Resenha: As diferenças entre os sexos: Mito ou realidade?

abril 1, 2013

Thamires Wanke

O presente artigo de Gabrielle Poeschl, Cláudia Múrias e Raquel Ribeiro, publicado em 2003, que visa questionar-se acerca dos papéis sociais de homens e mulheres baseados numa suposta matriz biológica, é todo tecido em cima dos resultados de pesquisas científicas em que se exerce o diálogo entre possíveis contradições; contra argumentos e demais percepções sobre diferenciação sexual.
Como dito no texto, as teorias sexistas propagadas durante e após a Revolução Industrial que tentavam justificar as posições sociais dos sexos, e consequentemente, o Status Quo da mulher, em uma condição inferior e degradante, foram e são abertamente apoiadas assim como, continuam a disseminar-se.
A nova roupagem das hipóteses que tentam provar uma diferenciação sexual, atualmente valorizadas por muitos neurocientistas, afirmam que em função das diferenças cerebrais entre homens e mulheres, estes comportam-se de forma diferenciada, ou seja, deixa-se aquém o processo de aprendizagem social que cada indivíduo inserido numa dada cultura sofre.
Na segunda metade do século XIX inúmeras teorias destacaram-se pela busca da natureza de homens e mulheres, falando aqui especificamente da craniometria. A constatação das diferenças entre tamanho do cérebro e o desenvolvimento de determinadas áreas cerebrais a pertença sexual tornou-se uma constatação importante da fisiologia para a crença das mulheres instintivas e dos homens de racionalidade.
Atrelado a isso estudo Americano publicado pela revista Nature assume que um bom desempenho em testes de QI está ligado a quantidade de massa cinzenta que a pessoa tem no cérebro. Visto que mulheres possuem mais massa branca e homens maior quantidade de massa cinzenta a constatação corrobora com a hipótese de que as mulheres apresentam-se como dominadas pelos instintos e as emoções, manifestações inibidas nos homens pela sua inteligência superior (Shields, 1986).
Alain Giami (2007) atenta ainda para o crescente patrocínio farmacológico neste tipo de pesquisa que por fim gera produtos novos que dizem “solucionar” problemas relacionados por exemplo a funções sexuais.
“Essas pesquisas parecem reforçar as representações tradicionais e mais que centenárias da sexualidade masculina e feminina, também embasadas nas dicotomias opostas da natureza biológica da sexualidade masculina e da natureza espiritual da sexualidade feminina.” (GIAMI 2007)
As discussões propostas no artigo também são retratadas no livro de Elisabeth Badinter Um é o Outro. A autora tenta desmistificar os tabus sexuais e propor uma nova forma de se pensar os gêneros. Afirma que apesar da divisão sexual do trabalho sempre persistir, muitos antropólogos e historiados argumentam que no início do processo evolutivo tanto homens quanto mulheres estavam aptos a realizar as mesmas tarefas, porém o advento do bipedismo fez com que a prole dificultasse a locomoção feminina, visto que os bebês tiveram que nascer mais prematuros em função do estreitamento da bacia, o que levou ao maior cuidado com as crianças além da impossibilidade de serem carregados nas costas.
Essa condição evolutiva acabou por “impossibilitar” as mulheres a caça, porém estas cultivavam, e ao contrário do que o senso comum atesta, os legumes e vegetais eram extremamente importantes à alimentação bem como a carne; e as aquisições comportamentais derivadas das diferentes tarefas foram sendo adquiridos por ambos os sexos, apenas com algumas diferenciações. Em que através da caça na savana os homens desenvolviam a atenção, a tenacidade e a astúcia Edgar Morin (1973) e as mulheres que por não possuir as características físicas dos machos tinham de coletar eficaz e rapidamente estimulando suas percepções de perigo por exemplo, Adrienne Zilhman (1970).
Além disso, com advento da agricultura, as mulheres ganharam notoriedade por serem a principal fornecedora de alimento em épocas de seca ou enchentes.
Essa constatação por sua vez, enfraquece a idéia de que a evolução segregou os homens das mulheres. Na arte pré histórica por exemplo, percebe-se uma valorização de ambos, tanto na figura da deusa mãe (que tinha o poder de dar e tirar a vida), quanto na imagem do homem caçador (aquele que se arriscava perante as feras, trazendo carne ao grupo).
Voltando ao artigo, as autoras irão destacar uma série de pesquisadores que em confronto debatem sobre se as diferenças morfológicas entre os sexos explicam, as diferenças de aptidões, temperamento, inteligência, etc. Em linhas gerais o que se percebe é: Primeiramente que os resultados encontrados numa busca pela diferenciação sexual descrevem respostas muito pouco discrepantes ou mesmo iguais, que os cientistas são majoritariamente homens e que os métodos são pouco precisos e/ou contestáveis.
Mostra no texto que com base na hierarquização dos grupos sexuais Termam e Miles (1936) elaboraram o Teste de atitudes e de interesses que permite oferecer uma descrição da mulher típica através de uma série de oposições com o homem típico; pondo em contraste às emoções em detrimento das racionalidades e impossibilitando o tráfego de aptidões entre os gêneros.
Traz Parsons (1956) que analisa às esferas pública e privada, pela associação que o autor estabelece entre os temperamentos masculinos e femininos e os papéis que eles desempenham. “Por outras palavras, as famílias mais eficazes e mais coesivas seriam aquelas em que os homens e as mulheres desempenham, respectivamente, os papéis instrumental e expressivo (cf. Brown, 1988)” (referência do texto pág.3).
“Desligadas da sua origem social, as maneiras de ser dos homens e das mulheres tornam-se um dado psicológico proveniente meramente do seu sexo biológico e permitem justificar as desigualdades de acesso a posições que requerem competências instrumentais ou expressivas” (Lorenzi-Cioldi, 1994).
Desta vez o artigo fala do Questionário de estereótipos de papéis de sexo de 1970 por Rosen- krantz, Vogel, Bee, Broverman e Broverman (1968) que confirma a existência da valorização dos atributos ditos masculinos daqueles femininos, além da crença estereotipada de que os homens são racionais e assertivos e as mulheres calorosas e expressivas.
O texto atenta para como o conteúdo dos estereótipos sexuais interferem na construção simbólica da sociedade e desta forma passa a ser instrumento de discriminação nos gêneros. Traz ainda a androgenia, como sendo aquela que esta além da construção do feminino e masculino flexível as características demarcadas de homem e mulher.
“As estatísticas, os testemunhos e a experiência pessoal de cada um mostram, sem contestação, que homens e mulheres estão modificando profundamente a imagem que fazem de si mesmos e do Outro. Suas respectivas atribuições – por muito temmpo definidas pela “natureza” de cada um dos sexos – são diferenciadas cada vez com mais dificuldade”
(BADINTER, Elisabeth. Um é o outro. 3ªed. RJ: Nova Fronteira, 1986)
Porém o ponto chave do artigo é a discussão acerca do sexo como uma característica biológica. Neste quesito os teóricos se dividem e trazem diversos dados sobre as “diferenças” sexuais, quanto a infidelidade, a agressividade, a conformidade, a linguagem, capacidades cognitivas, ao reconhecimento de emoções (que por sinal vai de encontro a hipótese também evolutiva de Paul Ekman, que diz que independente do sexo, classe social e/ou cultura as pessoas reconhecem as emoções nas expressões faciais igualmente.) etc.
Por fim, as autoras concluem o artigo mostrando que o estereótipo de homens e mulheres não passa de uma possível visão dos papéis sociais e da sociedade; de que as pesquisas científicas não tiverem a capacidade e/ou qualidade de provar que a morfologia cerebral/biologia sozinha explica o comportamento de homens e mulheres.
De que independente de um traço evolutivo, as mulheres necessitam refletir sobre seu papel na sociedade, e valorizarem a sua condição feminina, tendo em vista a sobreposição a uma ordem preconceituosa e estigmatizante.
Muitas mudanças têm acontecido, principalmente nos últimos séculos, e é notável que ainda exista uma definição de papéis. Conceitos engessados sobre as questões de gênero estiveram presentes por muito tempo na história da humanidade, fizeram e ainda fazem parte da ideologia dominante, e discursos religiosos ou biológicos contribuíram para isso. As aracterísticas relacionadas aos gêneros foram se legitimando, e o papel que cada sexo tinha na sociedade começou a ser enxergado como algo dado a priori, e não como uma construção também cultural e modificável.
Logo, é preciso perceber a implicação de se afirmar que existem características instrinsecamente masculinas e femininas, pois é perigosa essa ideia, e pode nos levar à conclusão de que essas diferenças entre os gêneros justificam os lugares diferenciado na sociedade para homens e mulheres.
A visão de homem como sendo bio-psico-social, não pode se firmar enquanto enxergarmos os indíviduos como sendo apenas fruto de uma evolução biológica da espécie, consolidando uma dicotomia que se assegura na sobreposição de Um pelo Outro.

Referências:
BADINTER, Elisabeth. Um é o outro. Editora Nova Fronteira, 3ª Ed.; 1986.
GIAMI, A. Permanência das representações do gênero em sexologia: as inovações científicas e médicas comprometidas pelos estereótipos de gênero. Physis, 2007, 17, 2, 301-320. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/physis/v17n2/v17n2a06.pdf > . Acessado em: 03/03/2013
POESCHL, G.; MÚRIAS, C.; RIBEIRO, R. As diferenças entre os sexos: Mito ou realidade? Análise Psicológica. 2003, 21, 2, 213-228. Disponível em: <http://www.scielo.oces.mctes.pt/p


Resenha: Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe de empregadas domésticas e seus empregadores

abril 1, 2013

Tainá Almeida

De acordo com Donna Goldstein (2003), manter uma empregada doméstica é um sinal diacrítico na sociedade brasileira, que sinaliza a distância da pobreza. Porém, é preciso salientar que as relações entre patrões e empregadas da casa se dão de forma diferente no Brasil, pois envolvem uma troca afetiva entre ambas as partes, apesar da manutenção clara da hierarquia que mantém o serviço doméstico.
O artigo de Jurema Brites, “Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe de empregadas domésticas e seus empregadores”, analisa através de uma pesquisa etnográfica como essa ambiguidade dos relacionamentos entre patrões e domésticas mantém o nível de distância social entre eles. A análise do presente artigo centrou-se inicialmente no trabalho reprodutivo, que, para a antropóloga Shellee Colen (1995:78) trata-se de um trabalho “físico, mental e emocional necessário para a geração, criação e socialização de crianças, assim como a manutenção de casas [households] e pessoas (da infância até a velhice)”. No contexto observado, babás caribenhas e seus empregadores em Nova York, tem-se que a desvalorização dessas por deixarem seus filhos “abandonados” com parentes ou vizinhos juntamente com a valorização de quem contrata seus trabalhos, fortalece a desigualdade social, política e econômica da relação. No Brasil, associando isso ao contexto de afetividade, vê-se que a relação se dá por um lado, de forma que a empregada doméstica tem o papel de cuidar da casa, dos filhos, dos idosos, da limpeza e dos animais de maneira afetiva, liberando a família para cumprir seus papéis de classe média (pais e mães trabalharem, cuidados com a saúde; filhos estudarem, entrarem em cursos de línguas, etc.). Por outro, há a estratificação da relação no contexto de distância social estabelecida e na procura das domésticas em estabelecer a sobrevivência e promoção de suas próprias famílias.
A relação entre a família que contrata a empregada doméstica e esta encontra-se estabelecida e clara desde a infância. Muitas empregadas acabam se sentindo tão apegadas aos filhos dos patrões quando ao delas mesmas, extrapolando certos limites que seriam os estritamente profissionais. Esse relacionamento acaba sendo recíproco, pois as crianças passam grande parte do dia com as empregadas e com isso estabelecem vínculos, porém, elas já têm conhecimento da divisão e limites da trabalhadora na casa. Essas divisões são passadas pelas falas dos pais ou pela própria organização do ambiente: o quarto da empregada, o banheiro da empregada, o sofá da sala de estar onde ela não pode sentar, entre outros. Uma criança chegou a citar na entrevista que gostaria que a empregada de sua casa ganhasse na Sena, pois assim elas poderiam apenas conversar e ser amigas. Os pais se preocupam em estabelecer esses limiares para que não se perca a relação de patrão/empregado apesar dos laços de afeto, mas algumas outras questões não são levadas em conta por eles na hora da escolha da trabalhadora. Foi registrado que a principal preocupação dos pais trata da educação dos filhos e muitos deles trabalham para mantê-los em boas escolas, bons cursos e boas condições de educação, mas quase nenhum considera a sua própria empregada doméstica como alguém que passa conhecimento ou instrução para seus filhos. No contexto brasileiro, embora reclamassem quase sempre sobre a qualidade da limpeza, quase não foram registradas queixas dos patrões sobre o que uma empregada de baixo nível de escolaridade poderia estar passando de informação para seus filhos.
A respeito das relações sexuais entre empregadores e empregadas, assunto tão comentado em obras literárias e no cotidiano popular, nada foi muito citado. A pesquisadora acredita que a divisão de classes no universo vivido pela classe média ainda é muito marcado e portanto, a empregada não é vista tanto como símbolo sexual pela diferença de nível social presente. Porém, podemos ver até hoje em novelas e no dia-a-dia da televisão brasileira, relatos a respeito de casos entre patrões e empregadas.
Portanto, as ideias centrais nesse artigo giram em torno de como as crianças são moldadas ao longo da infância para que possam ter relações de afeto com as empregadas domésticas, porém saibam que existe uma divisão estratificada e uma distância entre as condições sociais. Tornam-se, portanto, futuras patroas e patrões com os mesmos hábitos dos pais e repassam isso num ciclo sem fim. Com certeza deve haver em algum momento uma separação entre o trabalho realizado pela doméstica e sua relação de afetividade com a família, afinal, existe um vínculo empregatício envolvido. Porém, não se deve pensar nessa separação como algo engessado, baseado nos moldes dos níveis sociais, naturalizando assim a desigualdade que começa dentro das casas e se expande para o mundo exterior.

Referência: Brites, J. Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores. Cadernos Pagu, 29, 91-109, 2007.


Resenha: permanência das Representações do Gênero em Sexologia

abril 1, 2013

Narena de Alencar Moreira

O objetivo do artigo foi questionar a adoção de estereótipos de gênero pela sexologia, sendo que esta tem mostrado em suas pesquisas uma função sexual masculina, puramente biológica e fisiológica, indiferente aos aspectos relacionais, emocionais e contextuais, enquanto a função sexual feminina seria exclusivamente emocional e psicológica, ignorando-se os fatores biológicos, sendo os desejos sexuais “naturais” no homem e inexistentes na mulher.
No artigo o autor aponta que pesquisas têm sido feitas seguindo uma abordagem organicista, o que representa um avanço na área. Contudo, essas pesquisas ainda não atribuem a mesma importância para a função sexual do homem e da mulher. Mesmo que baseadas em fatores biológicos, essas pesquisas ainda parecem seguir estereótipos de gênero, bem difundidos no senso comum.
A questão é intensificada quando estes estereótipos de gênero ultrapassam as barreiras do senso comum e passam a interferir nas práticas científicas. Assim, a ciência iria ao encontro do senso comum, através das pesquisas realizadas, ao invés de questionar estes valores. Vemos o velho disfarçado de novo. As velhas concepções sobre a sexualidade disfarçada de novas descobertas científicas.
A análise traçada pelo autor resgata o contexto histórico dessa ciência da sexualidade a partir do final do século XIX, ilustrando como desde então os debates em torno do tema caracterizam a sexualidade do homem como simples, urgente e constante, além de centrada na genitália, enquanto a sexualidade da mulher seria complexa, problemática, intermitente, difusa no que diz respeito ao corpo e assim não necessariamente relacionada ao orgasmo. O modelo predominante se baseia em uma dominação do homem e submissão da mulher, adotando apenas em sua definição uma relação heterossexual. A partir dos anos 1970 são formuladas as primeiras críticas a esse modelo, contudo essa concepção vigora mesmo nos dias de hoje.
Além do reducionismo criticado pelo autor, que prioriza alguns aspectos em detrimento de outros, outro ponto é problematizado, a medicalização da sexualidade. “Atualmente, a sexologia cede lugar a uma ‘medicina sexual’, que visa a se constituir como especialidade médica dos transtornos da função sexual” (Giami, 2007). Deste modo, a sexualidade é reduzida a transtornos a serem medicados, excluindo-se a função sexual normal e os fatores que extrapolam a área da biologia. O termo sexualidade, que implica também em uma abordagem psicológica, dá lugar ao termo “saúde sexual” ou “função sexual”. “Não é mais o aspecto comportamental nem psicológico que constitui o objeto de interesse científico, mas a função somática dos órgãos genitais em sua dimensão biofisiológica” (Giami, 2007).
Seguindo-se o desenvolvimento da chamada medicina sexual, é possível notar que as pesquisas sobre disfunções da sexualidade masculina são maioria. Como o autor aponta, “os trabalhos fundamentais relativos à função sexual masculina, notadamente a ereção, foram muito mais desenvolvidos após o início dos anos 80 que aqueles sobre a função sexual feminina (sobre os transtornos do desejo e da excitação)” (Giami, 2004 apud Giami, 2007). De maneira similar, os instrumentos de avaliação destes transtornos são bem diferentes, segundo o gênero. Enquanto na avaliação de transtornos relacionados à sexualidade feminina são inseridas questões sobre fatores psicológicos e subjetivos, na avaliação da sexualidade masculina esses fatores são desprezados, atendo-se apenas a um funcionamento corporal mecânico.
Perante as críticas feitas pelo autor, faz necessário ressaltar a importância da reavaliação dos valores que têm sido transmitidos não só pelo senso comum, mas também pela ciência, que além de aprisionar a mulher em um conceito de sexualidade ultrapassado e limitado, também dificulta o estudo da sexualidade masculina, que certamente está além dos fatores biológicos. Sendo a vivência humana complexa e multifatorial, há de ser também complexa também a experiência sexual, para homens e mulheres, levando-se em consideração seus variados aspectos.

Referência: Giami, A. (2007). Permanência das representações do gênero em sexologia: as inovações científicas e médicas comprometidas pelos estereótipos de gênero. Revista Saúde Coletiva, 17(2), 301-320


Resenha: diferenças e igualdades nas relações de gênero

abril 1, 2013

Renata Bárbara da Silva

O artigo traz uma discussão acerca da questão da diferença e da igualdade nas relações de gênero e a influência do movimento feminista, discorre sobre a crise da masculinidade e de mudanças socioculturais sobre essa temática. Inicialmente, a autora se respalda nas concepções da historiadora estadunidense Joan Scott para analisar o conceito de gênero e sua aplicabilidade enquanto categoria analítica. O termo “gênero”, no sentido gramatical, designa indivíduos de sexos diferentes, masculino/feminino. Para a literatura feminista, no entanto, gênero é um construto sociocultural, diferentemente do conceito de sexo, que se refere a diferenças biológicas. Segundo Scott (1995, apud ARAÚJO), “gênero” é utilizado para designar as relações sociais entre os sexos e rejeitar de forma radical explicações biológicas que deixam implícitas diversas formas de subordinação feminina.
“Gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e também um modo primordial de dar significado às relações de poder” (SCOTT, 1995, apud ARÁUJO). Nesse sentido, gênero seria a primeira forma de articular o poder.
A utilização desse conceito enquanto categoria analítica incide em visões antagônicas entre diversos autores, principalmente no que se refere ao estatuto cognitivo do conceito. A autora , no entanto, defende o uso do conceito de gênero como categoria de análise, apoiando-se em Scott (1995), Tilly (1994) e Saffiotti (1997), que fazem crítica ao caráter descritivo dos estudos sobre a história da mulher. Concebe gênero como uma categoria empírica e histórica, portanto, empreende valor de categoria analítica. Emergente de uma realidade empírica, o conceito de gênero, expressa as relações históricas e as formas de existência da realidade social.
De acordo ao artigo, o conceito de gênero pode ser ademais empregado em uma categoria política, que permite a análise da questão da igualdade e da diferença, apontando para uma nova perspectiva de interpretação e transformação da realidade social. A autora aponta três perspectivas principais sob as quais o debate acerca da diferença entre os sexos se desenvolveu: a essencialista, na qual há uma exaltação da “diferença sexual”, psicologizando e biologizando as constatações sociológicas e culturais historicamente produzidas; o discurso culturalista, onde as diferenças sexuais provêm da socialização e da cultura; e por último, a perspectiva da feminista Françoise Collin (1992), na qual propõe um dialogo contínuo, que incorpora a igualdade e as diferenças sem negá-las, num constante jogo dialético em que a pluralidade e o diálogo são os princípios fundamentais. Esses argumentos são reforçados pelas propostas desconstrutivistas de Scott (1995) da oposição igualdade/diferença. Para ela, com a desconstrução dessa antítese será possível não só dizer que os seres humanos nascem iguais mas diferentes, como também sustentar que a igualdade reside na diferença.
O debate sobre a igualdade versus diferença, entretanto, só foi introduzido no movimento feminista entre a década de 70 e 80, quando atribuindo uma valência positiva à diferença, direcionou-se a luta em favor da igualdade na diferença. Essa revisão no feminismo surge a partir do momento em que se percebeu uma ambiguidade nos discursos, em que as mulheres se esforçavam para assimilar os modelos considerados masculinos em detrimento dos femininos.
A autora considera que a grande conquista do projeto feminista igualdade na diferença foi a possibilidade de mudança nas relações de gênero, na medida em que as mulheres (e os homens) puderam se libertar dos velhos estereótipos e construir novas formas de se relacionar, agir e se comportar.
Outro reflexo provocado pelo movimento feminista foi a crise da masculinidade, uma vez que esse movimento foi responsável por mudanças radicais nos valores, nos costumes e nas relações de trabalho e família, e de transformações socioeconômicas e culturais num contexto amplo caracterizado pela ascensão do capitalismo. Por consequência, observa-se hoje, pelo menos nas sociedades ocidentais, um distanciando dos modelos estereotipados de gênero, permitindo que homens e mulheres possam desenvolver novas formas de subjetividade.

Referência: Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17, 2,41-52.


Resenha: estereótipos e mulheres na cultura marroquina

março 27, 2013

Victoria Dourado

O tema a ser tratado se refere ao artigo: “Estereótipos de mulheres na cultura marroquina”, escrito por Fatima Sadiqi e publicado em 2008. O texto se inicia com o tópico “introdução” e apresenta como ponto de partida a explicação de que, inicialmente, o termo “estereótipo” dizia respeito a um molde de impressão usado para reproduzir cópias de um único modelo. Ainda na introdução, o texto traz que no Marrocos os estereótipos são expressões de crenças e valores, mais tarde demonstradas pela autora como inconscientes visto que resultam de uma programação cultural, no caso, a marroquina. O texto se organiza em torno de três tópicos didaticamente elaborados para esclarecer as emblemáticas relações de gênero no contexto islâmico: a primeira aborda os principais componentes da cultura marroquina, a segunda se ocupa dos estereótipos e relações de gênero e, por último, discute às reações das mulheres frente aos estereótipos negativos.

O texto faz uso da explicação de que a cultura é um sistema de práticas, rituais e crenças de uma determinada comunidade que, em níveis diferentes, exerce controle sobre o comportamento de seus membros para afirmar que a cultura marroquina é extremamente reguladora no que diz respeito às percepções de gênero e delimitação de papéis e, faz isso porque possui instituições sociais influentes, as quais são elencadas pela autora: história, geografia, Islã, oralidade, multilinguismo, organização social, status econômico, e sistema político.
Dentre elas, se destaca a história nacional do Marrocos, tradicionalmente oral, que tem sido oficializada exclusivamente por homens e às mulheres, em sua maioria, são analfabetas, resta-lhes à subordinação consequência do viés masculino emprestado à história – amplamente valorizada pelo Estado e pelo sistema educacional – que, ao retratá-las como inferiores aos homens as mantêm marginalizadas. O fator geográfico também se sobressai tendo em vista que, pela localização próxima ao continente europeu, o Marrocos permitiu uma relativização da tradição patriarcal, na medida em que foram assimilados elementos tipicamente europeus que possibilitaram uma atitude mais favorável aos papéis de gênero.
Tendo em vista o aspecto cultural do Islã, evidencia-se a aproximação do discurso feminista das expressões típicas dessa tradição, a fim de inserir o gênero feminino no contexto que lhe é próprio: a sociedade islâmica.
Tal cultura difere da sociedade ocidental, pois a oralidade é um importante instrumento de transmissão de valores positivos e negativos, nesse sentido, essa oralidade se constitui como o modo mais corriqueiro de transmitir os estereótipos sobre as mulheres. Ao mesmo tempo, a oralidade possui também um caráter marginal, uma vez que, é repassada através das línguas maternas de pouco prestígio: berbere e árabe marroquino. A oralidade, em seu aspecto vulgar, está intimamente relacionada com a característica das mulheres marroquinas que analfabetas são mantidas alheias ao contexto sócio político cultural. Atrelado a isso, o multilinguismo é tido como característica formadora da identidade marroquina e está associado à classe social e nível de educação. Nesse cenário linguístico, as mulheres monolíngues – ou seja, que falam apenas berbere ou árabe pertencem a classes menos favorecidas, ressaltando, mais uma vez, a faceta marginal da oralidade. Em contrapartida, essas mulheres se apresentam como bem-sucedidas em suas atividades rotineiras.
Por fim, a organização social impõe na percepção e na construção de gênero uma grande influência. Os papéis sociais de homens e mulheres são rigidamente assegurados pela significação que a família, estruturalmente patriarcal assume nesse contexto. Inclui-se ao sistema patriarcal a exclusão das mulheres. E, para que a estrutura se mantenha, é necessário que sejam impostos tabus, sanções e rituais (expressos principalmente pelo uso da linguagem) que restrinjam a liberdade feminina uma vez que é considerada uma ameaça ao status quo masculino.
Tendo como base que a família é onde começa a socialização, apesar da diversidade social entre as mulheres marroquinas, os estereótipos de fracas, emocionais, más, trabalhadoras, pacientes e obedientes. O desenvolvimento dessa estereotipagem ocorre de modo inconsciente. Os estereótipos se propagam devido ao caráter de presumibilidade. Isso ocorre através dos processos de difusão e insistência. A validade e o alcance do estereótipo, portanto, estão relacionados a possibilidade de atingir a sabedoria social numa sociedade. Os estereótipos de gênero marroquinos são propagados através da linguagem oral, manifestada em verbetes e provérbios, tais como: “a mulher é fraca” e “a mulher é uma víbora”. Tais expressões são tentativas de transmitir, principalmente aos homens, os valores de depreciação da mulher.
Esses estereótipos podem ser explícitos ou implícitos. Os explícitos evidenciam uma atitude positiva em relação à atividade doméstica da mulher, mas desqualificam a sua atuação como líder feminina. São exemplos, os provérbios populares: consulte sua mulher, mas não leve sua opinião em consideração e a mente de uma mulher é pequena. Essas expressões demonstram a intenção de neutralizar o poder transgressor da opinião e da voz femininas.
Os estereótipos implícitos são reconhecidos nos comportamentos e nas falas, de modo inconsciente e espontâneo caracterizando as mulheres como: fracas líderes, conselheiras irrelevantes ou interlocutoras desinteressantes, nas temáticas religiosas ou sociais.
Outra classificação subdivide-se em estereótipos negativos ou positivos. Os positivos não geram problemas preocupantes às mulheres. Os negativos, contudo, criam preconceitos e compõe a imagem da mulher frente à coletividade. A maioria dos estereótipos marroquinos é negativa. Em comparação às ideias e conceitos acerca do homem, as características atribuídas às mulheres são, majoritariamente, negativas. É comum observar expressões populares orais que utilizam elementos alusivos à mulher, a fim de transmitir conteúdos pejorativos. São exemplos: “mercado de mulher”, para significar algo sem valor e “trabalho de mulher”, para indicar que algo foi mal-feito.
É importante destacar o estereótipo relacionado à “linguagem da mulheres”, difundido graças ao dualismo homem/líder e mulher/subordinada. Esse estereótipo define que a comunicação oral feminina é vazia de conteúdo e emitida em tons muito agudos e altos. Assim, as mulheres falariam em demasia e sobre assuntos doméstico e irrelevantes para a sociedade.
A fala da mulher marroquina também está ligada ao estereótipo do “mau-olhado”. Isso representa que quando algum evento com efeitos prejudiciais ocorre após conversar com uma mulher ou ter-lhe como companhia, atribui-se o dano ao poder de sua influência. Esse estereótipo atinge as mulheres velhas, divorciadas ou viúvas. Destaca-se que os homens com essas características são vistos como maridos em potencial, excluindo-se o caráter pejorativo. Esse estereótipo se refere à tentativa de neutralizar o papel social e a manifestação da opinião dessas mulheres, as quais apresentam maior liberdade para transmitir ideias e optar por comportamentos alternativos.
Há ainda a visão pejorativa de que as mulheres devem trabalhar arduamente para adquirir respeito e relevância sociais. A meninas são ensinadas a trabalhar, a fim de estarem aptas a encontrar um bom marido. Exige-se que a mulher, além de submissa, seja, também, uma exemplar chefe doméstica. Relação paradoxal de características, exigindo maiores sacrifícios.
As marroquinas reagem à estereotipagem a partir da afirmação um contratipo, isto é, um estereótipo positivo que substitua aquele pejorativo. Contratipos, contudo, são estereótipos e, portanto, são representações frágeis e superficiais de um grupo social. Opta-se, também, por reivindicar oportunidades de representações políticas femininas, a fim de opor à opinião de que as mulheres não são boas líderes ou que não possuem condições construir opiniões e posições relevantes. Deve-se, também, combater a simplificação das características femininas, expressão da ideologia da superioridade masculina, criando a necessidade de compreensão das peculiaridades. Demonstra-se que os estereótipos podem ser bastante prejudiciais à coletividade de homens e de mulheres e ao sucesso no contexto das organizações. Sendo assim, se faz evidente que a construção dos estereótipos relativiza a heterogeneidade e complexidade inerente às mulheres do Marrocos.

Referência: Sadiqi, F. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos Pagu (30), 11-32, 2008.


Resenha: mujeres musulmanas – estereotipos occidentales versus realidad social

março 27, 2013

Juliana Costa Santos

O artigo de uma temática bastante contemporânea e desconstrói conceitos que estão presentes no imaginário de boa parte da população. A autora, Djaouida Moualhi, já nos primeiros parágrafos, coloca-se como personagem da sua própria história: mulher, muçulmana, imigrante e magrebe. Este ultimo termo se refere à região no noroeste da África, onde existe uma concentração de países islâmicos, como é o caso do Marrocos, da Tunísia e da Argélia.
No começo da sua explanação ela traz à tona alguns tipos mais comuns de estereótipos que os ocidentais tem em relação aos muçulmanos e as suas condições de vida, com foco nas questões femininas. Aos poucos ela demonstra como algumas tradições muçulmanas são vistas pelos ocidentais e as consequências dessa visão, sempre fazendo um paralelo com o Cristianismo. Um exemplo é o pensamento de que os muçulmanos são fanáticos e muitas vezes violentos. Segundo a autora esse discurso teve seu começo na época das cruzadas (Robinson, 1990: 18 apud Moualhi, 2000). De acordo com Moualhi (2000), este pensamento remete ao século XIX, quando a maioria dos países árabes e muçulmanos estavam sendo colonizados por potencias ocidentais. Neste momento a sua religião era a maior forma de expressão e resistência, o que levou os colonizadores a demonizarem e condenarem a prática. Outros exemplos citados são o uso do véu, a poligamia e a clitoridectomia (retirada do clitóris).
Na seção seguinte, a autora se dedica a falar detalhadamente sobre os exemplos citados anteriormente, desmistificando cada um deles e apresentando alguns fatos. Em relação ao uso do véu, ela cita o pensamento ocidentalizado de um autor, que define como “símbolo por excelência da marginalização e da alienação” (Manyer, 1996: 67, apud Moualhi, 2000). No entanto ela diz que mulheres que usam véu não atrapalham a sua emancipação, já que o veem como símbolo de elegância e preservação, e não de repressão. Este é um tópico bastante interessante, visto que, aqui no Brasil, é comum observar o discurso criticado pela autora e tantos outros que mobilizam a população em prol de uma luta contra a repressão de mulheres pelo uso do véu, quando na realidade, boa parte das pessoas “compra a briga” sem saber se a “parte interessada” de fato se sente como pensamos. O mesmo funciona para a clitoridectomia, uma prática existente apenas em alguns países de cultura islâmica, mas que surgiu muito antes do islamismo, Lerner (1990), citado por Moualhi (2000) apresentou a existência deste tipo de prática entre egípcios, fenícios, gregos, etc. Segundo algumas culturas que praticam este ato, trata-se de uma circuncisão feminina, com motivos diversos como: higiene, sacrifício, etc.
Apesar de trazer a realidade sobre alguns estereótipos, a autora também aproveita para falar da existência de graves acontecimentos machistas e discriminatórios na cultura islâmica, como a dependência e subordinação da esposa em relação ao seu marido e como as leis o favorece em caso de separação, custódia dos filhos, etc. No entanto, criticando ou não a cultura, ela deixa bastante claro que essas práticas e suas “regras” não são universais. Ainda que exista apenas um Alcorão e um Charia (espécie de livro de “leis” islâmicas), as interpretações são diversas e as leis também. Cada país pode agir de uma forma diferente. Algumas práticas são comuns em alguns países de cultura islâmica, enquanto podem ser condenadas em outro. A visão unificada sobre o mundo islâmico, segundo Moualhi (2000), faz parte do etnocentrismo ocidental.

Referência: Moualhi, D. Mujeres musulmanas: estereotipos occidentales versus realidad social. Papers, 60, 291-304, 2000. Disponível em: http://ddd.uab.es/pub/papers/02102862n60/02102862n60p291.pdf


Resenha: sobreviver ao medo da violação

março 27, 2013

Victória Santana

O presente artigo discute a situação da mulher frente a antecipação do sofrimento relacionado ao medo da violação, quais as estratégias usadas para lidar com a ansiedade que essa situação inflige. A população feminina é a mais temerosa e que mais toma medidas de proteção contra crimes e é, entretanto, a que apresente menor probabilidade de sofrer crimes em relação aos homens. A questão é explicar o porque desse medo por outra via que não a possibilidade de ser vitimada (Stanko, 1995) .
As autoras trazem como referência duas hipóteses para a explicação desse medo seria a primeira de que os homens apesar de sofrer do mesmo sentimento por conta da imagem masculina na sociedade disfarçam-no com outros tipos de comportamentos (Clemente & Kleiman, 1977, cit. Por Stanko, 1993), a segunda hipótese seria de que as mulheres relacionam essa ansiedade a um tipo de crime violento em especial, o medo da violação, o qual os homens geralmente não temem (Riger et al., 1978). A autora relata várias pesquisas e autores que falam sobre como o medo da violação – abuso sexual – está difundido entre as mulheres como mais temido que o próprio homicídio, enquanto os homens não dão importância devida a esse risco. Além do medo, as mulheres são as que mais tomam medidas de precaução, ainda assim, é importante ressaltar que os tipo de precaução tomadas pelas mulheres não as protegem de fato por na verdade restringirem o acesso e a liberdade do público feminino aos espaços sociais ao mesmo tempo em que essa violência não está restrita a lugares como ruas à noite, sítio escuros, ou lugares com pouca visibilidade. As autoras asseguram que não a violação por si traz graves consequências à sobrevivente, mas que é de fato importante estudar as consequências que o medo das mulheres as violação tem por si só, mesmo sem nunca terem sido vítimas de crimes dessa espécie.
O medo da violação nas mulheres não deve explicado como individual, mas como um processo social que atinge o ser feminino. Como os estudos feministas apontam a violação é uma forma da sociedade machista subjulgar a mulher, mantendo-a numa posição de vulnerabilidade. As autoras trazem a contribuição dos estudos feministas e da psicologia na violência contra mulher, mostrando a faceta de poder e que é socialmente incentivada. O presente estudo conta com uma metodologia que traz aspectos importantes das teorias feministas e que procuram atentar para 1) há uma focalização no gênero (feminino) e na desigualdade social que esta condição acarreta; 2) procura-se dar voz às experiências pessoais e quotidianas das mulheres (ou mesmo de outros grupos marginalizados); 3) paralelamente ao objeto propriamente dito da investigação, encontra-se um compromisso social, para que uma real mudança ocorra nas condições opressoras sob as quais o grupo em estudo se encontra; 4) a reflexão dos próprios investigadores sobre questões que abordam o gênero, raça, classe social e orientação sexual podem influenciar o processo de investigação, daí que; 5) se abandone, de algum modo, a tradicional investigação positivista, que apoia uma relação formal entre investigador e “investigado”, dando lugar a um ênfase participativo por parte do último na própria construção da investigação (Cosgrove & McHugh, 2000). O estudo investigou 18 mulheres, entre 19 e 25 anos, a amostra foi obtida por conveniência na população do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, tendo em vista a maior vitimização de mulheres na faixa etária entre 18 e 24 anos. Foi utilizado como instrumento um guia ou roteiro de discussão baseado na escala “Fear of Rape Scale” O guião é constituído por 10 itens, os quais compreendem a: 1) Qual o crime que mais temem?; 2) Na condição de mulheres, qual o crime que pensam que mais as afetam?; 3) (referida a violação) O que vos faz sentir?, (violação não referida) E a violação, já pensaram sobre isso?; 4) Qual o local/locais onde pensam haver uma maior probabilidade de acontecer? E em que altura do dia?; 5) O que fazem ou deixam de fazer por causa desse crime? (precauções em casa/ rua/transportes públicos/relações sociais/altura do dia); 6) De que modo pensam que o medo da violação afeta a vossa liberdade?; 7) De onde pensam ter surgido esse medo?; 8) Esta abordagem dos condicionalismos que afetam a liberdade das mulheres parece-lhes pertinente? Em que medida?; 9) Que outras ideias gostariam de acrescentar acerca deste tema?. O procedimento escolhido para coleta de dados foi grupo de discussão, onde após contatarem por telefone a disponibilidade das participantes foram realizados três grupos de discussão e posteriormente um quarto grupo. Foi realizada a seguir a análise de conteúdo das transcrições dos grupos de discussão. Os resultados confirmaram as pesquisas anteriores em vários países de que o receio de ser vítima de um crime de violação, a maioria das participantes (n=11) afirmaram ser o crime de violação o maior medo tanto para si mesmas quanto para os que a rodeiam. Todas as participantes afirmam adotar comportamentos para a prevenir abusos quando estão na rua, como trancar a porta do carro, ter cuidado no lugar onde estaciona. A maioria diz que não tem preocupações com o vestuário. É interessante ressaltar o fato de as precauções tomadas pela maioria das participantes são em relação ao período noturno, durante o dia existe um maior sentimento de segurança em relação ao abuso. Os dados levantados pelo estudo parecem confirmar a perspectiva de Stanko (1993, 1995). Outro fato interessante é que as mulheres afirmam tomarem maiores precauções com pessoas desconhecidas que com pessoas próximas, apesar de ser conhecido que em muitos são pessoas que cometem crimes de abuso sexual. As participantes também mencionam os fatores relacionados à cultura como influenciadores no medo da violação, como por exemplo, os papeis socialmente acordado sobre os comportamentos esperados de cada gênero o que corrobora o estudo de Hall, Howard e Bueziu (citado por Fonow et.al, 1992) sobre o fator de dominação machista que está implícito nesse tipo de violência direcionado à mulher. As autoras consideram a partir do estudo que o crime que mais atemoriza as mulheres é o da violação, e que as precauções tomadas surgem num contexto de diminuição da liberdade individual que vai muito além da proteção das mulheres. O contexto cultural em que essas mulheres estão inseridas trazem a vulnerabilidade como uma característica feminina que a predisporia a ser vítima desse tipo de crime de cunho dominador masculino. Assim, a pesquisa trouxe contribuições que contribuem para a confirmação de hipóteses anteriormente levantadas e que devem ser compreendidas a partir do olhar da psicologia sobre as diferenças de gênero que afetam as expressões de ansiedade em homens e mulheres de maneiras diferentes, trazendo danos muito maiores às mulheres que aos homens.

Referência: Berta, M., Ornelas, J. H., & Maria, S. G. (25 de Janeiro de 2007). Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentado pelas mulheres. Análise Psicológica , pp. 135-147.


Resenha: sexismo, homofobia e outras expressões correlatas da violência

março 26, 2013

Anna Paula Brandão

O artigo pretende expor as práticas e abordagens para com as vítimas de violência, apontando os modelos teóricos que dão suporte aos profissionais inseridos em programas de apoio a vítimas de violência, comparando esses modelos e dialogando com as políticas sociais. O objetivo da autora é tratar do sexismo e da homofobia expressos através de atos de violência, destacando a importância da compreensão de questões sociais e estruturais para abordar esse tema.
Os debates sobre feminismo ganham força a partir dos anos 80, entretanto a autora relata o tímido espaço em que esse tema é abordado na academia brasileira, em contraposição a grande produção acadêmica nas áreas das ciências sociais, antropologia, história e psicologia social em países de língua anglo-saxônica. Destaca ainda as políticas sociais pautadas nas questões de gênero, com uma série de serviços e instituições especializadas, a partir da década de 80, como um possível apaziguador dos debates e discussões em torno da violência de gênero. Como se o reconhecimento público (através de políticas sociais) bastasse e encerrasse a discussão.
Entretanto, a despeito da rede especializada e da ampla quantidade de informações sobre o tema, muitas questões continuam sem superação no que tange o tema da violência, o que sinaliza uma necessidade de estar ainda pensando e dialogando sobre isso. A autora considera de extrema importância o aporte teórico estrangeiro para embasar nossos estudos, mas destaca a necessidade de estudos locais, adaptados as particularidades e singularidades brasileiras. O objetivo da autora com esse artigo é justamente contemplar a demanda por estudos no tema da homofobia, sexismo e violência.
O artigo sinaliza a falta de modelos que superem o reconhecimento de vítimas e os agressores, alegando a necessidade de ir além da descrição e catalogação de perfis, sugerindo a elaboração de estratégias mais eficazes na prevenção e combate a violência de gênero. A violência de gênero, estando enraizada de maneira forte e velada em uma sociedade que se estrutura através de relações de poder entre os indivíduos, é perpassada por uma série de variáveis e fatores que devem ser levados em conta na análise da conjuntura. O que a autora destaca é justamente uma dificuldade dos psicólogos em articular todas essas questões para adequarem a suas abordagens.
O sexismo, a homofobia e a violência de gênero, temas centrais no artigo, são cuidadosamente conceituados para esclarecer alguns pontos no debate. “Sexismo é uma posição, ou uma postura misógina, de desprezo frente ao sexo oposto” (von Smigay, 2002). É, portanto, uma atitude de discriminação frente ao sexo oposto que pode ser desempenhada por homens ou mulheres. Considerando a cultura ocidental, perpassado por valores patriarcais que ainda estão em voga, existe uma representação social a cerca das mulheres, dos papéis, espaços e funções que ela deve desempenhar na sociedade. Essa representação subsidia práticas que, na grande maioria dos casos, “desprezam, desqualificam, desautorizam e violentam as mulheres” (Von Smigay, 2002).
A homofobia está associada a uma atitude de medo e rejeição à homossexualidade (Weinberg, 1972 apud von Smigay, 2002). A autora através de Welzer-Lang (1994) discorre sobre como o medo organiza uma série de questões do dia-a-dia das pessoas. O medo, que pode desencadear o ódio, estrutura comportamentos de fuga. Em uma análise etimológica, o artigo fragmenta a palavra homofobia, situando homo como o idêntico, e fobia como o medo, portanto chegamos ao medo do simular. Extrapolando a análise etimológica, na homofobia existe um medo, um receio de se identificar, de ser simular ao objeto de preconceito e marginalização social. É nesse ponto que podemos pensar o quanto o preconceito inscreve muito mais o preconceituoso do que o objeto de preconceito (Crochík, 1995 apud Von Smigay, 2002). No medo por algo que posso surgir no sujeito preconceituoso, emergem as atitudes de rejeição, incorrendo, em alguns casos, em violência.
Em terceiro vem o conceito de violência de gênero, e autora logo destaca a importância de não haver confusões com violência contra as mulheres. Antes de tudo é necessário destacar que a especificidade dessa violência retrata uma conjuntura sociocultural em que é essencial essa distinção para evitar o prejuízo de incorrer no erro de que toda violência é igual e merece os mesmos aparelhos de atenção e tratamento. Existe, portanto, um tipo de violência que se circunscreve através de relações de poder compreendidas através do sexismo e da homofobia. Em uma cultura que coloca o homem viril em uma posição socialmente privilegiada, desprezando aqueles considerados desvirilizados – nesse ponto podemos pensar nas mulheres, nos homossexuais, nas crianças e nos idosos – a violência não pode ser abordada apenas como atos de agressão entre indivíduos iguais perante a lei. Se há uma estrutura social de desigualdade – e ela pode ser corroborada através, por exemplo, da análise das relações entre mulher e homem nas famílias, no lugar das crianças e idosos na sociedade, na representação social a cerca dos homossexuais – essa estrutura deve ser considerada através da legislação e das políticas públicas.
A partir da década de 90, o artigo cita 3 rupturas, ou modificações importantes. Em primeiro, o abandono “de uma lógica dual e contrastante, que opõem homens e mulheres”, em segundo a ruptura com “determinações mecânicas e imediatas”, em terceiro “uma recusa dos conceitos ou das perspectivas de universalização e generalização”. Esse três pontos repercutiram em um modo diferente de pensar a mulher, a começar pela necessidade em se referir ao termo no plural – as mulheres – sinalizando uma complexa e conflituosa relação social (von Smigay, 2002).
Um ponto importante do artigo é a questão da socialização dos homens. Existe um compartilhamento de valores hierárquicos e dominantes ensinados aos homens no espaço doméstico e reafirmados nos espaços públicos e este aprendizado orienta a discriminação a indivíduos e grupos considerados desvirilizados. “Tanto o sexismo quanto a homofobia estruturam o medo de abandonar as atribuições de seu grupo sexual”, assim a autora coloca o sexismo e a homofobia como formas de manter um status quo, uma relação de hierarquia. Sendo dispersa através de uma infinidade de estruturas sociais, é possível observar a sua sustentação até mesmo através das mulheres, que aprendem as normas nas relações interpessoais e romper com essas regras se mostra muito complexo, incorrendo muitas vezes na simples culpabilização das vítimas pela manutenção das estruturas de poder.
No que tange os modelos de intervenção, o artigo destaca três perspectivas: clínica, psicoeducativa e feminista. A perspectiva clínica possui base psicológica e, genericamente falando, possuem um foco na análise e abordagem das vítimas, sendo criticada por tirar o foco dos agentes de agressão, centrando os estudos e discussões em cima do sofrimento psíquico da vítima. A perspectiva psicoeducativa pauta-se em uma reinserção social do agressor. Dentro dessa perspectiva uma série de teorias é citada para compreender o contexto de emergência dos agressores e a dificuldade de modificação da relação entre agressor e vítima, além de apontar o contexto familiar como um espaço socializante que expressa uma série de violências. Dentro dessa questão do contexto familiar é importante, entretanto, ressaltar o contexto sociocultural como base para as estruturas de violência no contexto privado, sob o perigo de dedicar uma grande parcela de responsabilidade social a um contexto domiciliar que teoricamente não poderia ser acessado por políticas sociais de atenção e cuidado. Na perspectiva feminina há um foco sob o sujeito político, uma ideia de sistema de gênero pautado na hierarquia do masculino, além de uma desigualdade na maneira como a violência atinge os membros de uma família.
Para concluir o artigo, a autora traz a necessidade de uma compreensão política da violência. Ela ressalta a existência de uma violência específica contra grupos sociais desprestigiados. Portanto, “a violência não se dá em um vazio; está na cultura” (von Smigay, 2002), ela deve ser analisada sobre a ótica de uma cultura falocêntrica que localiza agressores e vítimas.

Referência: Smigay, K. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas da violência: desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, 8, 11, 32-46, 2002


Resenha: análise psicossocial do preconceito contra homossexuais

março 26, 2013

Irza Maria Carvalho Santos

Neste artigo os autores fazem uma explanação sobre o preconceito contra homossexuais e suas raízes históricas. Gordon Allport foi um dos pioneiros no estudo do preconceito em Psicologia Social. Sua definição é a mais empregada para definir o mesmo “uma atitude evitativa ou hostil contra uma pessoa que pertence a um grupo simplesmente porque ela pertence àquele grupo, e está, portando, presumindo que objetivamente ela tem as qualidades atribuídas ao grupo” Allport (1954). Contudo estudos a respeito demonstram que esse fenômeno vem assumindo formas cada vez mais sutis e camufladas, por causa dos avanços humanitários e as leis que proíbem atos discriminatórios contra grupos minoritários.

Mesmo com as leis que proíbem atos discriminatórios as pessoas parecem não terem conseguido acabar com o fenômeno e sim transformado a sua forma de expressa-lo. O preconceito se divide entre: o flagrante e o sutil. O preconceito flagrante é a forma mais tradicional, direta e aberta. O preconceito sutil é a forma mais contemporânea de discriminação, discreta e indireta, atendendo assim a norma social da não discriminação, em que as pessoas consideram inaceitável ser preconceituoso e temem ser mal vistas por apresentarem tal comportamento. O artigo apresenta uma nova forma de apresentação do preconceito sutil: a infra-humanização. Essa é a visão que propaga o sentido de que alguns humanos são considerados “menos humanos” do que outros.

O preconceito contra homossexuais tem ainda muito poucos estudos da Psicologia Social no Brasil. Um levantamento feito na Sacie-lo (Scientific Eletronic Library On-Line), no dia 30 de abril de 2006, usando a palavra-chave “preconceito contra homossexuais”, resultou apenas no trabalho de Lacerda, Pereira e Camino (2002). Esse interesse é perceptível tanto nos movimentos que lutam pelos direitos dos homossexuais, tal como a parada gay, que cresce em número de participantes todos os anos, no Brasil e no mundo, como em programas sociais que têm como objetivo diminuir o preconceito. O programa “Brasil sem Homofobia”, lançado em 2004, é uma resposta aos altos índices de discriminação contra o grupo, o artigo aponta ainda para apenas uma pesquisa “Juventudes e Sexualidade” (Castro, Abramovay & Silva, 2004), realizada em 14 capitais brasileiras. Os resultados dessa pesquisa apontam para a expressão flagrante do preconceito contra homossexuais, pouco preocupada em atender às normas do igualitarismo.

O artigo traz que existem cinco categorias de explicações para o homossexualismo que estão diretamente relacionadas com a forma como os homossexuais são vistos pela sociedade, são elas: explicações biológicas, ou seja, distúrbios de natureza fisiológica, hormonal ou gestacional; psicológicas que é constituída pela crença de que a homossexualidade é resultado de traumas experienciados na primeira infância; religiosas, aponta o homossexual como uma pessoa que não segue a palavra de Deus, que não tem força espiritual e religiosidade para resistir às tentações; ético-morais, representaria a crença de que a homossexualidade está relacionada com a ausência de respeito, de caráter e de valores morais do indivíduo; e explicações psicossociais que organiza as crenças de que a homossexualidade não é doença e deve ser compreendida na sua totalidade, pois trata da forma distinta pela qual cada um vive sua sexualidade, que é parte da identidade do sujeito.

A pesquisa apresentada pelo artigo partiu da hipótese de que as expressões do preconceito e descriminação contra os homossexuais atualmente apresenta componentes da infra-humanização. Diferente de outras pesquisas, que mostrar o preconceito flagrante como forma principal de expressão contra os homossexuais, esta pesquisa também identificou o preconceito sutil, mas tais resultados podem ser característicos da amostra, majoritariamente feminina. Homens heterossexuais geralmente expressam maiores níveis de preconceito sexual do que mulheres heterossexuais.

De modo geral, a relevância do tema proposto aponta a necessidade de mais estudos na área, pois que são muito insignificantes as pesquisas psicológicas sobre o preconceito contra homossexuais. A meu ver, as manifestações de preconceito flagrante e sutil se mostram mais frequentemente em relação aos homossexuais do que outros grupos minoritários, e fica evidenciado todo o processo de marginalização e exclusão social dos homossexuais.

Referência: Fleury, A. e Torres, A. Análise psicossocial do preconceito contra homossexuais.Estudos de Psicologia (Campinas), 24,4,475-486, 2007.


Resenha: A imagem da enfermagem frente aos estereótipos – uma revisão bibliográfica

março 26, 2013

Vinicius Rodrigues Santin

Entre as diversas profissões da área da saúde, a Enfermagem se destaca por ser aquela que, no âmbito de suas diversas atribuições, se responsabiliza por prestar os cuidados mais básicos aos pacientes. É um trabalho essencialmente manual, sendo que ao longo de sua história foi exercido geralmente por mulheres, historicamente e culturalmente associadas ao cuidado materno. Desse modo, a profissão carrega consigo estereótipos intensamente ligados à questão de gênero. A partir disso, o artigo “A imagem da enfermagem frente aos estereótipos: uma revisão bibliográfica”, de Santos e Luchesi (2002) faz uma análise histórica muito interessante sobre como foi construída a representação atual das enfermeiras, fortemente relacionada com a representação da própria mulher e com a desvalorização com a qual o gênero feminino costuma conviver. Identificadas com a natureza e com seu poder de cura em períodos pré-patriarcais, a mulher se viu submetida a uma crença de que deveria ser dominada, juntamente com a natureza, para que o pensamento racional científico – e masculino – desvendasse os seus segredos. As autoras colocam a doença como fazendo parte desta natureza misteriosa e submetida à dominação do homem, mais especificamente do médico. Assim, o “poder da cura”, o papel de dominador do corpo humano era atribuído ao homem, ao médico, ficando sob a responsabilidade das enfermeiras o cuidado, a higiene, o toque no corpo do doente. Elas utilizam uma citação de Badinter (1986) que afirma muitas mulheres terem sido consideradas feiticeiras e queimadas durante a Idade Média, pelo simples fato de praticarem as funções curativas conferidas ao gênero masculino. Em sequência, citando Paixão (1979), o período da Reforma Protestante foi colocado como um período crítico na história da Enfermagem em muitos países em decorrência da expulsão das enfermeiras religiosas que atuavam nos hospitais, que acabaram por ser substituídas por mulheres com menos preparo e definidas pelo autor da citação – de forma um tanto preconceituosa – como de “duvidosa moralidade”, que seriam as analfabetas, bêbadas e imorais. Essas mulheres trabalharam com grande jornada e péssimas condições, e deixavam os pacientes abandonados de forma que muitos optavam por receber cuidados de familiares em casa. O texto pontua ainda uma diferença em relação ao preconceito sofrido pela enfermagem no que se refere à remuneração ou não de quem a exerce, de forma que, segundo Pinheiro (1962), em sua época, a Enfermagem voluntária era vista como sublime quando praticada por religiosas voluntárias e, em contrapartida, era vista como um trabalho servil quando referente às enfermeiras remuneradas. Nesse ponto, é possível fazer uma relação com os estereótipos machistas da mulher santa – a mãe, a esposa recatada – e da prostituta – mulher da rua, libertina -, materializados nas enfermeiras que, ao mesmo tempo que exercem uma função de cuidado altamente associável à função materna, estão entre as profissionais mais sexualizadas no imaginário masculino. Independentemente de o trabalho das enfermeiras ser visto como servil ou como sublime, o estereótipo de submissão aos médicos se mantém. tendo sido consolidado inclusive por Florence Nightingale, enfermeira britânica pioneira no tratamento de feridos de guerra, ao afirmar que a enfermeira deve ser treinada para “agir da melhor forma na execução de ordens” e executar as atividades “em estreita obediência ao poder e conhecimento dos físicos e cirurgiões”, de acordo com citação que as autoras atribuem a Smith (1982). Santos e Luchesi pontuam ainda a existência de estereótipos que relacionam as enfermeiras a um trabalho de mão-de-obra barata, e fazem uma crítica à mídia, colocando-a como uma “grande rival da divulgação do verdadeiro exercício da profissão” ao divulgar a imagem das enfermeiras como símbolo sexual e como profissionais de nível social inferior, afirmando a existência de falta de ética em prol da obtenção de maiores lucros. Deve-se levar em consideração que a mesma mídia que deturpa a imagem da profissão pode ser utilizada em seu benefício, desde que as profissionais se posicionem de forma atuante para isso.

Referência: Santos, C. e Luchesi, L. A imagem das enfermeiras frente aos estereótipos: uma revisão bibliográfica.Proceedings of the Brazilian Nursing Communication Symposium, 2002, São Paulo, Brasil.


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