerca do tema, mas, também, dos indivíduos considarados gordos ou gordas. Tendo em vista este descaso, os autores Fernández, González, Lobera e Millán (2008), produziram o artigo “Influencia de los estereotipos en la percepción de la obesidad”, a fim de agregar aos projetos psicoeducativos que tratam da obesidade, os estereótipos e crenças sobre a mesma.

Segundo os autores, os estereótipos fazem com que percebamos os indivíduos com características específicas, de acordo com o grupo ao qual pertencem. Assim, uma só característica nos leva a inferir traços de personalidade, capacidade física e intelectual, etc, ainda que não se disponha de outros dados referentes à pessoa ou grupo em questão. Associado a isto, a aparência constitui-se num dos aspectos mais relevantes na formação das teorias implícitas da personalidade. Como o sobrepeso e a obesidade se expressam também em imagem, as pessoas que sofrem destas patologias são alvos recorrentes dos estereótipos.

Os estereótipos, que agregam crenças acerca de um grupo, são o componente cognitivo do preconceito. No entanto, considera-se que é o componente afetivo que constitui o preconceito em si. Quanto ao sobrepeso e à obesidade, existem discordâncias quanto a se esta atitude negativa leva à discriminação. Enquanto alguns argumentam que não, é frequente que se atribua às obesas a responsabilidade pelo seu estado, discriminando-as e penalizando-as socialmente por sua falta de auto-controle.

Para os autores, no caso da obesidade, o preconceito enviesa os processos de categorização, fazendo com que a partir de um dado físico categorizemos uma pessoa obesa de acordo com nossas crenças, numa fusão entre estereótipo e categorização. Isto leva a uma discrepância nas atribuições feitas às pessoas pertencentes a este grupo: aspectos negativos (mais abstratos) são atribuídos a causas internas, enquanto que os positivos (mais concretos) tendem a ser atribuídos a causas externas e instáveis. Este fato é de fundamental importância, tendo em vista que as formas mais abstratas são muito mais resistentes à mudança, e tendem a ser percebidas como estáveis.

Numa sociedade onde é cada vez mais desencorajada a manifestação do preconceito, a redução real do mesmo não existe. Assim como é visto em relação a outros grupos, os obesos são alvos do preconceito sutil, automático, não expressado. A presença de atitudes negativas frente à obesidade é constatada em todas as idades, níveis de escolaridade, gêneros, e com algumas nuances interculturais.

Diante destas considerações, os autores conduziram um estudo para observar se a percepção da obesidade é diferente entre um grupo de universitários (sem sobrepeso), um grupo de pessoas com transtornos alimentares (com peso normal), e outro composto por obesos. A amostra total contou com 234 participantes, sendo 138 universitários, 47 com transtornos alimentares e 49 com obesidade.

O material utilizado foi uma lista de 146 adjetivos do inventário para avaliação dos transtornos de personalidade de Tous, Pont e Muiños, destinado a adolescentes e adultos de ambos os sexos. Através do inventário é possível destacar nove tipos de personalidade normal, bem como as alterações de personalidade que parecem se correlacionar com cada uma delas. Assim, os tipos de personalidade normal/alterada são: Introvertida/Esquizóide, Inibida/Evitativa, Cooperativa/Dependente, Sociável/Historiônica, Confiante/Narcisista, Convincente/Anti-social, Respeituosa/Obsessivo-compulsiva, Sensível/Passivo-agressivo, Impulsiva/controlada.

O questionário foi aplicado por uma psicóloga ao grupo de universitários e ao de pacientes com transtornos alimentares. A estes grupos foi pedido que assinalassem os adjetivos que, para eles, melhor classificariam os obesos. Já ao grupo de pessoas obesas, foi pedido que escolhessem os adjetivos que melhor descreviam sua forma de ser. Quem ficou encarregada da aplicação do inventário neste último foi uma enfermeira.

Durante a interpretação dos dados foi visto que, na amostra geral, há uma coexistência da adjetivos positivos e negativos. Contudo, é destacável que os adjetivos mais citados não estão entre os que definem as personalidades confiante e convincente, o que não ocorre quando consideradas as diferenças intergrupais. Vistos separadamente, os referidos tipos de personalidade estão presentes quando se considera a percepção que os obesos têm de si (acrescidos da personalidade respetuosa). Já as pessoas sem sobrepeso da amostra vêm as pessoas obesas como introvertidas, inibidas e sensíveis.

Assim, o que se pode constatar é que a forma de perceber, qualificar e definir os obesos por parte do grupo de sujeitos com obesidade é muito diferente da forma como o fazem os dois outros grupos. A percepção que as pessoas obesas têm de si é muito mais positiva que a percepção que o grupo de estudantes e o de pacientes com transtornos alimentares têm acerca dos obesos. Os resultados também indicam que os estereótipos induzem a um enviesamento perceptivo quanto às características da personalidade.

O pavor que as pessoas com transtornos alimentares têm de ganhar peso pode explicar o porque deste grupo ter atribuido às pessoas obesas características de personalidade mais negativas que os indivíduos do grupo controle (universitários). Mas, ao mesmo tempo, o uso – aparentemente de forma compensatória – de alguns adjetivos por estes grupos mostram a perpetuação do mito do “gordo feliz”, bondoso, complacente, etc. Além desses aspectos, estando de acordo com a teoria, os dois grupos sem sobrepeso não assinalaram alguns adjetivos que não viessem a confirmar os estereótipos relativos aos obesos.

Por fim, o artigo é concluído destacando a importância de um tratamento, tanto da obesidade, quanto dos transtornos alimentares, que abarque um trabalho psicoeducativo preocupado com as teorias implícitas da personalidade acerca das pessoas obesas. Deve-se, assim, estar atento aos estereótipos, à estigmatização e à culpabilização destes indivíduos.

Este destaque feito pelos autores pode ser corroborado por outros estudos, que mostram que os próprios profissionais de saúde devem ser submetidos ao trabalho psicoeducativo proposto. Cardeal, Cordás e Segal (s.d.), num artigo sobre os “Aspectos psicossociais e psiquiátricos da obesidade”, relatam que atitudes e estereótipos negativos em relação à obesidade por parte de médicos e demais profissionais da área são frequentemente descritos na literatura sobre o tema. Uma das consequências disto é que os médicos podem se sentir menos interessados em tratar pacientes com sobrepeso, por considerar que eles têm pouca força de vontade, e que pouco se beneficiarão do aconselhamento. Mais do que isto, vê-se que a percepção destas atitudes e estereótipos por parte do paciente dificulta o tratamento, tendo em vista que ele fica mais relutante em procurar ajuda adequada.

No entanto, a relevância dos resultados obtidos ultrapassa a problemática terapêutica. O fato de pessoas obesas frequentarem menos anos a escola, terem menos chance de serem aceitas em escolas e, quando mais velhas, de conseguirem os empregos mais concorridos, além de terem os salários mais baixos e menor probabilidade de se envolverem num relacionamento estável (Cardeal, Cordás e Segal, s.d.), são indicativos do quão necessário é perseverar nos estudos sobre a obesidade, seus estereótipos, e o impacto destes na vida das pessoas com sobrepeso ou obesas.

Referências:
Jauregui Lobera, I.; Rivas Fernandez, M.; Montana Gonzales, M.ª T. e Morales Millan, M.ª T.. Influencia de los estereotipos en la percepción de la obesidad. Nutr. Hosp. [online]. 2008, vol.23, n.4, pp. 319-325. ISSN 0212-1611. Disponível em: http://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0212-16112008000500003&lng=pt&nrm=iso

Cardeal, A., Cordás, M. V., Segal, T. A. (s.d.). Aspectos psicossociais e psiquiátricos da obesidade. Revista de Psiquiatria Clínica. Disponível em: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol29/n2/81.html


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